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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 019 – julho 1959

 

Religião é expressão de fase da cultura?

CIÊNCIA E RELIGIÃO

F. LIMA (João Pessoa):

A Religião não seria mera expressão de determinada fase da cultura ? ... expressão da ignorância e da covardia do homem primitivo, destinada portanto a desaparecer perante a civilização moderna ?

 

Por «Religião» costuma-se designar a atitude do homem que entende entrar em relações com uma entidade superior a ele, entidade da qual esse homem se reconhece dependente.


Qual será a raiz de tal atitude? Nobreza ou covardia de ânimo? É o que abaixo examinaremos, percorrendo primeiramente algumas teorias modernas sobre a origem do fenômeno religioso, para depois considerarmos elementos da história e da Etnologia, que nos permitirão formar um juízo sobre o surto e o significado da Religião.

 

1. Algumas opiniões modernas

 

Foi no século passado que os estudos de história das Religiões começaram a se desenvolver. Um dos conceitos que então mais em voga se achavam, era o de evolução; seguindo, pois, a tendência geral da época, os estudiosos foram aplicando ao fenômeno religioso a tese de que é algo de contingente e relativo, sujeito a surto e declínio, como qualquer outra modalidade da civilização.


Como, por conseguinte, explicavam o aparecimento e a história das manifestações religiosas?


O fenômeno religioso, que envolve três agentes — Deus, o indivíduo e a sociedade —, poderia ser explicado pela ação preponderante de cada um deles de per si. No século XIX, porém, o fator Deus, por ultrapassar a órbita do sensível, não era considerado por muitos estudiosos, que o tinham na conta de não-científico. Só lhes restava pois, explicar a religião ou a partir do individuo e da sua psicologia ou a partir da sociedade e do seu poder criador. Ora justamente a explicação do primeiro tipo é o chamado Animismo (cujo principal mentor é o inglês Burnett Tylor (+1917), ao passo que a do segundo tipo é o Totemismo apregoado por Emílio Durkheim, (+1917). Vejamos sucessivamente cada uma destas duas teses.

 

a) O Animismo afirma que o homem no início da sua história era totalmente destituído de Religião. Aos poucos, porém, observando certos fenômenos de psicologia (como o sono, o sonho, a doença etc.) foi concebendo a ideia de possuir em si um princípio diferente do corpo, ou seja, a alma. Em breve, atribuiu à alma sobrevivência após a morte do individuo; donde o culto dispensado aos mortos.


Evoluindo ulteriormente, o homem passou a conceber todos os demais seres como compostos de corpo e alma; consequentemente começou a crer que todos os fenômenos da natureza são regidos por almas (animi) superiores ao homem. Daí se originou o culto da Natureza: água, bosques, animais, trovão, fogo, astros se tornaram divindades reverentemente obsequiadas.


Devagar, isto é, à medida que o homem foi aprimorando seus conceitos filosóficos, esse «animismo» se terá desembaraçado de suas formas grosseiras para finalmente dar lugar à mais pura modalidade de Religião que é o monoteísmo...

Enquanto a escola de Tylor assim raciocinava, Durkheim percorria processo inverso.

 

b) O Totemismo, como o Animismo, parte do pressuposto de que o homem é, por si mesmo, arreligioso. Mas, ao passo que, segundo Tylor, o indivíduo projeta para fora de si as suas imaginações, criando a Religião, na teoria de Durkheim a Religião vem a ser criação da sociedade; é esta que a incute ao indivíduo, o qual no caso se comporta passivamente, sendo iludido sem o saber.


Com efeito, segundo Durkheim, a sociedade é para os indivíduos o que Deus é para os fiéis: realidade transcendente, onipresente, benfazeja, à qual devemos tudo que somos, podemos e valemos. Essa realidade se terá imposto ao homem primeiramente sob a forma de um símbolo chamado totem (1) — animal (salamandra, dragão...) ou, mais raramente, vegetal (lírio, rosa, alguma planta medicinal...) —, com o qual o indivíduo, membro de determinada tribo, se julga aparentado. O totem é pròpriamente uma forca impessoal e anônima, participada por um grupo de seres afins; é superior e, ao mesmo tempo, imanente a todos estes, à semelhança da sociedade. Desta forma se originou o culto do totem (animal ou vegetal). Tal terá sido a forma primitiva da Religião, imposta pela sociedade ao indivíduo; como se vê, é o culto da sociedade mesma (correspondente de certo modo ao culto da Humanidade apregoado por Augusto Comte). Essa religiosidade primordial se terá desenvolvido, segundo Durkheim, dando formas cada vez menos grosseiras, até chegar ao monoteísmo.

 

(1) Totem, totam, todaim, ndodem... O termo provém da língua dos índios Odjibwa (Algonquins), do Canadá meridional; significa «parentesco, emblema de família» ou também «espírito tutelar».

 

As teses de Tylor e Durkheim foram cultivadas por outros estudiosos do século passado, os quais lhes deram múltiplos matizes. Por exemplo, o inglês Lubbock, na sua obra «The Origin of Civilization and the primitive Condition of Man» (1870), estabelecia a seguinte linha evolutiva:

 

Ausência originária de Religião -> Fetichismo (culto de objetos mais ou menos monstruosos tidos como portadores de forças sobrenaturais) -> Totemismo -> Xamanismo (1) (arte de dominar os poderes divinos) -> Idolatria (culto de elementos artificiais divinizados) -> Monoteísmo

 

(1) Shaman é palavra proveniente da língua dos tunguses (estirpe de mongóis); significa «asceta», isto é, homem afeito à disciplina das paixões e ao domínio do espírito sobre o corpo.

 

As várias teorias congêneres às de Tylor e Durkheim constituíam a expressão de uma mentalidade que penetrou profundamente os homens do século passado e de inícios do presente século: a Religião, sob qualquer das suas modalidades, é expressão da ignorância de espíritos fracos, que, não sabendo explicar os fenômenos da natureza, admitem a existência de forças superiores invisíveis; contudo chegara para o gênero humano a hora de se libertar desse artifício covarde e de tomar a atitude arreligiosa, a única condizente com a dignidade do homem.


Augusto Comte (+1857) na França, e Ludwig Feuerbach (+1872), na Alemanha, tornaram-se famosos arautos dessa concepção. Em seu «Cours de la Philosophie positive» (Paris 1830-1843), Comte proclamava a lei dos três estados: o gênero humano, que começara a sua história num estado teológico ou fictício, passara pelo estado metafísico ou abstrato, para entrar, a partir de 1842, no estado científico ou positivo, estado que representaria finalmente a perfeição da cultura.


Faz-se mister averiguar o valor que possam ter tais explicações do fenômeno religioso.

 

2. Os resultados de pesquisas recentes

 

Os estudos de Paleontologia (pesquisa dos documentos antigos) e Etnologia (observação dos povos primitivos), voltando-se com interesse para a questão das origens da Religião, chegaram a resultados assaz precisos, que procuraremos resumir abaixo em três proposições.

 

2.1) Religião, fenômeno tipicamente humano.

 

A história sugere a seguinte reflexão.

 

O homem se preocupa com tudo que diz respeito à sua subsistência. Isto é bem compreensível; todos os animais, mesmo os irracionais, o fazem. Menos compreensível, porém, ou de todo incompreensível, é que no decorrer da história ele jamais se tenha contentado apenas com o que vê e apalpa; tende a subir acima do meramente material, procurando entrar em relações com algo de invisível e transcendente, mediante o que se chama «Religião». Esta ascensão, nenhum animal irracional a faz, ao passo que o homem, desde as suas primeiras manifestações na terra, a tem feito. É o que se evidencia através de rápido percurso de dados da Pré-história e da Etnologia.

 

a) A Pré-história não oferece numerosos vestígios de Religião; ela apenas apresenta fósseis, que são fragmentos inanimados do corpo humano, ao passo que a Religião está essencialmente arraigada na atividade psíquica do homem, atividade que não fica necessária- mente consignada em destroços materiais. Contudo é-nos suficientemente comprovada a existência de Religião na era das cavernas mediante dois tipos de documentos: as sepulturas e as obras de arte.

As sepulturas da Pré-história atestam especial deferência para com os mortos: o cadáver era geralmente deitado na direção LO. e acompanhado de múltiplos instrumentos que deviam servir ao defunto na vida póstuma. Acreditava-se, pois, na sobrevivência da alma; ora esta crença está Intimamente associada à Religião, como ensinam os psicólogos:


«A primeira consequência de toda ideia religiosa é a de fazer temer a morte ou, ao menos, os mortos. Daí resulta que, desde que as idéias religiosas se afirmam, as práticas funerárias se introduzem» (G. de Mortillet, Le Préhistorique 1883).


Em confirmação disto, verifica-se que os animais irracionais, os quais não têm Religião, também não praticam a deferência para com os mortos; nem o mais industrioso desses viventes sepulta seus defuntos.

De resto, o simples fato de que os antigos homens orientavam os túmulos na direção do sol pode ser tomado como indicio de crença em Deus, pois o sol entre os povos primitivos é não raro considerado como «o olho amável» do Ser Supremo.


Quanto à arte das cavernas pré-históricas, apresenta espécimes de caráter nitidamente religioso: tais são as chamadas «estatuetas de Vênus», a significar a Vida personificada;... recintos em que não há vestígios de habitação humana, mas onde se encontraram desenhos a lembrar certo ritual sagrado (tais recintos terão sido santuários ou «celas» de culto).

 

b) Muito mais ricos do que os resultados da Paleontologia, são os da Etnologia, pois este campo de observação oferece dados mais vivos e variados do que os dos fósseis.


Com efeito, ainda hoje existem certos clãs de selvagens que, como julgam os observadores, representam o primeiro gênero de vida do homem sobre a terra: alguns, infracivilizados como são, nem sabem fazer uso do fogo nem construir habitações estáveis, vivendo consequentemente sob o abrigo de folhagens da floresta. Tais seriam:


- os pigmeus da África central e ocidental, de SE da Ásia (Málaca), das Filipinas, algumas tribos de aborígenes de SE da Austrália (os tasmanianos, extintos em 1877, pareciam representar o homem de Neanderthal);

- algumas tribos de índios norte-americanos (algonquins e habitantes da Califórnia);

- certos índios da Terra do Fogo (Yamanas ou Yaghãs e Alakalufs);

- algumas populações árticas do Estreito de Behring, esquimós isolados a O. da Baía de Hudson.


Note -se bem: as .manifestações culturais desses povos, por muito simples que sejam, se mostram tão afins entre si que levam a crer, tenham esses clãs em tempos remotos constituído uma única população, a qual se dispersou, conservando, porém, nas mais desconexas regiões do globo as idéias e práticas características do seu agrupamento primitivo. Por conseguinte, nas tribos acima recenseadas vamos encontrar as primeiras manifestações culturais do homem, anteriores mesmo à expansão dos povos pela superfície do orbe.


E que atestam tais tribos no tocante à Religião?


No século passado Darwin empreendeu duas viagens de exploração à Terra do Fogo: a sua primeira estada aí durou de meados de dezembro de 1832 a janeiro de 1833, ao passo que a segunda se estendeu de fins de maio de 1834 a 10 de junho do mesmo ano. Após tão breves períodos de observação, o naturalista inglês voltava à Europa anunciando que pela primeira vez na história se podia apontar um povo (os índios Yamanas) que absolutamente não tinha religião e que parecia representar a atitude mais espontânea do homem. As afirmações de Darwin, dado o seu caráter inovador, causaram sensação. Aos poucos, porém, verificou-se que o cientista inglês não podia ser, no caso, testemunha fidedigna: não sòmente permanecera exíguo tempo na Terra do Fogo, mas também (todo ocupado com flora e fauna) não voltara diretamente sua atenção para os aborígenes, cuja língua ele nem sequer conhecia.


Em consequência, de 1919 e 1924, dois etnólogos, Martin Gusinde e Wilhelm Koppers, membros do Instituto de Etnologia da Universidade de Viena (Áustria), fizeram novas viagens de estudos à Terra do Fogo. Tendo aprendido a língua dos aborígenes, procuraram ganhar-lhes a confiança e, por fim, puderam anunciar ao mundo que, na verdade, os Yamanas têm sua Religião, professando um Deus chamado Watauinewa (isto é, o Eterno, Antigo, Imutável). Descoberta semelhante foi efetuada entre aborígenes da Austrália Central' os Aruntas. Spencer e Gillen afirmaram que não tinham religião; o contrário, porém, foi minuciosamente comprovado por Strehlow.


Após estes casos sensacionais, corroborou-se entre os etnólogos contemporâneos a tese antiga de que a crença em Deus é fenômeno universal, e fenômeno caracteristicamente humano, pois ele se verifica em todos os tipos humanos e não se realiza em vivente algum infra-humano.


Mas, posta esta conclusão, surge imediatamente nova dúvida: não será a Religião (fato universal) expressão do que há de mais baixo no homem, isto é, da ignorância e da covardia?

É o que passamos a analisar, auscultando de novo a história.

 

2.2) Religião, fenômeno intimamente associado às realizações da inteligência e da cultura humanas.

 

1. Longe de se prender à ignorância e à covardia, a Religião tem sido sempre poderoso estímulo da cultura: verifica-se que as grandes conquistas da civilização no decorrer dos séculos foram empreendidas primàriamente por interesses religiosos. Para ilustrar isto, os geógrafos apontam longa série de instituições culturais que a Religião inspirou ou, ao menos, fomentou pujantemente:

 

a) A casa. O domicilio do homem difere do ninho ou do antro do animal irracional não só por sua complexidade, mas principalmente por ser em seus primórdios um santuário religioso. Com efeito, o tipo característico da casa entre os romanos, por exemplo, se deve ao culto do fogo sagrado, fogo junto ao qual residiam os deuses Lares e Penates; para defender dos profanos o fogo santo, os homens construíram em torno dele um enquadramento, no qual aos poucos conceberam a ideia de estabelecer sua própria residência. Algo de semelhante se deu entre os gregos, os quais diziam que o fogo havia ensinado os homens a construir seu domicílio. O fogo parece ter entrado nas casas em geral primeiramente a título religioso; só posteriormente foi dentro de casa utilizado para fins domésticos (aquecer, cozinhar,...); ainda há tribos antigas que deixam a cozinha com o seu fogo fora de casa, só introduzindo no domicilio o fogo de caráter religioso. — Numerosos são os vestígios de crenças religiosas na arquitetura e na localização das casas, na disposição de portas, janelas e poços, entre os diversos povos.

 

b) As cidades. Também a formação e a configuração das cidades foram fortemente inspiradas por motivos religiosos. Era em torno de um templo ou de um recinto de culto que se ia aglomerando a população de uma região, dando assim origem a uma aldeia ou cidade; Enéias, por exemplo, fundou a cidade de Lavinium levando para o santuário do mesmo nome os deuses de Tróia; na Idade Média era em torno de uma igreja situada no alto de uma colina, ou em torno de um mosteiro, que frequentemente se fundavam .as cidades (tenham-se em vista os nomes compostos com moutier, mosteiro: Romainmoutier, Moyenmoutier, Noirmoutier...; em alemão, Münster...)


Observe-se também que desde cedo se foram constituindo cidades entre os egípcios, os mesopotâmios, os cretenses, porque a religião lhes favorecia; julgavam que os deuses queriam cidades; as grandes cidades gregas nasceram em período de efervescência religiosa. Ao contrário, os germanos, os celtas, os albaneses só tardiamente conheceram cidades, porque a sua ideologia religiosa não as fomentava; foram não raro estrangeiros que entre eles fundaram as cidades.

 

c) A agricultura. Foi também muito estimulada por concepções religiosas, que atribuíam a certas plantas um valor sagrado ou uma função qualquer no culto. Tal foi o caso da figueira, que na Índia traz o nome de ficus religiosa; os gregos diziam que o figo era símbolo de iniciação a melhor vida. A oliveira gozou de semelhante estima. — O ópio, ao contrário, sendo proibido pelo budismo e o islamismo, é cultivado com estranha irregularidade no Oriente.

 

d) Os animais. Também não poucos animais têm recebido veneração religiosa. Em vários casos a passagem do animal selvagem para o estado de animal doméstico se fez mediante o estado de animal sagrado. O elefante por exemplo, antes de ser animal doméstico, era animal sagrado na índia. No antigo Egito, os gatos sagrados eram numerosíssimos (descobriram-se milhares de múmias desse felino)- julga-se com probabilidade que foram domesticados por constituírem objeto de culto religioso. Outros animais entraram no convívio do homem, a fim de honrarem a Divindade pela sua beleza; assim a íbis, no Egito; o pavão, na Índia; o gamo, no Japão.

 

e) A indústria. Não menos profunda é a influência benéfica da Religião no desenvolvimento da indústria. A fabricação de laticínios por exemplo está em grande parte a serviço do culto no Oriente; nos templos do Tibete centenas de lamparinas ardem dia e noite, alimentadas por manteiga; os «lamas» têm o rosto, as pernas e as mãos untados com manteiga. A fabricação do papel e do livro têm dependido muito das necessidades do culto é da piedade; o mesmo se dá com os textis e a metalurgia.

 

f) O comércio. Está claro que as aglomerações vultuosas de fiéis motivadas pela religião acarretam intensificação benéfica do comércio; as primeiras moedas eram objetos estimados por seu caráter ritual ou seu valor religioso. A contabilidade dos bancos e escritórios tem suas origens nos templos da Mesopotâmia, onde os sacerdotes movidos por respeito sagrado, faziam o inventário de tudo que dizia respeito ao culto e ao sustento do templo.

 

g) Os transportes, as vias e as pontes devem grande parte do seu incremento ao fervor religioso de peregrinos e missionários. Não raro a afluência. a determinado santuário provocou a abertura de estradas, assim como a multiplicação e o aperfeiçoamento de veículos — Em particular, as pontes têm sido obras de sacerdotes ou de pessoas dedicadas a Deus. Com efeito, os romanos pagãos, por exemplo julgando que os rios tinham algo de sagrado, reservavam a construções de pontes a um grupo especial de sacerdotes. Entre os cristãos da Idade Média, era a caridade que levava os fiéis a formar confrarias construtoras de pontes: havia os «Irmãos Pontífices», aos quais se devem as pontes de Avinhão e do Espírito Santo, sobre o Ródano (França).

 

h) Por fim, note-se outrossim que n0 surto das artes está em geral a inspiração religiosa; as primeiras peças literárias das antigas e modernas civilizações são documentos religiosos; costumam estar redigidos em poesia, que é a forma literária mais correspondente ao entusiasmo sagrado (tenham-se em vista, por exemplo, as obras de Homero e dos «teólogos» gregos). A pintura e a escultura não são menos tributárias à Religião.

 

Em suma, registra-se o seguinte: sempre que nos é dado observar as origens ou as fases iniciais de determinada cultura verificamos que as suas diversas manifestações estão todas indistintamente fundidas com a Religião; é no seio materno da Religião que elas nascem e por muito tempo são nutridas.


Donde se vê que considerar a Religião como algo de pré-lógico ou como produto da covardia do homem significa, de certo modo, lançar uma nota de desprezo sobre a própria cultura humana, que nasceu no seio da Religião. Tal posição equivale a impossível associação de contrastes ou a verdadeiro absurdo.


Vêm a propósito aqui as observações de famoso geógrafo contemporâneo:


«A maioria dos homens atesta sobre a terra a existência do sobrenatural; a espécie humana, em graus diversos, mas de maneira geral, é religiosa; esta, aliás, vem a ser uma de suas características; o «homo faber et sapiens» é também primordialmente um «homo religiosus». Por obra dele, a terra está impregnada de religiosidade. A pujante tarefa cultural dos homens não foi efetuada somente em vista da instalação da espécie humana sobre o globo, mas parte muitas vezes grandiosa desses esforços foi empreendida mais ou menos diretamente a fim de proclamar ou exaltar a existência de seres sobrenaturais ou sagrados...


A religião nos aparece como um dos grandes fatores que transformam a face da terra e, em qualquer caso, como o motivo de atividades caracteristicamente humanas... À semelhança do homem, o animal (irracional) lutou contra os elementos da natureza; mas o que somente o homem fez, foi dar vulto à ideia da Divindade sobre a face do globo. A Geografia religiosa vem a ser a Geografia mais especificamente humana...» (P. Deffontaines, Géographie et Religions. Paris 1948, 8.12).

 

2. Ainda um fato muito interessante merece atenção.

 

Na extrema ponta meridional da Terra do Fogo, vivem duas tribos irmãs de Índios, que têm. sido recentemente estudadas pelos etnólogos: os Alakalufs e os Yamanas.


Os Alakalufs estão em franca decadência, prestes a se extinguir: em 1953 a tribo contava apenas 61 membros, minados por sífilis, doenças pulmonares e alcoolismo, de sorte que se julga que dentro de dez ou quinze anos estarão totalmente extintos. Esses índios vivem numa inatividade quase absoluta; o governo chileno lhes dá vestes e comida, sem prover ao seu desenvolvimento físico e intelectual. Com isto vão-se embrutecendo cada vez mais; suas faculdades superiores — a inteligência e a vontade — quase não se exercitam: as expedições de caça se tornam cada vez mais raras; de vez em quando fabricam uma canoa, um anzol ou uma cesta... Ora a regressão física e cultural repercute na religiosidade desses homens; é muito depauperada; as antigas tradições estão quase por completo esquecidas; o culto, que exigiria certo esforço, já não é praticado. Tem-se a impressão de que a religião que eles ainda hoje manifestam, é um mínimo resquício daquilo que outrora possuíam; a crença que neles mais firme permaneceu, é a crença no Além, onde sobrevivem os mortos. Tal estado de coisas parece atestar que, com o embrutecimento do homem e de suas faculdades superiores, se atenua o senso religioso; quando o homem deixa de viver plenamente como homem, isto é, como ser inteligente e ativo, depaupera-se-lhe a religiosidade.


Estado de coisas diferente verifica-se na tribo dos Yamanas, irmã da dos Alakalufs. Também os Yamanas estão em via de extinção por motivo de epidemias que os acometem. Mas, em oposição aos Alakalufs, nutrem uma concepção dinâmica da vida e uma noção severa dos deveres do homem. Lutam ardorosamente pela existência cotidiana; um deles declarou a um dos seus exploradores recentes, o etnólogo austríaco Gusinde: «As coisas não são como desejaríamos que fossem. Os homens têm o dever de trabalhar sem descuido... Não há alegria sem esforço prévio».

E qual seria o tipo de religião desses índios?


Já o citamos atrás. Acreditam num Ser Supremo, que não come nem bebe (é espírito, dir-se-ia em linguagem filosófica) e que reside por cima da abóbada celeste, além das estrelas; chamam-no Watauinewa ou também Hitapuan, «Nosso Pai», ou ainda «o Forte, o mais Alto, o Habitante do Céu». É o tutor dos bons costumes e da justiça; a doença e a morte são manifestações do seu desagrado. O melhor meio de atrair a sua benevolência é viver dignamente, ou seja, respeitando as tradições morais da tribo.


Certamente estas crenças não lhes foram incutidas pelos cristãos, pois fazem questão de as distinguir de idéias novas que lhes transmitiram os missionários; o nome de Deus está ligado a antigas formas rituais e a cerimônias de origem evidentemente local; o vocabulário religioso consta de termos arcaicos da língua desses índios...


Este fenômeno bem mostra que a Religião, longe de ser produto do homem «pré-lógico» ou bruto, é expressão da inteligência; desde que esta se manifeste, é religiosa ; por sua vez, a Religião excita e desenvolve as faculdades superiores do homem; quando estas degeneram, também a Religião definha (as observações aqui consignadas se devem a quem passou cinco anos de estudos na Terra do Fogo, de lá voltando em 1953: J. Emperaire, Les nômades de la mer. Paris Galli- mard, collection «L'espèce humaine», 1955).


Demos agora um passo a mais.


Visto que a Religião é manifestação típica do homem, pergunta-se: não terão sido o fetichismo e o politeísmo as primeiras afirmações religiosas da história, de modo que só aos poucos os povos chegaram a professar o monoteísmo, como ensinavam os autores evolucionistas do século passado?

Tenha a palavra a tal respeito a ciência dos nossos dias.

 

2.3) O monoteísmo ou crença num Deus único e pessoal, forma primordial da Religião.

 

Tal conclusão decorre da observação dos povos recenseados às págs. 270/1 deste fascículo, povos tidos como representantes, ainda hoje subsistentes, da primeira fase da cultura humana.


1. Contrariamente às teorias do séc. XIX, verifica-se que essas tribos professam a crença num só Deus bom, Autor de tudo e todos, a quem os homens devem obediência e prestação de contas dos seus atos. Esta asserção está hoje em dia assentada sobre denso material colhido pelos exploradores.

 

A título de exemplo, seja recordado o caso dos Yamanas, brevemente descrito às págs. 274-5 deste fascículo.


Tenha-se em vista outrossim a tribo dos pigmeus Efés, estudada pelo etnólogo Paulo Schebesta, o qual relata um diálogo seu com dois dos anciãos do clã:

 

«Quem fez o que nos cerca?», perguntou o europeu.

Calaram-se os aborígenes. Mas o explorador continuou:

«Porque oferecemos as primeiras frutas a Toré?»

A nova pergunta foi suficiente para provocar a manifestação de proposições muito caras àquela gente. Respondeu um dos interpelados:

«Tudo pertence a Toré. Toré tudo fez. Toré fez as árvores Fez Pucopuco (o ancestral da tribo); Toré vê tudo; Toré nos vê; ouve o que dizemos. Ele sabe de todo o mal que se comete; castiga os culpados, e até mesmo os magos, pois Toré fez também os magos».

A seguir, o velho falou do poder de Toré sobre o raio, a morte as almas, etc. Cf. P. Schebesta, Die Bambu ti, die Zwerge vom Congo. 1933.

 

Outro episódio significativo é narrado por M. Briault, que passou quinze anos entre os negros Pamués, habitantes do Gabão francês (África). Estes aborígenes cultuam um Deus só, denominado Nzame (da raiz bantu mba, que significa «fazer, arrumar, plasmar»). Deus assim aparece, na espiritualidade daquela gente, como o Grande Artífice, do qual dizem os seus devotos: «É aquele que nos fez nosso Pai».

Um dia Briault sugeriu a um grupo de maiorais da terra a ideia de existirem dois deuses supremos; responderam, porém, decididamente:

«Dois deuses iguais, isso é coisa impossível; fariam a guerra um ao outro, e o mundo estaria destroçado».


Há autentica sabedoria em vestes muito simples: os conceitos de dois deuses iguais pugnam um contra a outro, excluindo-se mutuamente.


«Deus terá fim? Morrerá um dia?»

— «E quem colocarias em seu lugar?»

Esta resposta equivale a dizer que Deus é o Ser absolutamente necessário.


Os selvagens acrescentavam: «Nzame não é um homem como nós». E como explicavam isto? Árdua questão, sem dúvida... Afirmavam sentir a presença de Nzame em toda a parte, embora ele permaneça invisível; comparavam-no ao ar, sem o qual nenhum ser pode viver, o qual (ar), porém, não tem figura sensível. Asseguravam também que Deus é soberanamente poderoso e bom, não podendo ser constrangido por encantamentos nem conjurações mágicas. Merece respeito e piedade. Cf. M. Briault, Polythéisme et fétichisme. Paris 1928.

 

Encontram-se em grau variável entre essas tribos primitivas elementos de magia e superstição; parecem, porém, importados de outros povos, seus vizinhos mais adiantados, com os quais os infra- -civilizados têm que entrar em contato, para se prover de fogo (quando necessário) ou para realizar certo comércio. Verifica-se, contudo, que, quanto mais rude e fechada em si é determinada tribo, tanto mais pura e simples é a sua religião, permanecendo fiel ao monoteísmo.

 

2. As observações até aqui propostas sugerem mais esta conclusão: foi com o progresso da cultura que o homem começou a deturpar o seu monoteísmo inicial, caindo nos tipos de religião grosseiros que os evolucionistas julgavam anteriores à crença num só Deus.


Entende-se bem tal roteiro da história das religiões. A medida que se desenvolve a civilização, o homem entra em contato com a natureza e seus mistérios; percebe a sua dependência frente aos grandes fatores da prosperidade e da desgraça; o sol, a lua, a terra fecunda, a chuva, o trovão, etc. Dai surge-lhe a tentação de transferir para estas criaturas o conceito de Deus, o qual é então esfacelado.


Mais ainda: para explicar a diversificação da religião inicial, levar-se-á em conta o seguinte. Todo homem traz em si duas aspirações espontâneas: a de saber e a de poder ou dominar. Ora a religião primitiva era muito simples, ensinando ao homem apenas o essencial a respeito de Deus e da vida moral; em consequência, o desejo de saber ou de explicar os mistérios levou muitos dos antigos a tentar suprir, com o bom senso ou com a fantasia, as lacunas deixadas pela sua crença religiosa; assim tiveram origem os mitos, histórias fantasistas concernentes à Divindade e aos homens, nas quais o conceito de Deus é geralmente rebaixado. — Outros indivíduos, impelidos pela ambição ou pelo desejo inato de dominar, começaram a explorar a Religião (fator certamente poderoso) para obter prestígio junto aos seus semelhantes; apresentaram-se como detentores de segredos (fórmulas e artes) capazes de forçar a Divindade a intervir em favor dos homens. Tais são os magos, que, como se vê, também derrogam aos conceitos de Deus e Religião, pois pretendem colocar a Divindade a serviço do homem.


Recolhendo-se os dados propostos na presente explanação, pode-se reconstituir a evolução da cultura humana e dos fenômenos religiosos conforme o quadro publicado em «P. R.»
13/1959, qu. 1.


Em conclusão, dir-se-á: a Religião, longe de ser artifício convencional, é tão espontânea quanto espontâneo é o brado do homem em demanda de um termo que não apresente lacuna nem deficiência: o Absoluto.

E não poderia ser vão esse brado ?... vã a Religião ?


Tenha-se em mente a agulha magnética de uma bússola: agita-se irrequieta em torno do seu eixo até encontrar o norte. E por que gira ? Porque na realidade há fora dela um polo que a atrai e a impede de repousar enquanto não se dirija para ele. Assim também há fora da alma humana um polo que a atrai incessantemente; provoca nela avidez e sede, garantindo-lhe, porém, repouso e paz, desde que se dirija para Ele mediante fiel observância religiosa.


«Através de todas as suas aberrações, o espírito humano sempre se orientou para a Divindade. Houve quem de tempo em tempo tentasse imprimir-lhe a direção oposta. Contudo ele sempre protestou e retomou, logo que o pôde, a sua orientação habitual. O espírito humano, à semelhança da agulha magnética, poderia dizer-nos no caso: 'Tal é a minha natureza!'» (A. Réville, Prolégomènes de l'histoire des Religions 90).

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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Orações  Comuns  2773 Oração de Libertação15.26
Diversos  Apologética  4169 Comer sua carne literalmente?14.14
Aulas  Doutrina  1497 Ser comunista é motivo de excomunhão?13.76
Diversos  História  4042 R.R. Soares e Edir Macedo13.62
PeR  O Que É?  0516 O Que é a ADHONEP?13.20
PeR  História  0515 O Recenseamento sob César Augusto e Quirino12.08
Diversos  Protestantismo  1652 Desafio aos Evangélicos: 32 Perguntas11.21
PeR  O Que É?  2142 Quiromancia e Quirologia10.85
Diversos  Prática Cristã  3185 Anticonceptivos são Abortivos?10.64
Pregações  Protestantismo  4167 Onde está na Bíblia ...10.04
Pregações  Mundo Atual  4170 A Ditadura do Relativismo9.87
Diversos  Apologética  3729 Desmascarando Hernandes Dias Lopes8.68
Vídeos  Testemunhos  3708 Terra de Maria8.37
PeR  Prática Cristã  1122 As 14 estações da Via Sacra7.87
Diversos  Ética e Moral  2832 Consequências médicas da homossexualidade7.84
PeR  Escrituras  2389 O Pai Nosso dos Católicos e dos Protestantes7.82
PeR  O Que É?  0565 Lei Natural, o que é? Existe mesmo?7.72
PeR  História  2571 Via Sacra, qual a origem e o significado?7.71
PeR  O Que É?  1372 Eubiose, que é?7.52
PeR  Filosofia  0085 De Onde Viemos? Onde Estamos? Para Onde Vamos?7.40
PeR  Testemunhos  0450 Eu Fui Testemunha de Jeová6.94
Pregações  Apologética  4171 Há cristianismo sem Igreja?6.86
A maior prova da instituição divina da Igreja é ela ter sobrevivido, e sobreviver, aos seus hierarcas.
Carlos Ramalhete

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