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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 403/dezembro 1995

Sagrada Escritura

Reflexão sobre um tema polêmico:

AFINAL JESUS TEVE IRMÃOS?

O Professor André Leonardo Chevitarese, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais), enviou à redação de PR interessante artigo. Na qualidade de historiador e sociólogo, pesquisou o uso das palavras "irmãos" e "irmãs" entre os judeus e os povos que os cercavam na Antigüidade. Oferece assim um embasamento ainda mais sólido para se dizer que os "irmãos" de Jesus não eram filhos do pai e da mãe de Jesus, mas parentes ou familiares mais distantes.

Trata-se de estudo original e sério, que agradecemos ao Prof. André Leonardo e publicamos com prazer nas páginas que se seguem.

 

INTRODUÇÃO

A revista L'Histoire 186 (1995) 80-5 publicou recentemente uma interessante entrevista com Michel Tardieu, professor do Collège de France, especialista em religiões. O referido professor analisa diferentes questões envolvendo a vida de Jesus Cristo. As questões que lhe são apresentadas, estão diretamente associadas com alguns livros recentemente publicados, entre os quais se destaca aquele denominado Jesus de Jacques Duquesne.

Logo no início da entrevista, Michel Tardieu procura mostrar as diferentes possibilidades de se analisar uma questão extremamente polêmica colocada por Jacques Duquesne, qual seja: parece provável que Jesus teve irmãos e irmãs. Entre as outras possíveis formas de se analisar o problema dos irmãos e irmãs de Cristo, Tardieu aponta a tese (p. 80), segundo a qual as palavras "irmãos", e "irmãs" do grego evangélico devem ser situadas no seu sentido semítico, isto é, elas não designam apenas os filhos e filhas da mesma mãe, mas, como no aramaico da época de Jesus ou ainda como no árabe, os parentes próximos, os familiares.

 

Gostaríamos de nos situar diante de um problema tão polêmico, a partir da perspectiva assinalada por Michel Tardieu. Partindo do pressuposto de que o Novo Testamento se caracteriza pela realização das promessas feitas por Deus no Antigo Testamento, logo, o primeiro estando diretamente conectado ao segundo, e que a região onde se situam as pregações de Jesus Cristo, mesmo sob o domínio de Roma, cujo Império nunca se caracterizou por ser uma unidade econômica, social e religiosa, apresenta uma base cultural diferente daquela advinda do mundo greco-romano, buscaremos verificar o sentido em que as palavras irmão, irmã são aplicadas na Bíblia. Começaremos analisando alguns exemplos fornecidos pelo Antigo Testamento.

 

1. NO ANTIGO TESTAMENTO

No livro do Gênesis (13,8) aparece uma disputa envolvendo os pastores de Abraão e Ló.

 

O primeiro dirige as seguintes palavras ao segundo:

"Que não haja discórdia entre mim e ti, entre os meus pastores e os teus, pois somos irmãos".

Não deixa de ser curioso o fato de Abraão aplicar o termo irmão ao se dirigir a Ló, tendo em vista que no capítulo anterior (12,5) do referido livro, este último é apresentado como sendo sobrinho de Abraão. Este tipo de tratamento, como será observado nos exemplos seguintes, revela o modelo de família extensiva, onde as diferentes partes componentes estão integradas em torno de um mesmo núcleo básico, congregados em torno de um antepassado comum que os identifica e os faz compartilhar das mesmas práticas sociais e religiosas. É nesta perspectiva que se pode compreender, em contextos tão diferentes, a mesma forma de tratamento dispensado entre os membros de uma família. Analisemos as passagens: a primeira delas está contida no livro de Gênesis (29,10-14). Ao ser informado por Raquel da presença de Jacó, Labão corre ao seu encontro e o recebe calorosamente. Jacó lhe expõe as altercações que teve com Esaú. Então Labão lhe disse:

"Sim, tu és de meus ossos e de minha carne".

A segunda passagem encontra-se no livro do Gênesis (37,2-27). Ela diz respeito à história de José. Após decidirem eliminá-lo fisicamente, os seus irmãos mudam de idéia ao ouvirem as palavras de Judá:

"De que nos aproveita matar nosso irmão e cobrir seu sangue? Vinde, vendamo-lo aos ismaelitas, mas não ponhamos a mão sobre ele: é nosso irmão, da mesma carne que nós".

A última passagem está localizada no livro dos Juízes (9,1-2). Abimelec profere as seguintes palavras aos irmãos de sua mãe, bem como a todo o clã da casa paterna de sua mãe:

"Dizei, peço-vos, aos homens notáveis de Siquém: Que será melhor para vós: que setenta homens, todos os filhos de Jerobaal, dominem sobre vós, ou que um só homem domine? E lembrai-vos de que eu sou osso vosso e carne vossa".

Três contextos diferentes, três expressões basicamente iguais, como se fossem uma fórmula pré-estabelecida que servisse para lembrar, ou mesmo para reforçar, linhas de parentesco entre os diferentes membros da família. Labão é tio de Jacó (29,10-12) e, no entanto, ele vê o seu sobrinho como sendo parte integrante dos seus ossos e da sua carne. O que leva Labão a pensar que Jacó seja formado do seu próprio corpo? A mesma situação é apresentada por Abimelec em relação aos irmãos da sua mãe, portanto, seus tios. O que leva Abimelec a pensar que ele é osso e carne dos seus tios e do seu próprio clã? Que esta posição seja assumida por Judá em relação a José é bastante compreensível, em termos do que se compreende atualmente por família, já que se trata de irmãos, filhos de um mesmo pai. Não ficam claras, entretanto, a julgar por valores modernos, as posições de Labão e de Abimelec. Deve-se ter em mente que estamos diante de uma cultura bem diferente da nossa, que apresenta uma concepção de família muito mais ampliada do que aquela que costumamos ter nos dias atuais.

 

2. O FUNDO DE CENA ANTIGO

A dificuldade em perceber esta diferença cultural se deve, em grande parte, ao nosso patente desconhecimento das sociedades antigas, em particular, da romana, cujo domínio hegemônico sobre vastas áreas territoriais foi significativo, inclusive sobre a região da Palestina. Observemos algumas delas.

 

Admite-se, de imediato, mas de maneira equivocada, que a dominação romana nas áreas mediterrâneas teria proporcionado um padrão cultural único entre as suas diferentes partes integrantes, incluindo aí a própria Palestina. Deve ser observado que o Império Romano não visava a atingir tal objetivo, mesmo porque não teria sido uma tarefa fácil de ser alcançada. Uma rápida observação num mapa que englobe o vasto território dominado pelos romanos, mostrará que esta era uma tarefa impossível de ser realizada. Entre as áreas submetidas ao seu controle estavam, por exemplo, o Egito, a Grécia, a península Ibérica e as Gálias. A própria construção do Império, ainda nos seus promórdios, portanto, na Itália, demonstra que Roma procura garantir as diferenças, em termos dos acordos e tratados assinados entre ela e os diferentes povos ali situados, entre os quais podem ser citados: gregos, etruscos, samnitas. As alianças estabelecidas entre Roma e a pluralidade de povos subordinados à sua autoridade, produziram diferentes níveis nas esferas da política e das relações econômicas e sociais que envolveram a capital do Império e os seus integrantes. Se o Império romano conseguiu organizar uma certa unidade nas instâncias administrativa e militar, ele produziu também uma gama extremamente rica e variável de possibilidades ao nível político, econômico e social, incluindo aí o religioso, responsáveis pela integração e manutenção do próprio Império (Beard, M. and Crawford, M., Rome in the Late Republic. London: Duckworth. 1985).

 

A base cultural sobre a qual estavam assentados os alicerces do Império Romano era muito diferente daquela da Palestina. O mundo greco-romano era, por essência, pagão. A sua sociedade estava organizada no modelo clássico de cidadania e, apesar da terra ser a principal fonte de riqueza, o espaço urbano era reconhecido como o lugar privilegiado para a ação do cidadão. As duas principais línguas faladas no Império eram o grego e o latim. Na sua parte oriental, e a mais rica, predominava basicamente o grego, enquanto que, na ocidental, era o latim a língua por excelência. Deve ser observado, contudo, que as elites romanas conheciam, em sua grande maioria, o grego. Este era um dos requisitos indispensáveis para o membro da elite romana ser reconhecido, pelos seus próprios pares, como um homem culto e civilizado. Partindo destes pressupostos, torna-se extremamente difícil entender no contexto da cultura clássica algumas situações apresentadas no Antigo Testamento. Observemos alguns exemplos.

 

3. VOLTANDO AO ANTIGO TESTAMENTO

No segundo livro dos Reis encontram-se dois episódios integrados no mesmo contexto narrativo. Eles fazem parte da história de Jeú. No primeiro deles (2 Reis 10, 6-7) ocorre a seguinte passagem:

 

"Jeú escreveu-lhes uma segunda carta, em que dizia: 'Se estais do meu lado e quereis ouvir-me, tomai as cabeças dos homens da família de vosso senhor e vinde ter comigo amanhã a esta hora em Jezrael'. (...) Logo que a carta lhes chegou às mãos, pegaram os filhos do rei, degolaram todos os setenta e, pondo suas cabeças em cestos, enviaram-nas para Jezrael".

O segundo episódio (2 Reis 10,12-14) situa-se quase que em seguida ao anterior:

"Jeú partiu para Samaria. Estando a caminho, em Bet-Eced-dos-Pastores, encontrou os irmãos de Ocozias, rei de Judá, e perguntou: 'Quem sois?' Eles responderam: 'Somos irmãos de Ocozias e descemos para saudar os filhos do rei e os filhos da rainha-mãe'. Ordenou Jeú: 'Prendei-os vivos!' Foram apanhados vivos e degolados na cisterna de Bet-Eced. Eram quarenta e dois e nenhum foi poupado".

 

O terceiro exemplo é extraído do primeiro livro das Crônicas (1Cr 15,3-10). Ele diz respeito aos preparativos para a trasladação da Arca:

 

"Então Davi reuniu todo Israel em Jerusalém para fazer subir a Arca de Iahweh ao lugar que havia preparado. Congregou os filhos de Aarão e os filhos de Levi: dos filhos de Caat, Uriel, o oficial, e seus cento e vinte irmãos: dos filhos de Merari, Asaías, o oficial, e seus duzentos e vinte irmãos; dos filhos de Gersan, Joel, o oficial, e seus cento e trinta irmãos; dos filhos de Elisafã, Semeias, o oficial, e seus duzentos irmãos; dos filhos de Hebron. Biel, o oficial, e seus oitenta irmãos; dos filhos de Oziel. Aminadad, o oficial, e seus cento e doze irmãos".

 

É difícil encontrar um exemplo, advindo dos textos clássicos greco-romanos, de uma casa que possuísse uma família tão numerosa quanto aquelas propostas nas três passagens citadas acima. Concretamente, o único exemplo que pode ser citado, especificamente no caso grego, é aquele referente aos cinqüenta filhos de Egito e as cinqüenta filhas do seu irmão Danau, conhecidas como as Danaides. Não há dúvidas de que se trata de um caso extremamente raro e mesmo assim não chega nem perto dos números de irmãos propostos no livro das Crônicas. Ainda com relação ao caso do exemplo grego, deve ser observado que ele está inserido na narrativa dos mitos daquela sociedade. Apenas sob esta perspectiva é que o grego poderia admitir um número tão grande de irmãos e / ou irmãs numa mesma família. Os três exemplos advindos da Bíblia, no entanto, não são analisados como narrativas míticas, mas, literalmente, como acontecimentos reais que tiveram lugar no mundo dos homens. Não deixa de ser inquietante o fato de histórias traduzidas para o grego serem incompreensíveis ou, peio menos, inaceitáveis para a maior parte dos leitores desta língua, principalmente porque lhes falta qualquer tipo de paralelo entre as narrativas que estão sendo propostas e as suas realidades passadas ou presentes. Uma forma de superar a inquietação levantada acima é tentar responder às seguintes questões: quem traduziu o Antigo Testamento para o grego? Quem era o público alvo desta tradução?

As duas questões devem ter como ponto de partida a própria inserção dos judeus no ambiente cultural grego. Apesar de se detectarem contatos anteriores entre judeus e gregos, as relações entre estas duas culturas só serão plenamente desenvolvidas a partir das conquistas de Alexandre. Para sermos mais precisos, somente com a dominação da Palestina pelos Ptolomeus é que haverá uma necessidade, por parte dos gregos, de se conhecerem os judeus. Ao longo dos dois séculos seguintes, em contrapartida, percebe-se a presença de comunidades judias na região de Cirene, no Egito, na Grécia, particularmente em Sícion, Esparta, Délos, Cós e Rodes e em Roma. Da capital do Império eles são expulsos no ano de 139 a.C. por propaganda religiosa ofensiva. Nas margens do ambiente cultural grego, percebe-se também a presença de comunidades judaicas, especialmente na Babilônia. Este quadro ajuda a visualizar a inserção dos judeus em ambientes culturais diferentes, tanto sob o ponto de vista dos diversos níveis de gradação que os fizeram aproximar e / ou distanciar do centro de profusão da cultura grega, quanto sob a influência que o uso de diferentes línguas e costumes pode ter no interior das suas comunidades. Tudo isto sugere uma grande dificuldade de se construir uma unidade no judaísmo, principalmente, a partir das conquistas de Alexandre.

 

O processo que envolveu a tradução da Bíblia para o grego foi longo. Esta iniciativa coube, basicamente, aos judeus localizados no Egito, eles mesmos mais propensos à influência da helenização do que os judeus da Palestina. Este processo teve o seu inicio no final do terceiro século, estando a tarefa concluída em meados do primeiro século a.C. Ele se destinava quase que exclusivamente às comunidades judaicas disseminadas no interior do mundo grego, tendo em vista a inexistência de qualquer dado helenístico que mostre que um não-judeu se tenha tornado judeu ou simpatizante porque lera a Bíblia. Mesmo a primeira citação da Bíblia por um filósofo grego só aconteceu no primeiro século da era cristã.([1])

Na tradução dos textos sagrados do hebraico para o grego houve uma preocupação em ser o mais fiel possível, em manter as estruturas culturais que os judeus conheciam e praticavam, não só pela tradição escrita, mas, também, pela tradição oral. Os tradutores judeus egípcios ao aplicarem a palavra irmão ou irmã para outros membros da família, mesmo que o próprio contexto do texto revelasse outras relações de parentesco, como, por exemplo, primos, primas, sobrinhos ou mesmo parentes distantes, estavam simplesmente mantendo uma situação plenamente aceita pelas diferentes comunidades judaicas dentro e fora do mundo helênico. Não deixa de ser significativo o fato do vocabulário grego conhecer palavras que designassem primo (anepsiós) e parente (syggenés) e, ao mesmo tempo, elas não terem sido empregadas. O fato delas não terem sido aplicadas nos referidos textos vem somente reforçar o argumento que está sendo enfatizado.

 

Retornemos ao Antigo Testamento e analisemos algumas situações onde é flagrante a aplicação deste modelo de família entre os judeus.

No primeiro livro das Crônicas (1Cr 23, 21-22) encontra-se a seguinte passagem:

 

"Filhos de Merari: Mooli e Musi. Filhos de Mooli: Eleazar e Cis. Eleazar morreu sem deixar filhos, mas teve filhas que foram desposadas pelos filhos de Cis, seus irmãos."

 

No segundo livro das Crônicas (2Cr 36,9-10) observa-se a seguinte colocação:

 

"Joaquim tinha dezoito anos quando começou a reinar e reinou três meses e dez dias em Jerusalém; fez o mal aos olhos de lahweh. No fim do ano, o rei Nabucodonosor mandou prendê-lo e conduzi-lo a Babilônia junto com os objetos preciosos do Templo de lahweh, e constituiu Sedecias, seu irmão, como rei sobre Judá e Jerusalém."

 

No Cântico dos Cânticos (Ct 4,9-10) depreendem-se os seguintes versos:

 

"Roubaste meu coração, minha irmã, noiva minha, roubaste meu coração com um só dos teus olhares, uma volta dos colares. Que belos são teus amores, minha irmã, noiva minha; teus amores são melhores do que o vinho, mais fino que os outros aromas é o odor dos teus perfumes."

Há uma perfeita coerência, nos três exemplos acima citados, da concepção que os judeus faziam da família, mesmo que nesta concepção haja situações difíceis para o grego entender. No primeiro exemplo fica muito claro que os filhos de Cis não poderiam ser considerados irmãos das filhas de Eleazar, mas sim primos. O segundo exemplo coloca Sedecias como irmão de Joaquim, quando na verdade, no livro dos Reis (2Rs 24,17), este último é apresentado como sobrinho de Sedecias. No terceiro exemplo, a noiva torna-se irmã do noivo, sem que para isso os tradutores judeus egípcios tenham que dar qualquer tipo de explicação para os seus leitores. Todos os judeus compreendiam muito bem o porquê de a noiva ser tratada como irmã do noivo nos versos do livro dos Cânticos. Mesmo tendo a sua disposição uma língua muito mais rica em termos de vocabulário que o hebraico e o aramaico, os judeus do Egito mantiveram na tradução grega da Bíblia a mesma simplicidade na classificação das relações de parentesco verificada nos textos em hebraico, uma simplicidade estranha aos olhos dos gregos, porém perfeitamente compreensível para todas as comunidades judaicas disseminadas na cultura helênica.

 

4. PASSEMOS AO NOVO TESTAMENTO

Analisemos, agora, aquelas passagens no Novo Testamento onde aparecem empregadas as palavras irmão (adelphós) e irmã (adelphé) de Jesus. Devem ser observadas, porém, algumas questões prévias. Para o cristão, de imediato, o Novo Testamento é a realização plena das promessas de Deus ao povo hebreu. Elas foram concretizadas em Jesus Cristo, o Filho de Deus vivo. Como este pressuposto é válido para os cristãos do mundo inteiro, o Novo Testamento deve ser inserido numa linha de continuidade com todas as tradições e crenças do povo judeu, contidas não apenas nos livros do Antigo Testamento, mas, também, no próprio cotidiano das comunidades judaicas. Uma outra importante questão refere-se ao local onde ocorreram as pregações e peregrinações de Jesus Cristo. Tanto aquele quanto estas estão situadas na Palestina, que continua a ser o centro do judaísmo. É nesta região que o Senhor escolhe os seus discípulos e é para os judeus que ele dirige as suas pregações. Não deve ser perdido de vista, portanto, que o Novo Testamento está plenamente envolvido no âmbito do judaísmo, refletindo comportamentos culturais que, como vimos anteriormente, são muito particulares.

a) Há basicamente oito passagens que mencionam os irmãos e irmãs de Jesus. Duas delas estão contidas no Evangelho de São Mateus (12, 46; 13,55). Observemos respectivamente cada uma das passagens:

"Estando ainda a falar às multidões, sua mãe e seus irmãos estavam fora. procurando falar-lhe. Jesus respondeu àquele que o avisou: 'Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?' E, apontando para os discípulos com a mão, disse: 'Aqui estão a minha mãe e os meus irmãos, porque aquele que fizer a vontade do Pai que está nos Céus, esse é meu irmão, irmã e mãe'".

 

"De onde lhe vêm essa sabedoria e esses milagres? Não é ele o filho do carpinteiro? Não se chama a mãe dele Maria e os seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? E suas irmãs não vivem todas entre nós?"

Não deixa de ser curiosa, nas duas passagens, uma nítida preocupação do Evangelista em estabelecer uma dissociação entre os pais e os irmãos de Jesus. Na primeira passagem, a mãe do Senhor aparece dissociada dos irmãos de forma muito clara, o que é revelado, inclusive, pelo emprego da conjunção grega kaí por parte de São Mateus. Na segunda passagem esta característica torna-se ainda mais evidente, já que existe o cuidado do Evangelista em fazer de José e Maria os pais exclusivos de Jesus. Os irmãos e irmãs mencionados estão diretamente relacionados com Jesus e não, como deveria ser esperado, como filhos e filhas dos pais do Senhor.

b) Duas outras passagens fazem parte do Evangelho de São Marcos (3,31-32; 6,3). Elas aparecem no mesmo contexto apresentado em São Mateus. Observamos cada uma delas respectivamente.

 

"Chegaram então sua mãe e seus irmãos e, ficando do lado de fora, mandaram chamá-lo. Havia uma multidão sentada em torno dele. Disseram-lhe: 'Eis que tua mãe, teus irmãos e tuas irmãs estão lá fora e te procuram' (...)".

 

"Não é este o carpinteiro, o filho de Maria, irmão de Tiago, José, Judas e Simão? E suas irmãs não estão aqui entre nós?"

Observa-se o mesmo comportamento estilístico de Mateus em Marcos! Mas será simplesmente um problema de estilo? Marcos procura separar claramente, nas duas passagens, a mãe de Jesus dos irmãos do Senhor. Não deixa de ser curiosa, na segunda citação, a preocupação do Evangelista em frisar que Jesus havia aprendido a profissão do seu pai. Poderia ser levantado, inclusive, a partir do argumento do silêncio, que Jesus teria exercido a profissão do seu pai. Esta questão, entretanto, não vem ao caso, neste momento. O que pode ser observado nesta passagem, no entanto, é a sutileza de São Marcos ao situar José como sendo o pai de Jesus, sem o relacionar com os demais irmãos do Senhor.

 

c) A quinta referência, na análise deste objeto, está presente no Evangelho de São João (7,3-5). Ela esta situada num contexto diferente daqueles mencionados anteriormente. Vejamos a passagem:

 

"Disseram-lhe, então, os seus irmãos: Parte daqui e vai para a Judéia, para que teus discípulos vejam as obras que fazes, pois ninguém age às ocultas, quando quer ser publicamente conhecido. Já que fazes tais coisas, manifesta-te ao mundo!' Pois nem mesmo os seus irmãos criam nele".

O sentido da palavra 'irmão' nesta passagem é extremamente vago. O contexto parece sugerir que se trata muito mais de parentes do que, propriamente, de irmãos carnais, isto é, filhos dos mesmos pais.

 

d) Nos Atos dos Apóstolos (1,13-14) está localizada mais uma referência aos irmãos de Jesus.

"Tendo entrado na cidade, subiram à sala anterior, onde costumavam ficar. Eram Pedro e João, Tiago e André, Filipe e Tomé, Bartolomeu e Mateus, Tiago, filho de Alfeu, e Simão, o zelota; e Judas, o filho de Tiago. Todos estes, unânimes, perseveravam na oração com algumas mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus, e com os irmãos dele".

A última linha desta passagem se torna extremamente intrigante. Com efeito, é difícil de entender o porquê de Lucas, o autor dos Atos, não ter sido mais objetivo na vinculação de Maria como mãe dos irmãos de Jesus. Bastaria, para tanto, ser direto na sua narrativa. Por que o autor não optou por escrever 'entre as quais Maria, a mãe de Jesus, e seus filhos?'. Qual a razão da sua opção pouco objetiva em tornar claro o grau de parentesco existente entre Maria e os irmãos de Jesus? Por que sempre o mesmo comportamento estilístico, que procura dissociar o pai e a mãe de Jesus dos irmãos de Jesus?

e) As duas últimas passagens que mencionam os irmãos de Jesus estão localizadas nas Epístolas de São Paulo. A primeira delas está contida na primeira carta aos Coríntios (9,4-5):

 

"Não temos o direito de comer e beber? Não temos o direito de levar conosco uma mulher irmã (adelphèn gynaíka), como os outros apóstolos e os irmãos do Senhor e Cefas (Pedro)?"

 

A segunda passagem encontra-se na Epístola aos Gálatas:

"Em seguida, após três anos, subi a Jerusalém para avistar-me com Cefas (Pedro) e fiquei com ele quinze dias. Não vi nenhum apóstolo, mas somente Tiago, o irmão do Senhor".

As duas passagens citadas estão localizadas em contextos que parecem associar com a idéia de parentes. Não há nada de concreto que permita afirmar que os irmãos de Jesus sejam filhos dos pais de Jesus ou de pelo menos um deles. Não deve causar estranheza o fato de Paulo, mesmo escrevendo para comunidades gregas, utilizar a palavra irmão num sentido extremamente amplo. Sobre esta questão, dois pontos devem ser observados. De imediato, os gregos e os romanos possuíam uma idéia de família muito mais ampla do que aquela formulada hoje em dia. Moses Finley, um dos maiores historiadores da antigüidade clássica deste século, chamava a atenção para este ponto, quando escreveu:

 

"(...) Nem em grego nem em latim existe qualquer palavra que exprima o sentido vulgar moderno de família, como quando dizemos, por exemplo, vou passar o Natal com a minha família. O vocábulo latino família tinha um vasto leque de significados: todas as pessoas livres ou não, sob a autoridade do paterfamilias, o chefe da casa; ou todos os descendentes de um antepassado comum; ou todos os bens de uma pessoa; ou simplesmente todos os seus criados (assim a família Caesaris compreendia todos os escravos pessoais e libertos ao serviço do imperador mas não incluía nem a mulher nem os seus filhos). Tal como no sentido grego de oikós, há uma forte tônica no sentido de propriedade" (Finley, M.I., A Economia Antiga. Porto: Afrontamento, 2a. ed., 1986, pp. 20-1).

 

Esta longa citação deixa transparecer que os leitores das epístolas do apóstolo Paulo tinham um conhecimento muito mais amplo acerca de família do que o nosso. Este pressuposto dispensava os primeiros autores cristãos de explicações suplementares, tais como estas que estão sendo dadas agora. A outra observação refere-se ao emprego de palavras muito pouco comuns na Bíblia. Mesmo quando se dirigia aos gregos, Paulo não usava palavras específicas que ajudassem a caracterizar melhor o grau de parentesco entre os indivíduos de uma mesma família. Um dos raríssimos casos onde esta regra não pôde ser aplicada, encontra-se na Epístola aos Colossenses: Nas suas saudações finais (4,10), Paulo lança mão da palavra anepsiós, primo, referindo-se a Marcos, primo de Barnabé. Para nós, infelizmente, estas situações são extremamente raras. Elas sugerem, no entanto, muito cuidado da nossa parte, no momento de analisarmos a Bíblia, para evitarmos cometer anacronismos históricos.

 

Antes de concluirmos estas rápidas reflexões, gostaríamos de retornar ao Evangelho de São João. Há um episódio (19, 25-27) muito interessante envolvendo a mãe de Jesus. Observemos a referida passagem:

 

"Estavam junto à cruz de Jesus sua mãe e a irmã de sua mãe, Maria de Clopas, e Maria Madalena. Jesus, pois, vendo a mãe, e junto dela o discípulo a quem amava, disse a sua mãe: 'Mulher, eis aí teu filho'. Depois disse ao discípulo: 'Eis aí a tua mãe'. E desde aquela hora, o discípulo tomou-a em sua companhia (élaben o mathetés autén eis tà ídia)".

 

Trata-se de uma passagem com elevado grau de complexidade. Como entender a atitude do Senhor em atribuir ao seu discípulo João a responsabilidade de cuidar da sua mãe? Não deveria esta atribuição ficar ao encargo do 'filho' mais velho de Maria e não de João, que, apesar de ser um discípulo, não era parente de Jesus? Neste caso, uma pergunta surge quase que de forma espontânea: onde estavam os irmãos de Jesus? Como nas Ciências Humanas não se deve trabalhar com o argumento do silêncio, sugiro uma explicação tão óbvia quanto aquela decisão do Senhor em passar a responsabilidade dos cuidados da sua mãe para João: Jesus não tinha irmãos, porque, se os tivesse, não teria tomado tal atitude. Dos parentes do Senhor estavam presentes Maria e a sua irmã. Nenhum outro membro da sua família é mencionado nos demais evangelistas (Mt. 27,55-56; Mc. 15,40-41; Lc. 23,49). Pregado na cruz e antevendo a morte se aproximar, a decisão de Jesus é perfeitamente lógica e coerente. Já tivemos oportunidade de observar em Mateus (12,46) a posição de Jesus diante de quem seria a sua família. A posição que Ele assumiu naquele momento, se manteve firme até o fim. Questionando-se acerca da família, disse Jesus, apontando para os seus discípulos: "(...) Aqui estão a minha mãe e os meus irmãos (...)". Nada mais coerente, portanto, do que a sua decisão de entregar a sua mãe para o discípulo que Ele amava.

André Leonardo Chevitarese R. Ministro de Godoy, 1454/24 05015-001. Perdizes. São Paulo - São Paulo

 

 

A propósito ver

Estêvão Bettencourt O.S.B., DIÁLOGO ECUMÊNICO, 3â edição, Ed. Lumen Christi, Rio de Janeiro 1989, pp. 207-217.

 

PR 358/1992, pp. 119-123;

PR 370/1993, pp. 124s;

PR 376/1993, pp. 414s;

PR 398/1995, pp. 305s;



[1] Sobre as questões contidas neste parágrafo e no anterior, ver: Momigliano. A., A Descoberta Helenística do Judaísmo e Gregos, Judeus e Romanos de Antíoco III a Pompeu, in: Os Limites da Helenização. Rio de Janeiro: Zahar, 1991, pp. 71-88, 89-109; ver também Momigliano, A., La Religion en Atenas, Roma y Jerusalén, in: De Paganos, Judíos y Cristianos. México: Fondo de Cultura Económica, 1992, pp. 127-56.


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Sto. Inácio de Antioquia (35-110)

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