Católicos Online - - - - AVISOS -


...

Pergunte!

e responderemos


Veja como divulgar ou embutir artigos, vídeos e áudios em seu site ou blog.




Sua opinião é importante!









Sites Católicos
Dom Estêvão
Propósitos

RSS Artigos
RSS Links



FeedReader



Download







Cursos do Pe Paulo Ricardo


Newsletter
Pergunte!
Fale conosco
Pedido


PESQUISAR palavras
 

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 036  - dezembro 1960

 

DIZER A VERDADE AO DOENTE?

ESTUDANTE (Salvador): «Deve-se dizer a um doente a verdade a respeito do seu estado de saúde?

Não será lícita alguma mentira para evitar maiores males?»

 

Em resposta, desenvolveremos os três princípios da Moral cristã que elucidam o caso proposto; uma reflexão final rematará a explanação.

 

1. Três princípios

 

1) Via de regra, não é lícito ao médico e aos familiares do doente iludir ou deixar na ilusão a respeito de seu estado um paciente gravemente enfermo.

 

A veracidade desta proposição decorre das seguintes premissas:

 

Todo homem deve procurar proceder sempre em conformidade com a sua natureza de criatura humana.

Ora, sendo o homem uma criatura inteligente e social, é consentâneo com a sua natureza passar de maneira consciente pelo transe da morte.

Torna-se, por conseguinte, muito desejável que todo indivíduo, desde que incorra em sério perigo de vida, seja devidamente informado da gravidade do seu estado e da proximidade do desenlace final. Somente assim poderá preparar-se para o encontro com o Senhor Jesus na hora da morte; somente assim poderá desincumbir-se de suas responsabilidades perante a família e a sociedade, dispondo de seus bens, estabelecendo ordem em suas tarefas, dando as últimas recomendações aos seus íntimos.

 

Em vista disto, toca aos que assistem a um enfermo o dever de o ajudar a tomar consciência da gravidade do seu estado; a morte repentina e imprevista é considerada um mal pela Santa Igreja, que pede na Ladainha de todos os Santos: «A subitanea et improvisa morte, libera nos Domine». Por sua vez, o Santo Padre o Papa Pio XII, dirigindo-se a uma assembleia de enfermeiras, lembrava que «o fato de se protelar, por motivo de reticências, a preparação do doente para a grande passagem da eternidade poderia facilmente tornar-se grave culpa» (discurso de 21 de maio de 1952).

 

À luz dêstes dizeres, verifica-se que o médico, interrogado pelo seu cliente a propósito do respectivo estado de saúde, em consciência não pode afirmar alguma inverdade ou recorrer à mentira. Esta é repudiada não somente pela Moral cristã, mas também pela Ética profissional: a liceidade da mentira médica impediria que o paciente depositasse confiança no seu clínico.

 

O Professor H. Péquignot atesta o seguinte:

«Num recente inquérito do qual tomei parte, ficou apurado que a totalidade dos pacientes interrogados exigia lhes dissesse o médico a verdade a respeito do seu estado de saúde em casos graves. Está claro que nutriam ilusões a propósito da sua coragem; contudo é evidente que os médicos não poderão por muito tempo negligenciar um desejo tão firmemente expresso» (Cahiers Laennec, L/informatlon médicale du public n' I 1954, pág. 34).

 

2) O médico tem a obrigação de manifestar ao doente, a respeito do seu estado de saúde, as verdades que lhe possam ser úteis, não, porém, toda e qualquer verdade.

 

Como se vê, a obrigação que incumbe ao médico, de dizer a verdade ao seu cliente, não é irrestrita. Com efeito, muitos dos conhecimentos do médico não interessam ao cliente, nem para que se trate nem para que se desincumba de suas responsabilidades perante o próximo. Acontece também que, por vezes, o médico não está seguro do seu diagnóstico ou dos seus prognósticos, devendo, por isto, ser sóbrio em suas declarações ao enfermo.

 

Ao informar o doente a respeito do seu estado de saúde, o médico deve levar em conta a fraqueza física e psíquica do mesmo; procurará,portanto, proceder segundo um método caridoso e progressivo na manifestação das verdades úteis ao paciente.

 

3) Só será lícito velar a um doente a gravidade do seu estado, caso se preveja que a notícia da proximidade da morte o fará cair num estado de desespero ou de vida infranormal.

 

Em tais casos, por respeito à personalidade do enfermo, ou seja, a fim de que as suas faculdades características não sejam perturbadas pela ânsia, a consciência cristã permite dissimular o diagnóstico; há, com efeito, pessoas que não podem mais viver uma vida propriamente humana, desde que saibam estarem os seus dias contados. Vê-se destarte que, mesmo quando se encobre a gravidade do estado ao paciente, é a estima da personalidade humana que sugere essa dissimulação.

 

Fazendo eco à tese restritiva, há quem assim argumente: comunicar a um doente a gravidade do seu estado equivale a tirar-lhe grande parte da sua energia combativa e da sua força de reação contra a moléstia; ademais, em vista dos progressos da Medicina moderna, pode-se dizer que doença grave não é necessariamente doença mortal, como outrora acontecia. Daí deduzem alguns autores a conveniência de nem «sempre comunicar aos doentes os prognósticos graves que os concernem.

 

Tal argumento não deixa de ter seu peso. O médico poderá valer-se de tais considerações, contanto que o faça em consciência, levando em conta os interesses sobrenaturais da personalidade do enfermo e a necessidade que a esta incumbe, de comparecer devidamente preparada ante o Juiz Eterno.

 

O Prof. Jean Bernard, da Faculdade de Medicina de Paris, descreve as mais diversas atitudes tomadas pelos doentes ao serem informados da gravidade do seu estado. Citamos aqui apenas os dois seguintes casos:

 

Eminente médico mandou tirar radiografias de uma de suas pernas, na qual experimentava dores agudas. Em consequência, um tumor maligno foi ali descoberto. Simulou então ter recebido as chapas de um amigo do interior do país e foi mostrá-las a diversos radiologistas, pedindo-lhes indicações precisas sobre a natureza maligna do tumor e sobre o prazo de vida que se podia prever para o respectivo sujeito. Uma vez a par de tudo, redigiu o seu testamento, confiou os seus filhos aos cuidados de tais pessoas, os seus alunos ao zelo de tais outras; ainda levou a termo algumas pesquisas que havia iniciado em seu laboratório; a seguir, faleceu sem dar a mínima prova de abatimento moral durante os quatro meses de preparativos conscientes para a morte!

 

Eis, sem duvida, o caso de um paciente que muito lucrou por haver sido devidamente informado da gravidade do seu estado.

 

Nem! sempre, porém, o curso das coisas é tão sereno. Haja vista o episódio de um banqueiro muito feliz que, aos 50 anos de idade, se viu acometido pela moléstia de Hodgkin. Desde que o mal foi diagnosticado, o médico assistente lho declarou com toda a franqueza. O paciente acolheu a notícia com muito ânimo, pois mal avaliava o alcance da doença. Mais tarde, porém, suspeitando da gravidade do mal, comprou todos os livros que o podiam informar sobre a moléstia; tendo-os lido, habilitou-se a acompanhar passo por passo os progressos da enfermidade; foi então tomado de inquietação profunda, pois vivia analisando o seu estado e espreitando os sintomas de piora. Assim passou dois anos, angustiado e totalmente incapaz de tratar de suas obrigações. — Neste caso, o conhecimento exato da moléstia — ao menos pela via como foi obtido — não serviu à personalidade do paciente; ao contrário, contribuiu para que esta decaísse do seu nível de vida normal.

Cf. J. Bernard, Au chevet des cancéreux, em «Cahiers Laennec» no 3, 1957, pág. 34.

 

A consciência do médico, portanto, é que deverá em cada caso determinar até que ponto se torna oportuno ocultar ao paciente o que lhe diz respeito; esforçar-se-á por tratar o doente como personalidade humana, dotada de responsabilidades e deveres perante Deus e perante a sociedade humana; procurará ajudá-lo a desempenhar-se de tais deveres (não a furtar-se a eles). Acautele-se bem o clínico, em tais casos, contra toda e qualquer tendência ao comodismo covarde ou ao sentimentalismo.

 

2. Reflexão final

 

Tende a difundir-se nas famílias cristãs o costume de não informar o paciente ou de só o informar nos estertores da morte sobre a gravidade da sua situação de saúde. «Reconheçamo-lo francamente: há nisso uma baixa da consciência cristã. Entre cristãos, mesmo praticantes, a fé na vida eterna... não parece consistir apenas em palavras que vão sendo repetidas desde o catecismo, sem que exprimam realmente uma crença?» (P. J. Starck, L'Eglise et le mourant, em «Cahiers Laennec» n* 3, 1957, pág. 46s).

 

É particularmente lamentável o fato de que muitas famílias só chamam o sacerdote para atender a um doente quando este se acha nas últimas instâncias, muitas vêzes já inconsciente ou ao menos incapacitado de falar. A assistência religiosa a um enfermo, longe de surpreender, deveria, antes, reconfortar os ânimos tanto do paciente como de seus familiares. A morte é essencialmente o encontro da alma esposa com o Cristo Esposo, encontro que dá inicio às núpcias da vida eterna na pátria bem-aventurada. Compreende-se então que há toda vantagem em que alguém conscientemente e de espírito bem preparado se dirija a esse encontro, mesmo que a notícia da morte próxima lhe abrevie de alguns dias ou horas a vida presente. Não se justificaria a hipótese contrária: deixar que alguém passe mais alguns dias aqui na terra, inconsciente da gravidade do seu estado, arriscando-se assim a ser visitado pelo Senhor Jesus sem a devida preparação. «Aqui não se trata mais apenas de Ética médica, mas da realidade da fé e da esperança... Cremos ou não que o céu é o Bem Supremo que possamos desejar a quem amamos? O inferno será, sim ou não, o sofrimento que acima de tudo desejamos afastar da pessoa que amamos?» (Starck, ob. cit 49).

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


Como você se sente ao ler este artigo?
Feliz Informado Inspirado Triste Mal-humorado Bizarro Ri muito Resultado
4 0
PUBLICAR - COMENTAR - EMAIL

Ver N artigos +procurados:
TÓPICO  ASSUNTO  ARTIGO (leituras: 8282843)/DIA
Diversos  Espiritualidade  4131 Dez conselhos na luta contra o demônio32.55
PeR  Escrituras  1355 Jesus jamais condenou o homossexualismo?30.02
Diversos  Teologia  4132 A existência de Deus29.25
Orações  Comuns  2773 Oração de Libertação14.43
PeR  O Que É?  0516 O Que é a ADHONEP?12.30
Diversos  Apologética  4130 Paulo desprezou Pedro?11.35
PeR  O Que É?  2142 Quiromancia e Quirologia11.23
Diversos  História  4042 R.R. Soares e Edir Macedo11.21
PeR  História  0515 O Recenseamento sob César Augusto e Quirino10.80
Diversos  Protestantismo  1652 Desafio aos Evangélicos: 32 Perguntas10.24
Diversos  Testemunhos  3922 Como o estudo da fé católica levou-me ao catolicismo9.01
Diversos  Prática Cristã  3780 Os pecados mortais mais comuns8.47
PeR  História  2571 Via Sacra, qual a origem e o significado?8.34
Aulas  Doutrina  1497 Ser comunista é motivo de excomunhão?7.99
Diversos  Mundo Atual  4129 Direto do Inferno7.93
Diversos  Ética e Moral  2832 Consequências médicas da homossexualidade7.91
Diversos  Anjos  3911 Confissões do demônio a um exorcista7.74
Diversos  Prática Cristã  3185 Anticonceptivos são Abortivos?7.73
PeR  Prática Cristã  1122 As 14 estações da Via Sacra7.56
PeR  O Que É?  0565 Lei Natural, o que é? Existe mesmo?7.32
Diversos  Testemunhos  3465 Ex-pastor conta como fazia para converter católicos7.31
PeR  Testemunhos  0450 Eu Fui Testemunha de Jeová7.05
Diversos  Protestantismo  3970 A prostituição da alma7.03
Vídeos  Mundo Atual  4128 A 'Humanae Vitae' e a apostasia dos cristãos6.95
É a pessoa de Jesus que salva, não suas ideias.
Claudio Maria

Católicos Online