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PERGUNTE e RESPONDEREMOS 037 - janeiro 1961

 

LIBERDADE DA IGREJA

HISTÓRIA DO CRISTIANISMO

POLÍTICO (São Paulo): «Até que ponto se estende a liberdade de ação que a Igreja reivindica para si no mundo moderno? Como é que a Igreja considera a sua convivência com os credos não católicos? Será hostil ou tolerante em relação a eles?»

 

A Igreja tem consciência de ser, como diz São Paulo (cf. Col 1, 24), «o corpo de Cristo» prolongado através dos séculos; tem consciência, portanto, de ser a portadora da Verdade e da Vida para todos os povos. Existente neste mundo, Ela se defronta com grupos humanos que não lhe aderem e que chegam mesmo a disseminar erros filosóficos e religiosos. Põe-se então a questão, abordada desde os inícios do Cristianismo: que fazer em relação a tais grupos? Será oportuno usar de violência para reprimir a sua ação ou mesmo sufocar a sua existência? Ou mais valerá recorrer à tolerância, esperando-se que no fim dos tempos o Pai do Céu separe do trigo o joio, e dê a cada qual a respectiva sanção?

 

É este segundo alvitre, sem dúvida, o que o Senhor no Evangelho incute (cf. Mt 13,30). A Igreja, portanto, há de reconhecer livre existência a grupos de religião ou filosofia não católicas.

 

De outro lado, porém, a Igreja, consciente de haver recebido de Deus o depósito da Verdade, sabe que lhe toca o dever de transmitir a Verdade a todos os homens; nem Lhe é licito tornar atitudes ambíguas, que de algum modo concorram para encobrir a face da Verdade perante as multidões. A Verdade tem seus direitos, e impõe severos deveres a todos os homens (tanto aos que estão dentro da Igreja como aos que estão fora dela), pois todo homem, já pelo fato de possuir inteligência, tem a obrigação primária de nortear seus passos pela Verdade. Daí a responsabilidade que incumbe à Igreja de não adotar «tolerância» tal que possa ser interpretada como incerteza de possuir o patrimônio da Verdade ou como indiferentismo.

 

Eis os termos em que se põe o problema das relações da Igreja com as entidades civis (governos de Estado) e com as confissões não católicas que existem neste mundo.

 

Este problema tem sido focalizado com interesse crescente, principalmente a partir do séc. XVI (surto do Protestantismo), merecendo nos últimos decênios especial atenção por parte dos teólogos católicos.

 

Está fora de dúvida que não se pode pretender chegar a uma solução «padrão», válida para todos os tempos e países. A história do Cristianismo mesma aponta uma série de atitudes diferentes da Igreja ao configurar as suas relações com as entidades deste mundo: houve ora maior tolerância, ora colaboração (em toda a extensão em que era possível), ora choques e lutas... Essas diversas atitudes foram motivadas pelo fato de que a S. Igreja na sua atuação pública tem e terá que observar sempre

a)             certos princípios rígidos, dos quais não Lhe é licito abrir mão, pois são os direitos da Verdade, incutidos objetivamente pela hierarquia dos valores ou pelo próprio Deus;

b)             as circunstâncias variáveis da história, que exigem adaptação dos princípios, adaptação, porém, que nunca pode equivaler a traição ou desvirtuamento.

 

Esta adaptação (homogênea) dos princípios imutáveis às circunstâncias mutáveis dos tempos tem sido incutida pelos Papas principalmente a partir de Leão XIII, cujas palavras vão aqui citadas:

«Ao descermos das abstrações para o terreno dos fatos concretos, preservemo-nos de renegar os princípios estabelecidos: permanecem inabaláveis. Encarnando-se, porém, nos fatos, esses princípios se revestem de uma nota de contingência devida às circunstâncias do ambiente ao qual eles são aplicados» (enc. «Em meio às solicitudes», de 1892).

 

São palavras de Pio XII:

«O que chamamos Ocidente ou mundo ocidental, sofreu profundas modificações a partir da Idade Média: a cisão religiosa do séc. XVI, o racionalismo e o liberalismo, que produziram o tipo de Estado do séc. XIX, a política da prepotência e a civilização laicizada. Era, pois, inevitável que as relações da Igreja Católica com o Ocidente mudassem de aspecto» (Alocução ao X Congresso Internacional das Ciências históricas, de 7/IX/1955).

 

Sendo assim, apresentaremos a resposta à questão do cabeçalho, observando o seguinte roteiro: 1) breve consideração de alguns quadros da história das relações da Igreja com as entidades não católicas; 2) proposição dos princípios que constituem o mínimo de exigências da Igreja frente às potências deste mundo.

 

1. Alguns quadros da história do Cristianismo

 

Distinguiremos abaixo três quadros, que significam as três grandes etapas das relações da Igreja com os poderes da terra.

 

1.1) Após a queda do Império Romano antigo, cuja civilização estava baseada no paganismo, a Igreja reergueu a sociedade ocidental, comunicando aos povos germânicos e latinos a fé de Cristo, juntamente com a cultura clássica. Formou-se assim a cultura medieval, cujos alicerces eram o Evangelho e a vida cristã; o Ocidente medieval, cristão como era, adotava o ideal da «Cidade de Deus» ou da «Republica christiana», isto é, visava uma ordem de coisas em que a fé e a adesão a Deus (ao único Deus revelado por Cristo e pela Sta. Igreja) constituíam o primeiro valor; a autoridade eclesiástica e a autoridade civil eram tidas como «ministérios» do próprio Deus, destinadas a colaborar intimamente entre si a fim de instaurar mais e mais a Cidade Santa neste mundo.

 

Nessas circunstâncias, qual era o modo de proceder dos cristãos em relação aos não cristãos?

 

— Note-se logo que esse tema nunca foi objeto de definição do magistério oficial da Igreja na Idade Média. As atitudes concretas eram sugeridas pelos teólogos e adotadas por eclesiásticos e leigos de acordo com as circunstâncias da época.

 

- S. Tomás (+1274) resume bem nos seguintes termos o pensamento dos cristãos medievais:

 

A) Os governantes cristãos podem tolerar em seus territórios o exercício de cultos não cristãos; embora esses cultos professem erros religiosos e por si não tenham direito a existência legal, pode haver circunstâncias que justifiquem o seu exercício, circunstâncias tais como um bem a obter (conversão, por exemplo, dos não cristãos, que pela violência talvez não se convertessem) ou um mal maior (litígios, divisões, escândalos...) a evitar.

 

Eis o texto lapidar de S. Tomás:

«O governo exercido pelos homens é participação do governo que Deus exerce; por isto, deve imitar a este. Ora Deus, embora seja todo-poderoso e sumamente bom, permite aconteçam no mundo alguns males que Ele poderia evitar; permite-o, pois, se impedisse tais males, ou seriam impedidos maiores bens ou maiores males se seguiriam.

Consequentemente, também no governo exercido pelos homens, os governantes com razão toleram alguns males, a fim de não impedir certos bens ou não promover maiores males... Assim, embora os que não têm a reta fé errem por seus ritos, podem ser tolerados, seja por causa de algum bem que deles se derive, seja por causa de algum mal a ser evitado» (S. Teol. II/II 10,11c).

 

O tratamento assim preconizado dever-se-ia aplicar, conforme o S. Doutor, tanto aos pagãos como aos judeus e aos muçulmanos, pois não se pode pela forca constranger quem quer que seja a abraçar a reta fé ou a tornar-se fiel cristão (principio solene já formulado por S. Agostinho, In Jo 26,2, muitas vezes repetido por S. Tomás, e ainda recentemente recomendado pelos Pontífices Leão XIII e Pio XII).

 

B) Em relação, porém, aos hereges (cristãos que se desviam da reta fé), S. Tomás propunha outra atitude: não admitia, pudesse haver tolerância para com os seus cultos. Reconhecia, sim, a todo e qualquer indivíduo plena liberdade, para abraçar ou não a reta fé; mas, uma vez que alguém tivesse aceito a fé, julgava que lhe incumbia a estrita obrigação de a guardar: «Ninguém está obrigado a fazer uma promessa; todos, porém, têm a obrigação de cumprir as promessas que hajam feito. Assim também a aceitação da reta fé a ninguém se impõe; a conservação, porém, da fé aceita é obrigatória. Por isto os hereges têm que ser compelidos a guardar a reta fé» (S. Teol. II/n 10, 8 ad 3).

 

A última razão de tão rígida atitude é a consciência profunda que os medievais tinham do valor da fé. Esta, para eles, representava um bem tão evidente que a apostasia ou o desvio da fé só lhes parecia explicável

- ou por culpa própria do herege ou do apóstata; este estaria nutrindo más intenções, servindo a interesses indignos, combatendo conscientemente a verdade;

- ou por irresponsabilidade moral do sujeito. Este, se não tivesse culpa, deveria ser considerado como inconsciente de seus atos.

 

Em ambos os casos, porém, o cristão medieval julgava haver motivos que o obrigavam a intervir com medidas oportunas. Ora a fé era tida como um bem não somente da Igreja e do foro religioso, mas também do Estado e do foro civil; em consequência, era óbvio, aos olhos do medieval, que tanto o poder eclesiástico como o civil se deviam empenhar na repressão das heresias; leis semelhantes às que puniam os delitos contra o bem comum temporal deveriam ter aplicação nos casos de delito contra o bem comum eterno dos cidadãos ou da «Cidade de Deus»; a polícia do Estado, portanto, devia entrar em ação também nestes casos É claro, porém, que os processos empreendidos contra as heresias não visavam primariamente fazer os hereges professar de novo a reta fé (embora isto fosse muito desejável), mas tinham, antes do mais, por objetivo impedir o alastramento de suas atividades, tidas como nocivas à Igreja e ao Estado, ou seja, visavam extinguir o perigo de sedução do erro.

 

É tal mentalidade, comumente implantada na Idade Média, que explica a instituição da Inquisição. Esta, considerada em si mesma ou em seus princípios doutrinários e jurídicos, não somente nada tinha de repulsivo para o medieval, mas devia, antes, parecer algo de bom e necessário. É de lamentar, porém, que na prática se hajam dado abusos, devidos em parte à fraqueza de certos oficiais eclesiásticos, mas devidos também em proporção não exígua à demasiada ingerência do poder secular em assuntos que eram do foro estritamente religioso.

 

A tática e a mentalidade da Inquisição se acham, de resto, explanadas em «P. R.» 8/1957, qu. 9.

 

1.2) Uma vez terminada a Idade Média, do séc. XVI aos nossos dias, as correntes de pensamento e as circunstâncias concretas da vida pública têm mudado constantemente em direção da apostasia e do materialismo. Daí também a mudança de atitude das autoridades da Igreja em relação aos grupos não católicos.

 

No séc. XVI, com a irrupção do Protestantismo, os fiéis católicos se viram ladeados por populações inteiras filiadas à heresia; o Protestantismo chegou mesmo a ser a religião das autoridades civis em algumas regiões da Europa. É o que explica um primeiro passo dado pelos teólogos católicos no sentido de alargar a tolerância que S. Tomás preconizava ao tratar de judeus, muçulmanos e pagãos: também aos protestantes as autoridades católicas deveriam reconhecer liberdade de culto desde que se pudesse esperar com isto conseguir algum bem ou evitar mal maior.

 

É o que em 1584 preconizava João Molanus, Reitor da Universidade de Lovânia, no tratado «De fide haereticis servanda»; Molanus admitia mesmo que os católicos se comprometessem por um pacto a garantir a liberdade de culto dos protestantes, «iustis et gravibus de causis», desde que, para isso, houvesse causas justas e ponderosas (m c. 17; cf. I c. 23).

 

Após a consolidação da ps.-Reforma protestante a posição de Molanus tornou-se clássica entre os católicos do séc. XVII.

 

1.3) Um passo ulterior foi dado no século XIX, quando os teólogos estenderam o mesmo principio de tolerância às relações dos católicos com as ideologias não católicas em geral (ao lado do Protestantismo, grande número de outras escolas tomou vulto na mesma sociedade em que vivem os católicos).

 

Um dos primeiros arautos dessa posição muito larga foi a revista dos jesuítas italianos «Civiltà Cattolica», em seu número de 2/X/1833: condenava em princípio as ideologias errôneas da época moderna, mas reconhecia que em certos casos, por motivos imperiosos, os governos católicos as poderiam tolerar nos seus territórios. Ora tal atitude foi reafirmada em 1885 por S. Santidade o Papa Leão XIII na encíclica '«Immortale Dei»:

«Se, de um lado, a Igreja julga não ser lícito colocar os diversos cultos em pé de igualdade legal com a verdadeira Religião, ela, de outro lado, não condena os Chefes de Estado que, em vista de um bem a atingir ou um mal a impedir, toleram, na prática, que esses diversos cultos tenham seu lugar no país».

 

Esta mesma fórmula foi mais uma vez incutida pelo S. Padre o Papa Pio XII, que assim confirmou, para os católicos de nossos dias, quanto já fora dito por Pontífices e teólogos anteriores:

«O dever de reprimir os desvios morais e religiosos não pode ser tomado como norma suprema de ação. Deve ser subordinado a normas mais elevadas e mais gerais que em certas circunstâncias permitem que se imponha... como o melhor alvitre o de não impedir o erro, a fim de de promover um bem maior...

 

Um olhar para a realidade das coisas... mostra que o erro e o pecado se encontram no mundo em larga escala. Deus os reprova; não obstante, permite que existam. De outro lado, verifica-se que mesmo à autoridade humana Deus não impôs um preceito absoluto e universal (de repressão violenta) nem no setor da fé nem no da moral... Para não falarmos aqui de outros textos da S. Escritura..., Cristo na parábola do joio fez a advertência seguinte: 'No campo do mundo deixai crescer o joio juntamente com a boa semente por causa do trigo' (Mt 13,24-30)».

 

Donde conclui o Santo Padre: «Primeiramente: o que não corresponde à verdade e à lei moral, não tem objetivamente direito à existência, nem à propaganda nem à atividade. Em segundo lugar: não obstante, em vista de um bem superior e maior, pode-se justificar o fato de não se impedir por leis do Estado e meios coercitivos a existência do mal acima apontado* (Discurso aos juristas católicos Italianos, em 6/XII/1953).

 

Este texto exige algumas observações:

 

1)                         A posição de Pio XII está longe de significar relativismo doutrinário ou descaso da distinção entre Verdade e erro. Muito ao contrário, o Pontífice frisa muito claramente que existem no mundo erros doutrinários e morais e que estes em absoluto jamais poderão ser «legalizados».

 

2)                         A tolerância que o S. Padre preconiza para com tais erros (tolerância que não significa compromisso doutrinário, mas apenas convivência pacata) deve ser sempre motivada por razões imperiosas, isto é, deverá ter sempre em vista a possibilidade de se obter um bem maior do que o que se tem presentemente; nunca, portanto, poderá estar fundada sobre covardia ou displicência. Tal «fechar de olhos» covarde, longe de ser construtivo, tornar-se-ia contrário aos interesses da humanidade; a tolerância católica está, antes, baseada na esperança de que o homem, usando de sua inteligência e de sua liberdade (como de direito lhe compete), chegue a apreender a Verdade.

Sobre verdade e tolerância, veja-se «P. R.» 36/1960, qu. 6.

 

3)                          A largueza de vistas de que os Papas Leão XIII e Pio XII deram provas, não implica em derrogação a princípios dogmáticos anteriormente afirmados pela Igreja, nem significa «oportunismo traiçoeiro». Ao contrário, como consta do esboço histórico que apresentamos, é coerente com as atitudes da Igreja adotadas em épocas passadas: portadora de princípios imutáveis, a Igreja se viu e vê continuamente convidada a dar sentido vivo e preciso a esses princípios nas fases contingentes e mutáveis por que passa a história dos homens. O próprio Pio XII explica esse procedimento da Igreja:

«A Igreja, estendendo-se no mundo inteiro, passou no decorrer dos séculos por mudanças diversas (de periferia); em sua essência, porém, Ela sempre permaneceu idêntica a si mesma, pois a multidão de elementos que Ela recebeu, foi desde o inicio constantemente subordinada às mesmas leis fundamentais» (Discurso ao X Congresso Internacional das Ciências históricas, em 7/IX/1955).

 

1.4) Posto o princípio da tolerância nos termos formulados por Pio XII, deve-se dizer que a Igreja não possui nenhum esquema elaborado de antemão e rígido, ao conceber hoje em dia as suas relações com as potências deste mundo. Ela é capaz de se adaptar às circunstâncias de vida de cada país, desde que não entrem em causa artigos de fé e de moral cristã; é justamente em vista dessa adaptação que as autoridades eclesiásticas têm assinado concordatas e tratados com os governos civis desejosos de regrar questões afins aos interesses da Religião e do Estado. Tais concordatas estão longe de corresponder sempre às mais íntimas aspirações da Igreja, como nota Pio XII no discurso aos juristas católicos da Itália proferido em 6/XII/1953; em todo caso satisfazem ao mínimo de exigências de que a Esposa de Cristo não pode abrir mão.

 

À guisa de exemplos, vão aqui alguns tópicos das concordatas mais recentes:

 

Em 1801, assinando uma convenção entre a Sta. Sé e a França, Napoleão recusava a expressão clássica «Religião de Estado», reconhecendo apenas que o Catolicismo era «a Religião da grande maioria dos cidadãos franceses». Contudo a concordata assinada em 1929 entre o Estado Italiano e o Vaticano designava o Catolicismo como «Religião do Estado». Com a Espanha Pio XII assinou uma concordata em que o governo espanhol reconhece: a Religião católica «continua a ser a única da nação espanhola; gozará dos direitos e privilégios que lhe competem de acordo com a Lei divina e o Direito canônico». Com Portugal, porém, foi travado em 1940 um acordo que não atribui ao Catolicismo o título de «Religião de Estado» nem estipula subsídio algum para os ministros do culto. A concordata com a Alemanha em 22/VII/1933 apenas reconhecia à Igreja «o direito de organizar e administrar suas tarefas de maneira autônoma dentro dos limites do direito comum».

É assim que espontaneamente se põe a questão abordada no parágrafo abaixo.

 

2. O mínimo de exigências no mundo moderno

 

Os «princípios inabaláveis» de que falava Leão XIII (texto citado à pág. 34), ou o mínimo de reivindicações que a Igreja, consciente de sua missão divina, apresenta ao mundo, podem-se resumir nos seguintes termos (o ensaio abaixo se deve a A. de Bovis S. J., L'Église dans la société temporelle, em «Nouvelle Revue Théologique» 79 [1957] 225-247).

A) Liberdade de pregar o Evangelho em todos os tempos e lugares, a todos os homens. É o que decorre do mandato de Cristo:-«Ide e ensinai a todos os povos» (Mt 28 19).

B) Direito de ministrar educação cristã à juventude.

 

Pode-se dizer que até o século passado ninguém contestava à Igreja essa faculdade; foi no séc. XIX que o Estado começou a reivindicar para si o poder exclusivo de educar. Desde então os Papas (a partir de Pio IX, em 1864) têm feito ouvir a sua voz firme e clara, sendo que Pio XI em 1929 redigiu um dos documentos mais expressivos a tal respeito: a encíclica «Divini illius Magistri», da qual seja aqui destacada a seguinte passagem; «Todo ensinamento... é necessariamente dado em função do fim último do homem. É o que explica que nenhuma forma de magistério possa estar isenta das normas da Lei de Deus, da qual a Igreja é a guardiã, a intérprete e a Mestra infalível» (Acta Apostolicae Sedis 22 [1930] 54).

Sobre a chamada «educação leiga», veja-se «P. R.» 5/1958, qu. 8.

 

C) Liberdade de se pronunciar sobre qualquer questão debatida na vida cotidiana, desde que algum interesse de índole religiosa ou moral esteja em jogo. Em outros termos: à Igreja toca o direito de intervir em todo e qualquer assunto aparentemente profano, não para dirigir positivamente os rumos temporais do mundo, mas para lembrar, em nome de Deus, os ditames da lei moral ou da consciência que possam estar implicados no caso (intervenção «ratione peccati», diz a fórmula antiga). É o que Leão XIII assim formula: «Tudo que nas coisas humanas... toca a salvação das almas e o culto de Deus (seja por sua natureza mesma, seja por estar relacionado com determinado objetivo), tudo isso é do alcance da autoridade da Igreja» (ene. «Immortale Dei», Denzinger 1866).

 

São múltiplas as aplicações práticas deste principio: confere à Igreja o direito de se pronunciar...

- em questões de Deontologia profissional, principalmente de Medicina (ciência que de muito perto toca o intimo do homem); as realizações modernas de transplantação de órgãos e tecidos, eutanásia, fecundação artificial, anticoncepcionismo, etc. afetam a consciência, isto é, as relações da criatura com o Criador; estão por isto sujeitas à palavra da Igreja (pois não há Ética meramente leiga; em qualquer de seus atos o homem toma posição diante de Deus, em favor... ou contra...); sobre «Moral leiga» veja-se «P. R.» 7/1958, qu. 5;

- em questões de modas, danças, concursos de beleza, esportes. Também as diversões são, em última análise, norteadas pelo Fim Supremo do homem: elas são tais que ou se podem conciliar com a Lei de Deus ou não (neste último caso, a Igreja tem a obrigação de as denunciar);

- em questões de Sociologia e Política... A Santa Igreja não está associada a partido político algum. Ela pode conviver tranquilamente com qualquer regime que lhe reconheça os direitos impreteríveis: «A Igreja Católica não se identifica com cultura nenhuma; sua essência lho proíbe. Ela está pronta a entreter relações com qualquer tipo de cultura. Reconhece e deixa subsistir o que, nelas, não se opõe à natureza» (Alocução de Pio XII ao X Congresso Internacional das Ciências históricas, em 7/IX/1955). — Desde, porém, que um homem público, um partido político ou um governo contradigam, por seu programa, suas declarações ou suas atitudes, à Lei de Deus e do Cristo, cabe à Igreja o grande dever de o indicar a seus filhos e à sociedade em geral.

 

Em suma, não há setor de atividade humana propriamente dita em que não esteja envolvida a consciência moral (a Filosofia ensina que todo homem, em última análise, sempre age em vista do seu Fim Supremo). Por conseguinte, também não há um setor da vida aparentemente profana dos homens em que a Igreja esteja desclassificada para proferir a palavra de Deus (na medida em que o bem e o mal moral aí entrem em causa).

 

A lista de direitos da Igreja que acaba de ser proposta, revela a aspiração básica da Esposa de Cristo: é a de dar alma ou estrutura à sociedade, fazendo que os homens, as instituições, e a cultura sejam portadores e comunicadores de um espírito — do espírito do Cristo —, ... sejam, por conseguinte, portadores da Verdade e do Amor de Deus Pai. Pio XII o dizia, muito claramente: «Hoje, como no passado, a Igreja é o fermento do gênero humano» (Alocução aos curas e pregadores, de Roma, em 8/111/1952).

 

Para poder desempenhar no tempo e no espaço essa sua missão, a Santa Igreja muito deseja a colaboração amigável do poder civil (desde que esta não implique em avassalamento da autoridade eclesiástica); «A Igreja não dissimula que Ela considera... como um ideal... a unanimidade de ação entre Ela e o Estado» (Pio XII, alocução ao X Congresso Internacional das Ciências históricas). A medida de tal colaboração será variável, desde que permaneçam incólumes as liberdades capitais da Santa Igreja; esta, contudo, jamais poderá deixar de desejar que o Estado a reconheça como sociedade sobrenatural, como depositária da Verdade, enfim como realidade transcendente que não pode ser simplesmente tratada segundo as normas do direito comum ou do direito que rege as demais entidades existentes neste mundo.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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