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PERGUNTE e RESPONDEREMOS 024 – dezembro 1959

 

Atlântida !

JOÃO CAÇADOR (Rio de Janeiro):Terá realmente existido a Atlântida, continente que escolas antigas e modernas apresentam como berço de elevada sabedoria ?

 

A questão tem importância não somente por seu aspecto geológico, mas principalmente pelo fato de que as correntes ocultistas de nossos dias afirmam herdar a sublime sabedoria da Atlântida, sabedoria que, como dizem, só pode ser revelada a iniciados; Mme. Blavatsky, por exemplo, e o coronel Olcott, mentores da Teosofia moderna, passavam por já ter vivido na Atlântida em anterior encarnação... — Interessa-nos, por conseguinte, primeiramente averiguar o que referem as fontes históricas a respeito da Atlântida para, a seguir, formularmos um juízo seguro sobre a existência e o significado do famoso continente.

 

1. O testemunho das fontes históricas

 

1.1. O vocábulo Atlântida vem de Atlas ou Atlanta, nome de um dos deuses da mitologia grega, pertencente à família das divindades do mar; atribuíam-se-lhe inteligência superior, ciência universal e, em particular, o conhecimento de todos os abismos do oceano. Como o nome indica (Atlas vem do radical grego tal ou tia, que significa «carregar»), o deus Atlas era o Portador por excelência, pois sustentava sobre a cabeça e os fortes ombros todo o peso do Céu (diziam uns) ou (conforme outros) as enormes colunas que da Terra separavam a abóbada celeste.

 

As narrativas mitológicas variam um pouco na maneira de explicar como Atlas passou a exercer tal função: uma versão refere que o herói Perseu, filho de Júpiter, se apresentou um dia ao titã Atlante (os titãs eram os filhos gigantescos de Ouranos, céu, e Gea, terra), pedindo-lhe asilo; já que Atlante o negou, o herói, fazendo refulgir aos seus olhos a cabeça de Medusa, transformou o titã numa montanha chamada Atlas (norte da África), sobre a qual haveriam de se apoiar o céu e os astros !

 

Diz outra narrativa que foi o próprio Júpiter quem sentenciou Atlas, condenando-o a carregar sobre os ombros o peso do Atlas. Este, segundo Heródoto, era enorme monte da Líbia, cujos altos cumes, envolvidos em nuvens, sugeriam aos líbios tratar-se de colunas do céu. O motivo da condenação teria sido o apoio dado por Atlas a uma revolta dos titãs contra Júpiter.

 

Uma terceira lenda completa as anteriores contando que Hércules foi ter certa vez com Atlas, a fim de roubar os pomos de ouro do jardim das Hesperides; enquanto Hércules ficaria sustentando a abóbada celeste, Atlas iria colher os almejadas frutos. Aconteceu, porém, que, ao voltar do latrocínio, Atlas recusou-se a retomar o seu fardo habitual; Hércules então, usando de um ardil, fez que ao menos por um momento Atlas aceitasse a carga; entrementes apoderou-se dos pomos e abandonou seu cúmplice. — Graciosas «histórias»... !

 

1.2. Deixando de parte a mitologia, verificamos que o nome do deus assim focalizado foi, sob a forma do adjetivo Atlântida, dado a um continente que a tradição dos antigos narra ter sido submerso pelas águas.

 

Donde vem essa tradição ?

 

A mais antiga fonte de tal notícia é o filósofo grego Platão (427-347 a. C.), em duas de suas obras: os diálogos «Timeu» (21-25) e «Crítias». — Vejamos, pois, o que a propósito refere tal escritor.

 

Platão atribui a certo Crítias. de Atenas, uma narrativa da qual Crítias teria tomado conhecimento através de alguns escritos por ele encontrados em casa de seu avô nos anos de sua juventude. Nesses escritos, dizia Crítias, Sólon, o grande legislador ateniense do séc. VI a. C., consignara recordações de uma viagem que fizera ao Egito: estivera então em visita aos sacerdotes de Sais (cidade do delta do Nilo), os quais teriam relatado ao legista de Atenas algo das suas venerandas e longínquas tradições... Dentre estas se destacava a seguinte: havia 9.000 anos, existia, em frente das Colunas de Hércules (estreito de Gibraltar), uma ilha-continente, maior do que a Líbia e a Ásia reunidas. Tal ilha coubera em partilha ao deus Poseidon (Netuno), que se unira a uma criatura mortal, Clito, vindo a ter cinco pares de filhos gêmeos. Netuno, havendo educado esses herdeiros, repartiu entre eles o domínio da ilha, tocando ao mais velho, Atlas, o mando supremo (donde o nome de Atlântida dado a todo o território). Os dez irmãos geraram posteridade numerosa, a qual recobriu a Atlântida, levando vida caracterizada por sabedoria e felicidade.

Muito interessante era a configuração geográfica da região: constava de uma ilha central, onde se erguiam o templo de Netuno e Clito, assim como o palácio régio. Essa ilha central tinha o diâmetro de cinco estádios (888 m). e era cercada por um canal largo de um estádio (177,60 m). Havia, em seguida, um anel de terra, da largura de dois estádios (355,20 m), e outro canal de águas, também largo de dois estádios. Mais um cinturão de terra e um terceiro canal se avistavam a seguir, medindo cada qual três estádios (532,80 m). Após o terceiro canal, estendia-se mais um anel de terra, o qual media 50 estádios (8.880 m) de largura. Nos limites exteriores deste terceiro cinturão encontrava-se finalmente o mar aberto.

 

Os descendentes de Netuno ou os Atlantes ainda embelezaram a obra de seu divino Genitor, construindo longas pontes, pujantes muralhas, torres, fortalezas, quartéis, arsenais, ginásios, jardins, hipódromos, etc. Notável era a afluência de naves à Atlântida; provenientes de todas as partes do mundo, podiam penetrar, por meio de canais artificiais, até o âmago do continente, provocando intenso movimento diurno e noturno.

 

Na ilha central, o templo de Poseidon se estendia imponente sobre a área de um estádio (177,60 m) de comprimento e três plelros de largura (88,60m, ao todo); cercavam-no muralhas refulgentes de ouro e metais preciosos. Condigno era o esplendor do palácio dos reis, situado nas proximidades e rodeado de casernas. Duas inextinguíveis fontes de água afloravam ao solo da ilha central, uma quente, a outra fria, alimentando os balneários, refrescando o bosque de Poseidon e irrigando, por sábio sistema de canais, todo o continente até as suas extremidades.

 

A densa população da ilha se distribuía por 60.000 distritos, constituídos à semelhança de autênticas circunscrições militares: esses distritos forneciam à defesa do continente 10.000 carros de combate, 240.000 cavalos, 1.200.000 guerreiros (20 por distrito), 240.000 marinheiros para 1.200 naves (cada qual dotada de 200 homens).

 

A prosperidade da vida na região era extraordinariamente favorecida pela bonança da terra: duas colheitas ao ano, flora e fauna abundantes completavam as riquezas do solo e do subsolo: ouro, prata, estanho, oricalco, pedras preciosas...

 

Durante muitos e muitos séculos, continua a narrativa de Platão, os reis da Atlântida se mantiveram à altura de sua linhagem divina, comportando-se sóbria e virtuosamente. Aos poucos, porém, deixaram-se dominar pela cobiça e as paixões: em vez de fomentar a agricultura e o comércio, respeitando os deuses e suas leis, passaram a se preocupar com a dilatação de seu poder, subjugando militarmente as ilhas vizinhas, toda a África até o Egito, e a Europa até a Tirrênida. À vista disto, Júpiter reuniu a assembleia dos deuses e resolveu castigar a linhagem pervertida dos Atlantes. A cidade de Atenas na Grécia tornou-se o instrumento da punição, assumindo, sim, a chefia da resistência aos invasores insulares. Atenas, embora abandonada por seus aliados, conseguiu vencer os inimigos, libertando os povos dominados a leste das Colunas de Hércules. A seguir, terremotos e inundações flagelaram a Atlântida, vindo esta finalmente a perecer, totalmente tragada pelas águas em um dia e uma noite !

 

Eis o que refere Platão no séc. V a.C. (notemos o grande número de intermediários — Crítias, o avô de Crítias, Sólon de Atenas, os sacerdotes do Egito — que o terão posto a par do «episódio» ocorrido havia mais de 9.000 anos... ; é esta uma via assaz acidentada !). Outros autores que, na antiguidade, aludem à Atlântida são posteriores ao filósofo grego e dele dependem literariamente; nem Heródoto (+424/402 a.C.) nem Homero (séc. VIII a.C.) nem algum dos escritores pré-socráticos (contràriamente ao que se pensava há decênios atrás) pode ser tido como testemunha da sorte da Atlântida: «A Atlântida só é mencionada por Platão e por aqueles que o leram» (S. Gsell, Histoire ancienne de l'Afrique du Nord I 1913, 328).

 

Importa-nos, por conseguinte, indagar agora qual seria o genuíno sentido do relato de Platão. Para chegarmos a uma conclusão sólida, examinaremos primeiramente o que a respeito pensaram os intérpretes no decorrer dos séculos.

 

2. As variadas interpretações

 

O tema da Atlântida tem sido amplamente explorado pelos escritores modernos, ora em tom sério de estudos científicos, ora em literatura de romance e ficção.

 

2.1. Em primeiro lugar, registram-se intérpretes que muito estimaram a narrativa de Platão; coligindo todos os dados elucidativos fornecidos pelos textos do filósofo, procuraram reconstituir a carta minuciosa do desaparecido continente, a lista de seus reis, as peripécias de sua história...

 

Sem descer a tantos pormenores, principalmente sem se prender às indicações de tempo e lugar, outros autores, desde as primeiras gerações após Platão até nossos dias, admitiram e admitem o desaparecimento, em época pré-histórica, de um continente, quiçá habitado e altamente civilizado; contudo muito diferem entre si ao tentarem identificar a malograda terra.

 

Rudbeck, por exemplo, colocou a antiga Atlântida na região da Escandinávia moderna; Latreille, na Pérsia atual; Bailly (em 1779), no planalto da Mongólia, conjeturando todo um sistema de migrações dos povos na base dessa hipótese. De Baer, que tratou muito longamente do assunto, quis ver nos habitantes da Atlântida as doze tribos de Israel; o cataclismo de que fala Platão, corresponderia ao que aniquilou as cidades de Sodoma e Gomorra! Não poucos intérpretes voltaram suas vistas para a América, sendo que Mac-Culloch assimilou a Atlântida às Antilhas: as pequenas ilhas disseminadas entre a América e a Europa seriam os vestígios da região tragada pelas ondas; em favor desta opinião, cita-se o fato de que nas ilhas Canárias foi encontrado pelos descobridores espanhóis um povo dito «dos Guanches», hoje desaparecido, povo que mostrava costumes semelhantes aos dos egípcios e aos de índios da América, e cuja língua parece ter tido afinidades com a destes últimos. De Paw julgava que a América mesma não é senão a Atlântida, outrora, sim, devorada pelas águas, mas posteriormente abandonada por estas; a civilização atlântida ainda nos seria atestada pela dos povos pré-colombianos do México, do Peru e da foz do Guadalquivir.

 

Hoje em dia a hipótese mais em voga situa a antiga Atlântida ao lado de Gibraltar, onde se encontram as ilhas dos Açores, da Madeira, das Canárias e do Cabo Verde (que seriam os últimos vestígios do continente submerso). Em 1898 sondagens realizadas ao norte dos Açores trouxeram à tona massas de larvas tais que só se formam sob a pressão atmosférica; seriam, por conseguinte, larvas anteriores à época em que os vulcões da Atlântida foram tragados pelas águas; nota-se outrossim que a fauna dos quatro mencionados arquipélagos é de origem continental, semelhante à das Antilhas e à das costas do Senegal — o que é tido como indício de que todas estas terras outrora constituíam um único continente. O geólogo francês Pierre Termier é decidido defensor desta tese.

 

2.2. Ao lado dos que, sob esta ou aquela modalidade, admitem a existência da Atlântida, há os que em absoluto não a aceitam. Lembram, entre outros argumentos, o fato de que já Aristóteles, o maior discípulo de Platão, considerava a narrativa da Atlântida como fabulosa.

 

Recentemente Bessmertny dizia que o problema da Atlântida de Platão, por sua natureza mesma, pertence à categoria dos «fenômenos infrarracionais», só tendo atualidade para as pessoas que querem «descobrir uma pátria e um objetivo». A Atlântida seria o símbolo da aspiração inata em todo homem a uma pátria ideal, aspiração que em termos análogos se exprime na mitologia de cada povo: por conseguinte, os gregos, através de Platão, terão falado da Atlântida, como os suecos falaram de San Brandan; os celtas, de Avalun; os alemães, de Vineta, etc. Em vista do elevado número de obras literárias, de ficções, que desenvolvem o tema da Atlântida, região de vida bem-aventurada, Bessmertny chega a falar do «complexo da Atlântida»; cf. Bessmertny, L'Atlantide. Paris 1935 (trad. francesa).

Este catálogo de teorias já é suficiente para ilustrar os dados do problema. Pergunta-se agora:

 

3. Qual o autêntico significado da narrativa de Platão ?

 

Para se chegar a clareza no assunto, distinga-se entre o aspecto geológico e o aspecto literário-filosófico da narrativa concernente à Atlântida.

 

3.1 O aspecto geológico. É fato inegável que a face da Terra e seus acidentes geográficos se modificam lenta e continuamente: catástrofes e cataclismos vão mudando incessantemente a configuração do globo; pode-se mesmo assegurar que porções de terra têm sido devoradas no decorrer dos tempos pelas águas do mar, perecendo então os respectivos habitantes e os documentos de sua civilização.

 

Um caso assaz curioso a este propósito é o que se pode observar na famosa ilha de Páscoa, também dita Vai-Hu. Está situada nas extremidades meridionais do oceano Pacifico, mais próxima do litoral do Chile do que da costa australiana; mede 25 km de perímetro, sendo habitada por uma população de raça mista polinésia, inteligente e dotada de certa civilização. Ora nessa porção de terra encontram-se monumentos gigantescos que parecem ser estátuas de Divindade confeccionadas por antigos habitantes da ilha; estes terão desaparecido, extinguindo-se assim uma civilização que, a julgar por tais documentos, deve ter sido relativamente elevada. Os estudiosos perguntam se esses homens não pereceram numa catástrofe, da qual uma consequência e um testemunho seria a pequena ilha de Páscoa até hoje subsistente. Se não se pode dar resposta dirimente a esta questão, o caso mencionado muito concorre para ilustrar o fato — pressuposto por Platão — de que regiões e civilizações têm surgido e perecido sucessivamente na face da terra através dos séculos. O filósofo grego mesmo terá observado em torno de si, na Grécia e na Itália meridional, a ação incessante das forcas da natureza a modificarem os acidentes geográficos.

Dito isto, faz-se mister abordar o outro aspecto do tema que focalizamos.

 

3.2 O aspecto literário-filosófico da Atlântida de Platão. Embora muito plausível seja a destruição de regiões e civilizações por efeito de cataclismos, não se poderia daí inferir que Platão, ao narrar a história da Atlântida, aluda a um episódio real e histórico. Muito ao contrário; a narrativa do escritor grego tem a aparência de um episódio artificialmente forjado para transmitir idéias filosóficas, não notícias de índole historiográfica.

E quais seriam os fundamentos desta afirmação ?

 

a) Em primeiro lugar, note-se que, embora Platão descreva uma civilização altamente desenvolvida e se refira a um conflito armado certamente vultuoso entre os povos da Atlântida e os do Mediterrâneo, nenhum autor, na antiguidade antes de Platão, mencionou tais tópicos; no decorrer de 9.000 anos tais temas terão ficado totalmente envoltos em silêncio.. . Esta falta de documentos e testemunhos é estranha. Talvez, porém, não se lhe deva atribuir importância decisiva no estudo da questão. Levar-se-á então em conta o seguinte:

 

b) A narrativa de Platão encerra dados anacrônicos ou incompatíveis entre si. Com efeito,.de um lado, a geologia permite-nos admitir a existência de territórios a oeste de Gibraltar (atual região do Atlântico) no fim da era terciária e até no início da quaternária; em todo caso, porém, numa época que certamente distava de Sólon pelo intervalo de mais de 9.000 anos. A «Atlântida de Platão», portanto, se apresenta recente demais para poder identificar-se com uma presumida «Atlântida dos geólogos». — Do outro lado, porém, existindo 9.000 anos antes de Sólon, a Atlântida de Platão está recuada ou longe demais para poder ser o cenário de uma civilização tal como o filósofo a descreve, civilização que com esmero utilizava os metais... ; nove mil anos antes de Sólon de Atenas, o gênero humano ainda vivia, quando muito, no grau de cultura da pedra polida, não conhecendo ainda a metalurgia.

 

A propósito vêm as observações do Prof. A. Rivaud, um dos mais recentes comentadores do «Timeu» e do «Crítias»:

«Todos as elementos da sua descrição da Atlântida, Platão os colheu em torno de si, no mundo grego, em Atenas mesmo, ou nos confins da civilização helênica, em Creta e talvez no Egito...

 

O templo de Poseidon e Clito é em tudo semelhante a qualquer templo grego. É um pouquinho maior do que o templo de Diana em Éfeso e o de Júpiter Olímpio em Atenas. Os ornamentos são mais ricos, mas o estilo da ornamentação é o mesmo...

 

Quase sem sair de Atenas, Platão podia encontrar todos os elementos essenciais da sua narrativa. Não é necessário suponhamos hipotéticas tradições referentes a um antigo império celta ou ao reino misterioso do Aztlã ou do Metzli. Quando os atenienses liam o 'Crítias', aí reconheciam, talvez retocados e ampliados, espetáculos familiares. Quem sabe, de resto, se Platão não fazia empréstimos à literatura de romances anterior a ele? ...Em todo caso, é fácil ver que a descrição da Atlântida não está isenta de intenções edificantes» (Platon, éd. «Les Belles Lettres» t. X 248-251).

 

3.3 Pondere-se outrossim que as cifras indicadas por Platão para caracterizar os distritos, assim como os efetivos militares, as dimensões do continente, etc., parecem ser simétricas demais para corresponder à realidade: apresentam, antes, caráter estilizado e fictício (tenham-se em vista os dados numéricos que atrás enunciamos).

 

«Um dos traços mais impressionantes da ficção platônica é a regularidade geométrica das instalações da Atlântida. A bem dizer, esta regularidade é característica comum de todas as cidades de utopia» (Rivaud, ob. cit. 251).

 

3.4 Estas observações são corroboradas por mais uma reflexão. Tudo nos diálogos «Timeu» e «Crítias» é narrado em função de uma doutrina filosófica ou sociológica que o autor quer firmemente incutir aos seus leitores; Platão, tendo, sim, em vista ensinar qual deveria ser o Estado ideal, houve por bem enunciar os característicos deste não de maneira abstrata e teórica, mas à guisa de um poeta e estilista, ou seja, sob a forma de uma narrativa imaginária semelhante aos modernos romances de ficção cientifica (como são os de Júlio Verne é Wells); tais obras, por seu estilo suave e agradável, são fàcilmente assimiladas pelos leitores...

 

4. Em conclusão: a crítica sadia admite que a narrativa de Platão se possa ter inspirado de alguma catástrofe geológica dessas que não raro abalaram a face da Terra no decorrer da história (é possível mesmo que o filósofo tenha tido em vista determinado cataclismo ocorrido no Oceano Atlântico). Os traços, porém, com que Platão descreve a «sua» Atlântida hão de ser tidos como imaginários.

 

Eis, mais uma vez, o juízo abalizado de Rivaud: «Poeta como era,... Platão por vezes se entregava à sua fantasia, que era inesgotável e experimentava prazer sutil em jogar suas belas imagens... O mito da Atlântida e, por conseguinte, o 'Crítias' inteiro são simples fábulas» (ob. cit. 12).

 

Donde se vê, em última análise, que nunca tiveram realidade a «elevada civilizarão» e a «profunda sabedoria» dos habitantes da Atlântida, dos quais se dizem herdeiros os «iluminados» e ocultistas modernos ! Desfaz-se assim o caráter autoritário e misterioso com que estes apresentam suas doutrinas. A fantasia dos homens as elaborou, dando, porém, destarte o valioso testemunho de que o senso do mistério e do místico constitui um dos predicados mais profundamente arraigados na natureza humana.

 

Oxalá essa sede de mística procure satisfazer-se na única fonte autêntica, que é a Revelação do único Deus comunicada aos homens por Cristo !

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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