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PERGUNTE e RESPONDEREMOS 037 - janeiro 1961

 

SATANISMO

MORAL

HOMEM MODERNO (Rio de Janeiro): «Não é raro dizer-se que algum acontecimento parece diabólico ou satânico.

Que sentido pode ter esta expressão à luz da mentalidade moderna? Não será indício de pessimismo exagerado, sugerido pelas concepções fantasistas dos povos primitivos e medievais? Pode-se razoavelmente crer em Satã nos nossos dias?»

 

Já em «P. R.» 6/1958, qu. 5 tratamos da existência de Satã, assim como do pecado e da irrevogabilidade da sorte do Maligno.

 

Sem voltar diretamente a tais assuntos, interessa-nos aqui abordar o pequeno mistério que os termos «satânico» e «satanismo» sugerem na linguagem cotidiana.

 

Satã está realmente em foco nos tempos atuais e é alvo de contradição... Ao lado dos pensadores que, movidos por frio racionalismo, sorriem ceticamente ao ouvir falar de Satã e demônio, há grupos inteiros de pessoas que se dedicam fervidamente ao culto de Satã e seus satélites (haja vista o que se dá nos rituais da magia).

 

Diante da contradição verificada em torno de Satã, procuraremos abaixo delimitar o que há de certo e o que há de fantasista no assunto. Começaremos por recordar brevemente o que se deve entender por Satã; a seguir, analisaremos as características da mentalidade dita «satânica» ou «satanismo»; por fim, deduziremos algumas conclusões úteis para a vida do homem contemporâneo.

 

1. A realidade de Satã

 

Um dos principais motivos pelos quais o homem moderno se mostra cético em relação a Satã, é a maneira imperfeita pela qual lhe vem apresentado este conceito. Facilmente, ao se falar de Satã, afloram à mente ou as concepções mais ou menos grosseiras e fantasistas da iconografia primitiva e infantil (o diabo com seus chifres, cauda, lançando fogo pela boca, emergindo de um tanque de enxofre ardente, etc. ...), ou o conceito de uma substância por si má, co-eterna com Deus, disputando com Deus, de igual para igual, o domínio deste mundo.

 

Está claro que uma e outra destas concepções se chocam com a razão humana.

 

Na verdade, Satã é uma criatura de Deus Criador; é espírito não unido à carne (o que também chamamos «anjo»). Aos anjos Deus doou uma natureza boa, chamando-os a ser perfeitos e felizes mediante adesão ao Sumo Bem. Os anjos, porém, como criaturas inteligentes (todo espírito é dotado de inteligência), não podiam encontrar felicidade sem amor (pois o amor é uma das propriedades típicas dos seres intelectivos). Não há, porém, amor sem liberdade (amor extorquido ou encomendado não é amor). E não há liberdade sem escolha.

 

Daí decorre a necessidade de que os anjos optassem livremente por Deus (o Sumo Bem) ou contra Deus, a fim de obter a sua sorte definitiva (feliz ou infeliz).

 

Ora os anjos, submetidos a uma provação, em parte pecaram, abusando da sua liberdade de arbítrio. Já que não possuíam corpo, o seu pecado só podia ser o de orgulho: caíram, sim, na soberba de pretender ser como Deus, emancipando-se totalmente de Deus. E o seu alheamento a Deus é irrevogável, pois os anjos dotados de inteligência muito mais perspicaz do que o homem, logo no início da sua existência com uma só intuição puderam claramente ver o programa que deviam abraçar; nada lhes ficava obscuro ou oculto. Sua primeira decisão, por conseguinte, baseada em pleno conhecimento de causa e tomada com todo o empenho de sua personalidade, devia por isto ser definitiva (em caso contrário, a dignidade dos anjos seria vilipendiada; ser-lhes-ia denegada a responsabilidade de seu ato). Uma vez tomada essa decisão, quer para o bem, quer para o mal, Deus a respeitou e respeita; não mutila a liberdade de arbítrio que Ele concedeu, permitindo, em consequência, que cada criatura goze da sorte definitiva que ela mesma escolheu.

 

Dentre os anjos maus (também ditos «demônios»), costuma-se realçar um, chamado Satã, (em hebraico, «o Adversário») . Este, o mais inteligente de todos os anjos rebeldes, veio a ser «o Adversário no 1» do Senhor Deus, consoante o adágio: «Corruptio optimi péssima. — O melhor, quando se corrompe, torna-se o pior de todos os seres». O Criador lhe concede, dentro dos limites traçados pela sábia Providência Divina, exercer neste mundo a sua influência a fim de acrisolar a fé e a virtude dos homens, ou seja, em vista de uma finalidade boa.

 

Satã (ou Satanás), por conseguinte, apresenta-se aos homens como um imitador de Deus às avessas ou, no dizer do cristão Tertuliano (séc. III), como o macaco ou o palhaço de Deus («simia Dei»); Eliphas Lévi (+1875) o caracterizava nos seguintes termos (que devem ser devidamente temperados): «Daemon est inversus Deus. — O demônio é Deus invertido ou ao avesso» (Dogme et Rituel de la Haute Magie).

 

A posição de Satanás, que equivale à renegação constante e sistemática de Deus, mas que, apesar de tudo, se acha englobada dentro dos sábios desígnios da Providência Divina, é muito claramente esboçada pelas palavras que Goethe (+1832) atribuiu ao Maligno:

«Sou o espírito que sempre nega...

Pertenço a essa Força que sempre comete o mal,

Mas que só consegue servir ao Bem». (Faust, prólogo).

 

Em sua atitude de contínua renegação a Deus, Satã não pode deixar de negar também qualquer criatura de Deus; cai outrossim em perene conflito consigo mesmo ou com sua natureza feita por Deus e para Deus. Em uma palavra: pode-se dizer que Satã, por definição, é a contradição subsistente contra todos e contra tudo.

 

Na literatura, antiga e medieval, tornaram-se clássicos alguns tópicos que visavam realçar o caráter contraditório de Satã. Eis, a título de ilustração, alguns dos mais significativos:

 

Os homens que cultivavam o simbolismo dos números, por exemplo, atribuíam a Satã a cifra «dois», pois, se o número «um» significa princípio, simplicidade e perfeição, o número «dois» designa naturalmente oposição, divisão e contradição. O número «dois» lembra a encruzilhada na qual se bifurca o caminho, dando um derivativo que leva para a perdição e a morte. — Assim se explica que o demônio na iconografia seja representado com dois chifres, com os pés fendidos e com um cajado de duas pontas ou bidente na mão.

 

Na Idade Média registrou-se o aparecimento de um feiticeiro chamado Eon, camponês da Bretanha, que, na base de pretensas visões místicas, propugnava uma subversão total da sociedade em sentido socialista ou comunista. Ora Eon usava uma forquilha das que os agricultores empregam para revolver o feno, e dizia que, quando a erguia com o cabo para cima, era Deus quem mandava; quando, porém, a voltava com os dentes para o alto, era Satã (ou a divisão e contradição) quem ordenava. Destarte era simbolizada a característica de inversão ou contradição que classicamente assinala Satã.

 

Os últimos fundamentos da crença na existência de Satã se acham explanados em «P. R.» 6/1958, qu. 5. A irrevogabilidade da sua sorte é explicada não somente nesse artigo, mas também no que dissemos sobre o inferno em «P. R.» 3/1957, qu. 5.

Uma vez proposta a genuína noção de Satã, importa-nos analisar o. que se chama em nossos dias

 

2. Mentalidade satânica ou Satanismo

 

Após breve reflexão, verifica-se que «satânico», no modo de falar contemporâneo, vem a ser tudo aquilo que, assumindo proporções titânicas, gigantescas, se ergue com toda a veemência contra o Supremo Ser tradicionalmente reconhecido como tal (Deus).

 

O satanismo equivale assim a um desafio ou repto do homem contra Deus. Quem é Deus, por definição? — O Absoluto. — Ora no satanismo o homem se equipara, ou melhor, se sobrepõe a Deus, mesmo que não creia em Deus. Em outros termos: o satanismo se apresenta como um contraste que por suas dimensões parece atingir o limite extremo das possibilidades humanas: tudo aquilo que há de grandioso dentro do homem é posto em oposição àquilo que os homens sempre julgaram ser o único Valor simplesmente grandioso: Deus. O satanismo é o mistério do contingente que pretende ser absoluto ou do finito que pretende ser infinito ou do mortal que pretende ser imortal.

 

O gigantismo desse contraste se acha cristalizado na filosofia de Nietzsche (+1900), que proclamava a morte de Deus e saudava, consequentemente, o surto próximo do Super-Homem!

 

O homicídio é sempre algo de surpreendente e espantoso. Não obstante, tudo que há de espantoso no homicídio é sem comparação ultrapassado pelo satanismo, que vem a ser o deicídio, ao menos intentado, como se já não bastasse à malícia humana matar o próximo, mas fosse necessário tentar ferir o infinito mesmo.

Tais são as características marcantes do satanismo.

 

2. Consideremos agora algumas das realizações do homem contemporâneo que bem parecem reproduzir atitudes satânicas.

 

2.a) O mito de Prometeu e o Marxismo

 

Todo o satanismo do mundo grego está resumido no mito de Prometeu.

Prometeu é o herói da mitologia grega que desafiou Júpiter, o Pai dos deuses, em nome do homem que se erguia contra a Divindade ou em nome da terra que se levantava contra o céu. Roubou o fogo dos deuses e o entregou aos homens. O mito de Prometeu representa o papel do homem que arroga a si o poder de construir o mundo por suas próprias forças, dando fogo (luz e calor, bem-estar) aos seus contemporâneos, em vez de esperar esses bens do Alto.

Ora Karl Marx escrevia numa das páginas iniciais da sua obra literária:

 

«No calendário filosófico (marxista), Prometeu ocupa o primeiro lugar entre os santos e os mártires» (Différence de la philosophie de la nature chez Démocrite et chez Epicure, avant-propos).

 

Marx tinha consciência de reproduzir a atitude de Prometeu ou do herói que arroga a si o poder de comunicar aos seus semelhantes aquilo que outrora eles esperavam do céu: verdade e felicidade.

 

Por sua vez, o marxismo contemporâneo, constituído em ateísmo-militante, parece ser a continuação fiel do satanismo de Prometeu e de Karl Marx; tenha-se em vista o «gigantismo» das declarações e das previsões que o comunismo moderno lança ao mundo!

 

2.b) O «Fausto» de Goethe e a sede de saber.

 

Em nossos tempos, mais ainda do que Prometeu, é Fausto evocado como tipo da mentalidade do homem moderno: Fausto representa o homem que tenta arrebatar não propriamente o poder de Deus, mas o saber transcendente, à custa de um pacto com Satã ou à custa de «satanificação».

 

Fausto parece ter sido um astrólogo e adivinho charlatão de nacionalidade alemã, que terá vivido de 1485 a 1540. A seu respeito, muito escreveram os poetas e romancistas europeus, como se houvesse realizado maravilhas com o auxilio do demônio, tendo finalmente a sua alma sido levada por Satã quando faleceu.

 

O poema alemão de Lenau (1836) dá a forma mais explícita a essas lendas, forma que também se vê no poema de Goethe. Na obra de Lenau, Fausto aparece à procura dos segredos da natureza; não os encontra nem nos anfiteatros de anatomia nem nos laboratórios de química nem nos mistérios das florestas, onde ele passeia sequioso. Finalmente defronta-se com Mefistófeles...

 

O nome «Mefistófeles» vem provavelmente de «Megistophiel». Ophiel, do grego ophis (serpente), era o sobrenome de Hermes Trismegistos, patrono dos feiticeiros da antiguidade. O vocábulo grego «megistos» significa «máximo». Na literatura do séc. XVI, Mefistófeles (a Serpente Máxima ou o Mago Máximo) foi classificado entre os sete príncipes infernais.

 

Encontrando-se com Mefistófeles, no poema de Lenau, o «Dr. Fausto» resolve vender a sua alma, à condição de que todas as suas aspirações de saber sejam satisfeitas. Começa então a passar por uma série de diversíssimas aventuras, ao termo das quais se sente exausto e desgostoso. Precipita-se então do alto de uma rocha, e morre, caindo a sua alma sob as garras de Mefistófeles, que a leva consigo.

 

Pode-se ver no Fausto da literatura o tipo do homem contemporâneo, que, estribando-se na ciência, tenta fazer a concorrência ou a guerra a Deus.

 

Comentando as figuras de Prometeu e Fausto na bibliografia moderna, Nicolas Corté observa:

 

Grave «é um certo titanismo contemporâneo, que eiva de ciência e de técnica e pretende bastar tanto a si como ao gênero humano, com desprezo de todas as elevadas aspirações que Cristo despertou no mundo.

 

A palavra de Cristo: 'De que serve ao homem conquistar o universo se vem a perder a sua alma?', esse titanismo responde orgulhosamente: 'De que serve ao homem salvar sua alma, se ele renuncia a ganhar o universo?'

 

O homem moderno nutre as ambições do antigo Prometeu. A descoberta dos mistérios do átomo parece abrir-lhe possibilidades indefinidas. Em. consequência, existe em estado difuso até no seio das massas um satanismo latente, que consiste em tudo esperar da ciência e da técnica, em nada mais esperar de Deus, em vender cada um a sua porção de paraíso em troca do prato de lentilhas do conforto terrestre» (Satan, L'Adversaire. Paris 1956, 111).

 

Uma das aplicações mais requintadas do poder e da técnica ao serviço do satanismo é a chamada «lavagem cerebral», de que trata a questão 1 do presente fascículo.

 

2.c) O culto de Satanás e o senso religioso do homem moderno.

 

Por mais incrível que isto pareça, Satanás, que classicamente desperta nas almas atitudes de horror e espanto, tem sido em nossos próprios dias objeto de culto organizado e pomposo.

 

Assim, aos 29 de março de 1948, faleceu em Londres um personagem importante, Harry Price, dado à Metapsíquica, à demonologia e ao culto de Satã, secretário perpétuo do «Conselho de pesquisas psíquicas» («Council for psychical investigation») da Universidade de Londres. Em um de seus relatos Price observava:

 

«Em todas as zonas de Londres, centenas de homens e mulheres, de elevada cultura e de famílias distintas, adoram Satanás e prestam-lhe culto perpétuo; a magia negra, a bruxaria, a evocação do Diabo, essas três formas de 'superstição medieval' são hoje praticadas em Londres numa escala e com licenciosidade desconhecidas na Idade Média» (citado por A. Romeo, Satanismo, em «Enciclopédia Cattolica» XI 1959).

 

Aos 2 de dezembro de 1947 morreu em Brighton (Inglaterra) com mais de 70 anos de idade, um Sr. Aleister Crowley, Grão-mestre da magia negra, fundador de duas revistas especializadas em Satanismo: «Gnosis» e «Lúcifer». Abriu em Londres um templo satânico, ainda agora dedicado ao culto de Satã; neste cantam-se hinos redigidos por Crowley, cujos títulos significativos são: «Coletas para a Missa Gnóstica, Hino a Satã...». Os discípulos de Crowley repetem tais cantilenas sobre o túmulo do mestre, juntamente com o célebre «Hino a Satã» de Carducci.

 

Também é certo que em algumas lojas da Maçonaria se praticou a profanação de hóstias eucarísticas consagradas no culto católico. Assim em Friburgo (Suíça), à Rua Grand Fontaine 41, ainda hoje se pode visitar numa ampla gruta uma capelinha católica ali fundada para substituir um templo em que se praticavam ritos satânicos de profanação eucarística.

 

Sabe-se também que no século passado esteve em uso a chamada «Missa Negra», verdadeira pantomima que caricaturava a celebração da Sta. Missa, copiando de certo modo o ritual dos «sabás» das bruxas medievais; para fazer isso, eram convidados, na medida do possível, sacerdotes apóstatas. — Tal prática bem mostra como Satã é o «macaco de Deus», ou seja. o instigador de artes e ritos que visam parodiar as coisas de Deus.

 

Por fim, seja mencionado como expressão de satanismo algo que em aparência é mais vago, mas não deixa de ser muito sintomático:

 

2.d) O relativismo da mentalidade contemporânea.

 

O mundo moderno tende inegavelmente a cancelar os limites da Verdade e do erro, do Bem e do mal, fazendo do erro a verdade..., do mal um bem, e vice-versa.

Esse relativismo toma as formas mais variadas e elegantes possíveis, das quais algumas merecem especial destaque:

 

a) o destemor e a aparência de legalidade tranquila com que se praticam os pecados mais estridentes. J. K. Huysmans, aliás, definia o satanismo como sendo «a alegria proibida de transferir para Satanás as homenagens e as preces devidas a Deus..., a alegria de cometer, para ultrajar mais gravemente a Cristo, os pecados que Ele mais explicitamente condenou: a contaminação do culto sagrado e a orgia da carne».

 

b) O laicismo, que propugna a educação e a vida na sociedade sem profissão de fé religiosa, como se fosse possível a neutralidade diante do dilema: «Por Deus ou contra Deus». Na verdade, essa pretensa neutralidade encobre elegantemente uma hedionda falsidade: quem não faz de Deus o centro de toda a sua vida, O renega simplesmente, pois, por definição, Deus não pode estar em lugar secundário ou periférico.

 

A respeito do laicismo veja-se «P. R.» 5/1958, qu. 8.

 

c) O cinismo da literatura, do cinema, do teatro e das artes contemporâneas em geral. Tende-se a colocar uma «pitada de sal picante», uma nota pouco moral, em cada quadro apresentado por romancistas, poetas e artistas contemporâneos. A mentalidade que norteia esse comportamento é bem expressa pelas palavras de Jacob Boehme, ocultista protestante do séc. XVII (1575-1624): «O diabo é o cozinheiro da natureza; sem ele a vida não seria mais do que uma papa sem sabor».

 

Não há dúvida de que o gosto pela pornografia e pelo vilipêndio dos mais nobres ideais tomou hoje em dia proporções satânicas. Desejando tornar-se popular, um escritor sabe que o conseguirá mediante a exploração requintada de certos temas impudicos; para isso encontrará sempre público ávido.

 

d) Por fim, note-se a tendência desenfreada a afirmar a autonomia da consciência humana. O próprio «eu» procura ser valorizado de maneira absoluta, de sorte que qualquer restrição imposta ao individualismo e aos instintos cegos da natureza é tida como fruto de cultura e educação antiquadas. Esse individualismo tem uma de suas expressões mais recentes e características na mentalidade existencialista, principalmente no sartrismo. Para Sartre, tudo é absurdo, tudo é objeto de náusea, de tal modo que «o inferno são os outros» (afirmação esta satânica, porque diametralmente oposta à mensagem cristã, segundo a qual os outros ou os semelhantes são a continuação de Cristo na terra; cf. Mt 25,40).

 

3. Conclusão

 

A mentalidade moderna está inegavelmente marcada por um contraste, por aquele contraste que caracteriza justamente a figura de Satã na teologia cristã e na crença comum dos povos e que, por isto, bem pode ser chamado «satanismo». Esse contraste consiste na colocação de tudo que há de belo e grande no homem a serviço de uma luta contra o Belo e Grande por excelência; o relativo assim se ergue titanicamente, num heroísmo quase sobre-humano, contra o Absoluto; e nesse afã encobre-se sob os véus da mentira, procurando fazer crer aos homens que os valores da «esquerda» são os da «direita», e vice-versa.

 

O homem moderno tende a não crer em Satanás, relegando a este para o setor da fábula... Ora é esta precisamente a maior de todas as vitórias de Satã no decorrer dos tempos: impor seu jugo, sem ser reconhecido como tal. «A mais notável das farsas de Satanás é a de nos fazer crer que ele não existe», afirmava com razão Baudelaire (+1867).

 

Todavia, para quem quer ver, a existência de Satanás não se dissimula; fica sendo evidente, como atesta a sabedoria popular cristalizada num provérbio da Galícia: «O diabo, por muito que se esconda, deixa sempre o rabinho de fora». É, sim, pelo «rabinho» que vamos atualmente reconhecendo a presença e a ação de Satã no mundo.

 

Pergunta-se então: que atitude se há de tomar diante do satanismo contemporâneo?

— Distinguiremos duas mensagens:

 

3.1. Para os amigos de Deus...

a)                   Removam qualquer das concepções errôneas que costumam dificultar hoje em dia a crença no demônio. Satanás não tem chifres nem cospe fogo, nem é princípio independente de Deus, mas é criatura (ontològicamente) boa de Deus bom, que abusou da sua liberdade para se revoltar contra o Criador. É sempre sob o controle da Providência desse santíssimo Criador que ele exerce atualmente qualquer das suas atividades.

b)                  Enfrentem as maquinações de Satanás em atitude de confiança. Na verdade, como observava Goethe, Satã é a força que sempre deseja o mal, mas só consegue contribuir para a vitória do Bem. Quem vive em estado de graça, nada tem que temer das artimanhas do Maligno; cf. «P. R.» 18/1959, qu. 1.

c)                   À medida que se vai aproximando o fim dos tempos (não importa aqui previsão alguma sobre o assunto), a sanha diabólica se torna cada vez mais astuciosa... Entrementes o Apocalipse exorta os fiéis de Deus a se tornarem também cada vez mais zelosos na prática do bem: dado que «o iníquo cometa mais ainda a iniquidade e o imundo mais ainda se manche, deve o justo praticar mais ainda a justiça e o santo mais ainda santificar-se (Apc 22, 11). Os amigos de Deus deverão, por , sua conduta de vida, representar de maneira ainda mais marcante («gigantesca», se é possível dizer) o que é á Verdade e o que é a Virtude numa hora em que Verdade e erro, Virtude

e vício tendem a ser confundidos.

 

3.2. Para quem vive longe de Deus, incumbe refletir sobre as desgraças de que sofre a sociedade contemporânea. As causas de tantos males não são meramente casuais; os horrores em que se debate o mundo moderno (o qual praticamente se vendeu a Satanás), constituem talvez o sinal mais expressivo de que ninguém brinca impunemente com o demônio. O remédio para a sociedade atual está, antes do mais, na reforma dos costumes e na tomada de consciência de que, como diz São Paulo, nossa verdadeira luta se desenrola contra Satã e todos os anjos que o seguiram (cf. Ef 6,11-18).

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


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#0•A2733•C317   2013-05-25 15:57:14 - Convidado/Francisco de Assis da Cruz
A cada texto que leio do grande homem e santo Dom Estêvão Bittencourt que não mais se encontra no nosso meio , mais fico impressionado com suas palavras de sabedoria que era simples e de acordo com os grandes mestres católicos. Ele tinha razão em afirmar que o pior mal nos dias atuais é negá-lo, é achar que para conseguir vencer na vida tudo é permitido. São Paulo afirmava o contrário que se pode fazer de tudo, mas nem tudo nos convém. E nestes dias como as coisas estão ganhando contorno de que ninguém quer sofrer que a Cruz de Cristo foi só para ele, que crer em Deus é o contrário do que a I......

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Sto. Inácio de Antioquia (35-110)

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