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PERGUNTE e RESPONDEREMOS 031 – julho 1960

Por que o Silêncio de Deus?

Não seria mais fácil se Deus se mostrasse?

 

«Não seria muito melhor que Deus se dignasse aparecer aos incrédulos e os advertisse de que somente o Cristianismo é o Caminho e a Verdade? Não poria fim às dúvidas e ao pecado, tirando tantos homens da crise religiosa em que se acham?»

 

A resposta à questão se depreenderá da consideração dos seguintes pontos :

 

1. Deus quer, sem dúvida, que todos os homens se salvem (cf. 1 Tim 2,4 e «P. R.» 29/1960, qu. 2). Donde se conclui que o Criador concede a cada indivíduo humano os meios necessários à salvação.

 

2. Tais meios são geralmente consentâneos com o curso natural das coisas; já que Deus é o Autor das leis que as regem, Ele costuma utilizar as criaturas para executar seus desígnios no mundo.

 

Por conseguinte, Deus se manifesta a todo homem:

a) pelos seres visíveis que o cercam, seres contingentes que só se explicam pela existência de uma Causa Absoluta, a qual é Deus. O homem, portanto, usando de sua razão, mediante o principio de que tudo que começa a existir tem uma causa, pode chegar ao conhecimento da existência de Deus e de alguns dos seus atributos (Onipotência, Sabedoria. Bondade, Justiça...);

b) pela lei natural, que no intimo de cada consciência clama: «Faze o bem, evita o mal». Essa voz, anterior a qualquer deliberação, é a voz do Autor mesmo da natureza. O homem que siga sinceramente tal ditame, segue o bem, e, passando de bem finito a bem finito (de ato bom, virtuoso, a ato bom, virtuoso), adquire comunhão cada vez mais íntima com a Fonte de todos os bens e virtudes, que é Deus.

 

3. Além de se manifestar de modo natural (pelas criaturas visíveis e pelos ditames da consciência), o Senhor Deus houve por bem revelar-se aos homens de maneira sobrenatural, isto é, falando pelos Profetas e por seu Filho único feito homem (Jesus Cristo).

 

4. A revelação sobrenatural foi munida de credenciais a fim de merecer a aceitação inteligente e consciente dos homens.

 

Entre essas credenciais, registram-se os milagres realizados por Cristo, dos quais o mais expressivo é a ressurreição do próprio Senhor Jesus.

 

Pode-se dizer que todo o Cristianismo está baseado na proposição da ressurreição de Cristo: «Se Cristo não ressuscitou, vã é a vossa fé», escreve São Paulo (1 Cor 15,17). Ora a ressurreição de Jesus deve ter sido um fato real, pois certamente o mundo no qual ela foi inicialmente apregoada, não estava em absoluto predisposto a aceitar tal fenômeno; ao contrário, os Apóstolos e discípulos de Cristo se mostraram assaz lentos para lhe dar fé (tenham-se em vista S. Tomé, em Jo 20,25; os discípulos de Emaús, em Lc 24,17-23). Quanto aos pagãos, sabe-se que consideravam geralmente o corpo como cárcere da alma, repudiando, por conseguinte, qualquer hipótese de volta da alma à matéria após a morte do indivíduo. Se, não obstante tal aversão, a notícia da ressurreição de Jesus conseguiu implantar-se entre os povos do Império Romano, a ponto de se tornar o fundamento de vinte séculos de Cristianismo, o bom senso exige que tal noticia fosse verídica ou correspondente à realidade histórica; se não, facilmente haveria sido desmascarada pelos adversários do Evangelho, que não eram pouco numerosos; cf. «P. R.» 8/1957, qu. 1.

 

Entre as credenciais da Boa Nova, devem-se notar outrossim os milagres que acompanharam a pregação dos Apóstolos (cf. At 5,12-17);... também a surpreendente propagação do Evangelho, doutrina da Cruz, num mundo corrupto e hostil, que até 323 perseguiu os cristãos...

 

Em suma, o Senhor fez que a implantação do Evangelho no mundo fosse munida de testemunhos objetivos (que aqui não vão minuciosamente explanados por não pertencerem ao tema da questão), testemunhos objetivos suficientes para que até nossos dias a pregação de Cristo e da sua Igreja possa ser inteligentemente aceita (e não aceita simplesmente de olhos fechados, por motivos de rotina, ou por imposição de autoridade).

 

5. Dizíamos que a Providência Divina houve por bem efetuar numerosos milagres nos primórdios da pregação do Evangelho. Eram necessários em vista das circunstâncias nas quais ressoava a palavra dos Apóstolos, pregando um Messias crucificado, «escândalo para os judeus, loucura para os gregos» (cf. 1 Cor 1,23). Sujeitos às perseguições desde os tempos do Imperador Nero (64-67), os primeiros arautos do Evangelho não teriam conseguido resultado algum se não fôra a intervenção extraordinária de Deus em seu favor.

 

Uma vez, porém, passadas as circunstâncias dos primeiros tempos, a Providência não continua a suscitar os abundantes milagres de outrora. Registram-se, sem dúvida, ainda hoje portentos que confirmam a veracidade do Evangelho; tais são, entre outros, os que se verificam em Lourdes, Fátima, nas canonizações dos santos, etc.; a Santa Igreja faz questão de submeter os apregoados fenômenos extraordinários ao exame de cientistas e teólogos, a fim de se certificar de que se trata de verdadeiros sinais de Deus.

 

Os milagres, porém, sendo derrogações às leis que o Criador sábio incutiu à natureza, não podem constituir o regime normal de salvação para os homens: Deus, tendo dado pois aos elementos, não lhes faz exceções sem finalidade proporcionalmente importante; em tudo Ele observa harmonia e consonância. Ora, para promover a conversão dos homens, existem não somente as credenciais objetivas que assinalamos (principalmente a ressurreição de Cristo, base de vinte séculos de Cristianismo), mas também os auxílios invisíveis da graça dados aos homens que ouvem a palavra de Deus, para que se convertam. Podemos estar certos de que o Senhor não deixa criatura alguma destituída dos elementos necessários à salvação; para isto, porém, não precisa de fazer milagres (exceções); a graça de Deus, mesmo no setor das coisas ordinárias, é muitíssimo variegada em suas vias...

 

6. Deve-se mesmo dizer (quase paradoxalmente) que, para quem não possui um ânimo sincero e dócil para aceitar os meios ordinários de salvação, nem mesmo os meios extraordinários ou milagrosos servem de alguma coisa. Sim; a alma mal disposta não se rende nem diante dos sinais mais retumbantes, mas está sempre pronta a retorcer e anular o significado de qualquer milagre.

 

É o que o Senhor mesmo se digna ensinar no S. Evangelho mediante a parábola do ricaço e do mendigo Lázaro (Lc 16,19-31): um homem, diz Jesus, banqueteava-se todos os dias, desprezando um pobre e doente, Lázaro, assentado à porta de seu palácio. Morreram o rico e o mísero... Após a morte, o gozador experimentou tremenda decepção, consequente ao seu egoísmo. Em sua amargura, então, pediu ao Pai, permitisse que Lázaro reaparecesse na terra para admoestar os cinco irmãos do ricaço, precavendo-os contra semelhante desilusão. Do céu, porém, recebeu a resposta seguinte: «Eles têm Moisés e os Profetas; ouçam-nos!»; o que queria dizer: «... têm os meios ordinários de salvação, os quais são suficientes». Insistiu, porém, o ricaço: «Mas, se alguém dentre os mortos for ter com eles, arrepender-se-ão». Falsa esperança! A voz do alto replicou: «Se não ouvem a Moisés e aos profetas, não se deixarão persuadir, mesmo que ressuscite alguém dentre os mortos!».

 

Esta parábola de Jesus incute claramente a todos os homens a necessidade de se aproximarem de Deus nesta vida, contando com os meios ordinários da Providência, e não com recursos extraordinários. A ninguém é lícito pretender receber sinais milagrosos de Deus para abraçar a verdadeira fé; engana-se aquele que julga que, se o Senhor fizesse hoje em dia mais milagres ou um milagre de alcance universal, todos ou quase todos os incrédulos se converteriam. Quem resiste aos meios comuns de salvação, muitas vezes não o faz porque careça de evidência objetiva para abraçar a fé, mas porque criou hábitos e disposições morais que ele com sacrifício deveria remover, caso um dia aderisse à fé; assim a paixão desregrada pode deter o homem diante de qualquer sinal de Deus!

 

7. Acontece que a Providência Divina não faz chegar a mensagem do Evangelho a todos os homens, permitindo que uns vivam na idolatria e outros na heresia. — Tais homens, que, sem culpa própria, desconhecem a verdadeira fé, podem, sem dúvida, salvar-se, caso observem com toda a fidelidade os ditames da sua consciência, entre os quais é fundamental o seguinte: «Faze o bem (todo o bem que vires ser obrigatório) e evita o mal (todo o mal que vires ser proibido)».

 

Está claro que a tais homens o Senhor não pedirá contas de uma profissão de fé e de observâncias religiosas que, sem culpa própria, terão ignorado ou jamais terão conhecido autenticamente. Serão julgados conforme a sua fidelidade aos ditames de sua consciência e poderão conseguir a bem-aventurança celeste destinada a todos os justos (contanto que perseverem rigorosamente de boa fé no erro, fazendo lealmente tudo que a consciência lhes mande, até o fim da sua vida); cf. «P. R» 1/1958, qu. 7.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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