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PERGUNTE e RESPONDEREMOS 039 - março 1961

 

POR QUE CRISTO VEIO TÃO TARDE AO MUNDO?

HISTÓRIA DO CRISTIANISMO

MÁRIO (Rio de Janeiro): «Como se explica tenha Jesus Cristo vindo ao mundo em período tão tardio da história? Se somente por Ele há salvação, porque não se manifestou mais cedo aos homens? E como pode ser verdadeira a Religião Cristã, que é tão recente no mundo?»

 

Em nossa resposta, deveremos propor uma advertência preliminar, à qual se seguirá a consideração direta do problema.

 

1. Observação prévia

 

As questões do cabeçalho abordam um aspecto dos desígnios da Providência referentes a este mundo. Evidentemente a inteligência humana, pobre e limitada como é, não está à altura de sondar tais planos; Deus tudo dispõe livremente de acordo com critérios cuja sabedoria ultrapassa infinitamente a nossa. Doutro lado, Cristo, como Mestre da humanidade, nada quis dizer a respeito, chegando mesmo a declarar: «Não toca a vós conhecer as épocas e os momentos que o Pai estabeleceu por sua própria autoridade» (At 1,7).

 

Consciente de que a criatura é incapaz de argumentar com Deus sobre tais assuntos, já S. Agostinho observava:

«Não era nem será lícito dizer a Deus: 'Por que agora ? E por que tão tarde ?' Na verdade, o plano do Pai que enviou seu Filho à terra, não pode ser penetrado pela inteligência humana» (De civitate Dei 10, 32,2).

 

Contudo as questões do cabeçalho deste artigo são em nossos dias propostas com insistência, visto conhecermos melhor do que os antigos as vastíssimas dimensões da pré-história e o avultado número de homens que já passaram pela terra. Em consequência, a maneira como essas criaturas se relacionavam com Deus é objeto de hipóteses e conjecturas nas quais muitas vezes a fantasia toma a dianteira da fé e da razão. Daí a conveniência de que o cristão enfrente diretamente o assunto e adquira consciência de tudo que se possa dizer sobre o mesmo, de acordo com a autêntica mensagem de Cristo.

 

É o que vamos fazer nos parágrafos seguintes. Importa, porém, nestes preliminares realçar que o passado, para o cristão, só se esclarece devidamente à luz do futuro. Sim; são as acontecimentos finais da história que elucidam e justificam os fatos dos tempos antigos e atuais. Ora não vemos o futuro, mas apenas o apreendemos por sóbrios dizeres da fé e por teorias da ciência; sendo assim, o «porquê» exato dos acontecimentos passados e presentes nos deve escapar, e de fato nos escapa, em grande escala.

 

Em outros termos: para o cristão, a história se desenvolve homogeneamente, tendendo a atingir certa configuração final bem marcada nos desígnios de Deus: o Cristo Jesus encabeçando a humanidade inteira e apresentando-a ao Pai (cf. 1Cor 15, 24-28). Essa configuração final vai projetando seus raios sobre a humanidade desde os albores da história, de sorte que os acontecimentos pretéritos constituem como que primícias dos futuros e finais (o primeiro Adão era tipo do Segundo, Cristo, diz S. Paulo aos Romanos 5, 14); o fato, porém, de que a grande realidade final ainda não nos é patente, dá ocasião a que versemos na penumbra, desde que queiramos sondar com exatidão o «porquê» de cada acontecimento da história passada.

 

«Do futuro nada vemos a não ser pelos olhos da fé e da esperança. Já alguém observou com acerto que o gênero humano se adianta na história como quem anda de costas, só vendo o caminho já percorrido. Quando tivermos chegado ao termo, veremos como os quadros finais estavam esboçados nas primícias. Então daremos graças» (Y. Congar, Vaste Monde ma paroisse. Paris 1959,32).

 

Consideremos, pois, o que se pode dizer a respeito da época tardia da vinda de Jesus Cristo à terra.

 

2. A tardia vinda de Cristo ao mundo

 

2.1. A perspectiva dos antigos. Para os antigos e medievais, a história do gênero humano não era tão longa quanto para nós. Carecendo dos necessários dados de paleontologia, iam pedir à Bíblia o que esta não pretende fornecer, isto é, uma cronologia do mundo e do homem: somando, pois, as indicações numéricas contidas em Gên 1-11, concluíam haver 5.000 anos aproximadamente entre o primeiro homem (Adão) e Jesus Cristo...

 

Embora este intervalo já seja assaz longo, os pregadores cristãos sem embaraço o justificavam aos olhos dos pagãos: era preciso, diziam, que o gênero humano fosse lentamente preparado para receber a dádiva do Salvador; a sábia pedagogia de Deus se exerceu nesses milênios, fazendo passar as gerações humanas de uma fase de mentalidade infantil para a plena maturidade da reflexão. São palavras de S. Ireneu no séc. II:

 

«Deus levou o gênero humano à perfeição por degraus, à semelhança de uma mãe que primeiramente tem de amamentar o filhinho recém-nascido, prestes a lhe dar, à medida que vai crescendo, o alimento de que precisa. Assim fez Deus, assim fez o Verbo Encarnado... Era mister que o gênero humano fosse criado, crescesse, se tornasse adulto, se multiplicasse, tomasse vigor e, por fim, ... visse o seu Mestre (Cristo na terra)» (Adv. haer. 4,38).

 

Em uma palavra: conforme os antigos e medievais, Cristo veio tão tarde ao mundo não por impotência ou descaso da parte do Altíssimo, mas porque a fraqueza humana faz que Deus tenha geralmente de limitar ou graduar a sua munificência; o Pai Celeste, portanto, levando em conta a debilidade do homem, costuma conceder dom após dom: o primeiro exerce o papel de dilatar a alma e capacitá-la para receber o segundo dom; este segundo prepara o homem para o terceiro,... até que finalmente possa receber o dom perfeito. Foi o que se verificou com a Religião Cristã, a qual representa a plenitude das comunicações de Deus ao homem: sendo a forma perfeita de Religião, devia ser naturalmente precedida por muitas etapas.

 

Selando" estas ideias, vão aqui alguns textos marcantes da tradição.

É São Basílio (+379) quem observa:

 

«Na religião, como nas disciplinas humanas, temos que ser introduzidos progressivamente, começando pelas coisas mais acessíveis e pelos primeiros elementos. O Criador vem em nosso auxílio a fim de que nossos olhos, habituados às trevas, possam aos poucos abrir-se para a grande luz da verdade. Ele tudo dispôs levando em conta a nossa fraqueza: acostumou-nos primeiramente a ver a sombra dos objetos e o reflexo do sol na água, a fim de que não fôssemos feridos pela contemplação direta dos seus raios: a Lei de Moisés era a sombra das coisas vindouras, e o ensinamento dos Profetas era a verdade ainda obscura» (Do Espírito Santo 14,33).

 

Dentre as documentos medievais, eis duas expressões características:

São Boaventura (+1274) : «A obra da Encarnação foi a mais perfeita dentre todas as obras de Deus; ora o curso normal das coisas passa dos graus menos perfeitos para o mais perfeito» (Breviloquium p. 4, c.4).

 

Guilherme de Paris (+1249), por sua vez, escrevia: «Se alguém perguntar por que Deus durante tantos milênios suportou a imperfeição e a decadência do seu culto,... por que não interveio mais cedo em favor da sua glória e da nossa salvação, responderemos o que se segue...

Se apenas pequeno número de homens neste mundo, isto é, unicamente o povo hebreu, foi capaz de receber os rudimentos e como que o alfabeto da perfeição do culto divino, se a isso ele teve que ser impelido por milagres e, de certo modo, coagido por repetidos açoites, embora fosse ajudado pelas tradições de seus Pais, quanto mais... o conjunto do gênero humano devia estar incapacitado de receber tal perfeição ! Deus suportou, pois, a imperfeição no seu culto, até que viesse a plenitude dos tempos, da mesma forma como Ele suporta a inexperiência nas crianças, a pequenez nos germens vegetais e em todos os animais, até que, num progresso gradativo, atinjam o tamanho necessário à sua perfeição.

 

Para irmos mais ao fundo da questão, tenhamos consciência de que a objeção aqui proposta equivale a perguntar por que os homens nascem em estado de criancinhas, e não como adultos e barbados,... por que os animais ovíparos põem ovos e seus filhotes não são logo de inicio animais perfeitos. Com efeito, o culto de Deus e a verdadeira religião nasceram no mundo em estado de gérmen e como criancinhas, por causa da imperfeição e da incapacidade iniciais do gênero humano» (Sobre o sacramento da Eucaristia c. 2).

 

2.2. A perspectiva do homem moderno. A doutrina assim proposta é válida até nossos dias. Contudo ainda deixa margem para questões e explicações complementares: a preparação para o Messias, segundo a cronologia hoje comumente admitida, terá durado não cinco mil anos, mas centenas de milhares de anos (quiçá 600.000 anos !)...

 

Note-se que a fé cristã nada opõe a esses cálculos, pois se tornou evidente à exegese moderna que as aparentes cifras de longevidade dos Patriarcas bíblicos consignadas em Gên 1-11 na verdade não são indicações cronológicas, mas expressões simbólicas familiares aos antigos escritores. A Bíblia, por conseguinte, não fornece data alguma referente à origem do mundo e ao aparecimento do homem sobre a terra. Cf. «P. R.» 17/1959, qu. 5.

 

A verificação de que a pré-história se protrai por tantos e tantos milênios não pode deixar de suscitar a pergunta : será que tão longo intervalo ainda pode ser tido simplesmente como preparação do gênero humano para receber o Messias prometido?

 

A esta questão, como dissemos, a nossa inteligência não pode dar resposta exaustiva, pois que se trata de livre desígnio da transcendente Sabedoria de Deus. Contudo, guiados por certos dados da fé, podemos de certo modo iluminar os pontos obscuros do problema e aproximar-nos da autêntica solução. Tenham-se em vista, portanto, as seguintes observações:

 

1) por muito longo que pareça o intervalo entre o primeiro homem e Cristo, não é, em verdade, senão um espaço de tempo muito breve, se levarmos em conta as dimensões da história do nosso planeta (contam-se por milhões e bilhões de anos). Para se ter uma ideia do que foi a surpreendente duração das demais etapas da história da vida sobre a terra (não falamos da história muito mais longa das rochas e da matéria inanimada), pode-se recorrer à seguinte imagem:

 

Os primeiros seres vivos sobre a terra (organismos unicelulares, bactérias, algas...) devem ter aparecido há cerca de três bilhões de anos ou, ao menos, numa época colocada entre três e dois bilhões de anos atrás. Digamos, porém, que a vida conte apenas um bilhão aproximadamente de anos sobre a terra. Procuremos agora reduzir este período às proporções de um ano ou de 365 dias. Nessa escala, um século é representado por três segundos.

 

Ora admita-se que Cristo nasceu às 24 horas precisas de 31 de dezembro desse ano imaginário; em consequência, será preciso situar o aparecimento dos primeiros viventes a 1o de janeiro; o dos primeiros vertebrados marinhos, a 23 de julho; o dos grandes répteis a 20 de outubro; o início da era quaternária e da estirpe humana a 31 de dezembro, 14 horas; o surto do homem de Neandertal, a 31 de dezembro, 19 h e 32 minutos; o começo da idade neolítica, a 31 de dezembro, 23 h e 55 min; Abraão (em 1800 a.C.) terá vivido a 31 de dezembro, 23 horas, 59 minutos e 6 segundos; a fundação de Roma (em 753 a.C.) ter-se-á dado a 31 de dezembro, 23 horas, 59 minutos e 38 segundos... Finalmente Cristo terá vindo às 23 horas e 60 minutos, ou seja, às 24 h ! (1)

 

(1) A imagem acima poderia ser retocada segundo as diversas hipóteses dos paleontólogos referentes à extensão das eras geológicas e à história dos fósseis. As modificações, porém, seriam de monta relativamente pequena, não alterando essencialmente a configuração do esquema proposto. À guisa de exemplo, citamos este outro tipo de «relógio da evolução»:

«Reduzindo ao espaço de um ano o desenvolvimento dos acontecimentos desde as origens da vida, é fácil relacionar a correspondência relativa dos fatos. A 1o de janeiro começa o período arcaico. A 23 de julho aparecem os peixes. A 13 de setembro os anfíbios... A 30 de dezembro, às 12 horas e 32 minutos, o homem de Neandertal... Às 23 horas e 40 minutos do mesmo dia começa a História. Às 23 horas, 53 minutos e 52 segundos, a Guerra de Tróia ... E finalmente (para não sermos longos) às 23 horas, 58 minutos e 50 segundos, coloca-se, numa última data, Aníbal e a segunda guerra púnica.»

Ver Alexandre Roldán, Evolução, trad. brasileira de Rondon do Amara nte. Rio de Janeiro 1958, pág. 61.

 

Nesse «relógio da vida sobre a terra», como está a vinda de Cristo perto do aparecimento do primeiro homem! Entre este e o Salvador haveria apenas o intervalo de dez horas perdidas na imensidade de um ano inteiro. À luz de tal observação, deve-se dizer que a vinda do Messias ocorreu em momento oportuno, momento bem proporcionado aos demais momentos solenes da história deste mundo.

 

Não nos iludimos sobre o significado do confronto acima feito. É certo que ele não basta para dissipar a surpresa de quem detém sua atenção exclusivamente sobre os 600.000 anos que possivelmente terão ocorrido entre o primeiro homem e Cristo. Contudo o confronto não deixa de ser proveitoso, porque dá a ver que não se deve medir a história segundo critérios demasiado antropocêntricos; é Deus o ponto de referência de todas as criaturas; é, portanto, do ponto de vista de Deus, e não do homem, que se deve avaliar a «ordem» ou a «desordem» na história. O que a nós, homens, talvez pareça demasiado longo, pode aos olhos do Artista Supremo estar bem proporcionado no conjunto das criaturas. — Verdade é que nunca abarcaremos com nossa inteligência as proporções concebidas por Deus; os desígnios do Criador, por conseguinte, conservarão sempre um aspecto misterioso para nós, mas nem por isto poderão ser tachados de absurdos.

 

2) O fato de que os numerosos homens existentes na pré-história não conheceram a Cristo, não nos deve incitar a conjeturas e hipóteses inúteis. Uma coisa é certa no caso, e essa é a única coisa importante a observar: tais homens de modo nenhum ficaram privados dos oportunos meios de salvação. Deus não cometeu injustiça para com eles, excluindo-os da vida eterna, dessa mesma vida eterna que Ele oferece a nós.

 

Não conhecendo nem o Evangelho nem a Revelação do Antigo Testamento, os homens da pré-história eram interpelados pelo Senhor mediante a lei natural ou a voz da consciência; caso seguissem a esta, seguiam o mesmo Deus que nós, cristãos (pois só há um Deus, Criador de todos os homens); em consequência, dispunham-se a receber o prêmio da bem-aventurança celeste. Sem dúvida, ao julgar os homens pré-históricos, Deus lhes terá aplicado os critérios correspondentes ao seu grau de compreensão dos deveres religiosos; as responsabilidades foram avaliadas à luz das possibilidades; Deus nunca exige de alguém o que não está ao seu alcance.

 

Além disto, é preciso frisar que a salvação obtida pelos filhos de Adão na pré-história não era independente de Cristo, mas foi-lhes concedida em vista dos méritos de Jesus imolado no Calvário. Assim, por mais variadas que sejam as vias pelas quais Deus chama suas criaturas no longo decorrer dos séculos, é certo que toda e qualquer forma de salvação traz o cunho de Cristo. Embora Cristo tenha aparecido na história há apenas dois milênios, Ele não é um elemento relativo, interessante apenas para certa parte do gênero humano, mas é o Salvador universal, que projeta a sua sombra sobre toda a história desde Adão até os últimos filhos de Adão.

 

3) Ademais deve-se observar que o monoteísmo está longe de ser uma forma tardia da religião da humanidade. Como já frisamos à pág. 100 deste fascículo, a modalidade primitiva de religião foi, sim, o culto de um só Deus, tido como Criador e Pai de todos os homens. Sobreveio, porém, o pecado, que embotou a consciência religiosa da humanidade, fazendo que esta esfacelasse o conceito de Deus Uno, cultuando as múltiplas forcas da natureza das quais o agricultor e o caçador antigos se sentiam dependentes; dai o fetichismo, a magia e as demais aberrações que a pré-história atesta... Embora o estudioso moderno verifique lealmente a exuberância de tais desvios religiosos, não deve esquecer a unidade de linha da história das religiões: o monoteísmo que se afirma «tardiamente» no Judaísmo e no Cristianismo, é a Religião da primeira fase da história. Realmente Deus, o único Deus, se tornou sempre presente aos homens, nunca deixando de os acompanhar através dos séculos, embora tenha permitido que eles, por abuso de sua liberdade, se desviassem da verdadeira Religião.

 

3. As conveniências do adiamento

 

Considerando mais detidamente a época em que Cristo de fato veio ao mundo (ano 753 da era de Roma), os antigos escritores cristãos se compraziam em apontar as vantagens que esse período oferecia à pregação do Evangelho. Tais observações concorrem para evidenciar a ação da Providência Divina:

 

1) no fim da era pré-cristã, o gênero humano havia chegado a um estado de prostração intelectual e moral que o fazia anelar ardentemente pela intervenção da Divindade na história do mundo. Com efeito...

 

Entre os pagãos, passara-se a época dos grandes filósofos Platão e Aristóteles (séc. V/IV a.C.), que muito estimavam a razão humana e a sua capacidade de tornar o homem feliz. A Filosofia, representada pelo Estoicismo e o Epicurismo, entrara em declínio, chegando a tornar-se cética. Daí decorria naturalmente a depravação moral. Simultaneamente, porém, no Império greco-romano soprava, provindo do Oriente, um novo tipo de sabedoria, a qual já não esperava salvação por via intelectual, mas pela mística, ou seja, pela observância de ritos e mortificações que, pondo o homem em mais íntimo contato com a Divindade, lhe dariam participação na natureza e na felicidade dos deuses; tais eram as religiões ditas «de mistérios» (de Isis, Cibele, Mitra...). Em consequência, o desejo de uma salvação proveniente do Alto e benignamente concedida pela Divindade estava, mais do que nunca, vivo entre os pagãos do Império greco-romano no limiar da era cristã.

 

Entre os judeus, a humilhação do povo subjugado pelos gentios desde o séc. VI a.C. era motivo de férvida expectativa messiânica (se bem que esta fosse não raro contaminada por entusiasmo nacionalista e por ódio aos povos estrangeiros). A Lei de Moisés excitara em Israel a consciência da miséria moral e da necessidade do Messias prometido (cf. S. Paulo, Rom 5,20 ; Gál 3, 19).

 

Assim a Providência quis, por via paradoxal, preparar o gênero humano para receber o Salvador: em vez de enviar o Redentor à terra justamente quando os homens se achavam no ponto mais elevado de suas produções filosóficas e de sua vida moral (o que seria, humanamente falando, muito «lógico»), Ela quis vir ao encontro da humanidade justamente quando esta tomava consciência da sua absoluta incapacidade de se consumar; Deus quis assim cavar o vazio do homem para nele introduzir o dom perfeito. A salvação destarte devia parecer o que ela de fato é: dom totalmente gratuito, que nem a sabedoria nem a virtude das criaturas podem por si mesmas merecer.

 

2) Positivamente, o Império Romano criou um quadro social e geográfico que muito favoreceu a difusão do Evangelho.

 

Na verdade, reunindo em um único e grande Estado povos heterogêneos situados desde a Síria até a Espanha, desde o Nilo até o Danúbio, Roma fez cair barreiras, que poderiam dificultar a deslocação dos missionários e a propagação da Palavra de Deus. A Roma se devem outrossim a unidade de língua e cultura geral, assim como a mesma legislação vigente em tão diversas terras, certa facilidade de transportes por terra e por mar e, por fim, a era de paz e boa ordem que o Imperador Augusto instaurou após longo período de guerras civis.

 

A Providência Divina houve por bem servir-se de tais circunstâncias para assinalar a plenitude dos tempos e a vinda do Messias sobre a terra, ó insondáveis desígnios da Sabedoria de Deus!

 

«Quão incompreensíveis são os seus juízos e impenetráveis os seus caminhos ! Na verdade, quem conheceu o pensamento do Senhor ? Ou quem foi seu conselheiro ? Ou quem Lhe deu em primeiro lugar, para que tenha a receber de volta ?» (Rom 11,33-35).

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


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