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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 004 – abril 1958

 

O Papa Alexandre VI

M.P. (Volta Redonda): “A figura do Papa Alexandre VI (1492-1603) não depõe contra a santidade da Igreja Católica e, por conseguinte, contra a autenticidade desta?’

 

1. Para se proferir um juízo adequado sobre o Papa Alexandre VI, torna-se oportuno reconstituir brevemente o seu currículo de vida e a mentalidade da época respectiva.

 

Os séculos XV e XVI são marcados pela chamada Renascença, movimento de intelectuais e artistas que queriam restaurar as formas da antiga cultura greco-romana. Esta restauração, porém, não devia ficar no piano meramente intelectual (como haviam ficado, no decorrer da Idade Média, os renascimentos carolíngio, otônico, bolonhês...); os homens dos séculos XV/XVI queriam, segundo matizes diversos, fazer a experiência de uma vida imbuída da mentalidade dos clássicos pagãos. Dai se originou naturalmente um ambiente em que o espírito cristão, que inspirava a Alta Idade Média, se ia diluindo cada vez mais ; a fé se debilitava em não poucos, o luxo e a dissolução dos costumes iam penetrando as altas camadas da sociedade, de sorte que crimes e escândalos não eram raros nem mesmo em famílias largamente prestigiadas.

 

Ora os homens da Igreja eram filhos de tal sociedade ; o patrimônio moral e os exemplos que recebiam no lar, eram assaz precários. Uma vez promovidos às ordens sacras, é de crer que no exercício das suas funções eclesiásticas dificilmente se desvencilhassem da mentalidade renascentista; para tanto, fôra preciso que Deus superasse de maneira quase extraordinária o que neles havia de humano. O Senhor, porém, não costuma intervir extraordinariamente no curso das criaturas sem fim proporcional; Ele sabe não ser absolutamente necessário à missão da Igreja que seus ministros sejam pessoalmente exemplares de virtudes, pois Ele dá o que quer por quem Ele quer. Permitiu, portanto que os eclesiásticos dos séc. XV/XVI se comportassem como homens e filhos do seu tempo; e o permitiu a fim de demonstrar mais eloquentemente o vigor de sua Igreja; quis evidenciar que não são os homens que a sustentam e santificam, mas é Deus mesmo; ela é divino-humana, e não meramente humana, pois as vicissitudes de seus membros não conseguem abater a sua têmpora. Com efeito, a Igreja atravessou incólume a época corrupta, e continua hoje a denunciar o pecado, mesmo que haja sido cometido por seus filhos mais graduados.

 

É à luz destas idéias que se deve considerar a figura do Cardeal Rodrigo de Borja, eleito Pontífice com o nome de Alexandre VI.

 

Este prelado nasceu na Espanha em 1430 ou 1431. Era sobrinho do Papa Calixto III (1455-58), que o chamou para Roma e lhe conferiu em 1456 a púrpura cardinalícia, sem que fosse ordenado sacerdote — costume frequente naquela época (Rodrigo de Borja só recebeu as ordens maiores em 1468, quando foi nomeado bispo de Álbano). Seu tio também o enviou a Bolonha, onde fez estudos de jurisprudência.

 

O Cardeal Rodrigo era notavelmente inteligente, muito hábil no trato com os homens. Falava com eloquência e impunha-se pelo garbo de seu porte. Contudo, após a morte de Calixto III começou a viver desregradamente; em 1470 uniu-se a uma senhora casada, Vanozza de Cataneis, da qual teve quatro filhos: César, Juan, Jofre e Lucrécia. Em 1460 o Papa Pio II dirigiu-lhe uma carta de censura, não conseguindo, porém, demovê-lo do seu gênero de vida.

 

Quem examina as crônicas da época, verifica que a sociedade de então não se mostrava escandalizada com os costumes do Cardeal Borja ; estes, afinal, não destoavam dos de muitos dignitários e nobres renascentistas. O que, antes, despertava a atenção e a admiração públicas na pessoa do prelado, eram suas qualidades de administrador, diplomata, varão generoso para com os artistas e humanistas; a estes títulos gozava de estima.

 

Em 1492 morria o Papa Inocêncio VIII. Rodrigo de Borja então, prometendo benefícios aos eleitores, fez-se promover à cátedra pontifícia... Embora se percebesse que a eleição fora simoníaca (pois Borja não era candidato em vista), a opinião pública não se desconsertou pelo fato. Houve mesmo contentamento geral pela ocorrência, tanto na península itálica como no estrangeiro: já que Rodrigo de Borja tinha aptidão para administrar, julgavam muitos que era o homem indicado para dirigir o Papado, cujo poder temporal precisava realmente de bom governo (a respeito do poder territorial dos Pontífices, veja-se «Pergunte e Responderemos» fasc. 2/1958, qu. 8). Consequentemente em Roma os festejos oficiais e populares por ocasião da coroação do novo Papa se revestiram de brilho extraordinário. Quanto ao estrangeiro, eis como o cronista alemão Hartmann Schedel poucos dias após a coroação apreciava o Pontífice:

 

“O eleito é varão de grande caráter e grande sabedoria, prudência e experiência política. Em juventude estudou na Universidade de Bolonha, onde granjeou fama crescente de virtude, aplicação ao trabalho e habilidade em todas as coisas, de sorte que o Papa Calixto III, irmão de sua mãe, o nomeou Cardeal... Graças à sua experiência e ao conhecimento de todas essas coisas, ele se tornou mais apto que qualquer outro para governar e dirigir o barco de São Pedro... Nele estão associadas a nobreza dos modos, a veracidade, a sã razão, a piedade e o conhecimento de todas as coisas que convém a tão elevada dignidade e situação. Bem-aventurado aquele que é ornado de tantas virtudes e elevado a tão alto grau de superioridade! Esperamos que trabalhe com utilidade para o bem comum da cristandade, que saiba encontrar seu caminho em meio aos furiosos assaltos da tempestade e através dos altos e perigosos escolhos do mar, e atingir a desejada senda da glória celeste” (Chron. Chronicar. Nuremberg 1193. fo. 277b).

 

Este juízo é certamente unilateral, não podendo ser tomado como critério para se apreciar objetivamente a pessoa de Alexandre VI. Reveste-se, porém, de importância para se perceber o estado de ânimos do mundo contemporâneo a Alexandre VI: a consciência moral parece ter estado debilitada, de sorte que sem grande embaraço o público passava por cima dos vícios e mais atendia aos valores técnicos e intelectuais das pessoas públicas. Este fator ajuda a compreender como Rodrigo de Borja pôde ser eleito Papa.

 

Os primeiros atos do governo de Alexandre VI confirmaram os contemporâneos nas suas esperanças. Procurou organizar a administração e a justiça em Roma, e entrou em regime de economia tal que seus antigos convivas se subtraiam aos convites para se sentar à mesa do Papa. Escrevia o embaixador de Ferrara, por exemplo:

 

“O Papa manda servir um só prato... Ascagno, Sforza e outros... convivas ordinários da Sua Santidade, julgando desagradável essa parcimônia, furtam-se à sua companhia e fogem todas as vezes que o podem” (citado por Gregorovius, L. Borgia, 87-88).

 

Em breve, porém, verificou-se que Alexandre VI não tinha energia para manter seus propósitos. O afeto desmedido para com seus familiares sobrepujou nele o zelo dos interesses comuns. Foi vítima principalmente do gênio ambicioso e violento de seu filho César Borja, dominador político e guerreiro, diante do qual Alexandre chegava a tremer.

 

Em 1497 o Papa foi gravemente abalado pela morte de seu filho Juan, misteriosamente assassinado. Considerando o golpe como advertência do céu, tomou medidas para reformar sua vida pessoal e os costumes da sociedade; chegou a nomear, para este fim, uma comissão de seis Cardeais, o que muito alegrou o povo cristão. Os projetos, porém, ficaram sendo letra morta, pois Alexandre carecia da força de vontade necessária a tal tarefa.

 

Finalmente aos 18 de agosto de 1503 faleceu de febre malária perniciosa, após se ter confessado ao bispo de Carinola e haver recebido a S. Comunhão. Não tem fundamento o rumor de que haja sido envenenado; as testemunhas oculares dos fatos, como eram os embaixadores estrangeiros em Roma, ignoram tal versão nos relatos que nos transmitiram.

 

A opinião pública se pronunciou logo muito severamente contra Alexandre VI, não raro caindo em exageros, de sorte que não se pode dar crédito a tudo o que se tem propalado (principalmente em romances e teatros) sobre a sua figura.

 

2. Que dizer agora do Papa Alexandre VI e da santidade da Igreja ?

 

Vão seria querer justificar a vida moral desse Pontífice; faz-se mister reconhecer a sua indignidade pessoal. Mas não é a fraqueza dessa criatura que deve chamar a atenção do historiador desapaixonado (o católico lembrar-se-á da palavra da Escritura ; «O homem vê na face ; Deus, porém, vê no coração», 1 Sam 16,7). Errar é tão humano (é coisa tão minha) que não surpreende o observador sincero. Deus podia, sim, usar de providência especial a fim de preservar do erro moral os seus ministros na terra ; não o quis, porém. Isto não seria consoante ao mistério da Encarnação, mistério segundo o qual a Majestade Divina se digna vir ao homem sob as aparências do humano e do inepto. Por este mistério o Senhor nos ensina que não é de forças e valores criados que recebemos nossa santificação, mas é estritamente de Deus, que se digna apenas utilizar um representante visível. Sem extinguir a fraqueza humana, sem violentar a vontade livre dos seus instrumentos, o Senhor apenas nos assegura que as falhas dos ministros do altar não constituem obstáculo à santificação dos fiéis que por eles procuram a Deus. A Igreja não deixa de ser santa (ou de possuir a santidade de Deus) pelo fato de que nem todos os sacerdotes são santos; a Igreja e, por ela, o Cristo dão mais do que aquilo que o sacerdote, como homem, pode dar, embora só o deem através do sacerdote.

 

É o que a figura do Papa Alexandre VI comprova eloquentemente. Em vez de se deter sobre pormenores «sensacionais» da vida deste Pontífice, dilate o observador o seu horizonte e considere a continuação da história; verificará que, apesar de todos os seus desmandos, tal Pontífice não infligiu danos decisivos à Igreja de Deus: não promulgou uma só lei que visasse deturpar a disciplina cristã (antes, tendeu mais de uma vez à reforma); também não publicou uma só definição oposta ao dogma, definição que servisse para justificar as suas desordens morais» Ao contrário (e isto talvez pareça paradoxal), Alexandre VI mostrou sempre solicitude por questões atinentes à piedade e à vida espiritual, apesar de suas tarefas de guerreiro e Senhor de corte; dispensou larga proteção às Ordens religiosas a fim de favorecer o fervor e as atividades das mesmas. — O católico, aliás, sabe que a infalibilidade papal só se exerce quando o Sumo Pontífice define solenemente, como Mestre supremo da cristandade, que tal ou tal verdade pertence ao depósito da fé ou da moral cristãs. Nunca é infalível, porém, em atos de sua vida individual ou em declarações que faça como pessoa particular.

 

Em suma, a história ensina que o ouro de Deus na Igreja passa, puro e incontaminado, aos homens, mesmo quando o Senhor o quer transmitir por meio de mãos manchadas e indignas. Os homens, mesmo os mais próximos do altar, podem causar mal à Igreja, mas jamais a puderam, nem poderão, destruir.

 

É esta a mensagem que se prende à figura do Papa Alexandre VI, para nós, homens do séc. XX.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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