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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 020 – agosto 1959

 

Com quem se casou Caim?

N. T. (Distrito Federal) :

Com quem se casou Caim, depois de matar Abel e fugir, se, simultaneamente com o fratricida, só viviam sobre a terra Adão e Eva (cf. Gên 4,16s)? Pelo mesmo motivo pergunta-se: como se justifica temesse Caim que alguém o matasse no seu degredo (cf. Gên 4,14)? Não se deveriam então admitir vários casais na origem do gênero humano ?

 

Tratemos separadamente do matrimônio de Caim e do seu temor de assassínio.

 

1. Com quem se casou Caim?

 

1. A S. Escritura refere que, após cometer o homicídio, Caim foi condenado por Deus a vaguear ou errar; retirou-se então para a terra de Nod, ao oriente do Éden, onde havia até então habitado. — Nod é nome derivado do verbo hebraico nadad, vaguear, errar. A região de Nod, por conseguinte, vem a ser, por excelência, o setor «dos que vagueiam ou erram». Qual seria essa terra ? Estaria perto ou longe do Éden ? Nada se poderia dizer a respeito. Bons autores, atendendo ao caráter estranho do nome, julgam que Nod no texto designa apenas a sorte futura de Caim. não, porém, algum local geográfico.


S. Jerônimo, na Vulgata latina, traduziu Nod por profugus, fugitivo, o que talvez tenha sugerido a ideia de que Caim se retirou para lugar muito remoto: «Partindo Caim da presença do Senhor, foi habitar, fugitivo, na terra do lado oriental do Éden» (Gên 4,16, segundo a Vulgata).


2. Após narrar a migração de Caim, o texto sagrado refere:


«Caim conheceu (isto é, teve relações com) a sua esposa, a qual concebeu e gerou Henoque» (Gên 4,17).

Em conseqüência, poder-se-ia dizer que Caim tomou esposa no seu novo domicílio, unindo-se então a filha de outra linhagem que não a sua mesma ou (como querem alguns) unindo-se à sua própria mãe Eva, que com ele teria fugido!


— A conclusão, porém, basear-se-ia no absoluto desconhecimento do conteúdo e do estilo do texto bíblico.

Com efeito. Demonstremo-lo por passos.

 

a) A Escritura mesma refere que Adão e Eva tiveram numerosos filhos e filhas:

«Adão viveu cento e trinta anos, e gerou um filho à sua semelhança. .. e chamou o seu nome Sete.

E foram os dias de Adão depois que gerou a Sete, oitocentos anos; e gerou FILHOS E FILHAS.

E foram todos os dias que Adão viveu, novecentos e trinta anos; e morreu» (Gên 5,3-5).


De passagem, seja licito lembrar que as centenas de anos de vida atribuídas a Adão (assim como aos antigos Patriarcas bíblicos) não têm significado cronológico, mas são apenas eloqüentes símbolos da venerabilidade e da autoridade que os judeus atribuíam a tais varões ; cf. «P. R.»
17/1959, qu. 5.


Como se vê, o autor sagrado no texto acima não se preocupa com a ordem cronológica em que nasceram os filhos de Adão e Eva: menciona em primeiro lugar Sete, o qual certamente não foi o primogênito, pois foi dado aos primeiros pais para suprir a ausência de Abel assassinado (cf. Gên 4,25). Não se poderia, por conseguinte, dizer que Caim e Abel cresceram sem ter irmãs ao seu lado, de sorte que, quando Caim estava em idade de se casar, não pudesse esposar uma dessas irmãs.

 

b) O fato de que a Escritura só menciona as relações de Caim com sua esposa após a retirada para a terra de Nod (cf. Gên 4,16s), e — mais ainda — só menciona as numerosas filhas de Adão e Eva (irmãs de Caim) após aludir às relações de Caim com sua esposa (cf. Gên 5,4), não significa que Caim só se tenha casado após o seu degredo. Em outros termos: a sucessão de versículos não implica sucessão cronológica dos acontecimentos relatados. Quem possui um pouco de iniciação bíblica sabe que os primeiros capítulos do Gênesis referem apenas alguns traços marcantes da história primitiva do gênero humano (considerada do ponto de vista religioso), sem levar em conta a estrita sucessão cronológica dos acontecimentos; o redator sagrado desses capítulos por vezes apresenta simplesmente justapostos alguns blocos ou documentos literários existentes na tradição de Israel, sem cuidar das datas dos episódios consignados:

- assim é evidente que o grupo de versos Gên 4,17-24 corresponde a um documento redigido independentemente do contexto (é a tabela da linhagem dos «cainitas»), documento que foi aglutinado ao bloco 4,1-16 (o qual narra o crime de Caim), sem, porém, que esta justaposição signifique alguma relação de passado, presente ou futuro entre as duas peças justapostas;

- por seu lado, o bloco Gên 5,1-32 é também um documento completo em si mesmo (apresenta a linhagem dos descendentes de Adão): ao falar do primeiro varão, recapitula alguns traços salientes da vida deste, dizendo então que gerou muitos filhos e filhas, sem que, porém, o autor desse documento pensasse em relacionar tal traço com os episódios que se encontram relatados no cap. 4 do Gênesis.


Para quem leva em conta estas regras de redação do texto bíblico, já se esvanece a dificuldade apontada no enunciado da nossa questão. Concluir-se-á, pois, o seguinte: o texto sagrado, mencionando um só casal na origem do gênero humano, dá a entender que Caim se casou com uma de suas irmãs antes de se retirar para a terra de Nod; não se poderia dizer com que idade fugiu nem quando começou a gerar sua posteridade (antes ou depois do crime?); as pinceladas historiográficas do autor sagrado não são suficientes para que possamos descer a tais pormenores; guarde, portanto, o leitor sobriedade na interpretação do texto, conservando-se sempre dentro das linhas mestras sugeridas pela narrativa.

 

3. Replicar-se-á talvez que o casamento entre irmãos é explicitamente proibido pela Lei de Deus no livro do Levítico (20,17) e que, por conseguinte, a explicação acima dada implica contradição da parte de Deus.


— Não há em absoluto contradição. Para o perceber, notemos o seguinte: o Levítico (20,17) formula uma proibição ditada pela própria lei natural; o casamento entre irmãos é, sim, certamente vedado por esta. Há, porém, determinações da lei natural que valem sempre e em toda parte; são as chamadas «determinações primárias» (como exemplos, citamos os preceitos de não cultuar deuses falsos, não blasfemar, etc.). Há outras determinações da lei natural, ditas «secundárias», que só valem em certas circunstâncias da história; entre estas determinações, está a de não se casarem irmãos entre si. Com efeito, o casamento entre irmãos é hediondo à natureza humana por dois motivos:

1- acarreta o acúmulo de doenças hereditárias no mesmo indivíduo, concorrendo para debilitar a espécie humana ;

2- impede ou dificulta o consórcio das famílias entre si, consórcio necessário para o desenvolvimento da sociedade.


Eis, porém, que na primeira fase do gênero humano ou na época de Caim nenhum dos dois motivos existia para se proibir o casamento entre irmãos: a primeira geração (à qual pertenciam Caim e sua irmã) não podia acumular doenças hereditárias de muitos antepassados; nem havia ocasião de se consorciarem diversas famílias entre si, visto que só existia uma família. Donde se vê que a proibição de casamento entre irmãos nos tempos de Caim simplesmente não estava em vigor. — Mais tarde, no séc. XIII antes de Cristo, quando já era numerosa a população do globo, o matrimônio de irmãos com irmãs já acarretava os dois mencionados inconvenientes. Por isto Moisés, em nome do Senhor, formulou explicitamente a proibição contida no Levítico (20,17). Tal determinação secundária da lei natural já tinha cabimento. Donde se vê que o Senhor Deus não caiu, como se diz, em contradição, permitindo o casamento de Caim com sua irmã na primeira fase da história. Quando variam as circunstâncias em que vive o homem, está claro que podem e devem variar as condições (direitos e deveres) necessárias para que a natureza humana viva consentaneamente à sua dignidade.

 

2. O temor de assassínio

 

Ao fugir, Caim receava que sobre ele recaísse a pena de morte, que ele mesmo havia infligido a seu irmão.

E quem o poderia matar?

 

Alguns autores têm pensado em animais selvagens. A hipótese é pouco condizente com o texto sagrado, o qual pressupõe que os adversários- de Caim fossem capazes de entender o sinal preservativo concedido por Deus ao fratricida (cf. Gên 4,15). — É muito mais óbvio concluir que se tratava de outros filhos ou descendentes de Adão, que já existiam quando Caim fugiu e tendiam então a se multiplicar e expandir nas regiões vizinhas.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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