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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 019 – julho 1959

 

Esoterismo, Ocultismo, Médiuns

L. H. A. (São Paulo): “Que se entende por 'Esoterismo'?”

EL CRACK» (Poloni): “Que dizer das fotografias do pensamento apregoadas por Baraduc e outros médiuns do século passado?

 

“Esoterismo” é a denominação dada ao sistema que reserva suas doutrinas e práticas «aos de dentro» (esóteroi, em grego), ou seja, a iniciados ou adeptos rigorosamente selecionados. Distingue-se do «Exoterismo», sistema que comunica suas proposições «aos de fora» (exóteroi) ou ao grande público. Consequentemente o esoterismo também é chamado ocultismo, termo proposto e defendido por Papus (+1922). Na verdade, o esoterismo ou ocultismo abrange hoje em dia diversas modalidades ou escolas (a Cabala, a Gnose, a Astrologia, a Teosofia, a Rosa-Cruz, correntes espíritas e maçônicas...), as quais professam um fundo comum de doutrinas secretas; essas doutrinas, conforme os esotéricos, se devem a «revelações sobrenaturais» e destinam-se (à semelhança da dinamite) a produzir efeitos maravilhosos, dando ao homem o poder sobre si mesmo, sobre a natureza e sobre os acontecimentos futuros. Ora, justamente porque o vulgo seria capaz de fazer mau uso de tão valiosos conhecimentos, os esotéricos dizem só os manifestar a pessoas rigorosamente provadas, recorrendo, além do mais, a fórmulas simbólicas e obscuras.


Mais precisamente, os esotéricos alegam que as ciências propriamente ditas estudam os fenômenos visíveis e experimentais, enquanto eles pretendem analisar o conjunto de energias invisíveis da natureza, de Deus e do homem, adquirindo um conhecimento muito mais profundo de tudo que nos cerca. Consequentemente os ocultistas julgam possuir em plenitude a verdade que as ciências, e também as religiões, só esfaceladamente atingem.


Abaixo trataremos sucessivamente do histórico, das principais doutrinas e, por fim, do significado do esoterismo.

 

1. O histórico do esoterismo

 

Pode-se dizer que o esoterismo, como tendência do homem a cultivar doutrinas e práticas secretas, sempre existiu. As civilizações mais antigas (da Índia, da Mesopotâmia, do Egito...) apresentam seus documentos de caráter ocultista. No decorrer dos séculos, crenças e ritos desse gênero se foram avolumando em consequência de combinações com teses da filosofia grega assim como da literatura judaica e cristã (ou seja, com a Bíblia Sagrada).


Durante a Idade Média, o ocultismo tomou aspecto bem marcante na chamada Cabala (cf. «P. R.» 10/1958, qu. 12); contudo no ambiente da Europa cristã era geralmente repudiado por parecer maquinação do demônio. Do séc. XV em diante, ou seja, com o surto do «Humanismo», o esoterismo tomou nova importância; a tendência dos renascentistas a cultivar os valores antigos fez que mais e mais apreciassem as proposições secretas do ocultismo, tidas como ensinamentos de veneráveis civilizações orientais. Desde fins da Idade Média apareceram no cenário dos eruditos alguns vultos que procuravam combinar entre si ciência e religião (ou mística) a fim de dar a explicação mais cabal possível aos mistérios do mundo; tais eram, por exemplo, Cornélio Agripa (1486-1536), autor da «Filosofia oculta», o qual reatou a tradição de Pitágoras e Platão, instruídos pelos «adivinhos de Mênfis»; Paracelso (1493-1541), que, junto com a fama de «saber tudo», obteve a glória de haver descoberto o «segredo da vida» (por isto o seu nome originário Filipe Teofrastes Bombart foi mudado para Auréolo Paracelso, o divino personagem); o sapateiro Jacob Boehme (1575-1625), o marquês Cláudio de S. Martinho (1743-1803), o conde de S. Germano, José Balsamo, também chamado Cagliostro, no séc. XVIII; particularmente famoso tornou-se Fabre d'Oiivet (1767-1825), que na sua obra «La langue hébraique restituée» pretendeu reconstituir as origens da linguagem, reconstruir o edifício do idioma hebraico primitivo e, mediante códices encontrados nos santuários do Egito, penetrar o sentido profundo da cosmogonia de Moisés (Gênesis c. 1).


Finalmente é tido como pai do ocultismo contemporâneo um certo Elifaz Levi, cujo nome verdadeiro era Alphonse-Louis Constant (1810-1875), sacerdote apóstata (algumas fotografias o apresentam sobre o leito de morte, trazendo um grande crucifixo sobre o peito). Merecem ainda especial menção Estanislau de Guaita (1860-1899), historiador do esoterismo, e Gérard Encausse (+1922), dito «Papus», que procurou exprimir os ensinamentos do ocultismo em linguagem científica moderna.


Atualmente no Brasil o ocultismo existe em múltiplas entidades «científico-religiosas» de caráter secreto ou semi-secreto (instituições espíritas, rosa-crucianas, teosóficas, maçônicas, astrológicas caba- listas, etc.).

Após estas ligeiras observações de história, faz-se mister considerarmos

 

2. Os principais ensinamentos do ocultismo

 

O ocultismo, sob as variadas tonalidades que tomou no decorrer da sua história, apresenta estrutura doutrinária bem característica, a qual pretende fornecer a chave de todos os problemas. No esoterismo, dir-nos-iam os seus adeptos, unem-se as teses e antíteses de todos os sistemas filosóficos e religiosos, dando uma síntese tecnicamente chamada «mátese». Podemos agrupar sob três grandes títulos as principais proposições ocultistas.


1. Monismo ou unidade fundamental: «O que existe, existe na unidade considerada como princípio, e volta à unidade considerada como fim. Um está em um, isto é, tudo está
em tudo». Estas afirmações de Elifaz Levi significam que todos os seres visíveis e invisíveis constituem uma única realidade, que se esmiúça e fragmenta no mundo, tomando múltiplos aspectos parciais.


Disto decorre imediatamente que não existe um Deus distinto do mundo. O Deus de que fala o esoterismo, é o eterno «Vir a ser», substância da qual tudo procede por emanação e à qual tudo volta: tal substância toma no Ocidente moderno o nome de Luz, correspondendo ao Akasa dos hindus, ao Aor dos hebreus, ao Fluido que fala de Zoroastro, ao Telesma de Hermes, ao Azoth dos alquimistas, à Força psíquica de Crookes...


Ulterior consequência do monismo é que a matéria sensível, revestindo diversas aparências, pode ser convertida de uma modalidade para outra. Daí, entre os ocultistas, o cultivo da Alquimia ou da arte que tenta transformar os diversos metais em ouro, metal perfeito. Os metais, aliás, são seres vivos, ensinam os esotéricos; os metais inferiores se acham numa fase de desenvolvimento incompleto, que pode ser levado a termo consumado; basta, para isto, encontrar um fermento adequado ou a «pedra filosofal», que leve à maturidade a natureza dos corpos. Os alquimistas tinham suas receitas secretas para obter a pedra filosofal, mediante a qual, diziam, era muito fácil conseguir a transmutação dos metais imperfeitos.


Da proposição de que só há uma substância no mundo, deduz-se outrossim que só há uma doença do corpo humano e só um remédio; o organismo constitui um só todo, cujas partes são solidárias entre si. Por isto, ao mesmo tempo que procuravam a pedra filosofal, os alquimistas iam ao encalço do «elixir da longa vida» ou do «ouro potável», que assegurasse ao corpo humano a imortalidade. Outros ocultistas, à frente dos quais está Paracelso, visam dominar o organismo e curar-lhe as doenças mediante influência sobre o pensamento do enfermo (os esotéricos em geral consideram o pensamento como uma das mais poderosas forças do universo). O pensamento do homem condensa em si tudo que há de divino e de humano no mundo; por conseguinte, dirigir o pensamento de alguém e canalizar as suas energias vem a ser, para o ocultista, o mesmo que dominar o corpo inteiro dessa pessoa.


2. O homem, miniatura do universo. Dentro do conjunto dos seres visíveis, toca lugar de especial realce ao homem, pois este é tido como compêndio e análogo do grande mundo, ou como Microcosmos dentro do Macrocosmos; existe, pois, estrita correlação entre cada elemento do homem e o seu análogo no universo; ou melhor: o homem contém em si todas as energias dos seres inferiores; reciprocamente cada animal irracional não é senão a materialização de uma energia latente no homem; consequentemente este pode apresentar em si as reações típicas do trigo, da abelha, da formiga, do boi, etc.


Conforme os mestres ocultistas, o homem se compõe de três partes essenciais: o espírito (elemento espiritual), o corpo (elemento material), o mediador ou corpo astral, perispírito, ectoplasma, por vezes também chamado alma (elemento fluídico), que participa tanto da natureza do corpo como da do espírito. Desses três elementos, o que mais interessa aos esotéricos é o terceiro ou o corpo astral, pois, o corpo material, eles o entregam ao estudo dos anatomistas, ao passo que o espírito é o objeto das especulações de psicólogos e filósofos. O corpo astral desempenha funções de máxima importância; com efeito, compõe-se de luz, em parte, fixa e, em parte, volátil (fluido magnético); emite consequentemente irradiações, que criam em torno do indivíduo uma atmosfera própria ou «aura astral», a qual é o prolongamento ou até mesmo a duplicata da pessoa ; essa aura pode ser de simpatia, afinidade, ou de antipatia, repulsa, para com outros indivíduos; aos olhos dos iniciados, que gozam de sentidos mais apurados, a aura se torna perceptível ou colorida. Tal fluido magnético permite a cada sujeito agir à distância, movendo corpos ou influenciando fenômenos que aos olhos do vulgo parecem ou meras coincidências ou milagres; em geral é graças às propriedades do corpo astral (principalmente ao magnetismo) que os ocultistas asseveram tomar conhecimento de coisas passadas e futuras, experimentar sentimentos e pressentimentos alheios, interpretar sonhos, passar pelo êxtase profético, etc.


Segundo alguns esotéricos, o espaço está povoado de uma multidão de seres, pois todos os nossos pensamentos e desejos emitem uma imagem de si, a qual passa a vaguear nos ares; caso algum desses seres erráticos venha a pousar no cérebro de alguém, diz-se que esta pessoa recebeu uma sugestão, uma inspiração boa ou má...; tal ideia então «está no ar» (sem metáfora), sendo capaz de afetar simultaneamente muitos cérebros...


3. O visível, manifestação do invisível. Ainda como consequência de que só há uma substância, o ocultista ensina que todos os seres materiais são representações dos imateriais. Isto não quer dizer que as coisas visíveis sejam meros sinais das invisíveis, mas, sim, que a realidade visível é a própria realidade invisível contemplada sob outro aspecto; essa única realidade é matéria para os sentidos físicos e é espírito para os sentidos astrais. Por conseguinte tudo que se vê, há de ser considerado como símbolo do que não se vê, e na escola esotérica todo conhecimento profundo se obterá por via do simbolismo.


A tese de que entre o símbolo e o objeto simbolizado há equivalência explica o valor que o ocultismo atribui, por exemplo, aos nomes: estes não designam apenas os respectivos objetos nomeados, mas participam da essência dos mesmos; assim os caracteres hebraicos que compõem o nome Yaveh indicam, por seu número e sua forma, a natureza mesma de Deus; lendo de trás para diante algum nome sagrado, o leitor fica conhecendo o poder maléfico oposto ao poder benéfico nomeado.


As mesmas premissas elucidam outrossim o apreço que o esoterismo consagra às imagens : não raro se veem nos ambientes ocultistas estranhas figuras, em que a silhueta de um homem ou de membros humanos aparece enquadrada dentro de triângulos e círculos, serpentes, cruzes, espadas, flechas, caracteres hebraicos, números, etc.; tais símbolos são tidos como princípios de benefícios ou malefícios para o sujeito que eles acompanham. Visto que toda imagem é algo do objeto que ela representa, diz-nos o ocultista que agir sobre ela é agir sobre o próprio objeto representado; daí a arte esotérica de maltratar uma imagem (ou até a escrita) de uma pessoa para danificar a própria pessoa odiada; acontece por vezes que o poder representativo da imagem é reforçado pela inserção, nessa figura, de cabelos, pontas de unha ou de algum outro objeto que tenha pertencido ao sujeito hostilizado.


A analogia vigente entre os seres é, aliás, o único fundamento sobre o qual se apoiam muitas afirmações dos ocultistas; baseados nela, afirmam, por exemplo, que a cruz de Cristo já era conhecida na Índia desde toda a antiguidade e que a inscrição INRI designava os quatro elementos primordiais da natureza, segundo o vocabulário dos orientais: Iam = água; Nour = fogo; Ruach = ar; Iabeshah = = terra. Por motivo semelhante, ou seja, em vista da analogia, os esotéricos identificam os símbolos dos quatro Evangelistas (o boi, atribuído a S. Lucas; o leão, a S. Marcos; a águia, a S. João; o homem, a S. Mateus) com as quatro características da esfinge e, por conseguinte, do ocultismo egípcio: a esfinge tem, sim, flancos de touro, garras de leão, asas de águia, e cabeça de homem. O boi seria, na ideologia do esoterismo, o símbolo do temperamento linfático, cuja nota típica é calar-se; o leão seria o símbolo do temperamento sanguíneo, cuja ação própria é ousar; a águia seria o símbolo do temperamento nervoso, que se traduz pelo «querer»; por fim, a cabeça humana seria o símbolo do raciocínio, que domina os impulsos instintivos e se manifesta pelo saber. Pois bem, dizem os esotéricos, estas atitudes (calar-se, ousar, querer, saber) são quatro exigências básicas do ocultismo, como os quatro Evangelhos são quatro livros fundamentais do Cristianismo...

 

Após a exposição sumária das principais doutrinas, passemos finalmente a

 

3. Um juízo sobre o ocultismo

 

1) O esoterismo é essencialmente monista ou panteísta Ora em «P.R.» 7/1957, qu. 1 foi demonstrado que tal posição filosófica se opõe totalmente à sã razão, vindo a ser simplesmente absurda ou ilógica. É o que desacredita radicalmente o esoterismo perante a inteligência humana. A respeito das modalidades do ocultismo, veja-se «P.R.» 10/1958, qu 12 (Cabala); 16/1959, qu. 2 (Astrologia); 17/1959, qu. 1 (Teosofia); 2/1958, qu. 1 (Rosa-Cruz); 3/1958, qu. 3 (Antro- posofia).


2) Em particular, quanto à existência do corpo astral ou do perispírito, um elemento que não seja propriamente nem corpo nem espírito, mas participe da natureza de ambos, é inconcebível; o corpo ou a matéria (ainda que fluida) é algo de quantitativo, tendo suas partes justapostas, seu peso e suas notas sensíveis, ao passo que o espírito vem a ser justamente a contradição (não/sòmente o contrário) dessas
notas; ora entre dois termos contraditórios (constar de partes, peso,... e não constar de partes, peso... ) não há meio-termo, ensina a Lógica. Por conseguinte, todo ser é simplesmente ou corpo ou espírito.


Ademais os progressos da ciência contemporânea levaram os estudiosos a explorar os fenômenos chamados «psi- -gama» e «psi-kapa», fenômenos que supõem na alma humana faculdades de conhecer objetos à distância, independentemente das categorias de tempo e espaço ; cf. «P.R.» 13/1959, qu. 8, onde se encontra um relato sobre o fenômeno «psi-gama», também chamado «percepção extrassensorial». As novas pesquisas levam a admitir na mesma alma que é sede dos sentidos externos e internos até hoje conhecidos, a existência de nova faculdade de conhecimento, cujo funcionamento ainda não é de todo claro, mas que nada tem a ver com alguma duplicata do espírito, ectoplasma ou perispírito. A ciência moderna dispensa por completo o postulado ilógico do perispírito.

Mas, dir-se-á, como julgar as pretensas fotografias do pensamento e do ectoplasma ?


As principais experiências feitas no sentido de fotografar o perispírito ou o fluido vital se devem a autores do século passado, como Papus, Reichenbach, Luys, o coronel de Rochas, Narkiewiez-Iodko, Baraduc...; estes experimentadores apresentaram ao mundo uma série de placas fotográficas e de teorias explicativas, que foram submetidas a exame principalmente por Adrien Guébhard, professor agregado de Física na Faculdade de Medicina de Paris, e por Guilherme de Fontenay, vice-presidente da Sociedade Universal de Estudos Psíquicos. Os resultados do inquérito, criteriosamente levado a efeito, foram totalmente contrários à teoria do perispírito: verificou-se que parte das figuras ou fotografias era produto de astuta mistificação dos respectivos operadores; outra parte devia-se a erros de técnica fotográfica : sim, alguns sinais (manchas brancas ou escuras em forma de nuvens, de pontos ou de estreias, faixas luminosas simétricas e não simétricas) impressos nas chapas fotográficas eram tidos como vestígios do perispírito, quando na verdade deviam ser explicados como efeitos de meras reações físico-químicas não previstas ou da intervenção de causas mecânicas estranhas ao processo e não prèviamente removidas (Guébhard, por exemplo, averiguou ao menos uma dezena de causas meramente físicas capazes de produzir auréolas sobre chapas fotográficas ; também lembrou que se podem obter raias negras muito regulares e simétricas sobre uma chapa fotográfica desde que essa chapa, durante o processo de revelação, seja molhada antes de ser imergida na solução devida).


Tenha-se em vista a ampla documentação publicada a respeito por

E. N. Santini, Photographie des effluves humains. Paris, Mendel; M. J. Bossavy, Les Photographies des prétendus Eífluves humains. Le Mans 1900.

A. Guébhard, Le Vrai Fluide vital, em «Revue scientifique» de 15/2/1898; Sur ies prétendus enregistrements photographiques du Fluide vital em «Vie scientifique», nos. 106, 108, 110 de 1897; Photographie sans lumière 1898.

G. de Fontenay, La Photographie et 1'étude des Phénomènes Psychiques. Paris 1912.


Os defensores do perispírito protestaram contra os resultados obtidos por seus contraditores. O fato, porém, é que de então por diante filósofos e cientistas deixaram de falar de «fotografias do ectoplasma»; não se citam mais casos congêneres; o tema carece de valor científico.

 

3. O ocultismo afirma as suas proposições sem apresentar os respectivos argumentos ; baseia-se, antes, sobre a analogia que deve unir todos os elementos, visíveis e invisíveis, entre si.

 

Que dizer desse modo de persuadir ?

 

Impõe-se reconhecer que comparação não é razão, analogia não é lógica; semelhança extrínseca não pode ser tomada, sem mais, como sinal de afinidade intrínseca. Em particular, o fato de que a cruz tenha sido estimada fora do Cristianismo como símbolo de salvação, está longe de significar dependência da concepção cristã em relação às filosofias heterogêneas; sabe-se que o apreço tributado pelos cristãos à cruz se deve a um fato histórico bem determinado (a condenação de Jesus ao patíbulo da ignomínia), fato este que certamente é independente das idéias orientais concernentes ao simbolismo da cruz.


Quanto à analogia estabelecida entre a inscrição INRI e os quatro elementos fundamentais do universo, é totalmente arbitrária, pois que INRI supõe a expressão latina «Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum* (Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus), ao passo que os vocábulos designativos dos quatro elementos do mundo seriam, no caso, derivados da nomenclatura oriental. — Tal modo de fazer derivações etimológicas é tão arbitrário quanto o que usava o humorista francês Touchatout no século passado; queria este autor, por exemplo, atribuir a origem do nome «automedonte» (automédon, em francês), cocheiro, à invenção (ocorrida nos inícios do séc. XIX) do cabriolé, carro leve de duas rodas puxado por um cavalo, cujo cocheiro ocupava a extremidade posterior da carroceria. Na verdade, «Automedonte» é nome proveniente da mitologia grega, onde designava o personagem condutor do carro de Aquiles...; passou a significar todo e qualquer cocheiro, sem a pretensa relação etimológica com os cabriolés!


A distribuição dos quatro símbolos (homem, leão, boi e águia) pelos quatro Evangelistas não é, de modo nenhum, proposta pela S. Escritura; deve-se exclusivamente à exegese que de Ezequiel c. 1 e Apocalipse 4,6-8/ fizeram os escritores cristão dos primeiros séculos. Seria vão, por conseguinte, na base dessa interpretação periférica (embora hoje inveterada entre os cristãos) querer deduzir alguma afinidade entre os Evangelhos e a esfinge esotérica do Egito.


Para dar às suas doutrinas a autoridade que o raciocínio não lhes confere, os esotéricos apelam para fontes de saber antiquíssimas, como seriam os arquivos dos sacerdotes ou dos sábios da China, da Índia, do Egito, etc. Em vão, porém. A ninguém é dado abordar essas pretensas fontes, a fim de averiguar o seu valor histórico.


Em última análise, após reflexão serena, o estudioso parece obrigado a afirmar que o gigantesco edifício do ocultismo não se deriva de algum manancial objetivo de sabedoria, mas constitui uma das mais espontâneas projeções da fantasia humana. Com efeito, todo homem tem consciência de ignorar, e ignorar muita coisa ; não obstante, possui inelutável sede de saber ou de devassar os mistérios da natureza que o cercam (donde vem o mundo ? Para onde tende ? Como dominaremos os elementos do universo ?, etc.). Não podendo penetrar nesses arcanos unicamente pela força do raciocínio, o homem se sente naturalmente tentado a forjar a chave que lhe abra os segredos do mundo; dá então livre curso à imaginação e, mediante esta, concebe um amálgama de teorias incapazes de resistir a sério exame da razão; na falta de lógica, é a analogia ou a semelhança periférica dos seres que o guia. Tal atitude pseudo-filosófica poderá ser, em boa parte e de maneira talvez inconsciente, inspirada pela megalomania que afeta o homem ambicioso; sem dúvida, parece enaltecer-se aquele que, conforme os seus dizeres, foi julgado digno (pelos deuses ou por seres invisíveis) de gozar de uma ciência não franqueada ao vulgo. Colocado então diante dos seus textos sagrados— «os mais antigos que existam no mundo !...»—, o esotérico os folheia e disseca, conta as respectivas letras e as soma, observa e compara as formas dos caracteres, etc., esperando que dessa trituração do texto jorre a grande luz que ilumine as trevas onde está submerso o mundo. Tal arte ou «febre», em que a imaginação tem papel preponderante, apaixona o indivíduo, o qual depois de certo tirocínio já se acha «embriagado», não aceitando em absoluto o controle da razão que um amigo lhe venha a oferecer. Não é, pois, em vão que os grandes mestres do ocultismo admoestam o jovem discípulo a cingir os rins e fortalecer o coração antes de colocar o pé na terra fatal (no setor do esoterismo); muitos, com efeito, foram encontrar nessa terra a demência ou o suicídio. — É, aliás, assim que desmoronam os mais imponentes edifícios fundados sobre os sonhos da megalomania humana. Sem dúvida, existem profundos mistérios na natureza; seja, porém, o homem sóbrio em relação a eles e não pretenda afirmar, a respeito, aquilo que o Autor da natureza, Deus, não lhe tenha revelado!

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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Sto. Inácio de Antioquia (35-110)

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