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FÉ, RELIGIÃO E IDEOLOGIA

(O Pensamento de Joseph Ratzinger)

 

“O Papa Bento XVI é teólogo de elevada envergadura; sem dúvida um dos teólogos católicos contemporâneos mais competentes”.

Dom Hilarion Alfeyev

Metropolitano ortodoxo de Volokomsk e presidente do Departamento de Relações Exteriores do Patriarcado de Moscou.

 

A fé tem necessidade de ser sustentada por meio de uma doutrina capaz de iluminar a mente e o coração dos fiéis. O particular momento histórico que estamos a viver, caracterizado entre outras coisas por uma dramática crise de fé, exige a assunção de uma tal consciência que permita responder às grandes expectativas que nascem no coração dos fiéis para as novas interrogações que interpelam o mundo e a Igreja. Por conseguinte, a inteligência da fé requer sempre que os seus conteúdos sejam expressos com linguagem nova, capaz de apresentar à esperança presente nos fiéis e à quantos exijam, a explicação da razão da mesma (cf. 1Pd 3, I5).

 

É tarefa particular da Igreja manter vivo e eficaz o anúncio de Cristo através da exposição da doutrina que deve alimentar a fé no mistério da Encarnação do Filho de Deus que se fez homem por nós, que morreu e ressuscitou para a nossa salvação. Ela deve cumpri-la incansavelmente, através de formas e instrumentos adequados, a fim de que quantos acolham e acreditem no anúncio do Evangelho, renasçam para uma vida nova mediante o Batismo (1).

 

A fé torna-nos peregrinos na terra, inseridos no mundo e na história, mas a caminho da pátria celestial. Portanto, crer em Deus torna-nos portadores de valores que muitas vezes não coincidem com a moda, nem com a opinião do momento, exige que adotemos critérios e assumamos comportamentos que não pertencem ao modo de pensar comum. O cristão não deve ter medo de ir “contra a corrente” para viver a sua fé, resistindo à tentação de “se conformar”. Em numerosas de nossas sociedades, Deus tornou-se o “grande ausente” e em seu lugar há muitos ídolos, ídolos extremamente diferentes entre si e, sobretudo a posse e o “eu” autônomo. Também os progressos notáveis e positivos da ciência e da técnica suscitaram no homem uma ilusão de onipotência e de autossuficiência, e um egocentrismo crescente criou não poucos desequilíbrios no contexto das relações interpessoais e dos comportamentos sociais (2).

 

E, no entanto, a sede de Deus (cf. Sl 63, 2) não foi saciada e a mensagem evangélica continua a ressoar através das palavras e das obras de numerosos homens e mulheres de fé. Abraão, o pai dos crentes, continua a ser pai de muitos filhos que aceitam caminhar no seu sulco e põem-se a caminho, em obediência à vocação divina, confiando na presença benévola do Senhor e acolhendo a sua benção, a fim de se fazer bênção para todos. É o mundo abençoado da fé, ao qual todos somos chamados, para caminhar sem medo no seguimento do Senhor Jesus Cristo. Trata-se de um caminho por vezes difícil, que conhece também a prova e a morte, mas que abre à vida, numa transformação radical da realidade, que unicamente os olhos da fé são capazes de ver e saborear em plenitude.

 

A Fé Como Resposta ao Amor de Deus.

 

Na minha primeira Encíclica, deixei já alguns elementos que permitem individuar a estreita ligação entre estas duas virtudes teologais: a fé e a caridade. Partindo de uma afirmação fundamental do apóstolo João: “Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele” (1Jo 4, 16), recordava que, “no início do ser cristão não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo... Dado que Deus foi o primeiro a amar-nos (cf. 1Jo 4, 10), agora o amor já não é apenas um “mandamento”, mas é a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro” (Deus caristas est, I). A fé constitui aquela adesão pessoal – que engloba todas as nossas faculdades – à revelação do amor gratuito e “apaixonado” que Deus tem por nós e que se manifesta plenamente Jesus Cristo. O encontro com Deus Amor envolve não só o coração, mas também o intelecto: “O reconhecimento do Deus vivo é um caminho para o amor, e o sim da nossa vontade à d’Ele une intelecto, vontade e sentimento no ato globalizante do amor. Mas isto é um processo que permanece continuamente a caminho: o amor nunca está “concluído” e completado” (ibid., I7). Daqui deriva, para todos os cristãos e em particular para os “agentes da caridade”, a necessidade da fé, daquele “encontro com Deus em Cristo que suscite neles o amor e abra o seu íntimo ao outro, de tal modo que, para eles, o amor do próximo já não seja um mandamento por assim dizer imposto de fora, mas uma consequência resultante da sua fé que se torna operativa pelo amor (ibid., 31). O cristão é uma pessoa conquistada pelo amor de Deus e está aberto de modo profundo e concreto ao amor do próximo” (cf. ibid., 33).

 

A Caridade Como Vida na Fé

 

Toda a vida cristã consiste em responder ao amor de Deus. A primeira resposta é precisamente a fé como acolhimento, cheio de admiração e gratidão de uma iniciativa divina inaudita que nos precede e solicita; e o “sim” da fé assinala o início de uma luminosa história de amizade com o Senhor, que enche e dá sentido pleno a toda a nossa vida. Mas Deus não se contenta com o nosso acolhimento do seu amor gratuito; não Se limita a amar-nos, mas quer atrair-nos a Si, transformar-nos de modo tão profundo que nos leve a dizer, como São Paulo: já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim (cf. Gl 2, 20).

 

Quando damos espaço ao amor de Deus tornamo-nos semelhantes a Ele, participantes da sua própria caridade. Abrirmos-nos ao seu amor significa deixar que Ele viva em nós e nos leve a amar com Ele viva em nós e nos leve a amar com Ele, n’Ele e como Ele; só então a nossa fé se torna verdadeiramente uma “fé que atua pelo amor” (Gl 5, 4 6) e Ele vem habitar em nós (cf. 1Jo 4, I2).

 

A fé é conhecer a verdade e aderir a ela (cf. 1Tm 2, 4); a caridade é “caminhar” na verdade (cf. Ef 4, 15). Pela fé, entra-se na amizade com o Senhor; pela caridade, vive-se e cultiva-se esta amizade (cf. Jo 15, 14-15). A fé faz-nos acolher o mandamento do nosso Mestre e Senhor; a caridade dá-nos a felicidade de pô-lo em prática (cf. Jo 13, I3-17). Na fé, somos gerados como filhos de Deus (cf. Jo 1, 12-13); a caridade faz-nos perseverar na filiação divina de modo concreto, produzindo o fruto do Espírito Santo (cf. Gl 5,22). A fé faz-nos conhecer os dons que o Deus bom e generoso  nos confia; a caridade fá-los frutificar (cf. Mt 25,14-30). Na realidade, se por um lado é redutiva a posição de quem acentua de tal maneira o caráter prioritário e decisivo da fé que acaba por subestimar ou quase desprezar as obras concretas da caridade reduzindo-a a um genérico humanitarismo, por outro é igualmente redutivo defender uma exagerada supremacia da caridade e a sua operatividade, pensando que as obras substituem a fé. Para uma vida espiritual sã, é necessário evitar tanto o fideísmo como o ativismo moralista.

 

A existência cristã consiste num contínuo subir ao monte do encontro com Deus e depois voltar a descer, trazendo o amor e a força que daí derivam, para servir os nossos irmãos e irmãs com o próprio amor de Deus. Na Sagrada Escritura, vemos como o zelo dos Apóstolos pelo anúncio do Evangelho, que suscita a fé, está estreitamente ligado com a amorosa solicitude pelo serviço aos pobres (cf. At 6,1-4). Como escreveu o Servo de Deus Papa Paulo VI, na Encíclica Populorum progressio, o anúncio de Cristo é o primeiro e principal fator de desenvolvimento (cf. n. I6). A verdade primordial do amor de Deus por nós, vivida e anunciada, é que abre a nossa existência ao acolhimento deste amor e torna possível o desenvolvimento integral da humanidade e de cada homem (cf. Enc. Caritas in veritate, 8).

 

Essencialmente, tudo parte do Amor e tende para o Amor. O amor gratuito de Deus é-nos dado a conhecer por meio do anúncio do Evangelho. Se o acolhermos com fé, recebemos aquele primeiro e indispensável contato com o divino que é capaz de nos fazer “enamorar do Amor”, para depois habitar e crescer neste Amor e comunicá-lo com alegria aos outros (3).

 

Alguns procuram refúgio em ídolos, cedendo à tentação de encontrar resposta numa presumível onipotência “mágica” e nas suas promessas ilusórias. Mas a fé em Deus Todo-Poderoso impele-nos a percorrer sendas muito diferentes: aprender a conhecer que o pensamento de Deus é diverso do nosso, que os caminhos de Deus são diferentes dos nossos (cf. Is 55, 8) e também a sua onipotência é diversa: não se expressa como força automática ou arbitrária, mas caracteriza-se por uma liberdade amorosa e paterna. Na realidade Deus, criando criaturas livres e dando liberdade, renunciou a uma parte do seu poder, deixando o poder da nossa liberdade. Assim Ele ama e respeita a resposta livre de amor à sua chamada. Como Pai, Deus deseja que nós sejamos seus filhos e vivamos como tais no seu Filho, em comunhão, em plena familiaridade com Ele. A sua onipotência não se manifesta na violência, não se exprime na destruição de todo o poder adverso, como nós desejamos, mas se expressa no amor, na misericórdia, no perdão, na aceitação da nossa liberdade e no apelo incansável à conversão do coração, numa atitude só aparentemente frágil – Deus parece frágil, se pensamos em Jesus Cristo que reza que se deixa matar. Uma atitude aparentemente débil, feito de paciência, de mansidão e de amor, demonstra que este é o verdadeiro modo de ser poderoso! Este é o poder de Deus! E este poder vencerá!

 

DEUS, O HOMEM E IDEOLOGIAS.

 

Ao longo dos últimos séculos, as ideologias que exaltavam o culto da nação, da raça e da classe social revelaram-se verdadeiras idolatrias; e o mesmo podemos dizer acerca do capitalismo selvagem, com o seu culto do lucro, do qual derivaram crises, desigualdades e miséria. Hoje em dia, compartilha-se cada vez mais um sentir comum a propósito da dignidade inalienável de cada ser humano e da responsabilidade recíproca e interdependente em relação a ele; e isto em vantagem da verdadeira civilização, a civilização do amor. Por outro lado, infelizmente, também o nosso tempo conhece sombras que ofuscam o desígnio de Deus. Refiro-me acima de tudo a uma trágica redução antropológica, que volta a propor o antigo materialismo hedonista, mas ao qual se acrescenta um “prometeísmo tecnológico”. Da união entre uma visão materialista do homem e o grande desenvolvimento da tecnologia sobressai uma antropologia no fundo ateia. Ela pressupõe que o homem se reduza as funções autônomas, a mente ao cérebro, e a história humana a um destino de autorrealização. Tudo isto, prescindindo de Deus, da dimensão propriamente espiritual e do horizonte ultraterreno. Na perspectiva de um homem desprovido da sua alma e, portanto de uma relação pessoal com o Criador, àquilo que é possível do ponto de vista técnico torna-se moralmente lícito, todas as experiências são aceitáveis, todas as políticas demográficas permitidas, todas as manipulações legitimadas. Com efeito, a insídia mais temível desta corrente de pensamento é a absolutização do homem: o homem quer ser absolutus, isto é, desvinculado de qualquer laço e de qualquer constituição natural. Ele pretende ser independente e pensa que a felicidade se encontra unicamente na afirmação de si mesmo.

 

Deus é um Pai que nunca abandona os seus filhos, um Pai amoroso que sustenta, ajuda, acolhe, perdoa e salva, com uma fidelidade que ultrapassa imensamente a dos homens, para se abrir a dimensões de eternidade. “Porque o seu amor é para sempre”, como continua a repetir de modo litânico, em cada versículo, o Salmo I36, repercorrendo a história da salvação. O amor de Deus Pai nunca esmorece, nem se cansa de nós; é amor que doa até ao extremo, até ao sacrifício do Filho. A fé doa-nos esta certeza, que se torna uma rocha segura na construção da nossa vida: nós podemos enfrentar todos os momentos de dificuldade e de perigo, a experiência da obscuridade da crise e do tempo da dor, sustentados pela confiança de que Deus não nos deixa sozinhos e está sempre próximo, para nos salvar e nos levar à vida eterna.  “O ser humano está marcado por estes paradoxos: a nossa pequenez e a nossa caducidade convivem coma grandeza que o amor eterno de Deus desejou para ele”, afirma de forma magistral Bento XVI (4).

 

RELIGIÃO E VIOLÊNCIA

 

“Na situação atual da humanidade o diálogo das religiões é uma condição necessária para a paz no mundo, constituindo por isso mesmo um dever para os cristãos bem como para as outras crenças religiosas”, declara o Papa Bento XVI (5).

 

E com a glória de Deus nas alturas está relacionada a paz na Terra entre os homens. Onde não se dá glória a Deus, onde Ele é esquecido ou até mesmo negado, também não há paz. Hoje, porém, há correntes generalizadas de pensamento que afirmam o contrário: as religiões, mormente o monoteísmo, seriam a causa da violência e das guerras no mundo; primeiro seria preciso libertar a humanidade das religiões, para se criar então a paz; o monoteísmo, a fé no único Deus, seria prepotência, causa de intolerância, porque pretenderia fundamentado na sua própria natureza, impor-se a todos com a pretensão da verdade única. É verdade que, na história, o monoteísmo serviu de pretexto para a intolerância e a violência. É verdade que uma religião pode adoecer e chegar a contrapor-se à sua natureza mais profunda, quando o homem pensa que deve ele mesmo deitar mão à causa de Deus, fazendo assim de Deus uma sua propriedade privada. Contra estas deturpações do sagrado, devemos estar vigilantes. Se é incontestável algum mau uso da religião na história, não é verdade que o “não” a Deus restabeleceria a paz. Se a luz de Deus se apaga, apaga-se também a dignidade divina do homem.

 

Então, este deixa de ser a imagem de Deus, que devemos honrar em todos e cada um, no fraco, no estrangeiro, no pobre. Então deixamos de ser, todos, irmãos e irmãs, filhos do único Pai que, a partir do Pai, se encontram interligados uns aos outros. Os tipos de violência arrogante que aparecem então com o homem a desprezar e a esmagar o homem, vimo-los, em toda a sua crueldade, no século passado. Só quando a luz de Deus brilha sobre o homem e no homem, só quando cada homem é querido, conhecido e amado por Deus, só então, por mais miserável que seja a sua situação, a sua dignidade é inviolável (6).  “Onde Deus é negado, dissolve-se a dignidade do homem. Enquanto quem defende Deus, defende o homem” (7).

 

De modo tão brilhante o Papa Bento XVI exorta: “Diante destes desafios da época, nós sabemos que a resposta é o encontro com Cristo”. Nele o “homem pode realizar plenamente o seu bem pessoal e o bem comum” (8).

 

O célebre pensador Joseph Ratzinger construiu uma monumental obra arquitetônica teológica. É um erudito no pensamento intelectual da grandeza humana. Sua literatura sapiencial é colossal para o conhecimento atual e das novas gerações. Faz jus ao progresso da ciência e do avanço tecnológico em prol da paz, da verdade e da justiça.

 

É incomensurável o pensamento de Joseph Ratzinger como o epônimo da pós-modernidade. Sua obra é uma epopeia teádrica que alcança o coração e a razão.

 

Pe. Inácio José do Vale

Professor de História da Igreja - Instituto de Teologia Bento XVI -  Sociólogo em Ciência da Religião

E-mail: [email protected]

 

Notas:

(*) L’osservatore Romano, 03/03/2013,p.11.

(1)                 L’osservatore Romano, 02/02/2013, pp. 3 e 6.

(2)                 L’osservatore Romano, 26/01/2013, p. 13

(3)                 L’osservatore Romano, 10/02/2013, pp. 3 e 5.

(4)                 Idem, p. 3.

(5)                 L’osservatore Romano, 22/12/2012, p.16.

(6)                 L’osservatore Romano, 29/12/2012, p. 3.

(7)                 L’osservatore Romano, 22/12/2012, p. 9.

(8)                 L’osservatore Romano, 26/01/2013, p. 15.

 


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