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PERGUNTE e RESPONDEREMOS 024 – dezembro 1959

 

Hinduísmo e Cristianismo: União ou Repulsa?

FILOSOFIA E RELIGIÃO

SWAMI (Rio de Janeiro): “Sabedoria hindu e Sabedoria cristã: união ou repulsa ?

 

Dir-se-ia que os homens ocidentais, cansados das vicissitudes da história contemporânea, desejam restaurar-se à luz e ao calor de sabedoria proveniente de longe, ou seja, do Oriente e, em particular, da Índia; não há dúvida, Budismo, Teosofia, Yoga, Krishnamurti encontram aceitação crescente nas terras ocidentais. E não falta quem apregoe conciliação entre a ideologia recém-vinda e a tradicional sabedoria cristã.

 

Em face da situação que assim se cria, procuraremos abaixo tomar consciência exata do patrimônio de idéias da Índia, para, a seguir, poder averiguar devidamente até que ponto se coordenariam com as concepções cristãs.

 

 

1. As grandes linhas da ideologia hindu

 

A sabedoria hindu deriva-se, em última análise, das crenças religiosas da Índia primitiva, codificadas nos livros sagrados dos Vedas (Veda = sabedoria por excelência), livros redigidos em sânscrito entre o VIII e o V séc. a.C. de acordo com tradições derivadas de 1000/1500 a.C. Esse patrimônio primitivo fundiu-se com idéias religiosas de povos que sucessivamente habitaram a península índica, dando assim origem ao Bramanismo, em reação ao qual surgiu o Budismo (séc. V a.C.). Cada uma dessas modalidades religiosas, por sua vez, se subdividiu em correntes diversas, de sorte que existem hoje em dia o Vedanta, o Neo-bramanismo, o Vishnuísmo, o Sivaísmo, o Saktismo, o Budismo do Grande Veículo (Mahayana), o do Pequeno Veículo (Hinayana), o Veiculo Tântrico, etc. O conjunto de todas essas correntes religiosas chama-se atualmente Hinduísmo ou Sanatana Dharma (Lei ortodoxa).

 

Abstraindo de aspectos particulares, visaremos aqui apenas as linhas que marcam a estrutura do pensamento hindu sob as suas diversas modalidades.

 

a) Antes do mais, perguntamo-nos: que ensina a sabedoria da Índia antiga a respeito de Deus?

— O Divino é o Absoluto, substância neutra, impessoal, que está identificada com o espírito de cada homem.

 

Diz o livro dos Vedas, atribuindo à Divindade o nome de Brama:

«Perguntas o que é o Brama ? É teu próprio Atmã, que é interior a tudo» (Brihad Aranyaka, up. III 4).

Nessa frase note-se que Atmã (At man) significa Este Eu, ou a alma humana.

 

O Brama neutro, impessoal, fica inacessível aos conceitos dos homens. Não o podendo apreender em si mesmo, o devoto hindu tende a atingi-lo e adorá-lo em seus atributos ou em suas manifestações divinas; assim tem origem a série dos deuses professados pela religiosidade popular hindu; todos eles são Brama expresso em uma faceta sua; todos fazem parte de Brama, como as gotas do oceano fazem parte do oceano. Contudo é por excelência dentro da própria alma que o fiel devoto deve encontrar a Divindade, pois cada um possui ou é uma centelha divina. Assim diria Vishnu, uma das manifestações de Brama, a Siva:

 

«Aqueles que são vítimas da ignorância, me consideram distinto de ti» (Vishnu-Purana).

 

A tradição hindu admite que os deuses (ou os atributos do Brama) se encarnem, seja por seu bel-prazer, seja para cumprir uma tarefa, em particular a de socorrer a humanidade aflita. As encarnações da Divindade se chamam «avatares» ou «descidas»; Vishnu é o deus que mais frequentemente se encarna. Pode haver número ilimitado de «avatares». Ramakrishna, famoso mestre Brama do século passado (1834-1886), dizia: «Os avatares são em relação a Brama o que as ondas são em relação ao oceano».

 

b) Professando tais noções a respeito da Divindade, como conceberia o hindu este mundo e a sua história ?

 

— A substância divina única, Brama, cuja existência é eterna, acha-se animada por um ritmo constante de respiração: aos movimentos de absorver e expelir o ar correspondem respectivamente a produção (impropriamente dita criação) e a destruição do universo. Este mundo é dominado pelas leis do surto e do desaparecimento, da vida e da morte, que não são senão reproduções do ritmo de sonolência e despertar ou de inspiração e expiração que move a Divindade.

 

Dentre os seres visíveis, o homem, de maneira especial, corresponde à Divindade; é o microcosmos colocado dentro do macrocosmos ou do grande corpo divino que é a natureza: assim, a carne humana corresponde à terra; a palavra, ao fogo; o hálito, ao ar; o olho, ao sol...

 

Mais precisamente, o mundo, por respiração de Brama, ter-se-á formado de acordo com o seguinte processo: originou-se primeiramente o akaça ou éter, corpo de extrema sutileza, que deu início aos quatro elementos fundamentais: o ar, o fogo, a água, a terra. Estes, combinando-se, deram origem à Vida dentro de um corpo embrionário chamado «o ovo de Brama» e depositado no seio das águas. A partir desse gérmen, foram-se desenvolvendo aos poucos os diversos seres, visíveis e invisíveis, que constituem este mundo. Os entes inferiores tendem a evoluir até o grau humano, que representa o ponto culminante da evolução. Quanto ao homem, ele almeja emancipar-se do corpo pesado e do mundo material em que se acha, para voltar à Substância primordial de Brama.

 

O hindu concebe a história como repetição de ciclos simétricos, em cada um dos quais o mundo nasce, evolui e desaparece. Cada ciclo («Kalpa» ou «dia de Brama») dura aproximadamente 4.320 milhões de anos; ao termo destes, o cosmos é reabsorvido em Brama, donde se há de formar posteriormente um novo ovo cósmico!

 

c) No conjunto do universo, que papel toca ao homem?

 

-- Ao homem é dado compreender o caráter ilusório da matéria que o envolve, ou seja, compreender que a multiplicidade que o cerca não é multiplicidade, mas é a unidade de Brama. Em outros termos: é-lhe dado perceber que este mundo não é senão o cenário de uma comédia cujos atores são os homens. Em consequência, o indivíduo humano deve fazer tudo para se libertar da matéria. A fim de o conseguir, torna-se-lhe necessário esquecer o que lhe é exterior e concentrar a sua atenção no «Eu» interior, onde se encontra a centelha divina ou Brama. Tal purificação não se consegue no decorrer de uma só existência terrestre; por isto cada indivíduo tem que voltar mais de uma vez à Terra, sujeitando-se ao ciclo das reencarnações ou samsara. As reencarnações são inexoravelmente regidas pela lei do karma, segundo a qual cada ato humano produz um efeito bom ou mau, que configurará a próxima encarnação do respectivo sujeito, tornando-o mais feliz ou menos feliz conforme os seus méritos ou deméritos.

 

Para ilustrar a obrigação, imposta aos devotos, de esquecerem tudo que lhes é extrínseco e extinguirem todo desejo das coisas terrestres, contam os hindus o seguinte episódio:

 

Um mestre (guru), interrogado por seu discípulo sobre a eficácia do amor divino, mergulhou a cabeça do jovem em um rio, detendo-a dentro d’água até quase sufocá-lo... Quando o discípulo foi retirado do rio, o mestre perguntou-lhe:

 

«Em que pensavas, quando imerso n’água ?»

-- «Todo o meu ser só tendia a respirar. Só desejava isso. Só podia pensar nisso !»

— «Está bem, replicou o mestre, quando tiveres igual necessidade de Deus, serás libertado!»

 

Por conseguinte, desde que o homem adquira plena consciência de que ele não se distingue da substância universal ou de que sua alma é idêntica à totalidade, está em condições de se libertar do corpo; a alma então se funde em Brama, ultrapassando as categorias da unidade e da multiplicidade, o que implica em perda da individualidade pessoal.

 

A fim de favorecer a concentração da alma em si mesma e a sua consequente libertação, os hindus recorrem a técnicas especiais de controle dos movimentos do corpo, principalmente da respiração. A tais exercícios se dá o nome de Yoga, assunto já abordado em «P. R.» 16/1959, qu. 1.

 

Assim expostas as grandes linhas da espiritualidade hindu, procuremos cotejá-las com os traços dominantes da sabedoria cristã.

 

2. A sabedoria cristã : confronto...

 

1. Quem estabelece o confronto entre sabedoria hindu e sabedoria cristã, sem demora observa uma nota comum dominante em ambas: a consciência do mistério ou de que aquilo que o homem apreende com os sentidos não esgota o conteúdo da realidade. Assim tanto o hindu como o cristão vivem do invisível mais do que do visível.

 

O misticismo ou a consciência do mistério representa a religiosidade espontânea, inata em todo homem; não é nem especificamente hindu nem especificamente cristã, pois a natureza inteligente de per si experimenta a necessidade de viver em função do transcendente. É, sem dúvida, por causa dessa base de religiosidade natural férvida que muitos julgam poder identificar entre si Cristianismo e Hinduísmo.

 

2. Contudo note-se que não basta ao homem, para chegar à sua consumação, apreender vagamente a existência do Transcendente que o cerca. É preciso que procure, na medida do possível, aproximar-se do Mistério com a inteligência, pois o homem é um ser essencialmente intelectivo ou racional.

Ora, justamente ao tentar realizar esta tarefa, o Hinduísmo diverge fundamentalmente do Cristianismo. Com efeito,

 

2.1) Pode-se dizer que a diferença capital vigente entre uma e outra ideologia consiste em que a sabedoria hindu identifica a Divindade, o mundo e o homem numa só substância posta em evolução através da história (panteísmo ou monismo.), ao passo que a ideologia cristã distingue nitidamente entre Deus pessoal, transcendente Criador, de um lado, e, do outro lado, o mundo criado (em que ulteriormente se diferenciam os irracionais e os homens).

 

O panteísmo já mais de uma vez foi submetido a juízo em «P. R.» (cf. 7/1957. qu. 1; 21/1959, qu. 2); é o que nos dispensa de voltar de maneira sistemática ao assunto.

 

Aqui seja apenas recordado que o panteísmo cai no ilógico, pois identifica o Absoluto (que por definição é Deus) e o relativo, o Infinito (Deus) e o finito, como se o Infinito não fosse senão a soma de partes finitas ou como se o Absoluto não fosse senão o relativo elevado ao auge de sua perfeição; na verdade, a estrutura do finito e relativo difere radicalmente da do Infinito e Absoluto, como o ser que é por si difere radicalmente do ser que não é por si; admitir identidade entre ambos é renegar o principio de contradição («o ser não é o não ser»), é obstruir as vias para qualquer raciocínio.

 

Por muito ilógico que seja, o panteísmo nunca deixou de seduzir os homens; e isto, por três motivos principais:

 

a) o panteísmo, fazendo de Deus uma substância neutra e impessoal, parece salvaguardar melhor o infinito da Divindade, ao passo que o conceito de personalidade parece induzir determinações (no sentido de limitações e imperfeições) em Deus.

 

Note-se, porém, que tais aparências são vãs. pois a noção de personalidade não inclui em suas notas constitutivas alguma limitação; ela apenas significa um sujeito ou «Eu» subsistente em uma natureza intelectiva (natureza intelectiva finita, na criatura; infinitamente perfeita, no Criador).

 

b) Inegàvelmente, o panteísmo abre ao homem horizontes grandiosos, colocando-o no plano do Divino. Ora isto corresponde bem ao senso do mistério impregnado em toda criatura humana e aguça-o (com detrimento, porém, para a dignidade intelectual do homem).

 

c) O panteísmo, identificando o Divino e o humano, cancela o fundamento de qualquer atitude religiosa. O panteísta poderá, sim, falar de religião; na verdade, porém, ele não cultuará outro ser senão o próprio «Eu», que ele (talvez inconscientemente) estará endeusando. Um tal tipo de religião não molesta muito a natureza humana; ao contrário, oferece sempre meios para legitimar as mais variadas tendências do indivíduo.

 

Para o cristão, ao contrário, Deus é tudo, e a criatura (de per si) nada é. O homem procede do não-ser ; todo o ser e agir de que ele dispõe, são dádivas gratuitas do Criador; os próprios méritos do homem decorrem de prévios dons de Deus. Em consequência, a criatura não pode fazer valer título algum de glória perante o Senhor; ao invés disso, toda a glória do homem consiste em viver como mendigo de Deus; é nesse total «entregar-se a Deus» (a Deus que não se identifica com criatura alguma) ou «servir a Deus» que o homem encontra o seu «reinar», pois o Altíssimo, que criou o homem gratuitamente, só o criou para o dignificar. — Ora, inegàvelmente, realizar essa atitude de humildade e renúncia a si não é fácil à criatura.

 

Em conclusão: a idéia de que o homem é criatura e Deus é o Criador (Aquele que produz a partir do nada) é levada até as suas últimas consequências no Cristianismo, e aí assume importância capital; o discípulo de Cristo não procurará a sua glória senão no reconhecimento de que nada é e nada pode, mas tudo recebe de Deus (de um Deus que não é o próprio homem).

 

2.2) Outra diferença notória entre sabedoria cristã e sabedoria hindu — diferença, aliás, que muito logicamente se prende à anterior — deve-se à tese da reencarnação, que os hindus professam. Tal tese compreende-se bem num sistema em que não há Deus pessoal, distinto do homem, a quem se possa atribuir a salvação da criatura. Em tal ideologia, é claro, que ao próprio homem toca a função de se salvar por si mesmo, purificando-se de todo afeto desregrado; já que isto não se costuma dar no decorrer de um só currículo de vida terrestre, o pensador panteísta é logicamente levado a admitir vários currículos terrestres a fim de assegurar a salvação do homem!

 

Bem diversa torna-se a questão da salvação sob a perspectiva do Deus pessoal do Cristianismo. O cristão, professando que Deus é o Autor do homem, afirma igualmente que Deus é o Salvador da sua criatura. Para o discípulo de Cristo, o Todo-Poderoso proporciona ao homem os meios de se salvar no decorrer de uma só existência terrestre, pois esta é suficiente para que cada um opte decididamente por um ideal... (aliás, ninguém tem consciência de já haver vivido alguma vida anterior aqui na terra).

 

A tese da reencarnação também já foi considerada em «P. R.» (cf. 3/1957, qu. 8; 21/1959. qu. 2).

 

2.3) Não aceitando a reencarnação, o cristão possui naturalmente um conceito da história deste mundo assaz diverso do que o hinduísmo professa.

 

Para o hindu, a história consiste numa série de ciclos que se vão repetindo sem finalidade nem sentido: a evolução dos acontecimentos nada acarreta de novo, mas a lei de ascensão e declínio rege inexoravelmente os indivíduos e as coletividades, impedindo-lhes a consumação; em consequência, o hindu espera obter a sua perfeição justamente emancipando-se da história ou escapando à vida deste mundo.

 

Tal concepção é adequadamente representada pelo símbolo de uma serpente enrolada sobre si mesma, de tal modo que a cabeça morda a cauda; esta figura significa bem que os giros da história presente carecem de sentido; principio e fim coincidem entre si; «circula-se» sem esperança de melhor ordem de coisas neste mundo...

 

O cristão, ao contrário, é otimista em relação ao universo e à história; esta, para ele, se assemelha a um cone que se abre em demanda de uma grande realidade, realidade que o vai penetrando cada vez mais, dando sentido sempre mais denso e rico às fases da história; o tempo do cristão é prenhe, cada vez mais prenhe, de eternidade.

 

2.4) Quanto à purificação da alma, o Cristianismo, como a sabedoria hindu, a propugna mediante ascese, disciplina das faculdades psíquicas e somáticas; há, pois, um «Ioguismo» cristão (na medida em que Ioga significa a técnica de colocar o corpo plenamente a serviço da alma). O cristão, porém, exerce sua disciplina norteado por concepções bem diversas das do hindu: ele sabe que o Senhor é quem lhe dá a graça de lutar contra as paixões e que, consequentemente, todo o êxito de seus esforços depende da soberana misericórdia de Deus. — A respeito de Ioga, cí «P. R.» 16/1959, qu. 1.

 

Em resumo, verifica-se que sabedoria cristã e sabedoria hindu representam duas concepções de Deus, do mundo e do homem essencialmente divergentes uma da outra, de sorte que não pode haver fusão, mas, sim, opção, entre uma e outra.

 

3. Apesar de tudo, otimismo sadio. . .

 

Após fazer à sabedoria hindu as reservas acima, não poderíamos rematar este confronto sem uma palavra de otimismo construtivo.

 

Quem hoje em dia considera a grande maioria da população da Índia, e mesmo de outros países da Ásia, imersa no panteísmo e alheia ao conhecimento do verdadeiro Deus, talvez conceba a questão: porque terá sido o Criador tão liberal na revelação de Si aos povos ocidentais, deixando, ao contrário, tantos orientais destituídos da noção do verdadeiro Autor do universo ?

 

— Não é lícito ao homem pedir a Deus contas da distribuição de seus dons. Como quer que seja, porém, pode-se afirmar, sem perigo de errar, que a Índia, e o Oriente em geral, receberam do Senhor Deus um patrimônio religioso de imenso valor — patrimônio que certamente se torna esteio de salvação eterna para hindus e demais povos orientais, se é devidamente utilizado por esses homens.

 

E qual seria esse patrimônio?

 

É, como já dizíamos, a tempera profundamente mística que domina a alma dessas criaturas, ou a consciência que tais indivíduos têm da primazia do que não se vê, do eterno, sobre aquilo que se vê e é transitório. Os orientais sabem avaliar profundamente as riquezas da vida interior; têm assim, por excelência, «uma alma naturalmente cristã», para usarmos a expressão de Tertuliano (De testimonio anime 17) no fim do séc. II. Deve-se mesmo frisar que neste particular os orientais são mais prendados do que os homens do Ocidente; o ocidental é, sim, muito dado à vida ativa, mesmo a um ativismo febril, que dispersa sem obter resultado positivo, tendendo cedo ou tarde a cair no puro materialismo; entre as suas múltiplas ocupações, ele quase não encontra tempo para Deus!... Eis, porém, que na escola da Índia e do Oriente os ocidentais encontrarão sempre irmãos que em si representam o ideal da vida toda voltada para os valores que não passam.

 

Tal é o testemunho de dois monges católicos ocidentais — os PP. Monchanin (Svvami Paramarubyananda) e Le Saux (Swami Abhishiktesvaranda) — , que na Índia fundaram recentemente o mosteiro de Saccidananda:

 

«Dentre todos os povos da terra, a Índia parece ter recebido da Divina Providência uma missão privilegiada. Dir-se-ia que uma mensagem lhe foi confiada, mensagem a proferir no mundo e a proclamar através dos tempos... Essa mensagem afirma a primazia do mistério de Deus sobre o mistério das coisas criadas, o valor único daquilo que não passa,... do eterno, do espiritual, da vida interior.

 

Essa mensagem, a Índia a transmitiu, e primeiramente a transmitiu a si mesma, em suas gerações sucessivas, de idade em idade... de vidente a vidente...» (J. Monchanin et H. Le Saux, Ermites du Saccidananda. Paris 1956, 28s).

 

Na base destas observações, preconiza-se hoje a evangelização da Índia principalmente por obra do monaquismo contemplativo católico lá implantado e vivido em suas formas mais consequentes possíveis.

 

As considerações acima se encerrarão pela seguinte reflexão : a Índia recebeu realmente da Divina Providência uma mensagem importante a dizer ao mundo. Essa mensagem não consiste propriamente em tal ou tal proposição de filosofia ou teologia (vão é o panteísmo hindu com seus corolários, como atrás foi dito). É, antes, a atitude religiosa por excelência, a afirmação de que o homem só se realiza na procura incondicional de Deus, que a Índia apresenta ao mundo. A Índia, por sua existência mesma, constitui um caloroso apelo a Deus, ao único Deus, que o hindu entrevê presente entre os homens e que ele desejaria possuir em plenitude ! — Que os cristãos recebam essa lição de procura sequiosa de Deus e, em troca, comuniquem aos irmãos hindus a genuína noção do Pai Celeste ou a face do Deus vivo e verdadeiro patenteada no S. Evangelho ! É nesse intercâmbio que sabedoria hindu e sabedoria cristã se unem: aquela oferece a medida generosa e dilatada dentro da qual esta se deve derramar incontaminada e fecundante !

 

À guisa de Apêndice, vai aqui transcrita oportuna passagem de uma encíclica missionária que o S. Padre o Papa Pio XII publicava aos 2 de junho de 1951:

 

«Quando a Igreja convida os povos a se elevarem sob a guia da religião cristã a uma forma superior de vida humana e de cultura, Ela não se comporta como quem, sem respeitar coisa alguma, abate uma floresta exuberante, devastando-a e destruindo-a; antes, Ela imita o jardineiro que enxerta um ramo de qualidade em um tronco selvagem a fim de que este um dia produza frutos mais doces e saborosos. A natureza humana conserva em si, apesar da mancha herdada da triste culpa de Adão, um fundo naturalmente cristão, que, iluminado pela luz de Deus e nutrido pela graça, pode ser elevado à virtude autêntica e à vida sobrenatural. Por isto a Igreja jamais tratou com desprezo e desdém as doutrinas dos gentios; ela, ao contrário, as libertou de todo erro e impureza, e, por fim, as rematou e coroou mediante a sabedoria cristã. Da mesma forma, as artes e a cultura dos povos não cristãos,... a Igreja as acolheu com benevolência, cultivou-as com cuidado e levou-as a grau de beleza tal que jamais haviam atingido. Ela também não condenou, mas de certo modo santificou, os costumes próprios e as instituições tradicionais dos diversos povos. Modificando o espírito e as modalidades das festas dos pagãos, a Igreja fez que estas servissem para lembrar os mártires e para glorificar os santos mistérios. Muito a propósito escreve S. Basílio: '...Habituados a considerar o sol no seu reflexo sobre as águas, poderemos doravante levantar o olhar diretamente para a própria luz... A vida da árvore consiste em que se carregue de frutos na estação oportuna; não obstante, as folhas que se agitam em torno dos ramos, acrescentam algo à beleza dos frutos. Assim a alma dá seus frutos por excelência quando apreende a própria Verdade; contudo a sabedoria meramente humana pode servir de manto à Verdade (divina), à semelhança das folhas que envolvem os frutos dando a estes sombra e beleza» (texto traduzido do original publicado na «Revista Eclesiástica Brasileira» 11 [1951] 707).

 

Os dizeres acima parecem aplicar-se muito adequadamente a definir as relações vigentes entre a sabedoria hindu e a sabedoria cristã.

 

Bibliografia : M. Queguiner, Introduction à l'Hidouisme. Paris 1958.

S. Lemaítre, Hindouisme ou Santana Dharma, em «Encyclopédie du Catholique au XXème siècle», n. 144. Paris 1957.

J. Herbert, Spiritualité hindoue. Paris 1947.

Vitalité aetuelle des Religions non chrétiennes. Collection «Rencon- tres» n' 48. Paris 1957.

M. Percheron, O Buda e o budismo. Rio de Janeiro 1958.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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