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PERGUNTE e RESPONDEREMOS 032 – agosto 1960

 

Giordano Bruno, Ciência e Inquisição

HISTÓRIA DO CRISTIANISMO

TERCEIRO (Niterói): «Que dizer da condenação de Giordano Bruno (+1600) pela Inquisição? Não será este caso um exemplo frisante de que a Igreja entravou o progresso das ciências até época recente?»

 

Giordano Bruno, filósofo do séc. XVI, é um dos personagens que a crítica liberal costuma apresentar como vítima da «estreiteza de mente» da Igreja. É essa situação que vamos agora considerar, focalizando primeiramente a vida e a personalidade do citado varão, refletindo, a seguir, sobre a atitude da Igreja frente ao mesmo.

 

1. As vicissitudes de Giordano Bruno

 

1.1. Filippo (tal era o nome de batismo de quem na vida dominicana se chamaria Giordano Bruno) nasceu em Nola (reino de Nápoles) em 1548. Recebeu educação e instrução facilitadas pelos dotes de imaginação ardente e de aplicação ao estudo que caracterizavam o menino. Aos 14 ou 15 anos entrou na Ordem Dominicana, onde professou a vida religiosa, sendo ordenado em 1572.

 

Já aos 18 anos de idade, como ele mesmo confessou aos seus juízes, sofreu as primeiras dúvidas de fé. Isto se explica pelas circunstâncias da época: os filósofos humanistas dos séc. XV/XVI tendiam a fundir com o Cristianismo as doutrinas da antiga filosofia pagã, principalmente do neoplatonismo (sistema panteísta ou monista, pois concebe o mundo como emanação ou continuação da substância mesma de Deus). Os ensaios de tal fusão, apresentados geralmente em estilo elegante, fascinavam não poucos estudiosos da época, chegando a contaminar Giordano Bruno. Este, no convento mesmo, se inclinava a interpretações racionalistas dos dogmas cristãos: o Filho (ou a segunda Pessoa da Ssma. Trindade) seria apenas «o intelecto do Pai»; o Espírito Santo seria «a alma e o amor do universo». A Divindade de Cristo lhe aparecia como título meramente metafórico para designar a extraordinária assistência outorgada por Deus ao homem Jesus. De modo geral, passou a conceber a Religião e suas manifestações como símbolos de verdades intelectuais, adaptadas à mentalidade ignorante do vulgo e possuidores apenas de valor prático (ou seja, do valor de disciplinar os costumes da massa humana).

 

Em consequência, abriu-se em Nápoles um processo de heresia contra Giordano. Este fugiu para Roma e, tendo abandonado o hábito religioso, pôs-se a vaguear pela Itália e a França, indo finalmente fixar-se por algum tempo em Genebra (Suíça), onde o Calvinismo tinha sua sede principal. Havendo aderido a esta denominação religiosa, não tardou a se incompatibilizar com os mestres calvinistas, que o processaram (1580). Recomeçou então sua vida errante pela França, a Inglaterra, a Alemanha, a Boêmia, a Suíça. Deteve-se, por fim, na república de Veneza (1592)... As idéias que disseminara e as numerosas obras que escrevera nesses anos, eram cada vez mais estranhas; pode-se dizer que algumas já não tinham caráter propriamente filosófico, mas índole marcadamente fantasista e satírica.

 

O mais famoso dos escritos de G. Bruno é o diálogo intitulado «Spaccio delia Bestia trionfante» (A expulsão da besta triunfadora), Paris 1584. Apresenta uma comédia mitológica e zombeteira de significado ambíguo: Júpiter, irritado no Olimpo por ver negligenciado o seu culto, intima a comparecer diante de si as 48 constelações do céu, entre as quais deseja implantar uma reforma; o Deus Momo então lhe faz ver que o lamentável descaso provém de que foram dados aos astros os nomes dos deuses — desses deuses escandalosos que por suas aventuras se tornaram objeto do desprezo dos próprios mortais; em consequência, sugere Momo sejam tais apelativos substituídos por nomes de virtudes... — Pergunta-se, como se definiria a mentalidade do autor de tal peça?

 

Quanto aos tratados cujo tema é propriamente filosófico, propõem todos uma ideologia panteísta assaz confusa, segundo a qual Deus é a mônade inicial que entra na composição de qualquer ser visível; a substância dos corpos é imperecível e não difere da dos espíritos; a matéria e o espaço são infinitos, como a própria essência divina. As almas podem emigrar de um corpo para outro, até para outro mundo; a mesma alma é capaz de habitar simultaneamente em dois corpos. O mundo existe desde toda a eternidade.

 

Os comentários bíblicos de Giordano Bruno também são inspirados pela imaginação mais do que pela exegese objetiva: somente os hebreus seriam descendentes de Adão e Eva; os outros homens terão nascido de outro casal, anteriormente criado por Deus. Moisés haveria concebido por si só o Decálogo; teria realizado seus milagres por meio da magia (aplicação de receitas reservadas aos iniciados), coisa boa e lícita. Cristo mesmo não haveria sido mais do que um mago de importância considerável.

 

Em Veneza, o Grão-Duque Giovanni Mocenigo muito desejava aprender com Bruno a arte de utilizar sabiamente a memória (arte que, no pensamento de Giordano B., estava muito ligada com a magia). Contudo não conseguiu tolerar as afirmações antirreligiosas do mestre, que Mocenigo acabou denunciando ao Sto. Ofício como herege.

 

Iniciou-se, por conseguinte, em 1592 novo processo contra Bruno, processo que as autoridades eclesiásticas de Roma quiseram orientar diretamente. Giordano foi então enviado para Roma em 1593; a causa foi sendo julgada com vagar, pois Bruno, embora professasse submissão aos poderes eclesiásticos, se recusava sorrateiramente a retratar alguma de suas afirmações antigas; foram-lhe apresentadas oito proposições extraídas de seus escritos e portadoras de heresias teológicas (não se tratava de ciências naturais, no caso). Bruno, depois de muito protelar a resposta, negou-se formalmente a reconhecer os erros teológicos; não sabia o que haveria de retratar... Em consequência, após três anos de espera, a Inquisição resolveu proceder decisivamente: Giordano Bruno foi declarado transgressor dos seus votos monásticos e apóstata da fé; de acordo então com a jurisprudência vigente, os inquisidores o entregaram ao braço secular, isto é, ao Governador de Roma, para que lhe aplicasse a pena devida; ora esta, no caso de um herege renitente, era a morte pelo fogo. Depois de sentenciado, os juízes ainda concederam oito dias a Giordano Bruno para que se reabilitasse; em vão, porém. Ainda por ocasião da execução no Campo dei Fiori (Roma), Bruno rejeitou o crucifixo que lhe apresentavam. Assim encerrou ele os seus dias aos 17 de fevereiro de 1600.

 

1.2. Por todo o século XVII o nome de Giordano Bruno era raramente mencionado na galeria dos homens doutos da história (Keppler, +1630, porém, a ele se referia ao tratar da pluralidade de mundos habitados).

 

Do séc. XVIII em diante é que Bruno se tornou famoso, principalmente entre os livres pensadores, dos quais foi tido como precursor e mártir. Quem contribuiu decisivamente para exaltar o mestre italiano, foi o filósofo Jacobi (+1818), com as suas «Cartas sobre a doutrina de Spinoza», nas quais G. Bruno é apresentado como imediato precursor do panteísmo do pensador judeu Baruch Spinoza (+1677). — Por sua vez, Schelling (+1854) e Hegel (+1831) muito honraram a Bruno como arauto inicial do seu sistema idealista (que é panteísmo-monismo). Por incrível que pareça, também o positivismo (doutrina que rejeita a metafísica ou a especulação em torno de objetos invisíveis) enalteceu Giordano Bruno, tendo em vista o naturalismo (recusa do sobrenatural) professado pelo ex-dominicano. Nesse conchave não faltaram nem sequer os políticos do século passado; com efeito, os nacionalistas do «Risorgimento» italiano e os democratas da esquerda tomaram Giordano Bruno como vanguardeiro do seu espírito anticlerical e maçon.

 

Hoje em dia não é tanto por suas doutrinas muito subjetivas a fantasistas que Bruno goza de alguma fama, mas é, sim, pelo seu espírito de revolta contra as instituições cristãs tradicionais.

Uma vez enunciados estes elementos de história, pergunta-se: que pensar sobre o caso?

 

2. Um juízo sobre a história narrada

 

Procuraremos avaliar o significado do episódio de G. Bruno, desenvolvendo três observações:

 

2.1) A condenação do ex-frade por parte das autoridades eclesiásticas constitui mais uma das facetas da história da Inquisição. Ora a Inquisição é fenômeno típico da mentalidade medieval, mentalidade que certamente não é a do homem moderno e que, por isto, tão dificilmente hoje em dia é reconstituída e compreendida.

 

Já foram propostas em «P. R.» as grandes idéias que, aos olhos do cristão medieval, norteavam e legitimavam a Inquisição; tenham-se em vista os fascículos:

- P.R.» 8/1957, qu. 9 (a história e o espírito da Inquisição);

- P. R.» 4/1958, qu. 12 (o processo de Galileu);

- P. R.» 8/1958, qu. 9 (o processo de S. Joana d'Arc);

- P. R.» 16/1959, qu. 7 (o processo dos Templários)

 

Resumiremos aqui o principal do que já foi dito nos fascículos citados.

Para o homem medieval, era indiscutível o princípio de que o bem da alma mais vale do que os bens do corpo. O cidadão, na Idade Média, tinha consciência de que a alma existe, e a esta dava o lugar devido — lugar de primazia sobre o corpo. Disto se segue que tudo que dizia respeito à salvação da alma, na Idade Média, assumia importância capital; ora, entre os bens referentes à salvação da alma, contava-se (e conta-se) a verdadeira fé; a perversão do credo, portanto, mediante a heresia era tida como mal gravíssimo.

 

Habituado a esta maneira de apreciar as coisas, o medieval assim raciocinava: se a jurisprudência da época julga réu de morte o criminoso que põe em perigo a vida do corpo de seu semelhante, muito mais deverá ser considerado réu de morte o herege, que, contaminando a verdade (da qual se nutre a vida da alma), põe em perigo a alma de seu próximo. — Deste raciocínio o medieval, com a consciência tranquila, concluía não somente ser lícito, mas até necessário, eliminar da sociedade os cidadãos cuja obstinação na heresia constituísse evidente perigo de deterioração da verdade revelada por Deus.

 

A tal cidadão — isto é muito importante — nunca era recusada a reconciliação com Deus mediante os sacramentos da Confissão e da Comunhão; ora, absolvido sacramentalmente antes de sofrer a morte física, o réu poderia perfeitamente salvar a sua própria alma e ir para o céu (este é o único objeto que um juiz jamais poderia licitamente recusar ao réu; quanto a uma prolongada permanência neste mundo, sabemos que ela nem sempre é vantajosa para o homem!).

 

Note-se outrossim que, ao raciocinar de maneira tão fria, o medieval seguia uma das tendências marcantes da época — tendência a se guiar muito mais pelo rigor da lógica do que pela ternura do sentimento. O homem moderno, ao contrário, é menos propenso ao raciocínio rígido e mais inclinado a se nortear pelo sentimento ou pela afetividade impulsiva e incoerente (hoje em dia os homens não acreditam muito em princípios perenes, tendendo, antes, a tudo julgar segundo critérios relativos e subjetivistas). Sendo a Índole dos medievais mais especulativa e lógica, não nos surpreenderemos pela rudez com que afirmavam e defendiam a escala dos valores que se oferecem ao homem aqui na terra.

 

De resto, a fé era algo de tão vivo e espontâneo na Idade Média que dificilmente se admitiria viesse alguém a negar com boas intenções um só dos artigos do credo.

 

2.2) A mentalidade que inspirou a Inquisição, longe de arrefecer no séc. XVI, foi ainda aguçada em virtude da chamada «Renascença» dos séc. XV/XVI.

 

Com efeito, nessa época as ciências naturais progrediram grandemente, seguindo novos métodos de trabalho, que lhes proporcionaram descobertas de notável relevo. O homem de ciência assim tendia a julgar-se cada vez mais emancipado de qualquer autoridade (inclusive da fé). A «vertigem da inteligência» ia-se apoderando de alguns pensadores que de maneira mais ou menos confessada chegavam a lançar um brado de morte a Deus (tal foi o caso, por exemplo, de Campanella, 1568-1639). Em uma palavra: uma onda de ateísmo revestido da capa de ciência alastrou-se capciosamente por círculos de estudiosos do séc. XVI.

 

Em consequência, as autoridades eclesiásticas, ciosas de conservar o patrimônio da verdade, se sentiram, a novo título, estimuladas à vigilância: desde que um filho da Igreja, como era Giordano Bruno, se mostrasse arauto da nova mentalidade, aos juízes eclesiásticos devia parecer lógico que não lhe poderiam permitir a propagação das suas idéias dissolventes; o bem coletivo, ou seja, o patrimônio da fé (que é fonte de vida espiritual) corria perigo! É o que explica o fato de que Giordano Bruno, professando uma filosofia pagã revestida ora de termos de ciências naturais, ora de termos de teologia cristã, tenha provocado contra si a ação dos Inquisidores.

 

2.3) De resto, independentemente mesmo do caso de Giordano Bruno, nunca será demasiado inculcar a distinção a se fazer entre a Igreja como tal e estes ou aqueles de seus filhos, por mais graduados que sejam. Frequentemente no decorrer da história o procedimento dos inquisidores destoou das normas oficiais da Igreja e foi objeto de reprovação por parte dos Papas.

 

Quanto à tese de que a Sta. Igreja se tenha oposto ao progresso da ciência nos séculos passados, já foi analisada em «P. R.» 5/1958, qu. 10; 29/1959, qu. 6.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


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