Católicos Online - - - - AVISOS -


...

Pergunte!

e responderemos


Veja como divulgar ou embutir artigos, vídeos e áudios em seu site ou blog.




Sua opinião é importante!









Sites Católicos
Dom Estêvão
Propósitos

RSS Artigos
RSS Links



FeedReader



Download







Cursos do Pe Paulo Ricardo


Newsletter
Pergunte!
Fale conosco
Pedido


PESQUISAR palavras
 

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 034 – outubro 1960

 

O ESCÂNDALO

ESCANDALIZADO (Rio de Janeiro): «O escândalo de vida dos que deveriam ser puros, desorienta a sociedade. Como se explica que haja escândalo entre os próprios católicos? E como se poderia delinear a genuína atitude do cristão perante os escândalos?»

 

«Escândalo» é palavra proveniente do vocábulo grego skándalon, laço, armadilha colocada no caminho de alguém, dando-lhe ocasião de tropeçar ou cair. No plano moral, «escândalo» vem a ser o ato externo que possa constituir obstáculo ao exercício do bem ou direto incentivo à prática do mal.

 

Há diversas espécies de escândalo moral, que assim se discriminam:

 

Escândalo:
- ativo: direto, indireto;

- passivo: dado e recebido, não dado, mas recebido;

 

Ativo direto: diabólico, simples;

Passivo não dado, mas recebido: dos fracos ou pusilânimes, dos fariseus.

 

Chama-se escândalo ativo o próprio ato que dá ocasião de ruína moral a quem o considera.

O escândalo ativo é direto se a pessoa que age tem explicitamente em vista dar ao próximo ocasião de pecado. Será diabólico no caso em que se procura seduzir alguém ao pecado por causa do pecado mesmo, ou seja, para ofender a Deus e arruinar espiritualmente a alma (tal é a atitude de quem fala contra a fé, intencionando levar os fiéis à apostasia). — O escândalo ativo direto é simples quando o pecador, procedendo mal, não visa à ruína do próximo como tal, mas apenas procura satisfazer ao seu gozo pessoal e aos seus interesses particulares (tal é o caso do chefe que manda seu súdito cometer uma fraude para poder usufruir de um beneficio ilícito).

 

O escândalo indireto é um ato que por sua própria natureza não é mau, mas que se reveste de aparências de mal, de modo a se poder prever que levará o próximo à queda espiritual. É o que se dá quando alguém por motivo justificado hospeda em sua casa uma mulher suspeita aos olhos do público, empregando todos os meios para remover o perigo de pecado.

 

O escândalo passivo é a ruína espiritual do próximo acarretada pelo escândalo ativo. Pode ser dado e recebido ou apenas recebido e não dado, conforme essa ruína tenha ou não tenha fundamento real no comportamento da pessoa tida como escandalosa (há quem se escandaliza sem motivo autêntico!).

 

O escândalo recebido e não dado é dito dos fracos ou pusilânimes se a sua raiz é a ignorância, a fraqueza, a fragilidade na fé de quem se escandaliza... É dito dos fariseus, quando se deve à malícia mesma da pessoa escandalizada (os fariseus, por causa da sua indisposição moral, se escandalizavam a propósito dos mais sublimes ensinamentos e gestos de Cristo).

 

Nos parágrafos que se seguem, consideraremos sucessivamente o sentido do escândalo no plano de Deus e as normas de conduta dos católicos perante esse mal.

 

1. O escândalo no plano de Deus

 

Por mais estranho que isto pareça, deve-se dizer que é inerente ao Cristianismo provocar no mundo o escândalo, ou seja, o abalo de posições filosóficas e sociais vigentes anteriormente a Cristo, a fim de que a criatura se converta, isto é, se reerga sobre bases novas, explicitamente sobrenaturais. Em outros termos : é inerente ao Cristianismo provocar decisão por parte daqueles que lhe ouvem a mensagem, decisão que vem a ser arranco, queda de instituições anteriormente existentes, com todo o «escândalo» que isto possa suscitar na sociedade.

 

1.1. Com efeito. Há uma palavra de Cristo no S. Evangelho que ilumina todo o mistério do Senhor Jesus e da sua obra (a Igreja) através dos séculos:

 

“Ide e anunciai a João (Batista) o que ouvis e vedes: os cegos recuperam a vista, os coxos caminham, os leprosos são curados, os mudos ouvem, os mortos ressuscitam, e a Boa Nova é anunciada aos pobres. Feliz, porém, aquele que não se escandalizar a meu respeito” (Mt 11,1-6).

 

O Senhor Jesus nesta passagem se apresenta com duplo aspecto: de um lado, aparece a realizar as obras características do Messias (restauração da natureza desintegrada pelo pecado), ostentando assim o seu poder divino; doutro lado, prediz o momento em que sua natureza humana será pregada à Cruz; os seus inimigos então O incitarão a descer do patíbulo, sem que Ele, Jesus, lhes corresponda. Ora isto poderá causar escândalo, observa Cristo; bem-aventurado, porém, aquele que souber entender o aparente escândalo sem se deixar abalar por ele! — É o mistério da Encarnação ou do Divino envolvido no humano que dá origem à perplexidade predita pelo Senhor: Este não quis realizar a obra da Redenção senão por meio da carne humana, carne humana que muitas vezes manifestou o tesouro divino nela depositado, mas no Gólgota o encobriu totalmente, chegando a provocar a grande surpresa em alguns dos que viram o Senhor crucificado.

 

Aliás, mais de uma vez Jesus no Novo Testamento é apresentado como motivo de tropeço ou «escândalo».

Assim, por exemplo, profetizou o velho Simeão: «Este menino (Jesus) ocasionará a queda e o reerguimento de muitos em Israel; tornar-se-á um sinal entregue à contradição» (Lc 2, 34).

 

São Paulo, do seu lado, assim comenta a atitude obcecada dos judeus perante Jesus; «Eles foram de encontro à pedra de tropeço, como está escrito: 'Eis que ponho em Sião uma pedra de tropeço e um rochedo que faz cair; contudo quem crer n'Ele (o Messias, o Rochedo), não será confundido'» (Rom 9, 32s; cf. Is 814; 28,16).

 

Cristo, vindo na carne mortal, humilde e padecente, não correspondia às expectativas de glória humana e nacionalista que o povo de Israel alimentava; em consequência, diz São Paulo, tornou-se escândalo ou motivo de tropeço para os judeus: «Ao passo que os judeus exigem milagres e os gregos andam em busca da sabedoria, pregamos Cristo crucificado — escândalo para os judeus e loucura para os gentios» (1 Cor 1,22s). — Note-se contudo que Cristo crucificado veio a ser escândalo para os judeus, não a fim de que os israelitas perdessem a salvação eterna, mas para que se reerguessem espiritualmente sobre uma base mais sobrenatural ou mais norteada pela fé.

 

Se, portanto, Cristo outrora na Palestina teve dupla face — uma, gloriosa, divina; a outra, humana, aparentemente destoante do aspecto divino—, compreende-se que toda a obra de Cristo, continuada em seu Corpo Místico, traga o mesmo caráter através dos séculos. A história da Igreja vem a ser a história da Encarnarão prolongada. A Igreja, de um lado, é sublime por seus ensinamentos, por suas obras de assistência espiritual e corporal (foi ela quem ensinou a virtude e a civilização aos povos ocidentais...); doutro lado, essa santidade da Igreja não exclui a existência de homens fracos em seu grêmio, homens que profanam a qualidade de cristãos e eclesiásticos, dando «escândalo»... Dever-se-á, porém, dizer: bem-aventurado é todo aquele que não tropeça na face humana da Igreja, como bem-aventurado foi todo aquele que não tropeçou (ou não se escandalizou) na face humana de Jesus Cristo.

 

Tendo justamente em vista esse regime da Encarnação, que assinalaria a dispensação das graças através dos tempos, Jesus podia afirmar: «É necessário que venham escândalos!» (Mt 18,7).

 

Necessário! Em que sentido? — Cristo ergueu sua doutrina e sua Cruz portadoras de mensagem muito pura, mensagem tão pura que as próprias gerações cristãs, por eleito da debilidade humana, nem sempre a haveriam de sustentar e traduzir devidamente.

 

A necessidade de que fala Cristo, não pode ser explorada pelos homens como pretexto para afastarem de si a responsabilidade do escândalo. Em verdade, não há fatalismo; não há mal que se imponha, forçando a liberdade de arbítrio da criatura. Por isto acrescenta o Senhor: «Infeliz o homem pelo qual vem o escândalo!» (Mt 18,7), palavras que supõem responsabilidade na pessoa que dá escândalo.

 

A necessidade referida provém simplesmente do fato de que no mundo e na Igreja coexistem trigo e joio, bons e maus; ora estes, consciente ou inconscientemente, tendem a exercer influência perturbadora e maléfica sobre os bons.

 

1.2. Alarguemos ainda o nosso horizonte. Verificamos que, desde o início da história sagrada, Deus aparece a tentar os homens e a provar-lhes a fé, colocando-lhes «armadilhas no caminho», não com o intuito de os fazer pecar, mas com a intenção de os fazer sair do seu modo de pensar humano e limitado para abraçarem uma concepção mais sobrenatural da realidade.

 

Tenha-se em vista o caso de Abraão, o primeiro Patriarca, a quem o Altíssimo pediu imolasse seu filho único, a fim de provar e acrisolar a sua fé. Pelo regime das provações «escandalosas» passaram outrossim Jacó, José, Moisés, Jeremias, Ezequiel, a Virgem SSma e todos os justos do Novo Testamento, de geração a geração.

 

As provações, as tentações ministradas por Deus tornaram-se mesmo um elemento indispensável do processo de purificação e santificação dos homens. Muitas e muitas vezes acontece que as almas retas concebem um programa de perfeição espiritual inspirado pela melhor das intenções; não obstante, o Senhor no decorrer das tempos lhes contradiz, dando-lhes a ver que os seus desígnios são outros; norteiam-se por uma sabedoria ainda mais profunda, a qual desconcerta, «escandaliza» a sabedoria da criatura...

 

Quanto às modalidades pelas quais Deus põe à prova as criaturas, a experiência ensina que são muitas: às vezes, Ele recusa o que lhes parece haver de mais santo e justo na vida (tal graça espiritual, tal benefício temporal...); outras vezes, dir-se-ia que lhes subtrai a Providência, abandonando os seus mais fiéis servidores, enquanto os pecadores parecem viver felizes; em outras ocasiões (aliás, muito frequentes) é por intermédio dos homens que Deus «tenta», permitindo o mau exemplo e a infidelidade «escandalosa» daqueles que mais estariam obrigados a dar o bom exemplo (o escândalo do mau exemplo é certamente dos mais frequentes e perigosos, pois quem o dá geralmente não pensa no prejuízo espiritual causado; além disto, o mau exemplo age sorrateiramente, criando um ambiente no qual o erro vai adquirindo direitos de cidadania...).— Permitindo tais coisas, o Senhor visa abalar, sim, os seus fiéis para que se emancipem de concepções e afetos demasiado humanos e compreendam que há uma só coisa importante neste mundo: fazer em tudo a vontade do Pai Celeste. Tal tarefa se apresenta dolorosa para as almas, mas é altamente salutar, é mesmo imprescindível para que a criatura se liberte do seu egocentrismo espontâneo e se eleve devidamente até o verdadeiro Bem, que é Deus.

 

Em conclusão, verifica-se que um Cristianismo sem perplexidades, sem surpresas desconcertantes, não existe. Sendo essencialmente a prolongação de Cristo e da Encarnação, o Cristianismo apresentar-se-á sempre com uma face humana que, ao mesmo tempo, vela e revela a realidade divina. Bem-aventurado, porém, aquele que não se detém nessa periferia humana!

 

2. A atitude cristã perante o escândalo

 

O escândalo ou a infidelidade dos homens a Deus não deve ser motivo de desatino decisivo ou de recuo espiritual para uma consciência bem formada. Justamente a fim de se evitarem conclusões errôneas sugeridas pelos maus exemplos tanto de pessoas simples como de pessoas altamente responsáveis no Catolicismo, sejam aqui propostas algumas atitudes práticas.

 

a) Educar a fé

 

Será preciso, antes do mais, que o cristão eduque devidamente a sua fé e a fé de todos os que se dizem escandalizados.

 

E educar a fé significa incutir a distinção entre as instituições essenciais do Cristianismo (ou da Igreja) e as pessoas que professam essa santa Religião; mais precisamente,... a distinção entre a Igreja e os católicos. Embora os católicos falhem, a Igreja, nas suas afirmações oficiais, não falha. Quem quer aderir ao que Ela ensina e manda, pode fazê-lo tranquilamente, certo de que chegará a Deus se for fiel a essas instruções, mesmo que os companheiros de estrada sejam «escandalosos» e não alcancem a salvação.

 

A verdadeira fé não vive na expectativa de milagres e sinais de Deus (o Senhor não está obrigado a fazer o extraordinário), mas é a fé de quem crê que Deus age no mundo por meio de elementos humanos, de maneira oculta, mas bem real. — Em outros termos: a propensão a admitir intervenções portentosas de Deus não é necessário indício de muita virtude; ao contrário, frequentemente significa fé depauperada ou «crendice».

 

b) Avivar o senso da responsabilidade pessoal

 

Faz-se mister que, uma vez posto diante de um escândalo, o cristão avive em sua consciência e na do próximo o senso da responsabilidade pessoal. No Corpo Místico de Cristo, assim como existe comunhão de méritos, existe também comunhão de deméritos: «se o meu semelhante comete falta, dando escândalo, isto se verifica talvez porque eu não lhe transmiti a vida de Cristo como devia». E note-se que essa transmissão ou não transmissão de vida não se faz necessariamente por palavras ou exemplos aparatosos, mas se faz sempre pelo cumprimento do dever ou pela fidelidade humilde à vida em Cristo. «Uma alma que se eleva, eleva o mundo inteiro», dizia Elisabete Leseur ; consequentemente uma alma que se deprime pelo pecado ou pelo seu teor geral de vida, não pode deixar de deprimir o mundo, embora ninguém perceba a sua ação maléfica.

 

«Quem tem um morto em casa, não o abandona para ir prantear o do vizinho», diziam os antigos monges no deserto. Assim, ao vermos algo de escandaloso em nosso próximo, lembremo-nos de que temos um morto em casa, isto é, pecados próprios, atitudes quiçá escandalosas, que devemos procurar cancelar antes de denunciar os males do próximo.

 

c) Evitar o escândalo, mesmo o dos pusilânimes

 

Infeliz aquele que, por sua conduta desleixada, compromete (embora não o intencione diretamente) a salvação das almas pelas quais Cristo morreu, adverte o Apóstolo em Rom 14,15. Por isto diz ainda São Paulo : «Tudo me é permitido, mas nem tudo edifica. Ninguém procure o que é de seu interesse próprio, mas, antes, o que é do próximo» (1 Cor 10,23s).

 

Esta norma significa que por vezes o cristão deve renunciar ao uso de certos legítimos direitos seus, a fim de não provocar o escândalo daqueles que, por sua simplicidade ou ignorância, se surpreenderiam diante do uso desses direitos.

 

Foi assim que Cristo procedeu, por exemplo, quando, intimado a pagar o tributo do templo, lembrou primeiramente aos Apóstolos que não estava obrigado a isto; não obstante, mandou a Pedro que o fizesse em seu nome «a fim de não escandalizar os cobradores do imposto» (cf. Mt 17,24-27).

 

Semelhante comportamento foi observado e recomendado aos fiéis por São Paulo com referência ao consumo de carne na Igreja antiga. — Com efeito; nos açougues das cidades greco-romanas vendiam-se, para uso das famílias, carnes que haviam sido previamente imoladas aos ídolos nos santuários pagãos. Ora alguns cristãos, simples e Ignorantes, julgavam que tais alimentos continham em si um poder contaminador, capaz de dar comunhão com os deuses pagãos; por isto recusavam-se a comer tal tipo de carne e escandalizavam-se caso um irmão, mais esclarecido na fé, ousasse fazê-lo. Pois bem, dizia São Paulo, os ídolos nada são (1 Cor 84-6); por isto a carne a eles imolada não difere do comum das carnes vendidas no açougue; mas, «se um alimento é ocasião de queda para meu irmão, eu jamais comerei carne, para não causar a queda de meu irmão» (1 Cor 8,13).

 

«Jamais comerei carne para não escandalizar!». A tal ponto, sim, podem chegar as exigências da caridade para com o próximo.

 

A obrigação de se evitar dar o mau exemplo (ainda que aparente apenas) ou de se evitar o escândalo dos pequeninos é obrigação grave. Contudo a Moral cristã reconhece situações em que há motivos sérios para não se omitir um ato que provavelmente será mal entendido ou escandaloso para os irmãos de fraca formação. Em tais casos, faz-se mister, na medida do possível, esclarecer previamente as pessoas sujeitas a escândalo a fim de que não sofram detrimento ao perceberem a conduta do aparente libertino. Além disto, para a liceidade dessa conduta, requer-se a observância das seguintes condições:

a) o referido ato deve ser, por si mesmo, bom ou ao menos indiferente. Nunca se torna licito um ato intrinsecamente mau;

b) haja razões verdadeiramente graves para se realizar tal ato;

c) não exista outro meio de satisfazer às exigências da situação criada;

d) os efeitos bons do ato «aparentemente escandaloso» devem compensar ou ultrapassar os danos que esse mesmo ato possa causar.

 

À guisa de exemplo, seja citada a situação de quem, num dia de jejum, tem dispensa do preceito eclesiástico; fazendo uso público dessa dispensa, poderá, como se compreende, dar o mau exemplo ou o escândalo... Ser-lhe-á contudo lícito valer-se da licença, contanto que razões imperiosas (de saúde, por exemplo) o recomendem e, na medida do possível, o interessado esclareça as pessoas que se poderiam escandalizar.

 

d) Cautela em relação ao escândalo dos fariseus

 

O escândalo dos fariseus é aquele que não tem fundamento na conduta de quem age (este procede bem em toda a linha), mas na malícia de quem a observa.

 

Pois bem, por respeito à glória de Deus e à salvação do próximo, há obrigação (desde que isto não acarrete grandes inconvenientes) de evitar atos em si bons, mas não obrigatórios, que deem ocasião aos maus de cometer novos pecados. O cristão deverá, sim, esforçar-se zelosamente por diminuir o número de pecados do mundo, de mais a mais que, dada a ignorância religiosa vigente em nossos dias, se torna difícil distinguir se o próximo se escandaliza por malícia real ou por mera fraqueza na fé, isto é, por falta de formação...

 

Como quer que seja, torna-se quase impossível evitar todo escândalo farisaico, pois a simples conduta cristã vem a ser motivo de tropeço para o mundo moderno alheio a Deus. Jesus Cristo mesmo não recusou sempre a possibilidade de dar escândalo ou de ser motivo de queda para os fariseus. Vindo ao mundo e denunciando-lhe os seus males, o Senhor provocou o endurecimento e a malícia de muitos, que, em caso contrário, não teriam tido culpa tão grave : «Se eu não tivesse vindo e não lhes tivesse falado, não teriam pecado. Agora, porém, não têm desculpa do seu pecado» (palavras de Jesus em Jo 15,22).

 

É por vezes inútil querer evitar o escândalo farisaico, pois, faça o que fizer, acontece não raro que o homem de bem fica sempre sujeito à crítica e ao sarcasmo dos maus. É o que Jesus notava : «João (Batista) veio ; não comia nem bebia, e eis que dizem : 'Tem demônio'. O Filho do homem veio, come e bebe, e eis que dizem : 'É glutão e beberrão, amigo dos publicanos e pecadores'» (Mt 11,18s).

 

De outra feita, tendo Jesus censurado a hipocrisia dos fariseus, que se preocupavam com loções e ritos formalistas sem dar importância à pureza de pensamentos e afetos, os Apóstolos referiram ao Mestre: «Sabes que os fariseus ao ouvirem tuas palavras, se escandalizaram?». Ao que Jesus respondeu:» .. .Deixai-os. São cegos que conduzem cegos» (cf. Mt 15,10-14). Em tal caso, como se vê, Jesus não levou em conta o escândalo farisaico.

 

Estas considerações sugerem imediatamente a seguinte proposição:

 

e) Há também o escândalo salutar

 

A palavra e a vida norteadas pelo Evangelho, ao mesmo tempo que provocam o endurecimento de uns, são benéficas para outros, principalmente para os indecisos, cujo torpor elas sacodem. Nestes elas suscitam um escândalo salutar; abalam-nos, para que se reconstituam, mais conscientes de sua tarefa na terra. Jesus Cristo mesmo veio a ser o «Grande Escândalo» (entendido nesta acepção positiva).

 

Disto se segue que não se deve pregar o Cristianismo de modo a dissimular o que ele tem de oposto à mentalidade do mundo; não se procure adocicar ou tornar «inofensivo» o Evangelho, desvirtuando-o ou encobrindo a mensagem da Cruz, nem mesmo a título de ganhar mais fàcilmente as almas; é a rudez da mensagem evangélica como tal que mais atrai os ouvintes.

 

Naturalmente será preciso não falar do Evangelho sem propósito, isto é, em circunstâncias que não deixem esperança de acolhimento;... não provocar, pela pregação, choques doutrinários inúteis;... também não insistir em pormenores secundários da doutrina de Cristo como se tivessem a importância dos temas essenciais.

 

Pode-se dizer que a sociedade moderna se ressente muitas vezes da falta de um testemunho cristão mais decidido ou mais «escandaloso»; o que quer dizer :... mais apto a abalar a mediocridade dos homens. Frequentemente os cristãos tendem a se diluir ou a se nivelar ao modo de pensar, falar e viver dos demais homens, deixando de ser fermento na massa.

 

Tenha-se em vista principalmente a condescendência de cristãos com certas afirmações da sociedade contemporânea em que a arte (pseudo-arte) serve de engodo ao pecado: tais seriam as modas femininas, certas películas de cinema, peças de teatro, literatura pouco escrupulosa ou mesmo imoral... Se não há reações coletivas contra esses escândalos, o mal vai tomando foros de bem, perde-se até a consciência da diferença entre «lícito» e «ilícito».

 

Já São Pio X afirmava que «o maior obstáculo ao apostolado é a timidez ou, antes, a covardia a dos bons». Pio XII lhe fazia eco denunciando «o cansaço dos bons» como sendo o grande mal da época presente (cf. B. Haering, La loi du Christ, vol. 3. Paris 1959, 82).

 

O cristão consciente destas advertências procurará reagir contra todo tipo de cumplicidade com o mal, por mais sorrateiro que este seja e por mais «escandalosa» que venha a parecer a sua atitude.

Recomenda-se por fim

 

f) Excitar o senso da reparação do escândalo

 

Não basta ao discípulo de Cristo denunciar a existência dos escândalos na sociedade. Esta não pode ser a última palavra de um programa cristão. Até mesmo os escândalos têm sentido providencial, pois o Senhor só os permite porque deles quer tirar algum bem. Será preciso, portanto, que o cristão procure reparar os danos que ele mesmo ou seu próximo tiverem causado mediante um feito escandaloso. Reajam corajosamente, confiando não em suas próprias forças, mas na graça de Deus, que entregou a cada discípulo de Cristo a tarefa de ser «sal da terra e luz do mundo» (cf. Mt 5, 13s).

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


Como você se sente ao ler este artigo?
Feliz Informado Inspirado Triste Mal-humorado Bizarro Ri muito Resultado
2 0
PUBLICAR - COMENTAR - EMAIL

Ver N artigos +procurados:
TÓPICO  ASSUNTO  ARTIGO (leituras: 7965652)/DIA
PeR  Escrituras  1355 Jesus jamais condenou o homossexualismo?29.65
Orações  Comuns  2773 Oração de Libertação14.33
PeR  O Que É?  0516 O Que é a ADHONEP?11.80
PeR  O Que É?  2142 Quiromancia e Quirologia11.17
Diversos  Prática Cristã  4123 Sete coisas que eu aprendi com a pornografia10.97
PeR  História  0515 O Recenseamento sob César Augusto e Quirino10.61
Diversos  História  4042 R.R. Soares e Edir Macedo10.29
Diversos  Protestantismo  1652 Desafio aos Evangélicos: 32 Perguntas9.96
Diversos  Testemunhos  3922 Como o estudo da fé católica levou-me ao catolicismo9.42
Vídeos  Prática Cristã  4127 Como controlar a irritação?9.19
Diversos  Igreja  4111 9 coisas que afastam as pessoas da Igreja9.08
PeR  História  2571 Via Sacra, qual a origem e o significado?8.46
Diversos  Apologética  4109 A virgindade perpétua de Maria na Bíblia8.46
Diversos  Espiritualidade  4126 Evitar a mente perturbada8.37
Diversos  Anjos  3911 Confissões do demônio a um exorcista8.08
Diversos  Ética e Moral  2832 Consequências médicas da homossexualidade7.94
Diversos  Protestantismo  3970 A prostituição da alma7.79
Vídeos  História  4117 O nascimento da Igreja Católica7.74
Diversos  Espiritualidade  4121 O Espírito Santo entre nós7.74
PeR  Prática Cristã  1122 As 14 estações da Via Sacra7.63
Diversos  Prática Cristã  3780 Os pecados mortais mais comuns7.57
Diversos  Testemunhos  3465 Ex-pastor conta como fazia para converter católicos7.42
PeR  O Que É?  0565 Lei Natural, o que é? Existe mesmo?7.13
PeR  Testemunhos  0450 Eu Fui Testemunha de Jeová7.08
A Bíblia comprova o que a Igreja ensina, nunca foi o contrário.
Claudio Maria

Católicos Online