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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 018 – junho 1959

 

Como Ensinar o Gênesis?

SAGRADA ESCRITURA

BENEDITA (Sorocaba):

Dada a moderna mudança da exegese dos primeiros capítulos do Gênesis (1-11), reina confusão entre catequistas e apologistas sobre a maneira de propor o conteúdo desses textos (a doutrina da criação, do primeiro pecado, etc.) em aulas e conferências. Não se poderiam indicar algumas normas a propósito?

 

Não há dúvida, grande é a confusão no setor apontado, porque, enquanto alguns fiéis católicos, vão abraçando novas explicações de Gên 1-11, outros, receando racionalismo, se fecham na interpretação antiga, simplesmente literal...


Procuremos estabelecer ordem no assunto, fixando alguns princípios:

 

1) Tenha o leitor consciência de que o que levou os exegetas católicos a remodelar a interpretação de Gên 1-11, abandonando cá e lá o sentido literal para adotar o sentido figurado, não é de modo nenhum o medo de admitir milagres ou a tendência a se adaptarem à mentalidade racionalista de nossa época. A mudança se deve a um critério não filosófico, mas filológico e literário (único critério que possa e deva realmente ser aplicado no caso) ; com efeito, descobriram-se, a partir do século passado, no Oriente documentos profanos contemporâneos aos primeiros escritores bíblicos (séc. XIII a. C.), documentos que projetaram luz sobre o texto da Bíblia, dando a ver que certas expressões, até os últimos tempos entendidas ao pé da letra, não têm na verdade o significado que os antigos lhes atribuíam, mas são autênticas figuras de linguagem, comuns entre os orientais anteriores a Cristo ; tornou-se então necessário aos exegetas reformar as interpretações clássicas, deixando de afirmar certas proposições usuais na Idade Média.


Entre outras descobertas notáveis, está a do amplo emprêgo simbolista das cifras; estas, na mentalidade antiga, indicavam frequentemente qualidades, verdades filosóficas, e não quantidades ou verdades das ciências naturais. Conscientes disto, os exegetas abandonaram o sentido realista ou matemático atribuído à «longevidade» de Adão, Matusalém, etc. em Gên 5 e 11; os comentadores desistiram de dizer em nome da Bíblia que o gênero humano sobre a terra tem 4 ou 5 mil anos apenas (cí. «P. R.»
17/1959, qu. 5); positivamente afirmam que os Patriarcas bíblicos, tendo vivido x anos em época x (há centenas de milênios atrás), são apresentados pela Bíblia como figuras veneráveis e fidedignas testemunhas da tradição religiosa.


Se, de um lado, o exegeta católico não é movido pelo medo dos milagres ou pela tendência a se acomodar à mentalidade racionalista de nossos dias, ele, de outro lado, não se deve deixar sugestionar pelo desejo de encontrar na Escritura proposições de fé ou de mística preconcebidas, ... de encontrar tais e tais cenas edificantes ou tais e tais manifestações retumbantes da Onipotência Divina.


Em uma palavra : nem o racionalismo nem a mística preconcebidos são critério de exegese. Não a filosofia, mas a linguística usada com objetividade tem fornecido ao comentador católico as chaves para penetrar no texto sagrado e interpretá-lo de maneira nova. A Bíblia é um documento literário cuja face visível há de ser analisada com os instrumentos de análise de qualquer peça literária; sòmente após o exame filológico do texto sagrado será lícito recorrer à filosofia e à mística para se penetrar cabalmente a mensagem escriturística.


2) Se nos primeiros capítulos do Gênesis há várias metáforas, vê-se que o mestre de Religião não pode limitar sua tarefa a narrar simplesmente o que se lê no texto sagrado (há quem julgue — erradamente — fazer obra especialmente meritória, acentuando os pormenores da letra da narrativa bíblica, a fim de mais excitar a fantasia dos ouvintes e tornar a explanação mais «interessante»). Será absolutamente necessário, após breve relato da narrativa bíblica, explicar o sentido ou a mensagem doutrinária da respectiva passagem e de suas metáforas; o mestre deverá inculcar bem aos discípulos que essa mensagem do texto é coisa muito mais importante do que a sua roupagem literária.


Frisemo-lo: faz-se mister expor com muita objetividade (evitando excitar a imaginação) a face externa do texto bíblico e sem demora dizer que tal e tal expressão contingente se encontra no texto para significar tal e tal verdade religiosa perene; assim evitar-se-á que o discípulo se deixe absorver por questões que não merecem grande atenção: de que tipo era a fruta proibida (maçã, figo)? Como se explica que a serpente tenha podido comunicar-se com a mulher no paraíso? Quais as teorias científicas que habilitaram o autor sagrado a dizer que a luz teve origem antes dos astros? Em que parte do globo (Ásia, África, América...) ficava o paraíso terrestre? Quantos não fazem dessas questões o grande objeto de suas preocupações, ignorando que não era esse em absoluto c tema de ensinamento visado pelo autor sagrado! Errôneo seria o método catequético que deixasse o discípulo ficar preso a perguntas tão alheias às preocupações do hagiógrafo.

 

3) Há quem queira evitar tal desvio de atenção do discípulo, propondo que não se lhe relatem os elementos metafóricos contidos em Gên 1-11, mas se apresente direta e tão somente a doutrina religiosa veiculada por tais figuras. A solução, porém, não parece de bom alvitre. Equivaleria a um menosprezo da Palavra de Deus tal como ela quis apresentar-se a nós, em sua face humana e literária ; ademais esse. silêncio poderia provocar grave problema quando mais tarde o discípulo viesse a verificar que a Bíblia emprega linguagem tão diferente da linguagem técnica usada por seu mestre. Sendo assim, é de desejar que este não deixe de apresentar diretamente o texto bíblico ; faça-o, porém, após esta cláusula introdutória:


«Assim falava, no século XIII a. C., um chefe de beduínos (Moisés) a seus súditos (os filhos de Israel), quando após uma jornada de caminhada pelo deserto se reuniam em serões para evocar as tradições pátrias, que deviam alimentar a coragem do povo peregrino.

Os filhos de Israel propunham a Moisés as questões capitais que afloram a todo espírito humano: 'Donde vimos nós, os mortais? Para onde vamos? Qual a sorte futura que nos aguarda?... E este mundo que nos cerca, que significado e valor tem? Merecerá ser cultuado e adorado à guisa de Deus?... E o mal, o sofrimento como entraram no mundo? Serão efeitos de um princípio mau eterno?... ou algo de contingente?... E qual a garantia do êxito de nossa travessia no deserto? Qual a missão de Israel na história do mundo?'».


Posto este quadro, o mestre de Religião poderá tranquilamente relatar ou ler o que a Bíblia Sagrada apresenta; o discípulo estará habilitado a compreender que se trata de um modo de falar de época e ambiente bem diferentes dos nossos ; estará habilitado a compreender que Moisés só podia recorrer às concepções simples de seus rudes ouvintes para ensinar, não astronomia nem geologia ou biologia, mas verdades filosóficas e religiosas de valor perene. Em consequência, ou o aluno se sentirá impelido, após o relato ou a leitura bíblica, a pedir ao professor que lhe explique em linguagem do séc. XX o significado do episódio escriturístico ; ou, caso o discípulo não formule espontaneamente tal pedido, o professor, ao menos, estará em condições de o fazer (deverá, aliás, em qualquer caso fazê-lo) sem que, com isto, dê a impressão de se estar contradizendo ou de estar contradizendo à Bíblia. A transição do aparato literário para a mensagem perene será orgânica, pois terá sido preparada desde o inicio da preleção.

 

4) Na catequese de crianças, não seria lícito separar estas duas etapas do ensinamento (apresentação da face externa e contingente do texto, explanação de sua mensagem perene), protelando-se para anos posteriores o ensinamento propriamente religioso ou teológico, sob pretexto de que a criança, em sua mentalidade infantil, se deleita simplesmente com as metáforas bíblicas. «Mais tarde, quando as dúvidas surgirem, poderia pensar o catequista, dir-se-á ao adolescente que tais metáforas não são a última palavra da Bíblia, mas que têm de ser entendidas em sentido superior».


Falso seria esse método, pois muitas pessoas ficam apenas com um ensinamento rudimentar de Religião, não frequentando o segundo ou o terceiro ano de catecismo. Além disto, dado que o adolescente volte mais tarde ao professor de Religião e lhe apresente suas dúvidas, pode acontecer que o ensinamento superior ou a interpretação autêntica da Bíblia já não encontrem acolhimento no jovem ; parecerão talvez um «arranjo» postiço ou uma «saída» imaginada na hora pelo mestre. Em geral, o discípulo tende a conservar as primeiras impressões de Religião que o catequista lhe comunica nas aulas iniciais ; a Religião, por conseguinte, apresentada em termos puramente infantis, poderá parecer a muitos, por todo o resto da vida, ser algo de infantil e bagagem inútil na idade varonil.

Muito sábias são as advertências de experimentado pedagogo transcritas abaixo:


«Desde os primeiros ensinamentos de história sagrada, evitar-se-á suscitar idéias e concepções falsas concernentes a esses textos. Com efeito, já está preparando para o futuro um abalo da confiança na veracidade da Sagrada Escritura o mestre que incute inicialmente uma espécie de fé maciça em todos os pormenores extrínsecos do texto sagrado, prestes a remover mais tarde as dúvidas que necessariamente se levantarão na mente do aluno, dizendo-lhe então: 'Isso significa coisa muito diferente'. Tais explicações vêm tarde demais quando elas só vêm como respostas a objeções. Ê claro, no primeiro contato dos jovens com o Antigo Testamento, não nos é possível introduzi-los simultaneamente em todas as questões minuciosas, mas é preciso, desde o início, que demos uma concepção do Antigo Testamento... capaz de se adaptar e desenvolver, concepção que posteriormente se enriquecerá graças a observações ocasionais e mediante estudo aprofundado dos principais problemas» (H. Junker, citado por C. Hauret, Origines. Paris 1952, 205).


5) Ainda em se tratando da catequese de crianças ou de adultos de cultura simples, está claro que o mestre de Religião deverá evitar encher a mente de seus ouvintes com as diversas sentenças discutidas nas escolas dos eruditos ; tal lastro cientifico só faria gerar confusão nos discípulos. O mestre deverá pessoalmente, sim, estar a par (na medida do possível) das diversas interpretações de que é suscetível o texto explicado ; deverá também conhecer os rumos da exegese católica contemporânea, a fim de poder discernir o valor das várias sentenças. De posse desses conhecimentos, procurará apresentar a seus discípulos uma explicação do texto sóbria, tal, porém, que possa mais tarde ser organicamente desenvolvida pelo raciocínio do adulto. Assim o ensinamento se fará progressiva e homogeneamente. É melhor ensinar a princípio poucas proposições, mas proposições que não precisem de ser retocadas mais tarde, do que transmitir às crianças muitas coisas, coisas que no momento satisfazem à imaginação do pequenino, mas em idade posterior se tornam um fardo que sufoca a mente e deve ser removido.


De modo geral, o mestre de Religião abster-se-á de impor a seus discípulos determinada interpretação (o fixismo, por exemplo, ou alguma modalidade de evolucionismo) como se fosse a única autêntica, nos casos em que a Santa Igreja reconhece a legitimidade de outras interpretações. Não queira o professor de Religião ou o apologista, por seu modo de falar direto ou indireto, tolher a liberdade de escolha que seus discípulos ou no momento ou mais tarde hão de querer exercer, desde que a Sta. Igreja mesma não tolha essa liberdade (errôneo, por exemplo, seria pretender impor ou o fixismo ou determinada teoria evolucionista,' pois que nada se encontra a respeito na Bíblia e a Sta. Igreja não repudia o evolucionismo aplicado ao corpo humano).

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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