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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 350 julho 1991

Mundo Atual

Um brado candente:

"A Missão do Redentor"

de João Paulo II

Em síntese: A Encíclica Redemptoris Missio, sobre a validade permanente do mandato missionário, vem a ser uma calorosa exortação dirigida a todos os fiéis, para que assumam a tarefa de difundir a Boa-Nova de Jesus Cristo. A têmpera missionária da Igreja foi, nos últimos anos, arrefecida por teorias relativistas e secularistas, que João Paulo II condena. S. Santidade lembra que todos os homens, salvos pelo sangue de Cristo, têm o direito de ouvir o anúncio do Evangelho: transmiti-lo e apregoá-lo não significa violentar as consciências ou coagir os homens, pois a há de ser espontânea; seja sempre salvaguardada a liberdade religiosa que toca a toda pessoa humana. A evangelização do mundo ainda está no seu começo, pois a maior parte dos homens ainda não conhece a mensagem evangélica; tal número cresce com o aumento demográfico dos povos não cristãos. Apesar dos vários obstáculos que a evangelização deve enfrentar em nossos dias, é de crer que o momento é oportuno para exercê-la, pois se nota a volta do senso religioso e a procura do transcendental em países e grupos humanos que se deram ao materialismo. Não há, pois, como perder o ânimo.

A Encíclica é perpassada por fé ardente e otimismo confiante. O Papa exorta os fiéis católicos a se entregarem à tarefa missionária nos diversos setores em que ela se pode realizar (urbano, rural, africano, asiático, latino-americano...); "este é um caminho que conduz ao Reino e certamente dará frutos, mesmo se os tempos e momentos estão reservados ao Pai (cf. At 1,7)"; cf. no 57.

-=-=-

Aos 7/12/1990 o S. Padre João Paulo II publicou densa Encíclica dita "Redemptoris Missio" (a Missão do Redentor, RM), sobre o valor permanente do preceito missionário. É documento muito realista, que fala calorosamente aos leitores sobre necessidades fundamentais do mundo moderno e o imperioso dever, dos cristãos, de lhes responder.

A seguir, percorreremos as linhas-mestras de tal documento, destinado, entre outras finalidades, a comemorar os 25 anos da promulgação do Decreto Ad Gentes (sobre as Missões) do Concílio do Vaticano II.

1. Motivação

A Encíclica tem por objetivo lembrar a todos os fiéis a urgência da atividade missionária; esta ainda se encontra em seus inícios. Com efeito; segundo estatísticas fidedignas, dos 5.300.000.000 de habitantes do globo, menos de uma terça parte conhece Jesus Cristo e apenas 18% são católicos. Na Ásia, onde vivem 60% da população mundial, apenas um pouco mais de 2% são batizados.([1])

Esta situação lembra o grito do Apóstolo: "Anunciar o Evangelho, para mim, não é título de glória; é necessidade que me impele. Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho!" (1Cor 9,16).

O motivo principal de repetir este brado de São Paulo é, para João Paulo II, a verificação das condições em que se acha o mundo contemporâneo:

"O que mais me leva a proclamar a urgência de evangelização missionária, é que ela vem a ser o primeiro serviço que a Igreja pode prestar a todo homem e à humanidade inteira no mundo atual, ... mundo que experimenta conquistas admiráveis, mas parece ter perdido o senso das realidades últimas e da sua própria existência" (no 1).

É muito grave o problema assim apontado como pano de fundo da Encíclica. Com efeito; a necessidade de conhecer o sentido ou o porquê e o para quê da existência é a mais fundamental dentre todas as que o homem experimenta. Tal afirmação pode ser ilustrada pelos relatos da vida nos campos de concentração: enquanto pairava ante os olhos dos prisioneiros uma esperança de serem libertados, tudo aturavam heroicamente; mas, desde que desfalecesse tal perspectiva, deixavam-se ficar física e psiquicamente prostrados, apesar das pancadas, da fome e da sujeira que os acometiam. — Ora o mundo de hoje parece sofrer, em muitas regiões, do tédio da vida, seja por causa da inclemência da situação que afeta os homens, seja por causa do materialismo, que limita os horizontes e sufoca a noção dos valores transcendentais. Ver PR 349/1991, pp.217-276 (entrevista sobre a vida na Escandinávia).

É a consideração deste quadro que leva o Papa, e deve incitar todos os fiéis católicos, a tomar nova consciência do valor imperioso da evangelização do mundo, resposta aos anseios dos homens. Ao mesmo tempo, acontece que a atividade missionária mesma reforça a fé e a identidade cristã dos mensageiros: "A fé se corrobora quando é transmitida!" (no 1).

 

2. Fundamentação teológica

Pode-se dizer que a Encíclica Redemptoris Missio abrange todos os aspectos da vida missionária, oferecendo-se a toda a Igreja como um documento completo e perpassado de otimismo vibrante. Eis como ele se fundamenta teologicamente:

2.1. Jesus Cristo, Único Salvador (no 4-11)

O Papa aborda logo o questionamento moderno: "Ainda é atual a missão entre os não cristãos? Não estará, por acaso, substituída pelo diálogo inter-religioso? Não se deverá restringir ao empenho pela promoção humana? O respeito pela consciência e pela liberdade não exclui qualquer proposta de conversão? Não é possível salvar-se em qualquer religião? Para que, pois, a missão?" (no 4).

A resposta consiste em lembrar que, conforme as Escrituras, "não há salvação senão em Jesus Cristo; não há debaixo do céu qualquer outro nome dado aos homens que nos possa salvar" (At 4,10.12).

"Há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo Homem, que se deu em resgate por todos" (1 Tm 2,5s).

De resto, anunciar o Cristo a todos os homens, quando feito no respeito às consciências, não viola a liberdade dos homens. Estes serão sempre livres para dizer Sim ou Não a Cristo, como lembra a Declaração do Concílio do Vaticano II sobre a Liberdade Religiosa:

“A quantos se mostram preocupados em salvar a liberdade de consciência, o Concílio do Vaticano II responde: 'A pessoa humana tem direito à liberdade religiosa... Todos os homens devem viver imunes de coação em matéria religiosa, quer da parte de pessoas particulares, quer da parte de grupos sociais ou de qualquer poder humano, de tal forma que ninguém seja obrigado a agir contra a sua consciência nem impedido de atuar de acordo com ela, privada ou publicamente, só ou associado” (Declaração Dignitatis Humanae no 2)."

O respeito à liberdade de consciência não dispensa de anunciar o Evangelho, como se lê a seguir:

,"A fé exige a livre adesão do homem, mas tem de ser proposta, já que . as multidões têm o direito de conhecer as riquezas do mistério de Cristo, nas quais toda a humanidade — assim acreditamos — pode encontrar, numa plenitude inimaginável, tudo aquilo que procura às apalpadelas a respeito de Deus, do homem, do seu destino, da vida, da morte, da verdade... É por isto que a Igreja conserva bem vivo seu espírito missionário, desejando até que ele se intensifique, neste momento histórico que nos foi dado viver" (no 8).

"A Igreja dirige-se ao homem no pleno respeito de sua liberdade:a missão não restringe a liberdade;pelo contrário, favorece-a. A Igreja propõe, nada impõe; respeita as pessoas e as culturas, detendo-se diante do sacrário da consciência" (no 39).

Segue-se agora explicitamente a resposta à pergunta: "Por que a missão?"

"A novidade de vida em Cristo é Boa-Nova para o homem de todos os tempos: a ela todos são chamados e destinados. Todos, de fato, buscam-na, mesmo se, às vezes, confusamente, e têm o direito de conhecer o valor de tal dom e aproximar-se dele. A Igreja, e nela cada cristão, não pode esconder nem guardar para si esta novidade e riqueza, recebida da bondade divina para ser comunicada a todos os homens" (no 11).

 

2.2. O Reino de Deus (no 12-20)

Jesus anunciou a chegada do Reino de Deus prometido no Antigo Testamento; cf. Mc 1,14s; Mt 4,17; Lc 4,43. Ele o ilustrou mediante sua pregação, especialmente as parábolas (cf. Mt 13,1-44; Lc 15,3-32; Mt 20,1-16).

O Reino de Deus destina-se a todos os homens e ao homem todo. Dois gestos caracterizam a missão de Jesus: curar e perdoar, ou seja, o atendimento no plano físico, material, e no plano espiritual.

Hoje em dia fala-se muito do Reino, mas nem sempre em consonância com o sentir da Igreja; com efeito,

1)  Existem concepções de salvação "antropocêntricas" no sentido redutivo da palavra, por se concentrarem nas necessidades terrenas do homem. Nesta perspectiva, o Reino passa a ser uma realidade totalmente humanizada e secularizada, onde o que conta são os programas e as lutas para a libertação sócio-econômica, política e cultural, mas sempre num horizonte fechado ao transcendente. Sem negar que, neste nível também existem valores a promover, todavia estas concepções permanecem nos limites de um reino do homem, truncado em suas mais autênticas e profundas dimensões, espelhando-se facilmente numa das ideologias de progresso puramente terreno. O Reino de Deus, pelo contrário, não é deste mundo... (Jo 18,36).

2)  Existem também concepções que se dizem "reinocêntricas". Pretendem pôr de lado Cristo e a Igreja para formular um anúncio que seja aceitável por todos os homens que simplesmente creiam em Deus. Assim cristãos e não cristãos se encontrariam num plano religioso um tanto vago, genericamente teocêntrico, mas unanimemente voltado para a cultura e os valores humanos.

"Ora não é este o Reino de Deus que conhecemos pela Revelação:ele não pode ser separado de Cristo e da Igreja" (no 18).

"É verdade que o Reino de Deus exige a promoção dos bens humanos e dos valores que podem mesmo ser chamados 'evangélicos', porque intimamente ligados à Boa-Nova. Mas essa promoção, que a Igreja também toma a peito realizar, não deve ser separada nem contraposta às outras suas tarefas fundamentais, como são o anúncio de Cristo e seu Evangelho, a fundação e o desenvolvimento de comunidades que atuem entre os homens a imagem viva do Reino. Isto não nos deve fazer recear que se possa cair numa forma de eclesiocentrismo" (no 19).

A Igreja é sacramento da salvação para toda a humanidade; sua ação não se limita àqueles que aceitam sua mensagem. "Ela é força atuante no caminho da humanidade rumo ao Reino escatológico; é sinal e promotora dos valores evangélicos entre os homens. Neste itinerário de conversão ao projeto de Deus, a Igreja contribui com o seu testemunho e sua atividade, expressa no diálogo, na promoção humana, no compromisso pela paz e pela justiça, na educação, no cuidado dos doentes, na assistência aos pobres e mais pequenos, mantendo sempre firme a prioridade das realidades transcendentes e espirituais, premissas da salvação escatológica" (no 20).

 

2.3. O Espírito Santo, Protagonista da missão (no 21-30)

O Espírito Santo é a alma de toda a tarefa missionária. Jesus enviou seus discípulos a pregar a todos os povos (cf. Lc 24,47) e quis assegurá-los de que nesta obra não estariam sós, mas contariam com a presença e a potência do Espírito Santo, além da assistência mesma de Jesus. Assim a missão não se baseia na capacidade humana, mas é obra do Espírito Santo.

 

O Espírito Santo oferece a todos os homens os meios de salvação:

"Seja como for, a Igreja sabe que o homem, solicitado incessantemente pelo Espírito de Deus, nunca poderá ser totalmente indiferente ao problema da religião, mantendo sempre o desejo de saber, mesmo se confusamente, qual o significado de sua vida, de sua atividade e de sua morte. O Espírito está portanto na origem da questão existencial e religiosa do homem, que surge não só de situações contingentes, mas sobretudo da estrutura própria do seu ser" (no 28).

O S. Padre aproveita esta abordagem para referir-se ao Encontro entre representantes de diversas crenças religiosas do mundo em Assis (outubro de 1986). Sabe-se que foi por vezes mal entendido, como se implicasse relativismo religioso. João Paulo II afasta esta interpretação e apresenta a justificativa do Encontro:

"O Espírito induz-nos a estender o olhar para podermos melhor considerar sua ação, presente em todo o tempo e lugar. É uma referência que eu próprio sigo muitas vezes e que me guiou nos encontros com os mais diversos povos. As relações da Igreja com as demais religiões baseiam-se num duplo aspecto: respeito pelo homem na sua busca de resposta às questões mais profundas da vida, e respeito pela ação do Espírito nesse mesmo homem. O encontro inter-religioso de Assis, excluída toda e qualquer interpretação equívoca, reforçou em mim a convicção de que toda oração autêntica é suscitada pelo Espírito Santo, que está misericordiosamente presente no coração dos homens" (no 29).

3. O momento oportuno

O momento presente é, sem dúvida, muito oportuno para se empreender a evangelização do mundo. Vivemos uma época fascinante e dramática... Fascinante pela prosperidade material, mas dramática, porque, em meio ao progresso tecnológico, o homem moderno é sequioso de respostas para seus anseios básicos. O desmoronamento dos regimes do Leste Europeu, que prometiam o paraíso na terra, deixou muitos povos abertos a propostas de vida transcendentais. Além do quê, registra-se uma necessidade de interioridade, de aprender formas e métodos de oração e meditação; cultiva-se (embora irracionalmente, por vezes) a dimensão espiritual da vida como antídoto da desumanização; em suma, observa-se "a volta do religioso", que vem a ser um apelo à Boa-Nova do Senhor Jesus; cf. no 38.

4. A todos os povos, apesar das dificuldades

A tarefa de anunciar Jesus Cristo a todos os povos é imensa e ultrapassa as forças humanas da Igreja.

As dificuldades parecem insuperáveis e poderiam desanimar os homens na Igreja se se tratasse de obra meramente humana. Sejam brevemente recordadas:

1) Certos países proibem que os missionários neles entrem. A conversão ao Evangelho é tida como falta de patriotismo e deserção em relação à cultura nacional.

 

2)  Há também dificuldades provenientes do íntimo da própria Igreja, e são as mais dolorosas: desânimo, cansaço, falta de alegria e esperança... Devem-se a uma mentalidade indiferentista e relativista, segundo a qual todas as religiões são equivalentes entre si (cf. no 36). Alguns teólogos têm propagado este modo de pensar, valendo-se, por vezes, de textos do Concílio do Vaticano II mal interpretados.

3)  Acrescente-se a tudo isto a descristianização de certos países cristãos, a diminuição das vocações para o apostolado, os contra-testemunhos de fiéis e comunidades cristãs...

4) Além de tudo, observa-se que, para muitos, o conceito de Cristianismo vem a ser uma sabedoria moral humana, um sistema para viver honestamente. . . A salvação cristã vem sendo secularizada ou reduzida aos limites horizontais:

"A tentação hoje é reduzir o Cristianismo a uma sabedoria meramente humana, como se fosse a ciência do bem viver. Num mundo fortemente secularizado, surgiu uma gradual secularização da salvação, onde se procura lutar, sem dúvida, pelo homem, mas por um homem dividido, reduzido unicamente à dimensão horizontal. Ora sabemos que Jesus veio trazer a salvação integral, que abrange o homem todo e todos os homens, abrindo-lhes os horizontes admiráveis da filiação divina" (no 11).

5. "Não nos podemos calar!" (At 4,20)

Apesar de todos os obstáculos, a Igreja exclama com os Apóstolos perante o Sinédrio de Jerusalém: "Não nos podemos calar. . . Não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos" (At 4,20). Ou ainda com São Paulo: "Não me envergonho do Evangelho; é força de Deus para todo homem que crê" (Rm 1,16). Os mártires cristãos de todos os tempos — e também de nossos tempos — deram e continuam a dar a sua vida para testemunhar a fé diante dos homens, convictos de que todo homem precisa de Jesus Cristo, vencedor do pecado e da morte.([2])

 

Acrescenta o S. Padre textualmente:

"Aqueles que estão incorporados na Igreja Católica devem considerar-se privilegiados, e, por isso mesmo, mais comprometidos a testemunhar a fé e a vida cristã como serviço aos irmãos e resposta devida a Deus, lembrados de que a grandeza de sua condição não se deve atribuir aos próprios méritos, mas a uma graça especial de Cristo; se não correspondem a essa graça por pensamentos, palavras e obras, em vez de se salvarem, incorrem num julgamento ainda mais severo" (no 11).

É digna de nota a afirmação muito verídica de que ser católico é grande graça (nem sempre reconhecida pelos próprios interessados), que há de ser valorizada mediante um testemunho adequado; aliás, é graça não devida aos méritos dos que a recebem, mas gratuitamente outorgada pela liberalidade divina.

 

O Papa muito enfaticamente rejeita toda atitude de desânimo:

"Ao olhar superficialmente o mundo moderno, o observador fica impressionado pela abundância de fatos negativos, podendo deixar-se levar pelo pessimismo".

 

Logo, porém, replica o Papa:

"Mas este sentimento é injustificado: temos fé em Deus Pai e Senhor, na sua bondade e misericórdia. Ao aproximar-se o terceiro milênio da Redenção, Deus está preparando uma grande primavera cristã, cuja aurora já se entrevê. Na verdade, tanto no mundo não cristão quanto naquele de antiga tradição cristã, existe uma progressiva aproximação dos povos aos ideais e valores evangélicos, que a presença e a missão da Igreja se empenha em favorecer. Na verdade, manifesta-se hoje uma nova convergência, por parte dos povos, para esses valores: a recusa da violência e da guerra; o respeito pela pessoa humana e os seus direitos; o desejo de liberdade, de justiça e de fraternidade; a tendência à superação dos racismos e dos nacionalismos; a afirmação da dignidade e a valorização da mulher" (no 86).

Preparando-se para celebrar o jubileu do ano 2.000, toda a Igreja ainda está empenhada num novo advento missionário; faz-se mister que os católicos alimentem em si a ânsia apostólica de transmitir aos outros a luz e a alegria da fé.

A consciência de que há bilhões de seres humanos, também eles redimidos pelo sangue de Cristo, a ignorar o amor de Deus, não pode deixar o católico tranqüilo.([3]) A causa missionária deve ser, para todo fiel assim como para toda a Igreja, a primeira de todas as causas, porque diz respeito ao destino eterno dos homens e responde ao desígnio misericordioso de Deus. ([4])

O otimismo entusiasta de João Paulo II manifesta-se ainda no final da Encíclica, onde afirma:

"Nunca como hoje se ofereceu à Igreja a possibilidade de, com o testemunho e a palavra, fazer chegar o Evangelho a todos os homens e a todos os povos. Vejo alvorecer uma nova época missionária, que se tornará dia radioso e rico de frutos, se todos os cristãos e, em particular, os missionários e as jovens Igrejas, corresponderem generosa e santamente aos apelos e desafios do nosso tempo" (no 92).

"A atividade missionária ainda está no início" (no 48)

A atividade missionária ainda está no início não somente porque a maioria dos homens não conhece ou não aceita o Evangelho, mas também porque essa maioria vai crescendo; a extensão da obra evangelizadora não tem acompanhado o crescimento demográfico. Isto deve mais ainda motivar o zelo dos fiéis católicos. As novas gerações, encontrando um mundo convulsionado e alheio ao senso da vida, não são felizes; mesmo os países mais organizados, como são os da Escandinávia, registram alta cota de suicídios; a violência, a guerra, a discórdia não encontram o freio que só a fé em Deus e o amor cristão lhes podem opor. Daí a urgência de se renovar o senso missionário dentro da Igreja. Precisamente o subtítulo da Encíclica soa: "A validade permanente do mandato missionário". O S. Padre desenvolve seu pensamento nos seguintes termos:

“O nosso tempo, com uma humanidade em movimento e insatisfeita, exige um renovado impulso na atividade missionária da Igreja. Os horizontes e as possibilidades da missão alargam-se, e é-nos pedida, a nós cristãos, a coragem apostólica, apoiada sobre a confiança no Espírito. Ele é o protagonista da missão”

“Na história da humanidade, há numerosas viragens que estimulam o dinamismo missionário, e a Igreja, guiada pelo Espírito, sempre respondeu com generosidade e clarividência. Também não faltaram os frutos. Pouco tempo atrás, celebrou-se o milênio da evangelização da Rússia e dos povos eslavos, estando para se celebrar os 500 anos de evangelização das Américas. Foram, entretanto, comemorados, de forma solene, os centenários das primeiras missões em vários países da Ásia, da África e da Oceania. A Igreja deve hoje enfrentar outros desafios, lançando-se para novas fronteiras, quer na primeira missão ad gentes, quer na nova evangelização dos povos que já receberam o anúncio de Cristo:a todos os cristãos, às Igrejas particulares e à Igreja universal, pede-se a mesma coragem que moveu os missionários do passado, a mesma disponibilidade para escutar a voz do Espírito” (no 30).

Percebe-se que através destas palavras fala um espírito juvenil e vigoroso, que não conhece capitulação, mas, sustentado pela fé e a graça do Senhor, crê no valor da missão que Deus lhe confiou.

7. "O verdadeiro missionário é o Santo" (no 90)

Para executar a missão, é claro que se exige o adestramento doutrinário e técnico adequado. O cristão deve saber o que há de transmitir aos seus irmãos; portanto há de aprendê-lo com firmeza nas diversas Escolas de Fé e Catequese.

Mas existe um predicado que o Papa faz questão de recomendar muito especialmente:

"A universal vocação à santidade está estritamente ligada à universal vocação à missão. . .

O renovado impulso para a missão ad gentes exige missionários santos. Não basta explorar, com maior perspicácia, as bases teológicas e bíblicas da fé, nem renovar os métodos pastorais, nem ainda organizar e coordenar melhor as forças eclesiais; é preciso suscitar um novo ardor de santidade entre os missionários e em toda a comunidade cristã, especialmente entre aqueles que são os colaboradores mais íntimos dos missionários" (no 90).

8. Balanço geral

A Encíclica Redemptoris Missio tem suas características e suas tônicas no conjunto dos documentos da Igreja. Sejam aqui enumeradas as seguintes:

1)  O fato mesmo de se tratar de uma Encíclica missionária chama a atenção, pois o Papa quis reavivar uma temática que, desde o Concílio do Vaticano II (Decreto Ad Gentes, sobre as Missões, datado de 1965), fora um tanto silenciada. O subtítulo da Encíclica é muito expressivo do pensamento do autor: "A Validade Permanente do Mandato Missionário".

2)  Os três primeiros capítulos da Encíclica, apresentando a fundamentação teológica da missão, esclareceram dúvidas que vinham sendo levantadas ultimamente, com descrédito para a tarefa missionária. Principalmente foram focalizadas as teses do relativismo religioso e do secularismo, segundo as quais todas as religiões são equivalentes entre si ou mesmo bastaria promover o homem carente de bens materiais para atender ao mandato missionário do Senhor Jesus. Esta é uma das notas mais importantes da Encíclica, pois dissipa as hesitações sobre a necessidade da missão formuladas em nome de uma "nova teologia".

3)  Nos nos 33s, João Paulo II distingue três modalidades da única missão da Igreja:

  o cuidado pastoral para com as comunidades solidamente estruturadas na fé. É preciso sempre alimentar e corroborar essa fé;

  o cuidado pastoral de comunidades outrora fervorosamente cristãs, mas atualmente debilitadas pelo materialismo e o secularismo. Requerem uma "nova evangelização" ou "reevangelização";

  a missão dirigida aos povos que até hoje não receberam o Evangelho. "Sem a missão a tais povos, a própria dimensão missionária da Igreja ficaria privada de seu significado fundamental e de seu exemplo de atuação" (no 34). O Papa refere-se insistentemente ao crescente número de pessoas que ignoram o Cristo de modo a despertar pungentemente o senso missionário de toda a Igreja.

"A vocação especial dos missionários ad vitam, isto é, por toda a vida, mantém toda a sua validade: representa o paradigma do compromisso missionário da Igreja, que sempre tem necessidade de entregas radicais e totais, de impulsos novos e corajosos. Os missionários e as missionárias, que consagraram a vida toda ao testemunho de Cristo ressuscitado entre os não-cristãos, não se deixem, pois, atemorizar por dúvidas, incompreensões, recusas, perseguições. Rejuvenesçam a graça de seu carisma específico, e retomem, corajosamente, seu caminho, preferindo em espírito de fé, obediência e comunhão com os Pastores - os lugares mais humildes e difíceis" (no 66).

4)  A tarefa evangelizadora é' confiada muito especialmente às jovens comunidades católicas:

"A propósito serve de exemplo a declaração dos bispos em Puebla: 'Chegou finalmente a hora da América Latina. . . se lançar em missão para além de suas fronteiras, ... É verdade que nós próprios temos ainda necessidade de missionários, mas devemos dar da nossa pobreza" (no 64. Cf. no 49, 62, 66, 85, 91).

5)  As comunidades eclesiais de base são confirmadas no seu ideal desde que se mantenham em comunhão sincera com os Pastores e o magistério da Igreja:

"Cada comunidade, para ser cristã, deve fundar-se e viver em Cristo, na escuta da Palavra de Deus, na oração, onde a Eucaristia ocupa o lugar central, na comunhão expressa pela unidade de coração e de alma, e pela partilha conforme as necessidades dos vários membros (cf. At 2,42-47). Toda comunidade — recordava Paulo VI — deve viver em unidade com a Igreja particular e universal, na comunhão sincera com os Pastores e o Magistério, empenhada na irradiação missionária e evitando fechar-se em si mesma ou deixar-se instrumentalizar ideologicamente" (no 51).

6) Quanto ao âmbito da missão, o S. Padre afirma que esta não conhece fronteiras. Apesar disto, é possível reconhecer-lhe diversos setores:

  setores territoriais: são enfatizados especialmente os povos da Ásia, da África, da América Latina e da Oceania. "Existem países e áreas geográficas e culturais onde faltam comunidades cristãs autóctones; noutros lugares, estas são tão pequenas que não é possível reconhecer nelas um sinal claro da presença cristã; ou então a estas comunidades falta o dinamismo para evangelizar a própria sociedade ou pertencem a populações minoritárias, não inseridas na cultura dominante" (no 37).

  Mundos e fenômenos sociais novos: o Papa lembra a importância de se evangelizarem os grandes centros urbanos, pois daí é que procedem os costumes e os modelos de vida para as regiões interioranas ou marginalizadas:

"Nos tempos modernos, a atividade missionária desenvolveu-se sobretudo em regiões isoladas longe dos centros civilizados e inacessíveis por dificuldades de comunicação, de língua e de clima. Hoje a imagem da missão ad gentes talvez esteja mudando: lugares privilegiados deveriam ser as grandes cidades, onde surgem novos costumes e modelos de vida, novas formas de cultura e comunicação que, depois, influem na população. É verdade que a escolha dos menos afortunados deve levar a não descuidar os grupos humanos mais isolados e marginalizados, mas também é verdade que não é possível evangelizar as pessoas ou pequenos grupos, descuidando os centros onde nasce — pode-se dizer — uma nova humanidade, com novos modelos de desenvolvimento. O futuro das jovens nações está-se formando nas cidades" (no 37).

Os jovens, os migrantes, os pobres sejam também objeto de especial zelo missionário por parte da Igreja.

Áreas culturais ou modernos areópagos. "Areópago" é aqui entendido como um centro e foco de cultura. Ora em nossos dias os meios de comunicação social se revestem de importância única, pois fazem do mundo uma aldeia global. Principalmente as novas gerações vão crescendo num mundo dominado pelos mass-media. Talvez não se tenha dado a devida atenção a tão poderoso canal formativo ou deformativo.

Há, além disto, os areópagos da cultura, da pesquisa científica, das relações internacionais... Os cristãos que vivem e trabalham nessas áreas, tenham sempre presente o seu dever de testemunhar o Evangelho (no 37).

Em suma, são estas as grandes linhas da Encíclica Redemptoris Missio, que o novo católico não pode deixar de saudar com gratidão a João Paulo II. Trata-se de um documento inspirado por profunda fé e perpassado por indefectível coragem, que comunica confiança e estimula todo fiel católico ao trabalho evangelizador, qualquer que seja o âmbito de vivência desse filho da S. Igreja.



[1] Eis dados numéricos recentes fornecidos pela ONU com referência às crenças religiosas do mundo:

População total do globo:.............. 5.300.000.000

Católicos:...................................... 902.000.000

Outros cristãos:............................ 827.000.000

Muçulmanos:..............................902.000.000

Hinduístas:................................ 710.000.000

Confucionistas:......................... 333.000.000

Budistas:................................. 325.000.000

Judeus:...................................19.000.000

Slkhs:.....................................17.000.000

Outras religiões:....................265.000.000

Agnósticos:.......................... 800.000.000

Ateus:..................................200.000.000

Entre agnósticos e ateus a diferença é pequena. Aqueles dizem que não podem conhecer a Deus; não tratam da questão "Deus". Os ateus, etimologicamente falando, negam a existência de Deus.

Estatísticas relativas a 1988 revelam que o aumento global da população naquele ano foi de 83.461.000 de habitantes; nesse mesmo período o número de católicos aumentou de 13.184.000. Estes dados significam que, apesar do crescimento em termos absolutos, a porcentagem de católicos sobre o total da população decresceu de 17,59 para 17,56%.

Por continentes, a população católica vai crescendo proporcionalmente na África, na Ásia e no Quênia, ao passo que na Europa e na América decresce.

[2] As estatísticas dos mártires canonizados nos últimos cinqüenta anos assinalam de dez a dezesseis mártires por ano, um ou mais por mês.

[3] Há no mundo aproximadamente 3.600.000.000 de não-cristãos.

[4] Merece transcrição esta passagem realista e vivaz da Encíclica:

"A atividade missionária ainda hoje representa o máximo desafio para a Igreja. À medida que se aproxima o fim do segundo milênio da Redenção, é cada vez mais evidente que os povos que ainda não- receberam o primeiro anúncio de Cristo constituem a maioria da humanidade. Certamente o balanço da atividade missionária dos tempos modernos é positivo:a Igreja está estabelecida em todos os continentes, e a maioria dos fiéis e das Igrejas particulares já não está na velha Europa, mas nos continentes que os missionários abriram à fé.

Permanece, porém, o fato de que os confins da Terra, para onde o Evangelho deve ser levado, alargaram-se cada vez mais, e a sentença de Tertuliano, segundo a qual o Evangelho foi anunciado por toda a Terra e a todos os povos, ainda está longe de se concretizar: a missão ad gentes ainda está no começo. Novos povos aparecem no cenário mundial e também eles têm o direito de receber o anúncio da salvação. O crescimento demográfico no Sul e no Oriente, em países não-cristãos, faz aumentar continuamente o número das pessoas que ignoram a redenção de Cristo" (no 40).


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Orações  Comuns  2773 Oração de Libertação15.19
Aulas  Doutrina  1497 Ser comunista é motivo de excomunhão?13.69
Diversos  História  4042 R.R. Soares e Edir Macedo13.17
PeR  O Que É?  0516 O Que é a ADHONEP?13.15
PeR  História  0515 O Recenseamento sob César Augusto e Quirino12.05
Diversos  Igreja  4166 Papa Leão XIII e a visão de Satanás11.39
Diversos  Protestantismo  1652 Desafio aos Evangélicos: 32 Perguntas11.16
PeR  O Que É?  2142 Quiromancia e Quirologia10.88
Diversos  Prática Cristã  3185 Anticonceptivos são Abortivos?10.43
Diversos  Apologética  3729 Desmascarando Hernandes Dias Lopes8.38
Vídeos  Testemunhos  3708 Terra de Maria8.25
PeR  Prática Cristã  1122 As 14 estações da Via Sacra7.88
Diversos  Ética e Moral  2832 Consequências médicas da homossexualidade7.82
PeR  História  2571 Via Sacra, qual a origem e o significado?7.75
PeR  Escrituras  2389 O Pai Nosso dos Católicos e dos Protestantes7.75
PeR  O Que É?  0565 Lei Natural, o que é? Existe mesmo?7.69
PeR  O Que É?  1372 Eubiose, que é?7.46
PeR  Filosofia  0085 De Onde Viemos? Onde Estamos? Para Onde Vamos?7.34
PeR  Testemunhos  0450 Eu Fui Testemunha de Jeová6.95
Diversos  Testemunhos  3922 Como o estudo da fé católica levou-me ao catolicismo6.76
Diversos  Testemunhos  3465 Ex-pastor conta como fazia para converter católicos6.67
Diversos  Anjos  3911 Confissões do demônio a um exorcista6.58
Eu te dou graças, Senhor, por tão grandes benefícios. Jamais chegaria eu por mim mesmo a descobrir a tua benevolência. Em conseqüência, ouso pedir-te mais uma dádiva: não permitas que eu seja indiferente ao teu santo desígnio, numa vida rotineira ou superficial. Seja eu ardoroso na tarefa de me configurar ao teu Filho e assim chegar a contemplar as Vossas maravilhas, a luz da Verdade e o brilho da tua Face, razão suprema da minha existência!
Dom Estêvão Bettencourt

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