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PERGUNTE e RESPONDEREMOS 038 - fevereiro 1961

 

JOÃO BATISTA, O MAIOR OU O MENOR?

P. S. S. (Curitiba): «Como se explicam as palavras de Jesus aparentemente contraditórias:. 'Em verdade vos digo: entre os que nasceram da mulher, nenhum se levantou maior do que João Batista. Contudo o menor no reino dos céus é maior do que ele'.» (Mt 11,11; cf. Lc 7,28)?»

 

A declaração de Jesus compreende evidentemente duas partes, divididas entre si pela adversativa «contudo». Analisemo-las sucessivamente.

 

Mt 11, 11a

Mt 11, 11a: «Entre os que nasceram da mulher, nenhum se levantou maior do que João Batista».

1. Antes do mais, duas observações linguísticas se impõem:

 

«Os que nasceram da mulher» é expressão semítica, frequente entre os rabinos, que designa simplesmente «os homens» cf. Jó ' 11,2.12; 14,1; 15,14; 25,4; 4 Esdr 4,6; 8,25.

 

«Levantou-se» (egégertai, em grego), em vez de «existiu», equivale a «foi suscitado»; põe em relevo o ofício, a função de que uma personalidade é revestida, e não pròpriamente a existência dessa pessoa.

 

2. Dito isto, o sentido das palavras de Cristo se depreende com facilidade. Tenham-se em vista os versículos 9 a 10 anteriores: Jesus aí afirmou que João, por sua tarefa de preparar os caminhos do Messias, era mais do que um Profeta do Antigo Testamento. Por conseguinte, o ministério do Batista vinha a ser maior ou mais digno do que o dos oragos da Antiga Aliança. Com efeito, ao Batista tocara um papel que a nenhum outro homem de Deus fôra até então outorgado: João foi Precursor direto,... pôde não somente anunciar de antemão, mas também apontar, como presente na terra, o Messias aguardado; ele O viu e O batizou, à diferença dos demais justos do Antigo Testamento.

 

3. O contexto, portanto, de Mt 11, 11a incute as duas seguintes conclusões:

- a eminente dignidade de João, afirmada por Jesus, visa o passado, não o futuro, isto é, ela se delineia sobre a história sagrada do Antigo Testamento, não se projeta sobre os tempos do Novo Testamento;

- é o ofício ou a função de João que Jesus tem em vista no seu elogio, e não a santidade pessoal do Batista (esta era certamente insigne, mas Cristo não a quis focalizar no caso).

 

Mt 11, 11b

1. O Senhor volta agora seu olhar para o «Reino dos Céus». Esta expressão, vasada no expressionismo judaico antigo, designa a nova ordem de coisas ou o regime de salvação inaugurado pelo Messias (cf. Mt 5,19s); com outras palavras, significa a vida cristã ou a vida na Igreja, que foi apregoada por Jesus desde o início do seu ministério público, mas só foi propriamente fundada após o desenlace de João Batista, ou seja, por ocasião da morte do Senhor na Cruz.

 

Ora, afirma Jesus, o mais simples membro da Igreja possui ainda maior dignidade do que a de Precursor do Messias (Cristo), pois é membro enxertado em Cristo pelo batismo (cf. Rom 6, 5). João mesmo reconhecia ser apenas o amigo do Esposo, Cristo (cf. Jo 3,29s); o cristão, porém, não é apenas amigo; é, antes, membro do Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja; ele faz parte integrante da própria Esposa (cf. 1 Cor 12,27; Ef 5,24-32).

 

2. Em suma:

a) João foi o arauto imediato do Reino dos Céus e do Messias; por isto sua missão ultrapassa em dignidade a de qualquer Profeta anterior;

b) contudo o Batista ficou no adro do Reino ou da Igreja; por isto sua posição não atinge a dignidade de um cristão batizado, que, pelo fato mesmo de estar batizado, revestiu o Cristo (cf. Gál 3,27); deixou de estar sob o regime dos «tutores e pedagogos provisórios» (=Lei de Moisés) ou sob os tipos e figuras do Antigo Testamento, para entrar no regime dos filhos de Deus, aos quais é dado clamar: «Abba, Pai» (cf. Gál 4,1-7.22-31).

 

Este duplo aspecto do Precursor de Cristo se deve ao fato de que ele constitui, por assim dizer, como que a linha limítrofe entre o Antigo e o Novo Testamento. Observa S. Agostinho: «Videtur Ioannes interiectus quidam limes Testamentorum duorum. — João parece ter sido constituído linha de fronteira entre os dois Testamentos» (ed. Migne lat. 38,1328).

 

3. Como se vê, a comparação de Jesus recai não sobre a santidade pessoal de João e a santidade pessoal de um cristão, mas sobre a santidade dos estados ou das duas ordens de coisas em que se encontram respectivamente o Batista e o cristão. — Pode muito bem acontecer que um cristão seja pouco fiel às graças que recebe no regime nobilíssimo do Novo Testamento, ao passo que João foi certamente muito fiel às graças que recebeu no regime do Antigo Testamento; em tal caso, o cristão vem a ser menos santo do que o Batista. Aliás, a santidade de João ou a correspondência deste justo à graça de Deus é algo de eminente, de sorte que na Ladainha de todos os Santos ele vem colocado logo após a Virgem Santíssima e os anjos.

 

À guisa de complemento, pode-se acrescentar que não há fundamento bíblico para se dizer que João foi purificado do pecado original no seio materno, de modo a nascer sem a mancha original (embora a tenha realmente contraído). O texto muito evocado de Lc 1,41 quer apenas dizer que João Batista «exultou no seio materno», isto é, foi especialmente movido pelo Espírito Santo para designar a presença da Mãe de Deus, por ocasião da visita desta a Santa Isabel; disto nada se pode concluir com relação ao cancelamento da culpa original.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


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