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PERGUNTE e RESPONDEREMOS 035 - novembro 1960

 

RESPEITO AO CORPO E ESPORTE

MORAL

JUVENTUDE (Rio de Janeiro): «Há quem fale de respeito ao corpo humano, principalmente ao se tratar da prática do amor. Em que se baseia esta honrosa apreciação do corpo? Seria possível daí deduzir alguma conclusão sôbre a estima do esporte?»

 

A mentalidade moderna em geral pouco ou nenhum apreço tributa ao corpo humano; usa e abusa dele ou em vista de um utilitarismo terrestre, imediato, ou a fim de obter gozo momentâneo, «existencialista», não hesitando em praticar o anticoncepcionismo, o aborto, a fecundação artificial, a seleção racista, etc. ... A tendência a depreciar o corpo se afirma de maneira especialmente significativa na moderna onda mundial «pró-incineração» dos cadáveres; conforme este processo, o corpo humano, tendo uma vez terminado as suas funções na terra, pode simplesmente ser equiparado ao lixo, que se queima.

 

Abaixo enunciaremos alguns dados colhidos no patrimônio de sabedoria dos mais diversos povos, dados que permitirão uma conceituação adequada do corpo humano e do esporte.

 

1. O testemunho da natureza e dos povos

 

1.1. Quem analisa os documentos da cultura humana (cristãos e não-cristãos), dos quais citaremos alguns no decorrer desta exposição, não se pode furtar à impressão de que os povos sempre tenderam espontaneamente a reverenciar o corpo humano.

 

Uma expressão típica dessa atitude é a que se lê nas obras do naturalista romano não cristão Plínio o Antigo (+79 d.C.), o qual fala de «uma religião do corpo» (cf. Hist. nat. XI 103), significando «religião» nessa perspectiva o misterioso e transcendente que marca o corpo humano.

 

Eis as palavras de tal escritor: «Hominis genibus quaedam et religio inest, observatione gentium... Inest et aliis partibus quaedam religio; sicut dextra osculis aversa appetitur, in fide porrigitur. — Os joelhos do homem são portadores de certa reverência misteriosa, como atestam os povos... Também as outras partes do corpo exprimem reverência: a mão direita deixa-se beijar pelos lábios que a procuram, e estende-se àqueles a quem se dá em confiança».

 

1.2. E como se explica tal respeito pelo corpo?

— Não há dúvida, deve-se à consciência que os antigos tinham, de que o corpo humano não pertence simplesmente ao homem, mas é função e, ao mesmo tempo, expressão ou símbolo de uma realidade superior, não corpórea (a alma e, em última análise, a sabedoria do Criador). É esta realidade superior que, profundamente impregnada no corpo, impõe respeito ao observador (antigo e moderno), fazendo que não seja lícito tratar o corpo segundo os caprichos do gozo, do comodismo ou do utilitarismo materialista.

 

1.3. E quais seriam as manifestações de uma realidade superior, espiritual, espelhada pelo corpo humano? Em outros termos: como é que o corpo simboliza a presença de algo de maior ou transcendente?

— Eis aqui algumas das principais revelações da alma ou do espírito através da carne humana:

 

A) A estatura ereta

 

A mecânica não explicaria que o corpo humano, pesada massa de carne flácida cujas articulações são propensas a se dobrar todas simultaneamente, possa permanecer erguido sobre a base tão exígua da planta de seus pés; uma vez morto, esse corpo cai, só podendo ser levantado pelas forças de dois ou três homens. E note-se que o equilíbrio do corpo humano vivo, contra todas as previsões, não é instável; resiste ao furacão e possibilita ao homem lutar em pé contra seus adversários. Essa burla infligida às leis da pura matéria significa precisamente que o homem não é apenas matéria; o garbo de seu porte constitui um sinal eloquente do espírito que habita no corpo e que é dignamente homenageado pela atitude ereta do ser humano.

 

Ainda por outra via se percebe o valor simbólico da estatura ereta do corpo humano. Já o filósofo grego Aristóteles (+322 a. C.) lembrava algo que São Tomás, na Suma Teológica I 91, 3 ad 3, havia por sua vez de inculcar: se o homem não tivesse porte vertical, seus membros anteriores se apoiariam sobre o solo; por conseguinte, para apreender a sua presa, deveria ter boca adequada (focinho oblongo, bico...), lábios duros e ásperos, língua rugosa, com a qual se defenderia contra os adversários e os elementos que o cercassem. Consequentemente, não poderia mais falar ou careceria desta expressão típica da inteligência que é a linguagem (cf. «P. R.» 33/1960, qu. 2). Donde se vê que a estatura ereta do homem é característica da sua dignidade própria, dignidade que o coloca acima dos demais seres visíveis.

 

Contra o valor desta observação aponta-se o caso do pinguim, que caminha verticalmente sobre duas patas. Contudo a debilidade das asas desse animal está em contradição com a sua estatura ereta, constituindo quase um desmentido à sua tendência para o alto. Mesmo o macaco e o urso erguidos não deixam de ser quadrúpedes; o eixo do seu corpo pode ser tanto horizontal como vertical...

 

B) O caminhar para a frente

 

O homem, que tem a cabeça voltada para o alto, possui também as articulações dos joelhos e dos pés configurados de tal modo que lhe é necessário caminhar para a frente, numa só direção. Marcha-ré, para o homem, significa acrobacia um tanto perigosa; devendo recuar, o homem normalmente dá meia-volta e então, mesmo retrocedendo, adianta-se. É ao caranguejo e a certos tipos de máquinas que compete a faculdade de se mover indiferentemente em dois sentidos. Além disto, note-se que o olhar humano, sempre voltado para a frente, tende a perfurar indefinidamente o horizonte ou a perder-se no insondável mistério do horizonte.

 

Assim dir-se-ia que a vocação a ultrapassar-se e a entregar-se a algo de maior ou a um termo ainda não possuído está profundamente impregnada dentro da natureza humana. O homem não dá um passo normal que não seja passo para a frente; mesmo voltando atrás, desloca-se para diante. Não seria isto indício do destino transcendente do ser humano?

 

C) O semblante translúcido

 

O semblante costuma ser a expressão do que vai no íntimo da personalidade; apresenta-se ora belo e atraente, ora desfigurado e feio, de acordo com o estado de alma, harmonioso ou não, da respectiva pessoa. Em alguns justos muito unidos a Deus, dir-se-ia que o Divino lhes transborda na fisionomia, tal é o encanto ou a «graça» que refletem. Tenha-se em vista, por exemplo, o caso do santo Cura de Ars: homem simples, filho de camponeses, conseguia atrair à sua paróquia multidões de pessoas, crédulas e incrédulas, que se compraziam profundamente em ver e ouvir o homem de Deus.

 

A propósito escrevia o Pe. Lacordaire (+1861) a Perreyve, um de seus jovens dirigidos:

«Acima de tudo sê bom. A bondade é o que mais se parece com Deus e o que mais desarma os homens. Tens vestígios de bondade na alma, mas esses são sulcos que ninguém jamais cavará suficientemente. Teus lábios e teus olhos ainda não são tão benévolos quanto possível, e nenhuma arte lhes pode dar este característico a não ser o cultivo interior da bondade».

Os lábios e os olhos sejam benévolos... A .respeito dos olhos em particular, a sabedoria dos séculos acostumou-se a dizer que são o espelho da alma. Já Plínio o Antigo observava: «Hos (oculos) cum osculamur, animum ipsum videmur attingere. — Quando osculamos os olhos, parece-nos que tocamos a própria alma» (Hist. nat. XI 53).

 

Considere-se especialmente o poder fascinante, hipnotizador, do olhar de certas pessoas. É sinal bem claro da riqueza de vida imaterial ou transcendente que cada uma dessas pessoas traz em seu íntimo.

 

D) A mão e sua configuração

 

Já dizíamos atrás que as mãos vêm a ser o símbolo típico da inteligência humana. O homem, aliás, é o único ser visível que tenha mãos, porque é o único ser corpóreo que possui inteligência.

 

Os mais recentes estudos sobre a origem e a evolução das línguas revelam que a linguagem humana primitiva deve ter consistido em clamores e gestos; antes do idioma propriamente dito, o homem terá praticado em larga escala a linguagem das mãos (isto nada significa contra a veracidade do texto bíblico, que apresenta Adão, o primeiro homem, dotado do uso da palavra e de ciência preternatural; os predicados de Adão eram estritamente pessoais; tendo-os perdido, o primeiro pai gerou prole sujeita às leis do desenvolvimento paulatino).

 

Até hoje as mãos falam espontaneamente no homem, revelando, por vezes de maneira indiscreta, o que lhe vai no mais íntimo da alma.

 

Tenha-se em vista, por exemplo, a situação de alguém que, a contragosto, recebe uma visita de cerimônia; comporta-se com toda a cortesia, sem deixar transparecer por alguma palavra o seu mal-estar interior; sorri, escuta e responde sensatamente. Eis, porém, que a impaciência dessa pessoa se concentra em suas mãos; estas, durante a conversa não deixam de se agitar: a mão esquerda põe-se a esfregar o rosto desde a orelha até o queixo, como se o paciente estivesse acometido de comichão; entrementes a mão direita, aguardando o momento de recomeçar o trabalho interrompido, bate nervosamente sobre a mesa com a ponta dos dedos...

 

Observe-se outrossim o seguinte: a mulher que durante um colóquio pratica frequentemente o gesto de arrumar os cabelos, embora estes estejam devidamente penteados, manifesta assim suas reservas e seu mal-estar. Ao contrário, se ela começa a brincar prazenteiramente com o colar ou os anéis, dá sinal de se estar rendendo com simpatia ao seu interlocutor, embora aparente não atribuir grande importância à conversa.

 

Em particular, a configuração e os traços das mãos têm sido muito explorados através dos séculos para se descobrir o temperamento próprio e até o currículo de vida de pessoas consulentes. Na maioria dos casos, porém, os oráculos foram e são proferidos a partir de critérios arbitrários e insustentáveis, de acordo com uma mística fantasista, que constitui a «quiromancia» (ou a adivinhação por meio da mão). Esta pouca ou nenhuma atenção merece. Recentemente, porém, os estudiosos, emancipando-se de quaisquer teses da mística e da filosofia ocultistas, deram origem ao que se chama Quirologia» (estudo cientifico da mão): na base de experiências e estatísticas objetivas, conseguiram verificar que na realidade certos tipos e traços da mão estão relacionados com determinadas características da personalidade; as mãos, antes mesmo de exercer alguma atividade, vêm a ser a expressão do tesouro de vida íntima que todo indivíduo traz em si. Cf. P. R. 21/1959, qu. 6.

 

A título de ilustração, vai aqui proposto o que a Quirologia ensina a respeito da configuração dos dedos.

Distinguem-se quatro tipos de dedos: os pontiagudos, os cônicos, os quadrados e os espatulados (achatados).

Os dedos pontiagudos costumam denotar imaginação, intuição e gosto artístico. É o que atestam a pintura e a escultura, apresentando-nos as famosas figuras de Shakespeare, Maria-Antonieta, Musset, Chateaubriand, Vítor Hugo...

Os dedos cônicos caracterizam as pessoas particularmente prendadas e compreensivas, de temperamento amável e de espírito conciliante: Leonardo da Vinci, Mazzarino, Lamartine as exemplificam.

Os dedos quadrados são os das pessoas práticas, positivas, metódicas, que têm a preocupação de exatidão e o senso da realidade; tenham-se em vista as imagens de Luís XIV. Turennc, Mansart, Clémenceau...

Os dedos espatulados são os do artífice, que estima o preço do seu trabalho, e os do homem de ação, que não duvida do seu valor; assim se apresentam Cromwell, Lavoisier, Napoleão III.

 

Naturalmente, sendo a Quirologia uma ciência relativamente nova, compreende-se que ainda se defronte com várias incógnitas, estando, por conseguinte, sujeita a reformar futuramente uma ou outra de suas conclusões. Contudo o que aqui importa, é verificar como se pode, mediante critérios seguros e científicos, atribuir às mãos humanas o valor de símbolo ou sinal de uma realidade transcendente ou misteriosa que anima a matéria humana e que .se chama «a alma».

 

E) A nutrição

 

Seja aqui, antes do mais, recordado um estranho fenômeno: o animal irracional que tenha apreendido a sua presa (um «bom bocado»), isola-se imediatamente para a saborear com mais tranquilidade. O homem, ao contrário, compraz-se em comer com seus semelhantes, principalmente nas ocasiões solenes da vida; é em torno da mesa, ao compartilharem o mesmo pão, que os membros da família comunicam uns aos outros o que têm de mais íntimo, isto é, suas alegrias e suas tristezas; a alimentação em comum praticada pelos homens torna-se destarte símbolo da entrega de confiança e de valores íntimos.

 

O fenômeno é ainda em outro seu aspecto profundamente expressivo: significa, sim, que pelo ato de comer o homem não serve apenas a si, realizando uma função egocêntrica, mas desempenha verdadeiro pontificado: é, sem dúvida, pela nutrição do homem que os elementos irracionais deste mundo passam para um plano superior — o da vida humana, que é vida intelectiva, animada por uma alma espiritual. Daí a importância religiosa e, naturalmente, o simbolismo do «comer»; vem a ser um ato pelo qual o homem executa um desígnio do Criador, fazendo que os seres inferiores, elevando-se, concorram do seu modo para glorificar o seu Autor Supremo.

 

Os antigos, mesmo antes de Cristo, sempre consideraram a alimentação como função sagrada; principalmente as refeições de praxe feitas no lar foram associadas a ritos e preces mediante as quais os convivas tomavam consciência de entrar em contato particularmente íntimo com a Divindade. Acontecia mesmo que os sacrifícios na antiguidade ou os atos de devotar alguma coisa à Divindade, se terminavam sempre com uma refeição sagrada, pela qual os homens julgavam entrar em comunhão com o Divino.

 

Ora a valorização religiosa do comer encontrou no Cristianismo a sua afirmação mais eloquente: o cristão tem consciência de que, se o homem come à semelhança dos demais viventes corpóreos, come numa atitude totalmente diversa: ele o faz, sim, para colaborar com o Criador, exercendo um ofício medianeiro, de certo modo sacerdotal, pois une destarte a terra com o homem, e o homem com o Céu ou com Deus mesmo. É, por excelência, no consumo do alimento sagrado ou da Eucaristia, dada no decorrer de uma ceia sacrifical, que o comer do cristão toma seu pleno sentido: nutre então para a vida eterna.

 

6) As doenças do homem

 

Já em «P. R.» 32/1960, qu. 1 tivemos ocasião de nos referir aos fatores psíquicos que estão na raiz de várias moléstias do corpo humano. A Medicina contemporânea, psicossomática como é, reconhece cada vez mais o papel que compete às aspirações e aos conflitos íntimos do indivíduo tanto no surto como no tratamento das doenças. Em consequência, fala-se do «simbolismo dos sintomas patológicos», tendo-se em vista o seguinte: quando uma tensão de ânimo ou uma emoção não se pode exteriorizar por palavras ou por atos adequados, ela se manifesta por meio de outras atitudes do corpo, ou seja, pela voz das perturbações do metabolismo ou do funcionamento dos órgãos. Eis aqui algumas aplicações desse princípio:

 

Quando um doente tem dificuldade para engolir, sem que se possa responsabilizar por isto algum órgão, há margem para crer que na sua vida existe talvez alguma coisa que ele não consegue moralmente «engolir» (não poderá aceitar alguma situação, algum dever...).

 

A náusea de estômago, não provocada por um mal orgânico, pode ser causada por um fator existente no âmbito de vida do enfermo, fator que o doente não pode «digerir».

 

Um sentimento de opressão, acompanhado de dificuldade para respirar, na falta de causas orgânicas, talvez seja indicio de que o paciente tem alguma coisa que «lhe pesa sobre o coração».

 

O doente que perdeu o apetite e por isto sofre seriamente de subalimentação, talvez esteja frustrado na sua vida emocional, da mesma forma como está fisicamente esfomeado.

 

O cansaço é provocado muitas vezes por um conflito emotivo, que absorve parte tão grande das energias da vítima que estas lhe vêm a faltar quando delas precisa.

 

Uma tensão emocional subconsciente traduz-se muitas vezes por uma tensão muscular, que gera dores a ponto mesmo de chegar ao estado agudo de nevralgia. Uma dor no braço pode provir do desejo que uma pessoa tem de espancar a outrem, desejo, porém, que essa pessoa não satisfaz por causa do respeito ou do afeto mesmo que o adversário lhe impõe. Uma comichão é não raro consequência de um mal-estar geral que alguém experimenta em seu ambiente de vida: não podendo vingar-se em outras pessoas, o paciente tende a se martirizar coçando-se.

 

De modo geral, o aparelho digestivo é a via pela qual as perturbações emocionais encontram sua expressão mais comum.

 

7) A vida mística e a sensibilidade

Certos autores de opúsculos místicos julgam que a alma, ao progredir na união com Deus na vida mística, mais e mais age sem o corpo.

Diante dessa tese, reconhecer-se-á que há, sem dúvida, fenômenos místicos pelos quais a alma se afirma de maneira quase soberana ou independente do corpo: tais seriam a levitação, estado em que o orante paira acima do solo, contrariando às leis da gravidade; o êxtase, situação em que a alma está ex ou fora, alheia aos sentidos corpóreos... Contudo convém notar que levitação, êxtase e fenômenos congêneres não constituem expressões necessárias da vida mística. Esta, ao contrário, parece implicar em penetração e aproveitamento crescentes dos valores do corpo por parte da alma do orante; é o homem inteiro, alma e corpo, que sobe para Deus.

 

Tenha-se em vista, por exemplo, o fato de que na meditação, grau inicial de oração, a fantasia é posta em atividade de modo a fornecer imagens sensíveis, que devem excitar a contemplação e o amor do orante. Um grau superior de oração é a chamada «oração afetiva», cujo nome se deriva precisamente das amplas partes que os afetos sensíveis nela desempenham. Por fim, as visões que o Senhor Deus concede a almas muito agraciadas, frequentemente se produzem por meio das imagens sensíveis que o vidente concebe em sua mente (cf. «P. R.» 19/1959, qu. 4 e 5).

 

Donde se vê que nem os graus superiores de vida mística ou de união da alma com Deus dispensam a intervenção do corpo humano, o qual fica sendo sempre o canal das afirmações da alma.

 

2. Reflexão e conclusão

 

2.1. Acabamos de recensear fatos e tópicos pelos quais se exprime o caráter que toca ao corpo humano, de consorte indispensável e de sinal ou símbolo da alma. Na verdade, o homem não consta de espírito apenas, mas de corpo e espírito destinados a colaborar harmoniosamente entre si.

 

É esse destino que faz a nobreza do corpo humano, exigindo por conseguinte pleno respeito às leis naturais que regem seu funcionamento (principalmente às que dizem respeito aos dois apetites mais veementes da natureza: o da nutrição e o da procriação).

 

Contudo tal concepção otimista requer breve advertência. Na realidade, nem sempre os movimentos das faculdades corpóreas do homem estão em harmonia com as aspirações mais nobres do espírito; certas tendências do corpo geram não raros conflitos do indivíduo (a Teologia explica muito bem essa desordem, atribuindo-a ao pecado de Adão, que desencadeou concupiscência desregrada e luta da carne contra o espírito dentro do homem; cf. «P. R.» 30/1960, qu. 2 e 3). Por conseguinte, nem toda e qualquer aspiração da natureza sensível poderá ser irrestritamente aprovada por parte da pessoa que deseje chegar ao ideal supremo do ser humano. Para garantir a função de símbolo e os autênticos valores do corpo humano, requer-se seja este submetido a séria disciplina, que subordine inteiramente a carne ao espírito. Em outros termos: a fim .de que o corpo seja realmente sinal ou símbolo, faz-se mister que o homem reduza à unidade as várias aspirações de sua natureza buliçosa; passe da multiplicidade à unidade, traduzindo em todos os seus atos uma só grande realidade: a vida eterna,... vida eterna que começa no tempo pela adesão cada vez mais consequente a Deus.

 

2.2. As idéias até aqui propostas têm aplicação particular ao se tratar de tomar posição frente aos esportes e ao atletismo. Estes constituem uma modalidade especial de valorização do corpo. Vê-se, porém, que não constituem por si mesmos um fim da atividade ou da vida humana: assim como o corpo é nobre em função da alma, assim o atletismo do corpo será nobre se for exercido em vista do «atletismo» da alma, ou seja, em vista da grandeza ou do aperfeiçoamento da alma. Será preciso continuamente lembrar aos homens de esporte que o atletismo que obceca e apaixona, não merece apreço; o atletismo do corpo torna-se absurdo se é praticado de modo a vincular e escravizar a alma, em vez de lhe proporcionar novo vigor para se elevar a Deus. É o que o Sto. Padre o Papa Pio XII expõe em uma de suas alocuções a esportistas, proferida aos 8 de novembro de 1952:

«A sã doutrina ensina a respeitar o corpo, mas não a estimá-lo além do que é justo. A máxima é esta: cuidado do corpo, robustecimento do corpo, sim; culto do corpo, divinização do corpo, não... O corpo não ocupa no homem o primeiro lugar, nem o corpo terreno e mortal, como é hoje, nem o corpo glorificado e espiritualizado, como será um dia.

... No uso e exercício intensivo do corpo, é preciso ter em conta este fato: assim como há certa ginástica e esporte, que com a sua austeridade contribui para refrear os instintos, assim também existem outras formas de esporte que os despertam, quer pela violência do esforço, quer pelas seduções da sensualidade. Mesmo sob o ponto de vista estético, com o prazer da beleza, com a admiração do ritmo na dança e na ginástica, o instinto pode instilar o seu veneno nos ânimos. Há, além disso, no esporte e na ginástica, no ritmo e na dança, certo nudismo, que não é nem necessário nem conveniente... Perante tal maneira de praticar a ginástica e o esporte, o sentimento religioso e moral opõe o seu veto.

Numa palavra: o esporte e a ginástica não devem mandar e dominar, mas servir e ajudar. É a sua função, e nisso encontram a sua justificação.

... O maior mérito não seja atribuído ao indivíduo que possui os músculos mais fortes e mais ágeis, mas ao que também demonstra maior capacidade de sujeitá-los ao império do espírito.

... Elevar a ginástica, o esporte e o ritmo com todos os seus complementos à categoria de fim supremo da vida seria na verdade pouco demais para o homem, cuja primária grandeza é formada por muito mais elevadas aspirações, tendências e qualidades.

É, por isso, dever de todos os esportistas conservar este reto conceito do esporte, não para perturbar ou diminuir a alegria que dele recebem, mas para se preservarem do perigo de desprezar deveres mais altos referentes à própria dignidade e ao respeito para com Deus e para consigo mesmos» (transcrito da «Revista Eclesiástica Brasileira» XIII [1953] 206-8).

 

Dir-se-ia numa palavra: o cristão procurará ser bom atleta do corpo, para tornar-se ainda melhor atleta da alma.

 

Também no que diz respeito à alimentação, uma breve observação se impõe. Ao contrário do que se poderia crer, a sobriedade e as restrições de nutrição vêm a ser garantia do bom funcionamento do corpo. O sábio francês. Prof. Boulière, nos descreve a seguinte experiência:

 

«Separei dois grupos de ratos recém-nascidos. A um administrei alimentação abundante; viveram uma média de 700 dias. Aos outros dei pouco alimento; foram severamente racionados. Viveram uma média de 1400 dias, isto é, o dobro dos seus congêneres bem nutridos» (citação feita por Varenne, Fique sempre jovem e viva mais tempo. 1960, 23).

 

Tal experiência foi repetida em numerosos laboratórios e com outras espécies de animais, levando sempre os observadores às mesmas conclusões. Estas se aplicam reconhecidamente também ao regime alimentar do homem...

 

2.3. Por fim, notaremos que a realização mais perfeita do simbolismo do corpo tem lugar no culto sagrado ou na Liturgia. Todo o corpo, por sua linguagem, por seus gestos e suas atitudes, faz-se então, por excelência, eco da Palavra eterna de Deus.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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Dom Estêvão Bettencourt

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