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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 023 – novembro 1959

 

Possessão Diabólica

CIÊNCIA E RELIGIÃO

H. M. (Rio de Janeiro) : “Que é a possessão diabólica ?

Não coincide com histeria ou alguma doença que os antigos não sabiam devidamente explicar ?

 

Veremos abaixo sucessivamente o que se entende por «possessão diabólica» e quais os sinais que comprovem a realidade desse fenômeno.

 

1. Em que consiste a possessão diabólica ?

 

Por «possessão diabólica» entende-se a presença do demônio em determinado corpo, presença em virtude da qual o Maligno domina esse corpo e, mediante o corpo, a alma da vítima. O demônio não se une ao corpo como a alma se une a este, ou seja (segundo a linguagem técnica), em união substancial. Em relação à alma, ele é apenas um movente extrínseco; só age sobre a alma na medida em que ela depende do corpo. Age, porém, diretamente sobre os membros desse corpo, movendo-os a seu capricho, provocando convulsões, clamores, linguagem estranha, ímpetos de furor, etc.

 

Os possessos também são ditos «energúmenos», palavra que, derivada do grego, significa «indivíduo agitado, influenciado poderosamente por um principio intrínseco».

 

S. Boaventura (+1274) assim explica o fenômeno da possessão:

 

«Em virtude da sua sutileza ou espiritualidade, o demônio pode penetrar nos corpos e aí fixar sede; em virtude da sua forca, pode movê-los e agitá-los. O demônio, portanto, dada a sua sutileza e energia, pode introduzir-se no corpo do homem e atormentá-lo, a menos que o impeça um agente superior. É o que se chama tornar possesso... Penetrar, porém, no íntimo da alma fica reservado à substância divina» (In II Sent., dist. VIII, part. II, a. 1, qu. 1 et 2).

 

Julgam bons autores que os possessos, nos momentos de crise, não têm consciência de seu estado anormal.

 

Da possessão distingue-se a «obsessão diabólica», que consiste em ataques mais brandos de Satanás, o qual, no caso, não chega a fixar mansão no corpo da vítima; foi o que se verificou na vida de S. João Vianney, o cura d'Ars.

 

2. Possessão diabólica e doença

 

2.1 O fato da possessão diabólica é atestado principalmente pelos escritos do Novo Testamento, nos quais se distinguem alguns textos famosos: Mc 1,23-28 (o demoníaco da sinagoga de Cafarnaum); Mc 5,1-20 (o da terra dos Gerasênios); Mc 7,24-30 (a jovem siro-fenícia); Mc 9,14-29 (o possesso ao pé do Tabor); At 16,16-18 (a adivinha de Filipes da Macedônia).

 

Contudo, vista a semelhança de sintomas da possessão diabólica e de certas doenças, alguns autores medievais e vários dos modernos (principalmente Charcot et Richer, da escola da Salpêtrière, França) têm negado a existência de possessos, procurando identificar tanto os casos narrados pelos Evangelhos como os posteriores com casos de patologia natural. Assim no S. Evangelho a mulher que Satanás encurvou, não lhes parece ser senão uma paralítica (cf. Lc 13,10-17); o possesso de Gerasa, um louco furioso (cf. Mc 5,1-20); o jovem curado após a Transfiguração, um epilético (cf. Mc 9,14-29). Tais autores notam outrossim que cada caso de possessão está associado a uma doença: ora o demônio torna o homem mudo (cf. Mt 9,32; Lc 11,14), ora surdo-mudo (cf. Mc 9,24), ora mudo e cego (cf. Mt 12,22), ora «lunático» ou epilético (cf. Mt 17,15), ora provoca crises histéricas (cf. Mc 1,26; 9,18-20; Lc 4,35).

 

A identificação, porém, de possessão diabólica com mero estado patológico seria errônea; e errônea por dois motivos:

 

a) nos Evangelhos, os autores sagrados distinguem explicitamente entre enfermos e demoníacos:

«(Jesus) curou muitos doentes aflitos por diversas enfermidades, e expulsou numerosos demônios» (Mc 1,34).

«Jesus curou a muitos de suas enfermidades, de seus males e dos espíritos malignos, e concedeu a vista a muitos cegos» (Lc 7,21).

 

O próprio Cristo mandou aos Apóstolos: «Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios» (Mt 10,8).

 

Aos fariseus dizia o Senhor; «Ide, anunciai...: eis que expulso os demônios e faço curas» (Lc 13,32).

 

Entre os sinais característicos dos seus discípulos, o Senhor mencionava «a expulsão dos demônios em nome de Cristo, o uso de línguas novas,... a imposição das mãos aos doentes, de modo a serem curados» (Mc 16,17s).

 

Não se poderia alegar que Jesus e os Evangelistas, no seu modo de falar, se tenham acomodado simplesmente à concepção popular, a qual (dizem os críticos) atribuía as doenças a intervenção diabólica. Tal acomodação equivaleria a confirmar um erro comum, e erro importante — coisa que justamente Cristo não quis fazer quando O interrogaram sobre a causa da enfermidade que acometia o cego de nascença (pecara ele ou haviam pecado seus pais ?, perguntaram os Apóstolos, recorrendo a uma lógica popular ou infantil). Sabe-se que o Senhor então fez questão de dissipar o erro comum sobre a origem da doença. Ora Cristo, que em tal caso assim procedeu, não teria confirmado sistemàticamente uma crença popular errônea concernente à possessão diabólica.

 

Mais ainda: quando os fariseus acusaram o Senhor de expulsar demônios em nome de Belzebu, Jesus, longe de replicar que a crença em exorcismos era coisa vã, muito ao contrário reivindicou para Si o poder decisivo e absoluto de exorcizar; em suas palavras, nada transpareceu que fosse atenuação do estrito conceito de exorcismo e, consequentemente, de possessão diabólica (cf. Lc 11,17-22 ; Mc 3,23-27; Mt 12,25-29).

 

Observe-se outrossim que em certas ocasiões o Senhor curou interpelando um ser diverso do paciente, ameaçando-o, mandando-o sair, etc. (tais são evidentemente os casos de possessão), ao passo que, em outros episódios, Jesus curou apenas mediante gestos simbólicos e palavras interpretativas desses gestos (assim nos casos que parecem ter sido de simples doenças, como o do surdo-mudo da Decápole, em Mc 7,32-35; o do cego de Betsaida, em Mc 8,22-26; o do servo paralítico do centurião de Cafarnaum, em Mt 8,5-13).

 

b) Além de tão claros depoimentos dos Evangelhos, têm-se fatos históricos posteriores que comprovadamente atestam a possessão diabólica.

 

Encontram-se a propósito narrativas bem documentadas na obra de Zsolt Aradi, El libro de los Milagros (prefácio de Agostinho Gemelli O.F.M.), México. D.F. 1958; no estudo «Satan», col «Études Carmélitaines». Paris 1948, assim como no artigo «Possession diabolique» do «Dictionnaire Apologétique da la Foi Catholique» IV Paris 1928, 71-81.

 

O seguinte episódio, por exemplo, é narrado pelo Pe. Ribadeneira, discípulo e biógrafo de Sto. Inácio de Loiola (+1556):

 

O Pe. Ribadeneira conheceu um jovem,, oriundo da Cantábrla na Espanha, e chamado Mateus, o qual no ano de 1541 foi acometido de estranho mal. Era violentamente prostrado por terra e, deitado, mal podia ser reerguido por oito ou dez homens robustos. Não possuía instrução nem sabia falar normalmente senão a língua materna; contudo nos momentos de crise discursava fluente e sabiamente em diversos idiomas. Nessas mesmas ocasiões, aparecia-lhe um tumor no rosto; esse tumor esvanecia-se logo que um sacerdote lhe aplicasse o sinal da cruz; mas voltava à tona sem demora na garganta, depois no peito, no estômago, chegando por fim aos pés... A tal jovem disse uma vez o Pe. Ribadeneira que Inácio de Loiola estava para voltar à casa e que havia de expulsar o demônio, pressuposto causador dos tormentos do rapaz. Ao ouvir tal noticia, a vítima entrou em grande agitação e exclamou: «Não me fale de Inácio; é meu maior inimigo, o inimigo mais ferrenho de todos». Ora S. Inácio de fato foi ter à casa; após lhe haverem relatado o que acontecia, tomou o jovem à parte... Ninguém soube o que disse ou fez; o fato, porém, é que em breve Mateus recuperou suas faculdades, ficando plenamente livre da tirania do demônio; fez-se mais tarde monge camaldulense, com o nome de Frei Basílio» (Acta Sanctorum, Julho t. VIII pág. 761, no 716).

 

No caso acima, convém chamar a atenção para o seguinte: a ação diabólica se evidencia não tanto pelos fenômenos psíquicos e somáticos registrados (fenômenos que talvez pudessem ser explicados naturalmente) como pelos sinais de adversidade à cruz e ao homem de Deus professados pelo jovem doente.

 

Eis outro caso, datado de nossos tempos, também geralmente tido como autêntico:

 

Em 1920 na cidade de Piacenza (Itália) uma mulher entrou na sacristia da igreja franciscana de Santa Maria, e a um dos sacerdotes presentes disse que sentira, durante algum tempo, estarem o seu corpo e a sua alma sujeitos ao domínio de um poder estranho. Por influência desse poder, ela cantava operas que jamais havia ouvido, dançava até cair exausta, rasgava camisas e lençóis com os dentes, via coisas a grande distância, que posteriormente eram comprovadas como reais!...

 

O religioso franciscano assim interpelado era capelão de uma clinica de psiquiatria; na base de suas experiências, julgou que a mulher estava histérica ou louca. Quando esta conclusão lhe aflorou à mente, a mulher declarou que não era enferma em absoluto e que desejava ser ajudada a se libertar... O sacerdote então lhe pediu que voltasse dentro de alguns dias. Tendo ela regressado em breve, o padre resolveu aplicar-lhe uma fórmula de bênção (não de exorcismo) na igreja; durante este rito, a mulher pôs-se a uivar como um cão; a seguir,tomando voz de soprano, entoou maviosa canção; depois, repentinamente começou a falar idioma estranho como se estivesse a conversar com pessoa invisível; por fim, prorrompeu em pranto...

 

Sem demora, o bispo, informado do ocorrido, mandou ao referido franciscano (que ainda não se convencera da pretensa possessão diabólica), rezasse o exorcismo sobre a paciente. A primeira aplicação deste rito teve lugar aos 21 de março de 1920 em presença de outro sacerdote franciscano, de dois médicos psiquiatras de Piacenza, da mãe, do esposo e de duas amigas da infeliz vítima.

 

Logo ao serem proferidas as palavras iniciais do Ritual («Eu te exorcizo, espírito imundíssimo,...»), a mulher deu um pulo nos ares e exclamou para o exorcista: «Quem és tu, que ousas medir-te comigo? Não sabes que sou Isabô, e que tenho poderosas garras e fortes punhos?»

 

O padre a princípio julgou que ia perecer, mas, recuperando ânimo, disse ao Maligno:

 

«Sou sacerdote de Jesus Cristo. Pelos mistérios da Encarnação, da Paixão e da Ressurreição de Jesus Cristo, pela sua Ascensão aos céus e pela sua promessa de volta no dia do juízo final, mando-te que não causes dano algum a esta criatura de Deus, nem àqueles que lhe assistem nesta casa, nem a algum de seus bens e haveres: ordeno-te cumpras tudo que eu te disser!»

 

Prosseguiu então o exorcista:

«Donde vens?»

                                  «Ouve bem : queres mandar a mim como se eu fôra teu escravo», respondeu o Maligno pela boca da mulher.

                                «Dize-me: donde vens?»

                               «Não o direi».

                                «Em nome de Deus, de Deus a Quem conheces bem, dize-me donde vens!»

 

Ao ouvir esta forte intimação, a possessa começou a retorcer-se convulsivamente, tomando aspecto desfigurado.

O franciscano insistiu:

«Em nome de Deus, pelo Sangue e a Morte de Cristo, dize-me donde vens».

                               «De desertos longínquos».

                               «Estás só ou trazes companheiros?»

                               «Trago companheiros».

                               «Quantos?»

                               «Sete».

                               «Por que entraste nesse corpo?»

                                «Por causa de um amor violento, que não encontrou correspondência».

                                «Não encontrou correspondência da parte de quem?»

                                «És um idiota».

                               «Responde: quem foi que não correspondeu a esse amor?»

                               «Esse corpo aqui».

 

E, ao dizer isto, o demônio agarrou invisivelmente a possessa, espancando-a no tórax.

                               «E porque não quis corresponder?»

                                «Porque não é justo», disse o Maligno em tom de zombaria, como se a resistência da mulher fôra ridícula.

 

Depois de novas sessões, o demônio, mostrando sempre resistência ao exorcista, declarou entre convulsões que aos 23 de junho sairia do corpo possesso! Explicou também que a causa de sua entrada no corpo da vítima fôra um homem adepto do ocultismo, o qual quisera aliciar a mulher para as práticas ocultistas, a fim de se apoderar dela.

 

Finalmente, chegou o dia 23 de junho, que a paciente esperava em tensão frenética. Nessa data o sacerdote dirigiu-se mais uma vez ao Maligno:

«Em nome de Deus, conjuro-te a que me obedeças em tudo que estou para te preceituar».

 

Não tendo resposta, mas, ao contrário, vendo a paciente ainda mais angustiada, prosseguiu:

«Ouviste?»

Nenhuma resposta.

«Mando-te em nome de Deus e da SSma. Virgem».

Silêncio absoluto.

«Se compreendeste o que disse, levanta um braço; em caso contrário, levanta os dois braços».

 

Então muito lentamente e como que a contragosto a paciente levantou um braço.

 

À vista disso, o sacerdote em tom solene ordenou ao demônio que abandonasse imediatamente o corpo da possessa.

Uma voz débil e alquebrada respondeu em tom de lamúria:

«Vou a...»

 

A possessa então prostrou-se por terra; foi acometida de tremendas convulsões, pondo-se a vomitar grande número de objetos misteriosos. O exorcista continuou a dar suas ordens com renovada segurança:

«Deixa-a, deixa-a...!s

 

Em breve a mulher ergueu-se; sorriu, tomou a atitude natural e a voz suave de uma jovem, exclamando:

«Estou curada».

 

Durante os ritos de exorcismo, o demônio se referira várias vezes a um pequeno globo que a mulher fôra forçada a ingerir havia sete anos. O psiquiatra Dr. Lupi examinou a bacia que a mulher usara para lançar seus vômitos: no fundo da mesma, encontrou realmente um pequeno globo de carne de porco em estado duro e seco, do tamanho de uma avelã, munido de sete saliências pontiagudas... Misterioso troféu...

 

Quanto à mulher, nunca mais tornou a ser acometida pelo demônio e a sentir os incômodos físicos anteriores. Ainda vivia há poucos anos atrás num povoado dos arredores de Piacenza, como avó muito feliz em meio aos seus familiares.

 

O caso acima, tido como de autêntica possessão diabólica, é certamente raro no seu gênero. O relato foi extraído da obra «La entrevista de Alberto Vecchi con el Diablo», ed. Paoline. Modena 1954.

 

Tornou-se famoso também o caso do Pe. Surin S. J. (séc. XVII), que passou a ser possuído pelo demônio que ele expulsara da Irmã Maria dos Anjos.

 

2.2 Pergunta-se agora: se há autênticos casos de possessão diabólica, quais os critérios de que se servem as autoridades competentes para os discernir ?

 

São critérios, sem dúvida, severos. A fé cristã não é propensa a admitir a intervenção de forças ocultas e estranhas todas as vezes que um fato surpreendente chame a atenção do público A Igreja só admite a hipótese de ação preternatural ou sobrenatural, caso não haja explicação natural possível para o fenômeno analisado; as manifestações de telepatia, clarividência, percepção extrassensorial, desdobramento da personalidade, que até o presente século eram tidas como efeitos de espíritos superiores ao homem e, por conseguinte, como sinais de possessão diabólica, são hoje em dia consideradas como fenômenos meramente naturais, estudados pela Parapsicologia; não podem, pois, ser aduzidas como indícios de ação demoníaca num paciente.

 

Em geral, a Igreja recomenda aos sacerdotes, «não creiam com facilidade que alguém esteja possuído pelo demônio, mas levem devidamente em conta os sinais pelos quais o possesso se distingue dos que sofrem de... alguma doença» (Ritual Romano, De exorcizandis a daemonio n. 3). Em presença de um pretenso possesso, portanto, o cristão aplicará o chamado «princípio de economia» (economia de explicações preternaturais), isto é, primeiramente procurará elucidar o caso segundo os mais modernos conhecimentos da psicologia e da medicina, proporcionando ao paciente o tratamento que estas ciências lhe possam eventualmente indicar. Somente se tal terapêutica se mostrar de todo vã, será plausível pensar em intervenção preternatural. E, para que se possa falar propriamente de possessão diabólica, tornar-se-á necessário outrossim que o paciente dê sinais de evidente revolta contra Deus ou de impiedade, imoralidade, falsas crenças, etc., de sorte que não se possa admitir seja o Senhor ou algum dos santos a causa dos fenômenos analisados. — Às vezes, dizem os teólogos, são somente estes sinais de oposição a Deus que caracterizam o estado de possessão diabólica; os sintomas concomitantes de neurastenia podem não se diferenciar, em absoluto, dos que acompanham a epilepsia ou a histeria. Verifica-se, pois, que há estados patológicos (histéricos, epiléticos, neuróticos ...) causados por possessão diabólica, assim como há os que nada têm que ver com tal intervenção do Maligno: por vezes, é difícil, à primeira vista, distinguir entre uns e outros. O demônio parece mesmo servir-se de certas propensões patológicas da vítima para manifestar a sua presença no corpo da mesma.

 

A propósito citamos o testemunho de famoso médico francês, Jean Lhermitte, membro da Academia Nacional de Medicina de França, o qual se especializou no diagnóstico de verdadeiros e falsos possessos:

 

«O Maligno pode, com a permissão de Deus, aproveitar-se da desordem que uma doença mental tenha introduzido no composto humano, para provocar ou intensificar uma perturbação funcional, perturbação que assim vem a ser sintoma da presença do Maligno no corpo do paciente.

Disto se segue, segundo a teologia católica, que a possessão diabólica é quase necessariamente... acompanhada de distúrbios mentais e nervosos, que a influência do espírito mau intensifica ou às vezes mesmo chega a produzir diretamente.

O médico que queira ser completo em sua profissão, não pode excluir de antemão a possibilidade de uma causa transcendente na produção de certas psiconeuroses cuja origem natural escape ao estudioso» (Vrais et faux possédés. Paris 1956, 31).

 

Muito semelhante a esse é o depoimento de Zsolt Aradi, estudioso húngaro que se consagrou a tais assuntos:

 

«Quem é realmente possesso, apresenta tais deficiências psicológicas e somáticas que o demônio se aproveita delas com facilidade... Em outras palavras: do caso de psiquiatria ao de verdadeira possessão, pode não haver mais do que um passo de distância. Uma pessoa obcecada pelo isolamento, pelo complexo de culpa, pela soberba ou pelo complexo de inferioridade... pode ser fàcilmente levada ao estado de possessão almejado pela malícia do demônio (a pessoa aflita, porém, não chegará a tal estado, se consultar o sacerdote e o médico)» (El libro de los Milagros 73s).

 

Não obstante a íntima associação de doença e possessão, o Ritual proíbe aos sacerdotes, receitem ou apliquem medicamentos ou drogas farmacêuticas a quem se apresente para o exorcismo; o uso de remédios naturais ficará em tais casos estritamente reservado aos cuidados dos médicos, a fim de que se evite todo aspecto de «curandeirismo religioso» na Igreja: «Caveat exorcista ne ullam medicinam infirmo vel obsesso praebeat aut suadeat, sed hanc curam medicis relinquat» (Ritual Romano, De exorcizandis a daemonio).

 

Ainda uma advertência: afirmam os teólogos que não podem, sem mais, ser considerados casos de possessão diabólica as situações de obsessão, impulsionamento ou inibição que contrariam o temperamento habitual do paciente, embora este esteja convencido de ser vítima de uma força estranha e maligna.

 

Há, por exemplo, pessoas que, em teoria, repudiam veementemente atos desonestos, mas se entregam a eles com surpreendente facilidade, como se fossem movidas por cego poder extrínseco. Outras pessoas dizem ter imenso desejo de orar, mas, ao entrarem numa igreja, sentem misteriosa angústia; as pernas lhes desfalecem, experimentam vertigem, os lábios lhes ficam cerrados, etc. Basta que se queiram recolher para ser assaltadas pelos pensamentos mais obscenos a respeito de Deus, de Cristo, da Virgem Ssma., ou para que sejam impelidas a negar proposições de fé e blasfemar, etc.; ao procurarem a S. Comunhão, a garganta se lhes fecha e não podem engolir... São, em suma, situações em que a pessoa age como que irresistivelmente em desacordo com o que desejaria.

 

Diante desses casos, o vulgo muitas vezes crê que o demônio está de posse do paciente, quando na verdade não há elemento algum preternatural, mas apenas funcionamento psicológico anormal, que pode ser saneado mediante psicoterapia côngrua, sem recurso a exorcismo.

 

Após quanto acabamos de observar, entende-se que a Igreja tenha repetidas vezes no decorrer da história admoestado os cristãos a não darem fácil crédito a apregoados casos de possessão.

 

A título de ilustração, ainda vai aqui citada uma exortação do concílio regional reunido em Reims no ano de 1583:

 

«Antes que o sacerdote empreenda algum exorcismo, deve diligentemente informar-se a respeito da vida do paciente, da sua condição, da sua fama, da sua saúde e de outras circunstâncias. Deve deliberar a respeito com pessoas sábias, prudentes e de alvitre sensato, pois muitas vezes quem é demasiado crédulo se engana e não raro pessoas melancólicas, lunáticas ou dadas à bruxaria iludem o exorcista, dizendo que estão possessas e atormentadas pelo demônio. Na verdade, tais pacientes mais precisam dos remédios do médico do que do ministério dos exorcistas (documento citado por F. X. Maquart, em «Satan» 330).

 

Ainda nos últimos anos, ou seja, em 1953, a sabedoria da Santa Igreja se reafirmava pela palavra do Arcebispo Mons. Afonso Carinci, Secretário da Sagrada Congregação dos Ritos:

 

«Muitos católicos julgam servir aos interesses de Deus e da Igreja, uns negando o sobrenatural, outros atribuindo quase todos os fenômenos a uma ação sobrenatural.

A Igreja, sociedade sobrenatural, admite necessariamente a possibilidade e a existência de fatos sobrenaturais, mas Ela exige, para os mesmos, provas seguras, que pairem acima de qualquer dúvida. Ela quer a verdade, não a probabilidade, por maior que esta seja.

 

A Igreja é amiga da Verdade; recorre a todos as meios para chegar a ela, e não tem escrúpulos em não admitir como milagre um fato que dê ocasião à mínima suspeita de ter sido produzido por um agente natural» (transcrito de «Documentation Catholique» t. LVI, 7 juin 1959, col. 718).

 

2.3 Quanto ao motivo pelo qual Deus permite a possessão diabólica, ensina S. Boaventura que o Senhor a permite «ora para manifestar sua glória (obrigando o demônio, pela boca do possesso, a confessar, por exemplo, a Divindade de Cristo), ora para punir o pecado,, ora para corrigir o pecador, ora para nos instruir. Mas qual seja precisamente a causa porque Deus deixa o demônio agir, é coisa que escapa à sagacidade humana; os juízos de Deus nos ficam velados. O que há de certo, porém, é que não são injustos» (In II Sent., dist. VIII, part. II, qu. 1, art. unic.).

 

Muito sábia é a advertência final do S. Doutor: desista o homem de sondar as causas precisas dos casos reais de possessão diabólica; baste-lhe saber que o Pai do céu não comete injustiça ao dispor os caminhos dos homens. Apenas se poderia acrescentar que, conforme os teólogos antigos, o estado de possessão seria geralmente consequência de pecado grave; os modernos admitem ao menos uma imperfeição de alma na origem de tal estado. Todavia o cristão, na vida prática, tem certeza de que nada pode prevalecer sobre um coração sinceramente contrito e humilde a clamar pela Misericórdia do Pai.

 

2.4 Em conclusão, diremos: dentro das reservas que a prudência impõe, a Santa Igreja admite casos de possessão demoníaca, os quais em geral ocorrem associados a doenças nervosas mais ou menos declaradas. A mesma S. Igreja reconhece que em épocas passadas houve quem, com demasiada facilidade, apelasse para intervenções diabólicas a fim de explicar fenômenos extraordinários (tenham-se em vista principalmente as «histórias de bruxas», muito em voga nos fins da Idade Média). Em nossos dias o demônio não é menos ativo no mundo do que outrora; somente sua ação é mais dissimulada. Um de seus maiores triunfos é justamente o de fazer os homens crerem que ele não existe; em consequência, ele age de maneira mais livre e mais natural !

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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