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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 021 – setembro 1959

 

Juízo Final, Predições e Onisciência Divina

DOGMÁTICA

AMIGO DAS PROFECIAS (Rio de Janeiro):

Que fundamento têm as predições de catástrofe e renovação do mundo nas imediações do próximo ano 2000 ?

Estarão baseadas na S. Escritura ou em alguma documentação fidedigna ?

I. B. H. (Belo Horizonte):

Como pôde Jesus declarar que ignorava a data do juízo final (cf. Mc 13,32) ? Não possuía Ele  a onisciência divina?

 

As duas questões consideram aspectos do mesmo tema: estará o cristão habilitado a prever a época em que se dará o fim do mundo atual ? Vamos, pois, responder-lhes conjuntamente, analisando em primeiro lugar os dizeres da S. Escritura sobre o assunto ; depois do que, procuraremos explicar o férvido pulular de profecias modernas concernentes ao ano 2000.

 

1. Os textos bíblicos

 

1. Quem compulsa o Novo Testamento verifica que o Senhor Jesus, longe de intencionar deixar aos seus discípulos sinais que permitissem calcular com precisão a data do juízo final, quis explicitamente velar-lhes o conhecimento da mesma. Interrogado sobre o assunto ainda pouco antes de subir definitivamente aos céus,. respondeu claramente aos Apóstolos :

Não toca a vós ter conhecimento dos tempos e momentos que o Pai fixou por sua própria autoridade” (At 1,7).

 

Jesus afirmou mesmo não pertencer à sua tarefa de Mestre e Redentor dos homens revelar a famosa data; é o que se lê em Mc 13,32:

Quanto àquele dia e àquela hora, ninguém os conhece: nem os anjos do céu, nem o Filho, mas apenas o Pai”.

 

O texto acima suscitou árduas controvérsias entre os exegetas, principalmente na antiguidade, pois parece equiparar o Filho de Deus aos anjos, distanciando-o de Deus Pai. Passados, porém, as controvérsias cristológicas que agitaram os primeiros séculos, não resta dúvida de que as palavras do Salvador hão de ser entendidas à luz de afirmações análogas, em que Jesus afirma dependência em relação ao Pai (cf. p. ex. Mt 20,22); é como homem que o Senhor então fala, e como homem que executa uma missão a Ele confiada pelo Pai. Com efeito, Jesus, como verdadeiro Deus, sabia perfeitamente qual a data da sua segunda vinda; sabia-a também enquanto homem perfeito, que já aqui na terra gozava da visão beatífica (contemplando o Pai face a face, a santíssima humanidade de Cristo n'Ele via seus desígnios a respeito do mundo). Não estava, porém, no programa da vida terrestre de Cristo revelar aos homens o grande dia; em consequência Jesus pôde dizer simplesmente que o ignorava. É o que o Pe. Lagrange explica nos seguintes termos: «O Filho sabe, mas (como homem e Mestre dos homens) não recebeu a incumbência de manifestar; neste sentido Ele ignora» (St. Marc 350). Tal é a interpretação que desde os tempos de S. Agostinho (+430) prevaleceu na tradição cristã (cf. S. Agostinho,.. In ps 36 ed. Migne lat. 36.355) — Observe-se ainda que o texto paralelo do Evangelho de São Mateus, evitando todo possível mal-entendido, omite simplesmente a menção do Filho: “Quanto àquele dia e àquela hora, ninguém os conhece, nem os anjos do céu, mas apenas o Pai” (24,36).

 

Jesus acentuou mesmo que a sua volta gloriosa ao mundo (que implicará a consumação da história) terá o caráter de acontecimento imprevisto:

 

«Verificar-se-á por ocasião da volta do Filho do homem o que se deu nos dias de Noé. Pois, assim como no tempo que precedeu o dilúvio, os homens comiam, bebiam, tomavam e davam em matrimônio, até o dia em que Noé entrou na arca, e de nada suspeitaram até que veio o dilúvio que levou a todos, assim se dará quando o Filho do homem voltar. Então de dois homens que estiverem no campo, um será tomado, o outro deixado; de duas mulheres que estiverem junto à mó, uma será tomada, a outra abandonada» (Mt 24,37-41).

 

As últimas palavras acima insinuam que Cristo surpreenderá homens e mulheres em suas ocupações ordinárias, nos campos ou em casa. Não serão as circunstâncias externas, mas as disposições internas da alma, que decidirão da sorte de cada qual: de duas pessoas, uma será tomada, isto é, incorporada ao cortejo dos que se unirão a Cristo para sempre; a outra será abandonada ou excluída do mesmo (cf. a parábola de Mt 25,1-13; cinco virgens entram no cortejo do esposo; cinco não). Nestas passagens o cortejo tem sentido evidentemente metafórico, pois o estilo é apocalíptico, ou seja, intencionalmente obscuro e velado.


Cristo inculca ainda o caráter imprevisto da consumação dos tempos por meio de duas outras comparações: assim como o raio se desencadeia repentinamente, recobrindo logo
toda a extensão do horizonte (Mt 24,27), e assim como o salteador surpreende o pai de família em casa durante a noite (Mt 24,43s), assim também o Filho do homem inesperadamente descerá dos céus em sua majestade. A estas imagens acrescenta o Senhor uma exortação a que os homens vivam sempre conscientes do significado e do valor de cada um de seus instantes (cada qual destes pode ser o derradeiro).


São Paulo desenvolve em colorido muito vivo a imagem do ladrão:


«Sabeis muito bem que o dia do Senhor virá como um ladrão durante a noite. Quando os homens disserem: 'Paz e segurança!', justamente então uma ruína repentina os acometerá como a dor sobrevém à mulher que está para dar à luz, e não escaparão. Vós, porém, irmãos, não vivais nas trevas de modo que aquele dia vos surpreenda como um ladrão» (1 Tes 5,2-4).


Dos textos citados se depreende que o Senhor quis deixar seus fiéis na incerteza do dia final justamente a fim de entreter neles uma atitude de vigilância constante: todo e qualquer momento pode ser o «grande momento»; sabedor disto, o cristão procurará evitar toda rotina de conduta para viver à luz da eternidade ou dos, valores definitivos, sem se deixar prender pelos bens ilusórios deste mundo; cf. Mt 24,45-25,13: Lc 12,35-40 ; 1 Tes 5,5-10.


Consciente desta intenção do Divino Mestre, a Igreja sempre rejeitou as tentativas de «profetas» e «videntes» desejosos de burlar a reserva do Senhor e indicar o dia preciso da consumação dos séculos. Sucessivamente no decorrer da história as autoridades eclesiásticas têm admoestado os fiéis a se absterem de conjeturas fantasistas sobre o assunto. Em meio a tudo que se tem propalado de sensacional sobre o fim dos tempos, a Igreja se apresenta consequentemente como baluarte de paz, exortando os homens a não dar ouvidos a vãos rumores e novidades e a não se deixar empolgar pelo que é incerto; cumpram, antes, com zelo aquilo que certamente é da vontade de Deus; fazendo isto, estarão, sem dúvida, preparando seu ingresso no reino glorioso de Cristo.


Eis aqui duas admoestações do magistério da Sta. Igreja aos pregadores da Palavra de Deus:

Um concilio regional de Milão em 1365 baixou a seguinte exortação:


«Não apregoem como coisas certas a época da vinda do Anticristo e a data do juízo final, já que pelos lábios do Senhor foi dito: 'Não toca a vós ter conhecimento dos tempos e momentos'. Nem ousem, a partir das Escrituras Sagradas, procurar adivinhar o futuro e indicar determinado dia para determinado acontecimento. Também não afirmem temeràriamente ter-lhes sido isso revelado por Deus».

 

O quinto concilio ecumênico do Latrão em 1516 declarou por sua vez:


«Mandamos a todos os que estão, ou futuramente estarão, incumbidos da pregação, que de modo nenhum presumam afirmar ou apregoar determinada época para os males vindouros, para a vinda do Anticristo ou para o dia do juízo. Com efeito, a Verdade diz: 'Não toca a vós ter conhecimento dos tempos e momentos que o Pai fixou por sua própria autoridade'. Consta que os que até hoje ousaram afirmar tais coisas, mentiram e, por causa deles, não pouco sofreu a autoridade daqueles que pregam com retidão. Ninguém ouse predizer o futuro apelando para a Sagrada Escritura, nem afirmar o que quer que seja, como se o tivesse recebido do Espírito Santo ou de revelação particular, nem ouse apoiar-se sobre conjecturas vãs ou despropositadas. Cada qual deve, segundo o preceito divino, pregar o Evangelho a toda criatura, aprender a detestar o vício, recomendar e ensinar a prática das virtudes, a paz e a caridade mútua, tão recomendadas por nosso Redentor».

 

2. Se os escritos do Novo Testamento velam tão explicitamente aos homens a época do fim deste mundo, compreende-se que seria vão recorrer aos livros do Antigo Testamento para daí deduzir alguma notícia sobre o assunto. Aliás, todas as tentativas de predizer a consumação da história a partir de textos do Antigo Testamento têm sido frustradas ; os profetas neste setor não foram felizes até hoje.

 

À guisa de exemplos, poderão ser recordados os seguintes casos da história moderna:


João Bengel (+1752), exegeta luterano de grande piedade, predisse a segunda vinda de Cristo para 1837.


Guilherme Miller (+1849), fundador da seita dos Adventistas, combinando os dizeres de Dan 8,14 com os de Apoc 20, anunciou o fim do mundo atual para o intervalo de março de 1843 a março de 1844; vendo frustrados os cálculos do mestre, seu discípulo S. Snow os refez, profetizando a data de 22 de outubro de 1844 para a vinda do Senhor. Uma vez dissipada esta nova esperança, J. Cumming,. baseando-se em nova computação, pôs-se a apregoar o ano de 1854... — Os Adventistas até hoje asseveram que o prazo previsto por Daniel terminou de fato em 1844, mas que Cristo ainda está a purificar o santuário; aparecerá glorioso logo depois de completar esta obra!

 

Apesar das decepções sofridas, a expectativa adventista não arrefeceu... Comparando e interpretando textos da S. Escritura, Charles Russel (+1916) resolveu, por sua vez, predizer a inauguração do reino visível de Deus para 1914, dando assim início à seita dos Testemunhas de Jeová. — Em 1917, já que esta profecia não se cumprira, Alexandre Freytag (+1947) separou-se da seita e fundou novo ramo dissidente dito «dos Amigos do Homem»; esta escola anuncia a vinda próxima do reino de Deus (desta vez, porém, renunciando a indicar data precisa), no qual todos os homens habitarão em vilas confortáveis e higiênicas, gozando de temperatura amena e uniforme, vegetação abundante, etc.

 

A respeito dos Testemunhas de Jeová e do texto de Apoc 20 (fundamento do chamado milenarismo adventista), cf. «P. R.» 14/1959, qu. 10.


Após verificar a frustração de tantas tentativas de profetizar, o cristão volta ainda mais certeiramente a sua atenção para o genuíno pensamento do Senhor: o discípulo de Cristo não tem interesse em se deter em conjeturas sobre o dia e a hora da manifestação do Divino Mestre ao mundo, porque ele possui consciência viva de uma verdade muito mais importante. Ele sabe, sim, que o reino de Deus está primariamente no íntimo das almas; não é algo de meramente futuro, mas já se acha presente, sob forma (poder-se-ia dizer) de embrião, em cada cristão que possua a graça santificante; esta comunica de maneira inicial e ainda velada a vida eterna, aquela mesma vida que, plenamente desabrochada, faz a felicidade dos justos nos céus. Quem tem consciência disto, não dá grande importância a «novidades» ou a profecias e rumores sensacionais, sobre o fim do mundo. Venha o que vier, o cristão sabe que a fonte primacial de sua união com Deus e de sua bem-aventurança não está fora dele, mas já se encontra no íntimo de sua alma; caso seja fiel à graça interior, ele vai mais e mais gozando aqui na terra daquilo que «olho jamais viu, ouvido jamais ouviu, coração jamais percebeu» (1 Cor 2,9).

 

2. Como explicar o atual fenômeno de expectativa ?

 

O interesse que nossos contemporâneos demonstram pelos acontecimentos vizinhos ao ano 2000, corresponde a uma atitude de alma que se tem reproduzido ininterruptamente no decurso da história do gênero humano.


É usual, sim, entre os historiadores falar-se do «mito do eterno retorno» (cf. o estudo de Mircea Eliade, Le mythe de l'Éternel Retour. Paris 1949). Esta expressão quer dizer que o gênero humano, representado sucessivamente por um ou outro grupo étnico, sempre professou a expectativa de uma próxima catástrofe, a que se seguiria novo início da história. Asseveram mesmo alguns autores que quase cada geração humana se julgou habilitada a interpretar os flagelos seus contemporâneos como sinais precursores de iminente fim da história em curso.


De passagem pode-se notar que o gênero humano parece nunca: ter acreditado propriamente no total desaparecimento do universo; professou antes a ruína e a regeneração periódicas dos elementos e da humanidade ou a volta de todos e de tudo ao respectivo estado inicial, estado paradisíaco, em que o pecado não contaminava os homens, em que, por conseguinte, nem as doenças, o sofrimento e a velhice os afetavam... (o que bem condiz com a expectativa cristã de «céus novos e terra nova»; cf. 2Pdr 3,13; Apc21,l; 20,11; Is 65,17; 66,22).

 

Ora é justamente essa aspiração tradicional que mais uma vez se faz ouvir, e de maneira exuberante, em nosso mundo contemporâneo. Vaticínios oriundos das mais diversas fontes anunciam para os próximos decênios catástrofe e restauração sobre bases mais puras.

 

Pergunta-se agora: seria possível de algum modo sondar as causas de tal anelo?

 

Analisando as narrativas folclóricas dos antigos concernentes à ruína e à restauração do universo, julgam os historiadores que nelas há frequentes alusões à Lua. Donde «incluem que provàvelmente a observação das fases da Lua tenha concorrido para se formar o conceito do «eterno retorno» na mente dos povos primitivos: de fato, a Lua em suas quatro fases (nova, crescente, cheia e minguante) aparece e desaparece sem jamais se aniquilar; o fenômeno lunar teria sido tomado como padrão ou tipo do que se dá com o universo e com o gênero humano...


Em nossos dias, dois fatores parecem contribuir para excitar com particular intensidade a fantasia e as expectativas do público:

a) as calamidades por que tem passado o gênero humano em consequência de duas guerras mundiais sucessivas ; dir-se-ia que os homens se acham cansados de- estado atual de coisas e ardentemente esperam renovação, renovação da ordem social, econômica, política, etc., coisa que só lhes parece possível mediante prévia destruição de tudo que hoje existe;

b) a proximidade do ano 2000, que representa um período arredondado ou «perfeito», sugere facilmente as idéias de encerramento e novo início.

 

Os historiadores averiguaram que as expectativas dos povos referentes à história universal são frequentemente inspiradas pela observância de números rítmicos, isto é, de cifras que presumidamente regem a periodicidade dos ciclos da história ou do «eterno retorno»; assim como a visão de linhas e a audição de sons estão sujeitas às leis dos números, assim também os acontecimentos da história estariam sob a dependência das leis dos números. Ainda no século XIX o estudioso protestante F. de Rougemont asseverava que os números rítmicos da história são: 7, 1000, 360 e 666 (a conclusão' é inspirada por elucubrações bíblicas). — Sendo assim, entende-se que a proximidade do ano 2000 lembre o compasso ou a cadência da história e inspire de modo especial os «profetas» contemporâneos.

 

Já a aproximação do ano 1000 sugeriu aos homens do Ocidente apreensões e vaticínios (embora não nas amplas proporções que foram apregoadas por historiadores como W. Robertson no séc. XVIEI, Michelet, Sismondi, Flammarion, Martin, Duruy, Michaud, Cinguené, Gregorovius, Carducci, Dandolo, C. Cantu, os quais concorreram para. que se criasse a famosa «lenda do ano 1000»).


Eis uma ou outra das expressões de tais receios : Conforme os rumores populares na segunda metade do séc. X, julgava-se que, quando a sexta-feira santa coincidisse com a festa da Anunciação do Anjo a Maria (25 de março), o fim do mundo se verificaria, pois então início e fim da vida terrestre do Senhor Jesus se sobreporiam. Ora tal coincidência se deu no ano de 992 (Páscoa caiu então no dia 27 de março); por essa ocasião os cálculos dos «videntes» predisseram o fim do mundo para os três anos subsequentes... Aconteceu, porém, que o monge Abon de Fleury (Gália) se encarregou de dissipar os temores, lembrando aos fiéis que a tão famigerada coincidência ocorre forçosamente duas ou três vezes em cada século- (Apologeticum, ed. Migne lat. 139, 472).


O mesmo Abon narra ter ouvido pregar em uma igreja de Paris sobre o fim do mundo: o orador previa que, tão logo se tivesse completado o ano 1000, o Anticristo apareceria e, pouco depois, se daria o juízo final; a essa opinião opôs-se Abon, como ele mesmo relata, argumentando em nome dos SS. Evangelhos, do Apocalipse e do livro de Daniel (ibd. 471). As inundações, a fome e outros flagelos públicos do séc. X concorriam para excitar nas populações a expectativa de iminente ruína total do mundo.


Após verificar estes fatos, o observador contemporâneo não se admirará de que nosso século, calamitoso como é, se tenha tornado ambiente fecundo para profecias concernentes ao ano 2000. Tais vaticínios não merecem mais crédito do que os que, em circunstâncias análogas, foram propalados no séc. X.

 

3. Conclusão

 

À guisa de reflexão final, convém aqui lembrar que, ao lado de previsões sinistras para os próximos decênios, a literatura contemporânea apresenta outrossim presságios grandiosos, que descrevem a vida sobre a Tetra no ano 2000 em termos francamente otimistas. Não nos referimos aos chamados «romances de ficção», mas a estudos científicos que dão a ver como os rápidos progressos da ciência poderão em breve proporcionar estupendo conforto ao gênero humano; esperam os autores desses escritos que as descobertas atômicas venham a ser exploradas, assim como os espaços até hoje mais ou menos inóspitos aos homens (os ares, os desertos, os oceanos, o subsolo terráqueo, etc.), a fim de facilitar a vida e a prosperidade dos povos. Tais escritos, embora possam ser considerados utópicos, têm ao menos o valor de mostrar que o ano 2000 não é necessariamente espantalho; há os que o contemplam prazenteiramente, em nome mesmo da ciência e da razão humana, desembaraçadas das teses de falsa mística. Na verdade, nem a Religião nem a filosofia nem a ciência obrigam a crer que o terceiro milênio acarretará ruptura da história, constituindo algo de totalmente novo sobre o nosso planeta; permitem-nos, ao contrário, julgar que nos próximos decênios o gênero humano colherá normalmente o fruto feliz dos esforços que atualmente vem realizando para dominar a matéria e o cosmos.


De passagem seja aqui realçado um tópico muito significativo da mencionada literatura otimista: entre os valores humanos tradicionais que, conforme os prognósticos de feliz agouro, não sòmente não serão abolidos, mas, ao contrário, gozarão de novo vigor pelo progresso da civilização, está o valor «Religião»; e — note-se bem — Religião não no sentido de endeusamento do homem, mas no sentido de adesão ao Mistério, ao Invisível Real que cerca o homem.

 

Vão aqui transcritos dois notáveis testemunhos sobre o assunto.

 

O primeiro se deve a Walter Greiling, industrial alemão que, sem pretensões religiosas, escreveu a obra «Wie werden wir leben?» (Como havemos de viver?). Düsseldorf 1954. Nesse trabalho o autor se propõe dissipar a «Angst vor der Zukunft», isto ê, as apreensões e angústias do homem moderno que volta sua atenção para os tempos vindouros: recorrendo a cifras e .dados concretos, o autor mostra, entre outras coisas, como a Terra poderia perfeitamente alimentar uma população de 4.947.000.000 de habitantes prevista para o ano 2000 ou de 11 bilhões prevista para o ano de 2500. Entre as últimas frases desse impressionante estudo, lê-se o seguinte:

 

«As ciências naturais devem sua origem à Religião, em parte mesmo ao que há de mais profundo na Religião, isto é, à Mística. Os homens foram estimulados a pesquisar o mundo criado, a fim de poder formular uma prova da presença viva do Criador.

 

Na época -do Iluminismo (séc. XVIII) deu-se a ruptura entre as concepções dos cientistas a respeito do mundo e as proposições da fé... Dizia-se que o pesquisador da natureza devia tentar trabalhar abstraindo da hipótese de um Criador .. .Em cerca de 1900 os principais cientistas fundaram o «Monistenbund» (Aliança dos Monistas ou Ateus), que negava a distinção entre corpo e alma e na natureza não via senão mecanismos. Alguns decênios mais tarde, sérios estudiosos professam de novo fé e reverência, ao mesmo tempo que se entregam às suas pesquisas. Ainda mais recentemente, os grandes físicos e biólogos dão um passo adiante, declarando que os resultados das ciências naturais se conciliam com as concepções da fé...

 

As novas perspectivas sobre o setor da vida e a entrada do homem nos espaços intersiderais só fizeram corroborar a reverência dos autênticos cientistas perante a vida e a criação» (pág. 316s).

 

Mais explícito ainda é o depoimento de Paul-Jacques Quermont, autor do artigo «L'An 2000» na revista (que é reconhecidamente sólida e séria) «Science et Vie» (t. XCV n» 500, mai 1959), onde o autor prevê, na base de dados científicos criteriosamente utilizados, o horário de um homem de trabalho e de sua família em Paris do ano 2000; depois de falar das maravilhosas invenções e realizações da técnica da época, observa que as conquistas da ciência humana acarretarão entre as suas consequências «um notável renascimento do senso religioso (ninguém, por exemplo, estranha no ano 2000 que os dois satélites artificiais Alfa e Beta tenham capela e, entre os membros da sua tripulação, capelães do espaço). — .. .d'abord une considérable renaissance du sentiment religieux (personne, par exemple, ne s'est étonné de ce que les deux, satellites Alpha et Béta comprennent des chapelles et, parmi leurs équipages, des 'aumõniers de l'espace')» (pág. 45).

 

Em conclusão de quanto acaba de ser proposto, faz-se mister dizer que não há fundamento racional nem religioso para as predições de iminente ruptura da historia («fim do mundo» seguido de novo inicio) tão propalada em nossos dias. As catástrofes poderão vir,' sem dúvida ; não se creia, porém, que virão porque leis dos números ou forças cósmicas misteriosas ou o mito do eterno retorno as desencadearão; não. Elas virão se os homens, cedendo à paixão e ao ódio, aplicarem as estupendas conquistas da ciência à obra da destruição e da morte; se, ao contrario, utilizarem tais resultados para viverem mais e melhor na qualidade de homens, cultivando os valores tipicamente humanos que são os valores morais, os próximos decênios e o ano 2000 serão tempos de notável bem-estar.


Na verdade, Deus (que não se identifica com as forcas da natureza, mas é o Criador providente das mesmas) permite que o homem, optando livremente pelo bem ou pelo mal, se torne o autor de sua própria felicidade ou infelicidade. Donde se vê que as preocupações de nossos contemporâneos se devem dirigir não para as múltiplas e vãs «profecias» que estão nos ares, mas para a grande tarefa de morigerar a sociedade moderna e restaurar o apreço dos valores morais, a fim de que o homem possa dominar a técnica, e não ser dominado ou esmagado por esta.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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