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PERGUNTE e RESPONDEREMOS 10 - Outubro de 1958

 

A Cabala

COMERCIÁRIA (Rio de Janeiro): “Que vem a ser a 'Kabala', nome do uma revista editada entre nós?”

 

Examinemos sucessivamente o nome, o histórico e as linhas mestras da doutrina da Cabala, para poder proferir sobre ela um juízo adequado.

 

1. Nome e histórico da Cabala

 

O vocábulo hebraico qabbala, (de qibbel, receber) significa «recepção» ou «objeto recebido por tradição» ou ainda «doutrina tradicional».

 

Originariamente o termo era usado pelo povo de Israel para designar o ensinamento religioso transmitido por via meramente oral, ensinamento que Moisés mesmo teria recebido do Senhor, mas não haveria consignado no Pentateuco.

 

Era, portanto, à luz da Cabala que se interpretava o texto bíblico da Lei; destarte a Cabala gozava de autoridade entre os judeus anteriores e posteriores a Cristo, como sendo o instrumento apto para se fazer autêntica exegese da Bíblia.

 

A partir do séc. III d.C,( porém, os ensinamentos da Cabala foram sendo contaminados por doutrinas provenientes do paganismo, doutrinas que se interessavam principalmente por descrever as origens do mundo e «o carro de Deus» (tais idéias eram desenvolvidas à guisa de comentários fantasistas de Gên 1 e Ez 1). Era o desejo de «completar» a Bíblia, explicando o que ela não explicava, que impelia muitos piedosos de Israel a tal ecleticismo. Procuravam naturalmente dar especial autoridade às suas concepções, atribuindo-as a revelações secretas recebidas do céu tanto por Moisés como por outros mestres; tais revelações, os cabalistas só as comunicavam aos ouvidos de alguns poucos iniciados, criando assim uma espécie de escola esotérica (isto é, reservada «aos de dentro») e ocultista.

 

A evolução da Cabala contaminada atingiu seu apogeu no séc. XII. Verificou-se então entre os pensadores judaicos da Europa uma tendência a adotar a filosofia de Aristóteles nas suas explanações bíblicas (tenha-se em vista o famoso chefe de escola Moisés Maimonides, +1204). Essa tendência parecia a certos círculos israelitas piedosos desvirtuar o caráter sobrenatural e místico da sua religião; deu-se então entre eles a reação contrária, que punha em voga a Calaba com seus segredos e mistérios, pretendendo assim ser mais fiel à Revelação divina. Foi desta forma que surgiu uma modalidade nova da Cabala, modalidade muito mais férvida e exuberante, que se protraiu até os tempos recentes. Essa nova escola não somente acentuou o caráter oculto de suas doutrinas, mas ainda procurou enriquecer seu patrimônio, recorrendo a doutrinas secretas do Oriente, da Grécia, de Alexandria, assim como à prática da magia, da alquimia, da quiromancia, da astrologia, etc. Isso tudo foi, como era de esperar, combinado com a Bíblia, sob cuja autoridade os cabalistas procuraram sempre colocar as suas doutrinas. Compreende-se que, para conseguir a conciliação de suas teses audaciosas com o Livro Sagrado, os mestres do sistema tenham tido que recorrer a métodos de exegese artificiosos e arbitrários: combinando entre si as 22 letras do alfabeto hebraico e os 10 números primordiais, deduziam do texto bíblico o que bem lhes aprazia, atribuindo significado especial à forma e aos nomes dos caracteres alfabéticos, cometendo aberrações ridículas, sem reconhecer freio algum.

 

A nova Cabala teve origem na Provença (França), donde partiu a reação contra Maimonides, e se propagou pela Espanha, a Itália, a Palestina e as demais regiões da Europa. É tido como «Pai da Cabala» Isaque o Cego (+1210), de Nimes. A obra capital cabalista intitula-se «Solar» (= Esplendor, por alusão a Dan 12, 3: «Os sábios brilharão como o esplendor do firmamento»); seu autor é Moisés ben Schem Tob, de Leon (Espanha), +1305, o qual, porém, se dissimulou sob a pessoa do acatado rabino Simão ben Johai, do séc. II. As conclusões doutrinárias desse livro são obtidas por via de trocadilhos baseados em homofonia, sinonímia, associação de letras e números, etc., e abrangem os mais variados setores: teologia, física, ética, medicina, botânica, uso de amuletos, exorcismos...

 

Expulsos os judeus da Espanha em 1492, a Cabala passou a ter sua sede principal em Saphed na Palestina, onde se distinguiu o mestre Moisés Cordovero (1522-70). O fanatismo de alguns cabalistas deu surto a duas correntes pretensamente messiânicas: o Sabatianismo, encabeçado pelo «Messias» Shabbatai Sebi (1626-76), e o «Frankismo», devido a Jacok Frank (1726-1791), fundador da seita dos Soharitas.

 

Hoje em dia a Cabala existe ainda, frequentemente combinada com elementos de outras correntes ocultistas (magia negra, teosofia, astrologia, etc.), sempre apta, porém, a impressionar a fantasia e seduzir o público simples.

 

A Cabala é por vezes apresentada como a doutrina que Adão possuía no paraíso e que se transmitiu oralmente de geração a geração, completa por sucessivas intervenções divinas. Chegando a Noé e seus três filhos, Sem, Cam e Jafé, teria tomado as suas principais linhas hoje características. Os livros da Bíblia e do Corão seriam cristalizações relativamente recentes e parciais de doutrinas cabalísticas...

 

Vejamos agora de perto...

 

2. As idéias fundamentais da Cabala

 

O edifício doutrinário da Cabala se constrói sobre o panteísmo ou monismo. Procurando conciliar o monoteísmo judaico com o politeísmo pagão, a Cabala concebe a Deus como Ser vago, indefinido e inefável, que, por via de emanação, se vai condensando em seres cada vez mais precisos, dispostos em escala descendente; tem-se assim uma série de dez entes semidivinos (os Sephiroth) colocados entre Deus e o mundo material; são a Coroa, a Sabedoria, a Inteligência, a Graça, a Justiça, a Beleza, o Triunfo, a Glória, o Fundamento, e a Realeza.

 

Tentando ilustrar o conceito de Deus por outra via, os cabalistas partem do princípio de que a forma do corpo humano é a forma mais perfeita dos entes reais, a qual, por conseguinte, deve ser também a forma da Divindade. Concebido então como um homem gigantesco ou cósmico, Deus é chamado «o Adão celeste, o Adão Kadmon (original)» ou «o Macrocosmos», o Grande Universo, frente ao qual o homem é «o microcosmos», ou o Pequeno Universo. Entre Deus (Macrocosmos) e o homem (microcosmos) verifica-se um processo ininterrupto de ação e reação; a vida psíquica e a sorte do indivíduo são, consequentemente, efeitos da influência das forças da natureza e dos astros, o que dá fundamento à prática da astrologia, do horóscopo, ou seja, à adivinhação do futuro em função do curso dos astros no decorrer do ano; conhecendo os segredos da natureza, o homem que tenha uma vontade forte é capaz de abalar e mover o universo em seu favor pessoal! Os cabalista concebem mesmo o homem como árbitro de seu destino e, consequentemente, do destino das criaturas inferiores, que lhe são solidárias tanto na desgraça como na felicidade.

 

A Cabala, como em geral os sistemas panteístas, admite a reencarnação das almas, processo no fim do qual o homem, por mais falível e relapso que seja, atinge infalivelmente a sua perfeição e bem-aventurança.

A título de ilustração, eis aqui um espécime de como a Cabala joga com a mística das letras.

 

A palavra Cabala provém de uma raiz semítica composta de três consoantes : Q - B - L.

A primeira dessas letras se chama, em hebraico, Qoph, nome que significa «o buraco de uma agulha». O Qoph antigamente se traçava assim:

 


 

Ora tais desenhos podem lembrar uma cabeça com suas duas orelhas ou também uma abertura de orelha com seu nervo auditivo; têm, pois, relação com a função de ouvir e com a assimilação de uma mensagem recebida de fora.

 

A segunda consoante chama-se Beth, isto é, «casa, conjunto bem construído e estável. A antiga forma desta letra simbolizava realmente uma casa construída de modo a encerrar uni pátio interior e a ter adjacente um pátio parcialmente murado e parcialmente aberto

 

 

A terceira consoante é o Lamed, cuja representação gráfica simbolizava originàriamente o movimento centrífugo e o centrípeto, ou, se quiséssemos, o movimento que parte de Deus para chegar ao homem e que de tal homem se transmite a outro homem:

 

Pois bem. Os Cabalistas, refletindo sobro essas três letras, viam por elas definida a Cabala: é doutrina que se comunica ao ouvido ou secretamente (qoph), tendo por objeto o conjunto harmonioso ou o grande edifício do universo (beth), e devendo sua origem a Deus, que se revelou aos primeiros iniciados e, por estes, a seus discípulos (movimento centrífugo em relação a quem revela, e centrípeto em relação aos destinatários da mensagem : lamed)...

 

Assim, para a Cabala, os caracteres de quase cada vocábulo simbolizavam um aspecto da realidade objetiva designada por tal vocábulo.

 

Não será necessário explicitar outros pontos de doutrina cabalística para se perceber quão vã ela é. Trata-se do um amálgama de teorias provenientes da Grécia, do panteísmo oriental e do gnosticismo dos primeiros séculos da era cristã, isto tudo recoberto por títulos e proposições da Bíblia judaico-cristã (principalmente nos países cristãos a Cabala sabe se dissimular muito sorrateiramente sob as aparências de ideologia evangélica; procura mesmo dar lugar a certos temas católicos dentro do conjunto de suas teses). Na fusão cabalista e pouco harmoniosa das diversas doutrinas, o trabalho da fantasia suplantou longe o da razão; isto, porém, contribuiu para dar aspecto ainda mais místico ou misterioso (e, por conseguinte, sedutor) ao sistema cabalista, Apelando arbitrariamente para revelações antiquíssimas, os Cabalistas afirmam possuir o manancial de toda a sabedoria, manancial do qual cada escola filosófica apenas reproduz um filete; os sistemas dos filósofos seriam como a escrava Agar, à qual a excelente patroa Sara, a Cabala, tem o direito de impor seu domínio e até mesmo o banimento. Na realidade, a aparente fidelidade dos Cabalistas à Bíblia é mero rótulo a encobrir a atitude do homem que, emancipado de qualquer mestre e escola, tenta (às vezes inconscientemente) fazer de si mesmo e do que lhe parece conveniente, a medida da sabedoria.

 

Verdade é que, no decorrer dos séculos, se converteram ao Cristianismo alguns Cabalistas, tais como Paulo Ricci, Conrad Otton, Rittangel, Jakob Frank, o que provocou entre os rabinos uma reação hostil à Cabala.

 

Houve também cristãos, principalmente na época do Humanismo (séc. XV/XVI), que simpatizaram com a Cabala, julgando que seria ótimo instrumento para obter a conversão dos judeus; parecia-lhes que mais de um dogma cristão (como, por exemplo, o da SS. Trindade, o do Messias Filho de Deus) estavam quase explicitamente contidos na ideologia cabalista. Sejam citados os nomes de Raimundo Lula (+1315), que saudava a Cabala como espécie de revelação divina, destinada a prestar os maiores serviços à causa católica; Marcílio Ficino (+1499) pensava da mesma forma; o humanista Pico de Mirandola (+1494), que estudava a língua hebraica com hebreus, sonhava harmonizar, entre si toda a sabedoria racional e a sobrenatural mediante a Cabala. João Reuchlin (+1522) expôs sistematicamente a Cabala a um cristão nas suas obras «De verbo mirífico» e «De arte cabbalistica»; o nome de Jesus, para ele, era a verdadeira «palavra mirífica».

 

Estas e outras tentativas posteriores de aproximar as duas ideologias se evidenciaram vãs; o zelo de conciliação arrefeceu quando finalmente se reconheceu que, não obstante consonância em certos termos e conceitos particulares, Cabala e Cristianismo se opõem pela estrutura geral do pensamento que os inspira (o panteísmo não se concilia com o monoteísmo nem a mística antirracional, meramente fantasista, com a mística sadiamente postulada pela razão).

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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