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PERGUNTE e RESPONDEREMOS 040 - abril 1961

 

RUSSEL, “PORQUE NÃO SOU CRISTÃO”

PAULISTANO (São Paulo): «Que pensar do livro ‘Porque não sou cristão’ do escritor inglês Bertrand Russell, que em 1950 obteve o prêmio Nobel?»

 

O livro acima referido apareceu pela primeira vez em inglês («Why I am not a Christian» by George Allen and Unwin Ltd. London) no ano de 1951. Foi traduzido para o português (aliás, de maneira assaz defeituosa) e publicado em São Paulo em 1960, conseguindo logo a classificação de «best-seller»; conforme a pesquisa instituída pela Câmara Brasileira do Livro entre 23 e 30 de setembro de 1960 era a obra estrangeira mais vendida após as «Memórias» do Marechal Montgomery (cf. «O Estado de São Paulo» de 2 de outubro de 1960).

 

Os dizeres de capa do livro consideram-no como «a mais incitante e a mais atraente apresentação do modo de pensar de um ateu desde os dias de Hume (+1776) e Voltaire (+1778)».

 

Na verdade, não fora a fama do autor, não fora também o título sugestivo da obra, é de crer que ela não teria tido a projeção que teve, nem mereceria especial consideração da parte daqueles que sinceramente procuram a verdade. Como quer que seja, já que se trata de assunto que muito chamou a atenção do público, não nos furtamos a abordá-lo nas páginas seguintes.

Começaremos por propor breve esboço biográfico do autor; a seguir, apreciaremos a mencionada obra.

 

1. Traços biográficos de Bertrand Russell

 

Bertrand Russell nasceu aos 18 de maio de 1872 em Trelleck (Inglaterra), como segundo filho do Visconde Amberley. Estudou primeiramente no «Trinlty College» de Cambridge; adquiriu sucessivamente os graus acadêmicos de «Fellow» 1905) e «Lecturer» (1910). Durante a guerra mundial de 1914-1918 desenvolveu campanha pacifista, em consequência da qual foi afastado do magistério (1916). Após 1918, viajou por toda a Europa, passando algum tempo na Rússia Soviética em 1920. Esteve também um ano inteiro na China, onde pronunciou uma série de conferências publicadas na coletânea «The Analysis of the Mind» (1921). A partir de 1927, exerceu as funções de Diretor de uma escola particular, dedicando-se sempre às pesquisas e à produção literária. Em 1946, após a queda dos regimes nazista e fascista, Russell publicava o estudo «A History of Western Philosophy», que é tido como obra prima do autor. Em 1949, veio a receber a condecoração da «Ordem do Mérito», e em 1950 o prêmio Nobel. Muito dado às questões de filosofia, sociologia e política, Bertrand Russell é por vezes considerado o representante mais característico do pensamento inglês contemporâneo.

 

A mentalidade de Russell se inspira radicalmente na matemática e nas ciências exatas, que para ele constituem a fonte de todo o progresso humano. Depois de se ter dedicado intensamente aos estudos de lógica matemática, o pensador, a partir da guerra de 1914-1918, voltou sua atenção para os problemas particulares da filosofia; neste setor, ele continua o empirismo inglês sob a influência de G. Berkeley e D. Hume, tendendo a conceber a realidade como algo que transcende as categorias de matéria e espírito; propugna assim uma espécie de «monismo neutro», semelhante ao dos filósofos norte-americanos J. Dewey e W. James.

Uma das últimas produções de B. Russell é precisamente

 

2. O livro «Porque não sou cristão»

 

Ao defrontar-se com tal título, o leitor talvez seja levado a crer que designa uma súmula de argumentos sistematicamente catalogados contra o Cristianismo. Na verdade, tal não se dá. O livro é, antes, uma coletânea de artigos sobre Religião e assuntos correlatos, dos quais o primeiro tem diretamente o título «Porque não sou cristão». As afirmações desses escritos são assaz superficiais e tendenciosas. A maioria delas já foi, por outras vias, considerada e esclarecida em números anteriores de «P. R.». Sendo assim, limitar-nos-emos na presente resposta a focalizar um ou outro aspecto mais interessante do livro de Russell.

 

1. O livre arbítrio

Eis as observações do autor:

 

«Pense-se o que se quiser a respeito da questão do livre arbítrio como questão de metafísica fundamental, o que é bastante claro é que ninguém acredita nela na prática... O apóstolo do livre-arbítrio afirma que o homem pode, pela força de vontade, evitar embriagar-se, mas não afirma que, quando bêbedo, possa dizer «British Constitution» tão claramente como se estivesse sóbrio» (edição brasileira já referida, pág. 30).

 

Do fato de que o homem não pode executar toda e qualquer ação imaginável (como, por exemplo, falar tão lucidamente em estado de embriaguez como em estado normal), parece Russell querer deduzir que a criatura humana não goza de livre arbítrio... — O argumento é de todo improcedente. Com efeito, a liberdade é uma das potências da vontade; ora a vontade humana pertence a uma alma a qual, por sua vez, está unida a um corpo, e unida tão intimamente que ela não se manifesta senão mediante a colaboração do corpo. Disto se segue que, quando o corpo humano goza de saúde e funcionamento normal de seus órgãos, a vontade se pode expandir com toda a liberdade...

 

Desde, porém, que o corpo esteja afetado de perturbação e desequilíbrio (como se verifica no bêbado), ele não fornece a colaboração necessária para que a vontade humana se afirme; consequentemente, o embriagado não pode articular palavras tão claramente quanto o homem normal; ele gagueja porque sua vida sensitiva e seus nervos estão sob a influência perturbadora do álcool. Contudo, mesmo nesse estado de transtorno do organismo, deve-se dizer que a vontade conserva seu livre arbítrio em estado latente.

 

A titulo de ilustração, segue-se ainda uma observação. O argumente de Russell se assemelha ao de quem dissesse: «O homem não é livre porque não pode respirar com seu aparelho digestivo». Nesta última proposição é muito mais flagrante a improcedência: todas as funções corpóreas, pelo fato mesmo de serem corpóreas, só podem ser movidas dentro das limitações impostas pelos respectivos órgãos; se estes foram criados para determinada função, é claro que não podem ser utilizados para outra totalmente diversa (como o azoto não pode exercer as funções do oxigênio); nem podem realizar devidamente sua função específica se estão afetados de avaria. De modo análogo, deve-se dizer: livre arbítrio humano não significa capacidade de executar toda e qualquer ação... mas é simplesmente a capacidade de mover o sujeito às atividades que estejam contidas dentro do setor próprio de cada órgão do corpo humano. Assim a livre vontade humana levará um indivíduo equilibrado a pronunciar palavras bem articuladas ou a nada pronunciar: contudo não poderá suprir certos defeitos nos órgãos da voz ou no sistema nervoso do respectivo sujeito.

 

De resto, a existência do livre arbítrio se depreende do fato de que a vontade humana é espontaneamente ávida do Bem Infinito, mas nunca o encontra face a face aqui na terra; cada um dos bens que lhe ocorrem é limitado ou apresentado limitadamente, não forçando portanto a adesão da vontade; cf. «P. R.» 5/1958, qu. 6.

 

Negada a liberdade de arbítrio, cai toda a ordem moral na filosofia de Russell; já não há responsabilidade nem culpa mas apenas doenças e perturbações psíquicas; por conseguinte, não se devem infligir sanções, mas somente aplicar processos psicoterapêuticos. À pág. 31 chega Russell a preconizar, seja o ser humano delinquente tratado simplesmente como um automóvel avariado:

 

«Homem algum trata um automóvel tão estupidamente como trata um outro ser humano. Quando o automóvel não quer funcionar, não atribui ao pecado a sua aborrecida conduta. Não diz: 'Você é um automóvel mau, e não lhe darei mais gasolina enquanto não funcionar'. Procurará descobrir qual a falha e consertá-la. Uma maneira análoga de tratar as criaturas humanas é, no entanto, considerada contrária às verdades de nossa santa religião».

 

É, pois, desejo de Russell seja o homem tratado como máquina. O filósofo inglês não vê diferença essencial entre aquele e esta. Tal tese caracteriza nitidamente o seu pensamento.

 

«A nossa santa religião» de que fala Russell, ou seja, a Moral cristã, reconhece, sem hesitação, haver estados patológicos que atenuam e por vezes cancelam a culpa dos réus. Contudo ela reconhece a responsabilidade do homem sadio e procura excitar em todo indivíduo o senso dessa responsabilidade; ela assim estimula o delinquente a ser forte e corajoso para se corrigir, desperta nele a consciência de que pode melhorar de vida, em vez de o relegar sem mais para a categoria dos doentes, solapando-lhe o ânimo e o idealismo.

 

2. Deus ou o acaso na origem do mundo?

 

A. À pág. 24 da edição brasileira, Russell recorre ao acaso para explicar a origem do universo, rejeitando conscientemente a existência de Deus. E isto, por dois motivos:

 

- se Deus existisse, teria feito um mundo melhor: «... não me é possível deixar de pensar que a Onipotência, agindo durante toda a eternidade, poderia ter produzido algo melhor» (pág. 24);

- a ciência indica que o mundo presente acabará; ora isto não se concilia com o conceito de Deus, julga Russell; «Sabemos que o universo... irá arrastar-se através de fases ainda mais deploráveis, até chegar a uma condição de morte universal. Se isto puder ser encarado como uma prova do desígnio divino, não me resta senão dizer que tal desígnio não tem para mim a menor sedução. Não vejo, pois, razão para acreditar em qualquer espécie de Deus, por mais vago e por mais atenuado que seja» (pág. 25).

Diante dessas declarações seja lícito observar:

 

a) O acaso nada explica, pois não é uma causa, mas o encontro, para nós inexplicado, de duas causas já existentes e postas em ação. A quem admite o acaso, ainda resta a tarefa de elucidar como tiveram origem os seres que «por acaso» se encontraram, dando tais e tais efeitos (no caso,... produzindo o universo). Em nossos dias, aliás, não há filósofo de valor que recorra ao acaso, pois esta «solução» seria simplesmente irrisória. Cf. «P. R.» 6/1957, qu. 1.

 

b) A propósito do postulado de que o mundo deveria ser mais perfeito, caso Deus existisse, deve-se notar:

Deus infinitamente perfeito só podia criar um mundo de perfeição finita, pois dois seres infinitamente perfeitos constituem uma contradição; o infinito, por definição, exclui outro infinito na mesma linha. Disto se segue que, fora de Deus, nada é tão bom que não possa ser ainda melhor (cf. S. Tomás, Suma Teológica I 25,6; De potentia qu. 3, a. 16); os seres finitos podem sempre crescer em perfeição sem que jamais atinjam o infinito.

 

Leibnitz (+1716) julgava não ser condizente com a sabedoria e a bondade de Deus escolher algo de menos bom, rejeitando o melhor. Donde concluía que Deus deve necessariamente ter criado o melhor mundo possível. — Este argumento rebaixa Deus à categoria das criaturas finitas. Para nós, sim, que, dada a nossa imperfeição congênita, devemos tender a nos aperfeiçoar continuamente, seria insensato escolher o bem menor com desprezo do bem maior; todavia em Deus isto não se dá; possui o máximo de perfeição, de bondade e de felicidade; nenhuma criatura é capaz de aumentar a perfeição ou a bem-aventurança de Deus. Por conseguinte, resta ao Senhor a liberdade de produzir criaturas em graus de perfeição livremente determinados pela sua sabedoria (cf. S. Tomás, S. Teol. I 25, 5). Produzindo uma criatura menos dotada de perfeições do que outra, Deus não lhe subtrai coisa alguma do que lhe é devido, pois é Deus quem fixa o ideal e a regra de suas criaturas, ao tirá-las do nada. O Criador não deve coisa alguma a quem quer que seja; por isto a produção de qualquer criatura representa sempre um ato de liberalidade totalmente gratuita, da qual não nos é lícito pedir contas ao Onipotente. Apenas se requer que Deus não seja a causa de desajustes ocorrentes na criação, como de fato não é (cf. «P. R.» 36/1960, qu. 2).

 

O que ainda interessa frisar, é que, mesmo limitado em suas perfeições, o mundo presente não deixa de ser muito bom. Sim, o cristão, embora não professe otimismo absoluto em relação ao mundo (o que seria absurdo, pelo motivo indicado) professa um otimismo relativo. Com efeito, Deus distribuiu as perfeições de cada criatura de modo tal que o conjunto do universo é, e será, uma afirmação esplendorosa do bem; Ele fez que as falhas inerentes à limitação das suas criaturas desempenhem atualmente a função de «silêncios» ou «vazios» no desenvolvimento de uma bela melodia;- sem tais lacunas ou «silêncios» a música não seria música. Assim nem mesmo as falhas que as criaturas livremente cometem, deixam de cooperar para a afirmação do bem e da glória de Deus. — São Tomás nota que, se se modificasse a essência ou a estrutura de algum dos elementos do universo, estaria destruída a proporção que atualmente os concatena entre si, à semelhança do que se daria num violino se se entesasse demais alguma das respectivas cordas (extinguir-se-ia então o belo som do instrumento); cf. S. Teol. I 25, 6 ad 3 ; I 47, 2 ad 1. Consequentemente, quem no fim dos tempos puder abarcar a história inteira do universo, com os pecados e as virtudes que a caracterizam, verificará que, por muito deficiente que agora pareça, ela constituirá um grandioso hino que atualmente se vai desenrolando, com seus tons altos e baixos, suas fases sonoras e suas fases silenciosas, em louvor da Sabedoria do Criador.

 

B. Ainda a respeito da existência de Deus, escreve Russell: «Sabeis, certamente, que a Igreja Católica estabeleceu como dogma que a existência de Deus pode ser provada sem ajuda da razão... » (trad. bras., pág. 3).

 

Mal informado está Russell a respeito da doutrina católica que ele quer combater. Não terá jamais ouvido falar de alguma, das múltiplas proposições em que os Sumos Pontífices têm incutido que a existência de Deus constitui uma verdade de ordem natural, racional, e não propriamente de fé? Justamente as primeiras dessas afirmações foram ocasionadas pelo fideísmo do século passado, orientado por Louis Bautain (+1867) e Augustin Bonnetty (+1879), os quais asseveravam que só conhecemos a existência de Deus pela tradição dos mais velhos e pela fé. Em oposição a tal doutrina declarava a S. Congregação do Índice em 1855:

 

«A razão pode com segurança provar a existência de Deus... A fé é posterior à Revelação; por isto, não pode ser evocada para provar a existência de Deus» (cf. Denzinger, Enchiridion Symbo- lorum 1650).

 

Por sua vez, o Concilio do Vaticano em 1870 assim se pronunciou:

«Deus, Principio e Fim de todos os seres, pode ser reconhecido com certeza pela luz natural da razão humana, a partir das coisas criadas» (ib. 1785).

 

Poder-se-iam multiplicar semelhantes citações (cf. Denzinger, Enchiridion 1622. 1670. 1672. 1785. 1806. 2072s. 2145). Estas, porém, já são suficientes para sugerir que Russell pouca ou nenhuma autoridade possui para impugnar a religião católica (ele deveras mal a conhece).

 

De resto, desejando refutar os famosos argumentos pelos quais («sem ajuda da razão», como diz Russell) a Igreja prova a existência de Deus, o escritor inglês considera a chamada «via da Causa Primeira», via estritamente racional, e comenta:

 

«Durante longo tempo, aceitei o argumento da Causa Primeira até que certo dia, aos dezoito anos de idade, li a autobiografia de John Stuart Mill, lá encontrando a seguinte sentença: «Meu pai ensinou-me que a pergunta 'Quem me fez?' não pode ser respondida, já que sugere imediatamente a pergunta: 'Quem fez Deus?'» Essa simples sentença me mostrou, como ainda hoje penso, a falácia do argumento da Causa Primeira. Se tudo tem de ter uma causa, então Deus deve ter uma causa. Se pode haver alguma coisa sem uma causa, pode muito bem ser tanto o mundo como Deus, de modo que não pode haver validade alguma em tal argumento» (ob. cit. pág. 3s).

 

Como se vê, para evitar a afirmação de que existe Deus, Russell está disposto a retroceder sem fim na série das causas que expliquem este mundo. — Ora o retrocesso sem termo final é escapatória ilógica; deve haver uma Causa Primeira Absoluta, não causada por outra, pois uma série infinita de causas se assemelharia a um canal sem fonte ; se, porém, não há fonte, também não há intermediários (ou canal) nem há efeito. Para dispensar a locomotiva de um comboio ferroviário, certamente não basta aumentar o número de carros da composição; analogamente, ninguém pretende que, prolongando indefinidamente uma série de zeros, se chegue à unidade, nem que um pincel de cabo prolongado possa pintar, dispensando a mão do artista.

 

Russell está outrossim disposto a admitir que o mundo não tenha causa fora de si ou seja a sua própria causa. — Ora também nisto há incoerência, pois um conjunto de seres contingentes e relativos (dos quais nenhum se explica por si) certamente não pode dar algo de absoluto que se explique por si mesmo; semelhantemente, um conjunto de espelhos que refletem uma imagem, supõe a existência de um objeto que não seja espelho, mas seja o protótipo cuja imagem cada espelho reflete.

 

Ainda a fim de evitar a conclusão de que Deus existe, Russell aceita igualmente a hipótese de que o mundo não tenha tido começo. — Ora esta nova suposição não desvirtua as nossas considerações anteriores; ela apenas implicaria que desde toda a eternidade a série de causas que focalizamos, exige uma Primeira Causa não causada ou absoluta. O tempo é uma medida; não é uma causa nem uma fonte de atividade; a duração do funcionamento de uma usina elétrica não dispensa o dínamo nem a queda de água.

 

3. A sorte póstuma das almas

 

A consideração da seguinte passagem de Russell ainda contribui para evidenciar quão superficiais são as informações que este autor possui a respeito do Catolicismo; atacando o Cristianismo através de tais prismas, é claro que o filósofo inglês se priva de toda autoridade no assunto.

 

Conforme o Catolicismo, «a alma individual... deveria gozar, numa vida futura, de eterna bem-aventurança ou de eterna aflição, segundo as circunstâncias. As circunstâncias de que dependia essa grave diferença eram um tanto curiosas. Se se morria, por exemplo, imediatamente após haver um sacerdote espargido água sobre a gente, ao mesmo tempo em que pronunciava certas palavras, herdava-se a bem-aventurança eterna; mas se, depois de uma longa e virtuosa vida, acontecesse de a gente ser fulminado por um raio, num momento em que se estivesse proferindo palavras feias, por se haver rompido o cordão de um sapato, herdava-se o suplício eterno» (ob. cit. pág. 26 s).

Péssima tradução portuguesa!

 

A estas afirmações se pode replicar quanto se segue: a Igreja nunca pretendeu definir a sorte eterna de quem quer que seja (a menos que se trate de santos, isto é, de justos cujas virtudes sejam comprovadas por autênticos sinais de Deus). O Senhor indicou quais os meios normais para se obter a salvação: os sacramentos e os sacramentais. Dentre os sacramentos, um se destina precisamente a corroborar o cristão na hora da morte: é a Unção dos doentes, com a concomitante aspersão de água benta; por isto a Igreja insiste em que se administre aos moribundos tal sacramento. O efeito, porém, deste rito está longe de ser mecânico ou mágico: se alguém não está arrependido de seus pecados no íntimo do coração, o sacramento de nada lhe serve; se, ao contrário, está sinceramente contrito, o Senhor perdoa, ainda que o moribundo haja cometido as mais graves faltas (Deus não se deixa vencer em misericórdia). Quanto ao caso de quem, após vida virtuosa, morra sem sacramentos em um momento de insensatez, nada se pode dizer a respeito do seu destino eterno; só Deus sabe até que ponto tal pessoa incorreu em culpa (a sua responsabilidade no ato final talvez tenha sido muito atenuada ou mesmo tolhida, em consequência de algum distúrbio patológico); é de crer que Deus leve em conta os méritos de vida de tal- alma e não permita que se revolte conscientemente contra o Sumo Bem na hora da morte; costuma-se mesmo dizer que cada qual morre nas disposições em que passou seus anos na terra.

 

Nem mesmo em caso de suicídio, a teologia afirma que o defunto está no inferno, pois só Deus vê o que se passou no íntimo da alma antes do último suspiro (a Igreja apenas proíbe sufrágios públicos, não, porém, sufrágios discretos em favor de tais defuntos). Se alguns cristãos pretenderam no decorrer da história, ou ainda pretendem, determinar algo de mais preciso a respeito da sorte póstuma dos defuntos, baseando-se em noção mecanicista ou simplória dos sacramentos, falaram ou falam à revelia do magistério da Igreja, e não conforme a «doutrina ortodoxa» do Catolicismo, como explicitamente assevera Russell: «Digo que isto (o mecanicismo da salvação) faz parte da doutrina ortodoxa e que se acreditou nisso até tempos recentes» (ob. cit. pág. 27).

 

O filósofo inglês ainda cita, pretendendo mostrar melhor os «absurdos» da crença na imortalidade da alma, o proceder dos colonizadores espanhóis, que «no México e no Peru... costumavam batizar as criancinhas indígenas e esmigalhar-lhes imediatamente o cérebro: asseguravam, por esse meio, o ingresso de tais criancinhas no céu» (ob. cit. pág. 27).

 

Se o morticínio desses pequeninos era inspirado por ganância e barbárie, está claro que era reprovável; a Igreja não o defende; tal modo de agir não se inspirava nos ensinamentos do Catolicismo. O historiador sincero deve reconhecer que os colonizadores cometeram muitos feitos repreensíveis, na conquista da América Latina. Seja lícito, porém, lembrar que os antigos não raro cometiam de boa fé ações que hoje condenamos abertamente (a consciência dos antigos era menos apurada e desenvolvida que a do homem moderno; ora Deus julga cada indivíduo segundo o íntimo da sua consciência ; cf. pág. 173s deste fascículo).

 

Conclusão

 

Não nos deteremos em ulterior exame das afirmações de Russell; cada página da obra apreciada forneceria margem a longos comentários, os quais em parte repetiriam o que já tem sido escrito em números anteriores de «P. R.». Os poucos tópicos que acabamos de salientar, já patenteiam o pensamento do autor. O que importava era mostrar que o livro «Porque não sou cristão» nada de novo representa na literatura antirreligiosa dos nossos dias; não raro combate proposições que a Igreja Católica de modo nenhum endossa, mas que o autor sem muito discernimento lhe vai atribuindo. Deve-se mesmo dizer que, pela fraqueza de sua lógica, é um ensaio pouco feliz de disseminar o agnosticismo no público.

 

Russell deverá ser tido, sim, como grande matemático... Acontece, porém, que nem todos os que têm pendão para as ciências da quantidade e da matéria, possuem outrossim o gênio da abstração e da filosofia. Tal parece ser o caso de Bertrand Russell.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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