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INTRODUÇÃO ÀS CRÔNICAS


Samuel e Reis receberam uma obra paralela nas Crônicas. Nas Bíblias hebraicas constituem os mesmos uma só livro e tem o título equivalente ao nosso termo "anais". Ê aquilo que nos Reis se lê tantas vezes no epílogo dos respectivos reinados. Seguindo uma sugestão de S. Jerônimo (no "prólogo galea-to" ou prefácio aos livros de Samuel e Reis), os modernos dão comumente a esta obra o nome de "Crônicas". Na versão grega dos LXX acha-se dividida em dois livros e intitula-se Paralipômenos, que significa "coisas omitidas"; subentende-se, nos livros dos Reis. Este título com a respectiva divisão introduziu-se na Igreja latina.

A narração das Crônicas, excetuando-se as genealogias dos nove primeiros capítulos e a alusão ao decreto de Ciro nos dois últimos vv., abrange o mesmo espaço de tempo de Samuel e Reis. Distingue-se deles, porém, pela extensão da matéria, pois, de um lado, restringe-se ao reino de Judá e, de outro, acrescenta muitas notícias relativas ao culto divino.

Na verdade, a grande idéia central de toda a obra é o templo. O templo, único lugar destinado ao culto legítimo no Deus de Israel, é o centro vital de Jerusalém; Jerusalém é o centro de todo o Judá, que é a parte fiel do povo eleito. Destarte toda a vida de Israel palpita em torno do templo, o qual não é considerado como simples edifício material, fosse embora simbólico, mas como verdadeiro fator de unidade religiosa e nacional para todo Israel, mediante o único culto legítimo, exercido somente pelos descendentes de Levi. Donde o cuidado especial, a insistência, dir-se--ia, com que o autor desce a certas particularidades que a nós, tão afastados da sua época, nos parecem supérfluas, mas que então constituíam o fundamento da vida coletiva: assim as importantes genealogias, que eram verdadeiros documentos oficiais para provar o direito que todo o levita tinha de exercer os atos de culto; assim, as minuciosas normas litúrgicas, as amplas descrições de solenidades (da Páscoa, sobretudo), com o número das vítimas imoladas, sem faltar sequer as várias exceções ao rito legítimo, e todos os trabalhos executados no próprio edifício, desde os preparativos feitos por Davi até à restauração de Josias.

Paralela, mas subordinada a esta idéia principal, desenvolve-se outra, a da dinastia davídica. A família davídica é a única depositária do poder legítimo sobre todo o Israel. Os seus membros, portanto, são os principais servos de Javê, e os reis que dela descendem têm como dever primordial o cuidado do templo, pois a sua autoridade régia é um reflexo da autoridade divina, que brilha no templo. Todavia, a distinção entre o poder régio e o sacerdotal é radical: o rei não deve usurpar funções sacerdotais. O monarca é realmente o primeiro servo do templo, mas é o primeiro servo "externo", fora do recinto sagrado.

Destas duas grandes idéias basilares, tomadas em conjunto, explica-se por que o autor se estenda tanto na citação das genealogias de Levi e de Judá (à qual pertencia a família de Davi) e por que se desinteresse do reino do norte, que constituía a parte mais numerosa do povo eleito. Este reino rebelara-se contra a dinastia davídica e rejeitara o culto do templo de Jerusalém, fabricando para si os bezerros de ouro. Por isso, depois de narrar a sua defecção, o autor alija-o do esquema de sua obra.

Ê evidente, e em mais de uma passagem (1Crôn 10,13-20,1 etc.), que o autor supõe conhecida a história que narra, ao passo que, excetuadas as particularidades litúrgicas, raríssimos são os fatos que narra com exclusividade. Destes fatos, porém, um há que, em 1880, recebeu esplêndida confirmação das descobertas arqueológicas (cf. 2Crôn 32, 30). Quanto às freqüentes divergências entre as cifras de Crônicas e Reis, cumpre recordar que os números, no texto hebraico, têm muitas vezes contra si uma componente desfavorável; e muito mais em Crônicas, que na transmissão manuscrita são dos livros mais corrompidos e mal conservados de toda a Bíblia.

Literariamente, Crônicas são um produto da decadência. O material linguístico situa-o entre as obras mais tardias da Bíblia hebraica. O fraseado tortuoso, duro e insistente, é testemunho de uma época em que o hebraico já não era a língua comum, mas ia cedendo lugar ao aramaico.


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