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PERGUNTE e RESPONDEREMOS 039 - março 1961

 

O PEQUENO NÚMERO DE CRISTÃOS

TEODORO (Minas): «Vinte séculos após a vinda de Cristo à terra, como se justifica que o Cristianismo não esteja dominando a face do mundo, mas ao contrário veja a sua ação tão dificultada pelas forças do mal?»

 

A resposta apresentará primeiramente alguns dados numéricos oportunos para se reconstituir com exatidão o problema. A seguir, propor-se-ão as linhas de solução.

 

1. Algumas cifras...

 

Embora as estatísticas nem sempre correspondam à realidade das coisas, não parece fora de propósito trazer aqui alguns elementos numéricos que, feitas as devidas ressalvas, possam ajudar o observador a avaliar o problema de que trata a presente questão.

 

Segundo cálculos fidedignos, as confissões religiosas se distribuem sobre a terra nas proporções seguintes (1961):

 

Confucionistas                   18,6 %           Fetichistas                              8, 4 %

Católicos (romanos)         16,9 %          Ortodoxos (orientais)           5,5 %

Muçulmanos                       13,5 %

Hinduístas                            11,8 %          Xintoístas                                1, 3 %

Protestantes                         7,5 %           Sem religião                           1 %

Budistas                                   8,4 %           Israelitas                                  0,45 %

 

Em dados absolutos, as cifras principais seriam aproximadamente as seguintes:

 

Igreja Católica: 480 milhões de almas, das quais...

                47,2 % na Europa

                42,8 % na América

                6,2 % na Ásia

                3,2 % na África

                0,6 % na Oceania

 

Protestantismo                200 milhões de almas

Ortodoxia                           150 milhões (cisma oriental)

Judaísmo                            12 milhões

Islã                                        365 milhões

Hinduísmo                         321 milhões

Budismo                             227 milhões

 

Como se vê, o bloco cristão é o mais numeroso, abrangendo quase uma terça parte da população do globo. Contudo nem todos os cristãos pertencem à única Igreja de Cristo... Se se levam em conta os números, os prognósticos referentes ao Cristianismo, e em particular ao Catolicismo, não são dos mais alvissareiros. Com efeito, o aumento da população católica pela via de nascimentos é de cerca de 3.500.000 de almas por ano; acrescente-se a isto um pouco mais de meio-milhão de convertidos, e tem-se anualmente um total de quatro milhões de novos católicos. Acontece, porém, que no mesmo intervalo o número de não-católicos se acresce de 16 milhões simplesmente por via de nascimentos; os católicos vão sendo assim numericamente ofuscados; para manter as proporções atuais, seria necessário haver anualmente não 500.000, mas 7.000.000 de convertidos ao Catolicismo.

 

É interessante também recordar que, na época atual, um dentre quatro cidadãos deste mundo (25%) é chinês (diz-se que «nasce um chinesinho por segundo). Ora a Igreja Católica na República Popular Chinesa conta aproximadamente 0,5 % da população, ou seja, 3.750.000 fiéis, todos submetidos a dura perseguição. — O Japão é dos mais prolíficos países do globo; sendo a maioria da sua população pertencente à religião xintoísta, é esta que se beneficia com a elevada cota de nascimentos.

 

Concentrando agora a nossa atenção nos países ditos «ocidentais», de civilização cristã, verificamos que geralmente nas grandes cidades entre os católicos uma média de 30% apenas pratica a sua religião (há exceções como, por exemplo, Bilbao na Espanha, com 50%; Essen na Alemanha, com 40%; Nova Orleans nos EE.U.U., com 42%) ; em Nova Iorque, contam-se 30%; em Düsseldorf (Alemanha), 29 %; em Colonha (Alemanha), Bruxelas e Liège (Bélgica), 27 %; em Barcelona (Espanha), 25 %. Na Holanda, 50 % da população da capital (Haia) declarou, em recenseamento oficial, não ter religião; em Amsterdam, a cota de tais pessoas foi de 45 %.

 

Aliás, a indiferença religiosa é fenômeno que se vai generalizando. Nos EE.UU. da América, por exemplo, a diluição de certos grupos protestantes caminha a passos largos, principalmente nos meios urbanos; algo de semelhante se dá entre os muçulmanos da África do Norte, entre os hinduístas e os budistas, principalmente no Japão. Os sociólogos verificam que a tendência da vida moderna a concentrar grandes massas de população nas cidades (urbanização) provoca facilmente o materialismo ou o ceticismo.

 

O Santo Padre o Papa Pio XII, em sua encíclica sobre as Missões (de 2 de junho de 1951), lembrava aos fiéis do mundo inteiro a gravidade da hora presente:

 

«Sabeis, veneráveis irmãos, como quase todos os homens hoje em dia são bruscamente levados a tomar posição em um dos dois acampamentos antagônicos, a saber: por Cristo ou contra Cristo. O gênero humano atualmente passa por fase extremamente perigosa, da qual lhe resultará ou a salvação de Cristo ou tremenda ruína. O zelo ativo dos pregadores do Evangelho esforça-se, sem dúvida, por dilatar o reino de Cristo; há, porém, outros pregadores que tentam levar a humanidade à mais aviltante situação, pois tudo concebem em função da matéria, e recusam toda esperança de felicidade eterna».

 

Pois bem, a Santa Igreja, e com Ela todo fiel católico, olha para essa realidade com ânimo solícito, mas profundamente tranquilo. O discípulo de Cristo sabe que o Senhor tudo dispõe providencialmente, conforme os arcanos da sua sabedoria; é Ele, e não são propriamente os homens, quem toma conta da sua Igreja (o que naturalmente não dispensa de zelar ao máximo pelo bem temporal da S. Igreja).

 

Não obstante a confiança absoluta na Providência, é lícito ao estudioso procurar entender, dentro do conjunto da própria Revelação cristã, o estado de coisas acima esboçado, pois não raro os fiéis se veem solicitados pela cética interrogação: Não será a situação presente algo de desconcertante, indício do fracasso de Jesus Cristo, o qual consequentemente terá sido mero homem?

 

2. As linhas de solução

 

A questão visada neste artigo nos coloca mais uma vez diante dos transcendentes desígnios da Sabedoria Divina, que a inteligência humana não pode abarcar cabalmente. Apenas se pode assegurar, sem perigo de errar, que a situação atual nada tem de imprevisto nem desastroso aos olhos de Deus ; ela condiz perfeitamente com o plano harmonioso do Criador.

 

Pode-se, porém, penetrar um pouco mais dentro do assunto, traçando algumas linhas que contribuem para esclarecê-lo. Eis tais linhas:

 

1) Consoante a natureza sensível do homem, Deus instituiu vias visíveis ou sensíveis de salvação (a incorporação à Igreja visível de Cristo e a prática dos sacramentos). Nós, homens, recebemos tais instituições da parte do Senhor, e temos a obrigação de as promover e difundir, animados por santo zelo apostólico.

 

Acontece, porém, que o Senhor Deus (por motivos arcanos) houve por bem permitir que a ignorância e o erro imperem em regiões não-cristianizadas ou até descristianizadas. Ele o permite por razões que não nos compete sondar, mas certamente porque do mal Ele sabe e quer tirar o bem. Está claro então que o Senhor pode perfeitamente por vias ocultas promover a salvação dos homens que vivam de boa fé em tais regiões (serão muitos? Serão poucos? Não o sabemos; nada nos obriga a dizer que são poucos). Deus, querendo salvar as criaturas diretamente, não está obrigado a seguir os caminhos visíveis que Ele instituiu para o comum dos homens. E tais vias ocultas são variadíssimas; lembraremos apenas os ditames da consciência que vão acompanhando cada indivíduo no decorrer de toda a sua vida (ditames que são a voz do próprio Deus), uma iluminação especial concedida na hora da morte, a graça de um arrependimento interior não manifestado, etc. Interessa-nos agora salientar que as pessoas (aparentemente alheias à Igreja de Cristo) que se salvam por tais caminhos ocultos, se salvam, em última análise, por obra de Cristo e da Igreja, pois, como já foi dito à pág. 124 deste fascículo, só há um Salvador e um caminho de salvação — Cristo, o Cristo total, Cabeça e Corpo Místico ou Igreja (realidades inseparáveis uma da outra). Por isto se diz que a Igreja subsiste não apenas nos fiéis que lhe foram visivelmente incorporados e a professam como tal, mas subsiste outrossim em todos aqueles que, seguindo caminhos reservados pela Providência, obtêm a salvação eterna; tais pessoas são realmente membros — membros invisíveis — da única Igreja de Cristo. Donde se vê que esta se acha muito mais propagada no universo do que parece. Por conseguinte, o sacrifício de Cristo e a Redenção são fatos muito mais presentes e atuais no mundo inteiro do que se poderia julgar à primeira vista.

 

É lícito mesmo admitir que elevado número de homens se salve por vias ocultas, sem sequer saber que estão sendo atingidos por Cristo e pela Igreja, sem mesmo que a Igreja saiba que os está atingindo e beneficiando; muitos daqueles que vivem no indiferentismo ou na apostasia materialista serão talvez um dia bem-aventurados no céu porque cedo ou tarde, antes de morrer, seguirão , inesperadamente uma inspiração da graça; conceberão então perfeito arrependimento e ardente amor a Deus (na medida em que O conhecerem) sem ter quiçá tempo ou forças físicas para manifestar seus novos sentimentos de alma.

 

2) Tentando agora focalizar a questão de um ponto de vista ainda mais próximo ao de Deus, isto é, como a Palavra de Deus a focaliza na Escritura Sagrada, chegamos a imprevistas conclusões.

 

Notemos, antes do mais, que a Bíblia em geral pouco se interessa pelo aspecto quantitativo ou matemático dos acontecimentos. Não raro mesmo os números aí ocorrem com valor meramente simbólico, para indicar qualidades, e não quantidades (cf., por exemplo, a genealogia de Jesus em Mt 1,1-17: 3 x 14 gerações para significar o Filho de Davi «à terceira potência» ou por excelência! O número dos familiares de Jacó que foram habitar no Egito, era o número místico 70, conforme Êx 1,1-5).

 

Mais ainda: o Senhor, no decorrer da história sagrada, nunca parece ter dado grande apreço às estatísticas que nós tanto estimamos. Antes, dir-se-ia: o Onipotente fez sempre «pouco caso» dos cálculos humanos referentes aos progressos do reino de Deus. — Certamente Deus quer salvar todos os homens (cf. 1 Tim 2,4); neste sentido deve-se dizer que Ele muito estima «o grande número»; mas os caminhos pelos quais Deus quer salvar a multidão de suas criaturas são tão diferentes daqueles que nós julgamos oportunos e necessários que o Senhor na história sagrada chegou a incriminar aos homens o desejo de medir e contar os progressos religiosos, como se medem e contam os progressos da indústria e da técnica.

 

Assim o rei Davi foi punido por ter mandado fazer um recenseamento de seu povo (cf. 2 Sam 24 ; 1 Crôn 21). O autor bíblico chega a dizer que foi Satanás quem sugeriu ao monarca esse procedimento (cf. 1 Crôn 21,1). Pergunta-se, porém: que mal havia no caso? — Ei-lo: Davi, empreendendo o recenseamento, parecia querer controlar o cumprimento da promessa de Deus, promessa segundo a qual Abraão teria posteridade muito numerosa e próspera (cf. Gên 15,5). O recenseamento, no caso, vinha a ser expressão de certa falta de confiança e de certo orgulho do rei; Davi queria certificar-se da grandeza e da prosperidade de seu povo, como os demais reis o faziam, isto é, recorrendo a números e estatísticas, como se o monarca só pudesse e devesse contar com recursos de administração humana. O episódio é assim portador de uma mensagem válida até o dia de hoje: não se pode tratar o povo de Deus (seja Israel, seja a Igreja) como qualquer outra entidade quantitativa ou como qualquer outro grupo social; sem dúvida, as promessas de bênção se vão cumprindo no povo de Deus ou na Igreja; não nos é licito, porém, querer controlá-las, aplicando-lhes os critérios humanos dos números e das estatísticas.

 

Havia, sim, recenseamentos legítimos, prescritos pela Lei de Moisés; cf. Êx 30,11-16; Núm 1,20-47; 14,29. Mas mesmo nesses casos, para manter no povo sagrado o espírito de fé, a legislação israelita mandava que todo indivíduo recenseado pagasse um tributo a Deus (cf. Êx 30,12-16); isto lhe lembraria que o homem não é senhor da sua vida e da sua força, mas é o Senhor quem dá vida e prosperidade às criaturas...

 

Observa-se mesmo que, na Escritura Sagrada, Deus parece estimar de modo todo especial o que os hagiógrafos chamam «o resto de Israel» ou simplesmente «o resto»; trata-se de um pequeno grupo, de fé mais viva e consciência mais firme, que representa a coletividade indiferente e embotada, merecendo para esta as graças da salvação; cf. Am 3,12 ; 5,3.15 ; 3 Rs 19,18.

 

São Paulo equivalentemente fala de «primícias:», entendendo com isto poucos indivíduos sobre os quais pousa o reino de Cristo a fim de beneficiar a grande massa de concidadãos ainda mergulhada no erro. Assim diz ele que Stefanaz e os seus familiares constituem as primícias da Acaia (cf. 1 Cor 16,15); Epeneto, as da Ásia (cf. Rom 16,5); Cristo é primícias dos mortos ou da ressurreição (cf. 1 Cor 15,5. 20-23).

 

Procurando agora interpretar a realidade religiosa contemporânea à luz deste modo de ver bíblico, deve-se dizer que o povo cristão ou a Santa Igreja faz as vezes do «resto» ou das «primícias», isto é, de uma minoria mediante a qual Deus quer certamente agraciar a humanidade inteira. Aliás, os antigos cristãos tinham clara consciência desse seu papel em relação aos demais homens; eis, por exemplo, como se exprimia um escritor do séc. III: «O que a alma é no corpo, os cristãos o são no mundo. A alma está difundida em todos os membros do corpo, como os cristãos em todas as cidades do mundo... Os cristãos estão como que detidos no cárcere do mundo; não obstante, são eles que sustentam o mundo» (Epístola a Diogneto c. 6).

 

Não há dúvida, estes dizeres podem aplicar-se até hoje ao povo cristão ou à Santa Igreja; minoria numérica mediante a qual a humanidade toda, consciente ou inconscientemente, recebe os tesouros da vida eterna.

 

Assim deixa de causar surpresa a verificação de que ainda em nossos dias o reino de Cristo só subsiste visivelmente numa porção relativamente pequena da humanidade; tenha-se consciência de que invisível e implicitamente ele compreende muito maior número de almas.

 

3. As considerações até aqui propostas visavam projetar luz sobre a atual situação do Cristianismo no mundo, gerando consequentemente serenidade e paz no leitor. Não seria lícito, porém, concluir que os filhos da Santa Igreja têm o direito de cruzar os braços diante dos erros contemporâneos e negligenciar seu fervor apostólico. Não, Cristo mandou: «Ide, e ensinai a todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo» (Mt 28,19). Cabe, por conseguinte, aos católicos o dever de cumprir à risca esta ordem, utilizando as possibilidades que a cada um tocam no Corpo Místico de Cristo. Tal dever é certo, pois foi revelado pelo Senhor; que cada qual se desempenhe dele conscienciosamente, e não se preocupe com as disposições misteriosas da Providência Divina, que sabe distribuir os frutos dos nossos trabalhos apostólicos independentemente da nossa compreensão, mas nem sempre independentemente da nossa colaboração.

 

À guisa de conclusão, eis palavras muito oportunas de S.S. o Papa Pio XII sobre o assunto:

 

 

«A Igreja Católica, mãe amantíssima de todos os homens, convoca todos os seus. filhos espalhados pelo mundo inteiro, a fim de prestarem aos intrépidos pregadores da verdade do Evangelho o auxilio que esteja ao seu alcance, seja por meio de esmolas, seja por meio de preces, seja por meio de apoio às vocações missionárias. Ela também os incita muito maternalmente a usarem de toda a bondade e a participarem das tarefas do apostolado, se não efetivamente, ao menos por seu interesse zeloso, a fim de não permitirem fique vão o anelo do benigníssimo Coração de Jesus, que "veio... procurar e salvar o que perecera" (Lc 19,10). Se de algum modo contribuírem para levar a luz da fé e para restaurar cristãmente um só lar que seja, saibam que dai prorromperá um Impulso da graça divina, o qual se desenvolverá até a vida eterna; se colaborarem para a formação de um só ministro do altar que seja, saibam que dai lucrarão abundantes frutos do sacrifício eucarístico, da missão sacerdotal e de santificação em geral. Os fiéis de Cristo constituem todos juntos uma única e vastíssima família, cujos membros, pertencentes uns à Igreja militante, outros à Igreja padecente, outros à Igreja triunfante, se acham em comunhão de bens. Não há, em verdade, dogma mais oportuno do que o da Comunhão dos Santos para inculcar à mente e às aspirações do povo cristão a importância e a utilidade das sagradas missões» (enc. «Evangelii precones», de 2 de junho de 1951).

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


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