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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 009 – setembro 1958

A Real Presença de Cristo na Eucaristia

SAGRADA ESCRITURA

MONTENEGRO (Rio de Janeiro):

“Quais os fundamentos bíblicos da fé na real presença de Cristo na Eucaristia?

A Sagrada Escritura apresenta textos concernentes 1) à promessa, 2) à instituição e 3) à celebração da Sagrada Eucaristia; textos que dão claro testemunho da real presença do Senhor no sacramento do altar.

Percorramos as principais dessas passagens.

1) A promessa da S. Eucaristia

A promessa se acha consignada em Jo 6. O quarto Evangelista, escrevendo mais de trinta anos após os demais, ou seja, por volta do ano 100, não quis reiterar a narrativa da instituição da Eucaristia já apresentada por S. Mateus, S. Marcos, S. Lucas e S. Paulo (1 Cor 11); procurou, antes, desenvolver o profundo significado doutrinário do gesto de Jesus, referindo a promessa que o Senhor fizera do Pão da Vida.

Qual seria então o conteúdo de Jo 6?

Reúne três episódios harmoniosamente concatenados a fim de incutir uma grande tese ou o mistério da Eucaristia: a multiplicação milagrosa dos pães (vv. 1-15) significa o poder de Jesus sobre o pão; o caminhar sobre as águas (vv, 16-21) incute o poder do Senhor sobre o seu corpo e os elementos da natureza; por fim, o sermão sobre o Pão da vida (vv, 22-71), utilizando os ensinamentos dos dois quadros anteriores, anuncia um pão que será o próprio corpo de Cristo.

Nesse sermão, que nos interessa de modo particular, Jesus se propõe diretamente como o pão que dá a vida verdadeira, imortal. Alguns exegetas julgam que na primeira parte do discurso (vv. 22-50) o Senhor tem em vista o consumo meramente espiritual, que se dá mediante a fé: quem crê, come... Tal interpretação é aceitável; não se poderia, porém, estender à segunda parte do sermão (vv. 51-71), a qual visa claramente o consumo sensível de um pão que é a verdadeira carne de Cristo; tenham-se em vista, por exemplo, as expressões muito vivas e concretas do trecho 6,51-56:

51 “’Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá eternamente! O pão que eu darei é a minha carne, entregue para a vida do mundo’.

52 Puseram-se, então, os judeus a disputar entre, si: 'Como pode esse dar-nos a comer (phagein) a sua carne?'

53 Retornou Jesus: 'Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós.

54 Quem come (ho trogon) minha carne e bebe meu sangue, tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia.

55 Porque minha carne é verdadeira comida e meu sangue é verdadeira bebida.

56 Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim, e eu nele’”.

A clareza e a insistência destas palavras exigem sejam entendidas em seu pleno realismo. Note-se que no v. 52 os judeus perguntavam como Jesus lhes poderia dar a sua carne a comer (phagein, em grego); então, visando esclarecê-los, Cristo, longe de enveredar por uma explicação alegorista, reafirmou o sentido literal das suas palavras, utilizando no v. 54 expressão ainda mais forte, isto é, o verbo trogo, que significa «mastigar, dilacerar com os dentes», sem sentido pejorativo, mas num realismo extremo.

Quem quisesse interpretar metaforicamente os dizeres do Mestre, deveria comprovar explicitamente a sua tese — o que seria difícil ou impossível, pois o sentido metafórico que as expressões de Jesus podiam ter em linguagem semita é inadmissível no contexto de Jo 6: «comer a carne de alguém» significaria metaforicamente «ofender essa pessoa, persegui-la até a morte» (cf. Sl 26,2); «beber o sangue de alguém» equivaleria a «arder de ódio para com tal pessoa». Ora está claro que Jesus, em Jo 6,54, não podia convidar os seus ouvintes ao ódio para com o Divino Mestre, prometendo-lhes em troca a vida eterna.

Os ouvintes de Cristo entenderam naturalmente as palavras do Senhor em sentido literal, perguntando consequentemente, cheios de admiração: «Como nos pode dar a comer a sua carne?» (v. 52). Ora acontecia que, quando os discípulos se enganavam a respeito das afirmações do Divino Mestre, tomando ao pé da letra expressões que deviam ser entendidas metaforicamente, o Senhor tratava de desfazer o equívoco (cf. Jo 3,3-8; 4,32-34; 11,11; Mt 16,6-8); no caso, porém, de Jo 6, Jesus, visando esclarecer seus ouvintes surpresos, não somente não atenuou o realismo de suas palavras, mas, ao contrário, o acentuou : nos w. 53 e 54 acrescentou, em sua resposta, a menção de «beber o sangue do Filho do Homem» e de «mastigar, dilacerar com os dentes a sua carne». O Senhor manteve destarte a sua posição, muito embora soubesse que, em consequência, vários dos seus ouvintes haveriam de O abandonar (cf, v. 66); Cristo não hesitou mesmo em intimar os doze discípulos a definir a sua atitude com toda a clareza ; ou crer no realismo das palavras anteriormente proferidas pelo Senhor e, consequentemente, acompanhá-Lo, ou negar fé e, consequentemente, afastar-se (cf. v, 67).

Eis, porém, que o v. 63 tem causado dificuldades exegéticas: «É o espírito que vivifica, a carne para nada serve. As palavras que Eu vos disse, são espírito e vida.». Que tinha em vista o Senhor com esta advertência?

Jesus apenas visava remover um entendimento grosseiro de suas afirmações, o entendimento chamado «cafarnaítico» (porque característico dos ouvintes de Cafarnaum, onde Jesus falava): não se tratava de comer carne enquanto tal (está claro que esta por si só não santifica o homem) nem de comer a carne do Senhor em suas condições terrestres (como se come a carne do açougue), mas, sim, de receber a carne de Cristo glorificada e elevada aos céus, emancipada das leis do espaço e do tempo. É a carne nessas circunstâncias novas que Jesus chama «espírito»; é espírito, porque está toda penetrada pela Divindade (na verdade, é a Divindade de Cristo que, mediante a carne, vivifica os fiéis na Eucaristia).

Acrescentou o Senhor que as suas palavras são espírito, não como se tivessem de ser entendidas em sentido figurado, mas pelo fato de terem um alcance espiritual e de exigirem um entendimento sobrenatural (na fé); são vida também, porque nos revelam o meio de termos a vida em nós.

S. Agostinho (+430), tão explorado pelos simbolistas, propõe de maneira admirável a exegese de Jo 6,63:

«A carne para nada serve, se ela está, só. Que o Espírito (= a Divindade) se junte a ela, como a caridade se pode juntar à ciência, e então ela servirá muito. Pois, se a carne para nada servisse, o Verbo não se teria feito carne para habitar entre nós. Se Cristo muito nos valeu encarnando-se, como é que a carne para nada serve? Eis contudo que o Espírito se empenhou em nossa salvação mediante a carne. A carne foi o receptáculo: considera o que ela continha, não o que ela era... O Espírito é que vivifica, a carne para nada serve: minha carne, que dou a comer, não é a carne tal como eles a concebiam (= como carne de açougue)» (In Io tr. 27,5).

São João Crisóstomo (+407) diz o mesmo sob nova forma :

«Se aquele que não come a carne de Jesus e não bebe o seu sangue, não tem a vida em si, como seria verdade que essa carne, sem a qual ninguém possui a vida, para nada serve? Vês, por conseguinte, que a frase 'A carne para nada serve’ significa não a carne de Jesus, mas o modo carnal como eles escutavam» (ln Io 6,30 hom. 47, el Migne gr. LIX 265).

De resto, o sentido realista de Jo 6 é reconhecido por não poucos autores liberais e até protestantes (Zahn, Schanz, Bauer, Loisy).

É à luz de Jo 6 que se hão de entender os episódios abaixo referidos.

2) As narrativas da instituição

As narrativas da instituição durante a última ceia do Senhor empregam, por sua vez, palavras muito claras : «Isto é meu corpo... Isto é meu sangue».

Jesus naquela ocasião, ao deixar as derradeiras instruções aos discípulos, terá evitado qualquer termo de sentido ambíguo (nas horas supremas e decisivas os homens costumam recorrer a linguagem precisa). Cristo, assentado à mesa com os Apóstolos, tinha diante dos olhos todas as gerações cristãs através da história; sabia previamente que de maneira geral, durante séculos e séculos, os seus discípulos haviam de interpretar os seus dizeres em sentido realista, prestando adoração ao SSmo. Sacramento. Não obstante, segundo as hipóteses racionalistas, Cristo, «que não queria ensinar a real presença na Eucaristia», teria usado termos ambíguos, induzindo em erro seus primeiros discípulos, homens simples e rudes, e, depois deles, uma multidão de fiéis cristãos! Diga-se mais: Cristo teria usado termos aparentemente claros para ocultar um simbolismo assaz difícil de se apreender; com efeito, é árduo definir qual o significado metafórico que Jesus possa ter tido em mira ao proferir as suas palavras simples sobre o pão e o vinho; em 1577, sessenta anos após o surto do luteranismo, São Roberto Belarmino dizia ter aparecido havia pouco um livrinho que apresentava duzentas interpretações dos protestantes para as palavras : «Isto é meu corpo»!

Contra a perspectiva de um Jesus a induzir em erro os seus discípulos, insurgia-se em 1529 o humanista, crítico irônico, Erasmo de Rotterdam, que escrevia a Bero a propósito das diversas sentenças «eucarísticas» dos Reformadores (Lutero, Zwingli):

“Jamais me pude persuadir de que Jesus, a Verdade e a Bondade mesmas, tenha permitido que por tantos séculos a sua Esposa, a Igreja, haja prestado adoração a um pedaço de pão em lugar de adorar a Jesus mesmo”.

Ademais a fórmula de consagração do vinho soa, segundo Mt e Mc: «Isto é o meu sangue, o sangue da Aliança que será derramado por muitos» (Mt 26,28; cf. Mc 14,24), frase que faz eco às palavras de Moisés: «Este é o sangue da Aliança.. (Êx 24,8), Ora não há dúvida de que o Legislador do Antigo Testamento, ao falar assim, tinha diante dos olhos o sangue de uma vitima a selar a Aliança sinaítica. Donde se pode concluir que Jesus, ao falar na última ceia, tinha em vista verdadeiro sangue, o seu próprio sangue.

Contudo costumam-se propor objeções à interpretação óbvia das palavras de Jesus. Assim:

a) vários são os textos da Sagrada Escritura em que Cristo ou os Apóstolos empregam o verbo «ser» no sentido de «significar, simbolizar». Sirvam de exemplo

Jo 14,6 : «Eu sou o caminho, a verdade e a vida»;

Jo 15,1 : «Eu sou a verdadeira videira, e meu Pai o vinhateiro»;

1 Cor 10,4 : «A pedra era o Cristo» (texto particularmente utilizado pela exegese protestante).

Em resposta, far-se-á observar que o contexto de tais versículos indica suficientemente tratar-se de alegoria ou locução figurada, donde natural e evidentemente decorre o sentido simbolista do verbo ser nessas passagens. No contexto, porém, da última ceia, falta todo indício de simbolismo; arbitrário, portanto, e avesso aos princípios básicos da interpretação de qualquer trecho literário seria, na exegese de tais episódios, fugir ao sentido óbvio e literal do verbo ser.

Além disto, verifica-se que nas frases citadas o sujeito é um pronome pessoal ou um substantivo, sujeito bem determinado e por si mesmo diverso do respectivo predicado; a aproximação entre sujeito e predicado em tais sentenças só pode ser figurada ou metafórica. Ao contrário, nas frases da consagração eucarística o sujeito é um pronome demonstrativo, pronome que por si mesmo é indeterminado e vai receber sua determinação do substantivo com o qual ele é relacionado, podendo mesmo identificar-se com o significado deste substantivo. Na frase de Cristo, portanto, o pronome demonstrativo touto (em grego), isto ou este, relacionado com corpo, não somente não se opõe à identificação com corpo, mas exige-a, de tal modo é simples e clara a cópula é. Em outros termos: na afirmação do Senhor, o pronome «isto» (touto) designa uma substância existente sob as aparências externas do pão, substância cuja natureza é enunciada pelo predicado «meu corpo». De resto, nota-se que «isto (ou este) é meu corpo» equivale a «Eis aqui meu corpo», como incute a comparação de Êx, 24,8 com Hebr 9,20 (a fórmula «Este é o sangue» de Êx reaparece em Hebr como «Eis o sangue»).

No tocante a 1 Cor 10,4, onde São Paulo aplica a metáfora do Rochedo a Cristo, note-se que este texto não pode servir para ilustrar a fórmula da consagração eucarística, pois o Apóstolo em X Cor 10 exprime formalmente sua intenção de recorrer a uma metáfora: «Nossos pais todos beberam do mesmo alimento espiritual; bebiam, com efeito, de um Rochedo espiritual que os acompanhava; e o Rochedo era o Cristo». O adjetivo «espiritual», duas vezes ocorrente nestes dizeres e diretamente associado a «Rochedo», indica bem que o hagiógrafo quer empregar uma figura de linguagem. São Paulo mesmo, sem negar a realidade da história do êxodo, declarou explicitamente que ele a considerava em 1 Cor 10 como figura do que se dá com os cristãos do Novo Testamento (cf. v. 10). — Na fórmula de consagração eucarística, ao contrário, falta todo e qualquer indicio de uso metafórico das palavras.

b) No início do século passado, os autores liberais apoiavam a sua interpretação simbolista na tese de que a língua aramaica, em que Jesus falou, tinha um só verbo para exprimir a identidade real e a representação simbólica.

Em 1828, porém, N. Wiseman publicou o estudo «Horae syriacae», em que enumerava mais de quarenta verbos aramaicos capazes de exprimir a noção de «significar», Além disto, sabe-se que os Evangelistas e São Paulo escreveram em grego, usando a forma verbal esti (= ), e não semanei (= significa); assim fazendo, transmitiram-nos a interpretação autêntica das palavras de Jesus.

c) O Senhor mandou repetir a ceia sagrada em sua memória (cf. 1 Cor 11,24s). Ora, dizem, o memorial só se pode referir a pessoa ausente, não a presente. Cristo, por conseguinte, não está presente sob os véus eucarísticos.

Responder-se-á que não é absurdo falar do memorial de um ser presente, desde que este não apareça aos sentidos; com efeito, dizemos que nos lembramos de Deus, embora Deus nos esteja sempre presente (cf. SI 76, 3 na Vulgata e na trad. de Almeida); analogamente fazemos o memorial de Cristo, que de maneira invisível, mas bem real, se acha no sacramento da Eucaristia.

d) Conforme Paulo e Lucas, Jesus disse : «Este cálice é a nova Aliança em meu sangue, que será derramado» (Lc 22,20; cf. 1 Cor 11,25). Ora, assim como o cálice continuou a ser cálice após estas palavras, dir-se-á que também pão e vinho não deixaram de ser pão e vinho após os dizeres que, conforme Mt e Mc, Jesus proferiu sobre eles. Que replicar a isso ?

Na realidade a fórmula de Pl e Lc coincide com a de Mt e Mc quanto ao sentido doutrinário, incutindo ambas a real presença; apenas se diferenciam no plano filológico ou estilístico. Ao passo que Mt e Mc empregam uma construção de frase muito lisa e clara, a tradição de Paulo e Lucas recorre a dois artifícios de redação, mencionando sucessivamente o recipiente em lugar do respectivo conteúdo (o cálice em lugar da substância do vinho que ele continha) no sujeito da frase, e o efeito em lugar da causa (a Nova Aliança em lugar do sangue que a tornou possível e a selou) no predicado da mesma frase; por conseguinte, se quiséssemos fazer abstração dos artifícios de estilo, teríamos em PI e Lc a construção : «Isto (ou esta substância que se acha contida no cálice) é o meu sangue, o sangue que acarreta e sanciona a Nova Aliança entre Deus e os homens». A construção artificiosa de São Paulo e São Lucas serve para exaltar a realidade da Aliança selada pelo corpo e o sangue de Cristo imolados, enquanto a formulação simples de São Mateus e São Marcos realça principalmente a realidade da presença do corpo e do sangue do Senhor que selara essa Aliança.

e) Em 1 Cor 11,26 lê-se : «Todas as vezes que comeis desse pão e bebeis desse cálice, anunciais (katangéliete) a morte do Senhor até que Ele venha». Não quer isto dizer que não está presente na ceia eucarística Aquele cuja vinda ainda se espera no porvir?

No texto acima, São Paulo recorda o íntimo nexo que liga a ceia sagrada com a morte do Senhor (o verbo katangéliete no indicativo presente, conforme o autor protestante J. Weiss, implica mesmo a ideia de realização). A seguir, diz-nos o Apóstolo que esse «anúncio» sacramental da imolação do Senhor é permanente ou se efetua todas as vezes que se celebra a ceia eucarística, até que o Senhor Jesus haja por bem encerrar o atual regime da fé e dos sacramentos, tornando-se presente de maneira visível entre nós. Como se vê, o Apóstolo estabelece distinção entre «presença de Cristo glorioso, manifesto», tal como é aguardada uma vez para o fim dos tempos, e «presença do Senhor sacramenta], velada» (mas bem real, como se deduz do contexto já analisado), tal como a temos na Eucaristia «todas as vezes», isto é, todos os dias. Não é o binômio «presença-ausência» que o hagiógrafo quer focalizar, mas, sim, a distinção entre «presença visível (a ser obtida uma vez)» e «presença invisível (que se verifica muitas vezes, permanentemente)».

3. A celebração da S. Eucaristia

Há uma passagem principal que, atestando a celebração da Eucaristia na Igreja nascente, dá claro testemunho da fé na presença real do Senhor:

«Todo aquele que comer desse pão e beber do cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor. Por conseguinte, examine-se cada um e então coma desse pão e beba do cálice. Pois todo aquele que come e bebe indignamente, come e bebe a própria condenação, por não discernir o corpo e o sangue do Senhor. É por isso quê muitos doentes e enfermos entre vós e muitos já morreram» (1 Cor 11,27-30).

Neste texto o Apóstolo deduz consequências gravíssimas da profanação do pão e do vinho eucarísticos; a razão de tais penas é o fato de que se torna profanador do corpo mesmo e do sangue do Senhor quem viola o sacramento; a malícia de tal pecado e a condenação ã morte, tanto temporal como eterna, de que fala São Paulo, não se entenderiam se a Eucaristia fosse mero símbolo do corpo e do sangue de Cristo. Donde conclui Goguel (o qual, não obstante, é adversário da presença real, por ter São Paulo na conta de grande inovador dentro do Cristianismo primitivo):

«Bachmann observa com razão que, se o Apóstolo diz 'réu do corpo e do sangue do Senhor', e não apenas 'réu perante o Senhor', isto se deve ao fato de que, para Paulo, o pão-corpo e o cálice-sangue são realmente o Senhor, e não (meros) símbolos. O caráter realista da concepção paulina explica também as consequências que, aos olhos do Apóstolo, tem a comunhão indigna» (L'Eucharistie des origines à Justin martyr. Paris 1910, 178).

Eis, porém, que contra a interpretação acima parece levantar-se uma objeção por parte de 1 Cor 10, 16-21. Nesta passagem São Paulo confronta a Eucaristia com os sacrifícios não-cristãos, sacrifícios em que certamente não se admitia a real presença da Divindade sob os véus das carnes imoladas. Eis as palavras do Apóstolo:

«Porventura o cálice de bênção que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos, não é porventura a comunhão do corpo de Cristo? Já que há um só pão, nós todos, sendo muitos, constituímos um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão. Considerai Israel segundo a carne: os que comem das vitimas não estão em comunhão com o altar? Mas que digo? Que a carne sacrificada aos ídolos é alguma coisa? Ou que o ídolo é alguma coisa?... Mas o que se sacrifica, aos demônios é sacrificado e não a Deus. Ora não quero que entreis em comunhão com os demônios. Não podeis beber do cálice do Senhor e do cálice dos demônios; não podeis participar da mesa do Senhor e da mesa dos demônios».

Que quer esta passagem dizer?

São Paulo intenciona proibir formalmente aos seus fiéis a participação nos banquetes rituais em que se comiam carnes imoladas aos ídolos. Em vista disto, alude a uma crença comumente professada nas antigas religiões: toda ceia ritual produz a união dos convivas entre si e com a Divindade, Divindade que os convivas julgavam estar presente em meio a eles (admitir alguém à sua mesa é um dos sinais mais eloquentes de amizade). Ora, diz o Apóstolo, tal comunhão com o invisível se dá de fato nos banquetes religiosos pagãos, apenas com a ressalva de que, os ídolos e deuses do politeísmo não tendo realidade alguma, é com os demônios ou espíritos maus que os pagãos contraem aliança, pois são os demônios que inspiram a idolatria (cf. Dt 32,17; Bar 4,7; SI 95,5). A comunhão se dá também nos sacrifícios Judaicos, reconhece São Paulo, pois os israelitas, comendo parte das vítimas imoladas a Javé, entram no âmbito das coisas consagradas ao Senhor (Cf. Dt 12,lis; 18,1-4; Hebr 13,10). Pois bem; a mesma concepção, o Apóstolo transpõe-na para a ceia dos cristãos ou a Eucaristia: a comunhão eucarística dá união com Cristo. Esta expressão, porém, não lhe parece suficiente para traduzir todo o mistério da Eucaristia, que, segundo se depreende, ultrapassa a realidade de qualquer rito não-cristão: é, em termos precisos, com o corpo e o sangue de Cristo que os fiéis entram em contato (comunhão) quando recebem respectivamente o pão e o vinho eucarísticos. Trata-se, pois, de união com a Divindade não meramente espiritual ou mística (como ela se dá nos cultos não-cristãos), mas física, adquirida precisamente mediante o corpo e o sangue do Senhor recebidos como alimento. Nesse contexto parece merecer atenção especial o fato de que o Apóstolo afirma que o pão é a comunhão com o corpo de Cristo (não apenas a dá ou a representa) e, paralelamente, que o cálice é a comunhão... (não simplesmente a proporciona ou simboliza).

Quanto ao fato de que o Apóstolo em 1 Cor 11,23-28 fala repetidamente de pão, referindo-se à Eucaristia, não quer dizer que negue a real presença do Senhor: embora as aparências de pão permaneçam as mesmas depois de proferidas as palavras da consagração (permanência que nos habilita a falar sempre de pão), São Paulo muito recomendava aos seus fiéis que discernissem do pão comum esse «pão» que é o Corpo (cf. 1 Cor 11,29).

Em conclusão, verifica-se que a real presença de Cristo na S. Eucaristia constitui uma proposição de fé frequentemente atestada pela Sagrada Escritura. A Tradição cristã, ininterruptamente desde a era dos Apóstolos, ensinou esse dogma e dele até hoje recebe sua vitalidade.

 

ANTÔNIO (São Paulo): “Admitida a real presença, Jesus terá comungado do seu próprio corpo na última ceia?”

O texto do S. Evangelho não nos fornece dados suficientemente claros para resolver a questão. Não faltaram Padres e teólogos que lhe deram resposta afirmativa (entre os quais São Tomaz mesmo, na Suma Teológica III q. 81, a.l); não somente não viam nisso absurdo algum, mas julgavam conveniente que Cristo nos tivesse precedido no uso de consumir o pão e o vinho eucarísticos. Tal razão, porém, não é estritamente exegética; deve ceder à análise direta do texto sagrado. Ora bons exegetas contemporâneos, baseando-se pròpriamente no texto bíblico, julgam que Jesus não comungou na quinta-feira santa. Tal sentença é sugerida pelos imperativos dirigidos pelo Senhor a seus discípulos : «Tomai e comei,... bebei...Num ritual comum de ceia judaica, dizem-nos, o pai de família se dispensava de dar tais ordens, pois o seu exemplo mesmo era exortação a que os convivas comessem e bebessem do alimento sobre o qual ele proferia a oração. Ademais, note-se que toda comunhão supõe sempre distinção das pessoas que se unem; ninguém adquire propriamente comunhão consigo.

A resposta negativa acima estruturada parece merecer a preferência.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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