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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 018 – junho 1959

 

Qual a origem dos festejos de S. João?

HISTÓRIA

TIAGO DO CASTELO (Rio de Janeiro):Qual a origem dos festejos de São João com seus fogos característicos ?


Em resposta, parece oportuno recordar primeiramente algumas das celebrações típicas que nesta ou naquela região se prendem à festa de São João Batista (24 de junho); após o que, serão indicados os dois motivos que as devem ter originàriamente inspirado.

 

1. Os festejos


A Europa inteira, da Escandinávia à ilha de Malta, da Rússia à Espanha, conhece as famosas festividades joaninas, que ocupam maior ou menor número de dias do mês de junho, terminando geralmente a 29, com a solenidade dos Apóstolos São Pedro e São Paulo. Da Europa os costumes passaram para a América, onde tomaram notório relevo.


A manifestação popular predominante nessas comemorações consiste em acender fogueiras mais ou menos majestosas, em torno das quais uma assembleia festiva canta e dança. Há quem ouse pular por cima das chamas, na expectativa de se ver livre de doenças diversas. Sobre o fogo ou sobre as respectivas cinzas, os camponeses fazem passar até mesmo o gado, visando finalidade terapêutica ou profilática. Os respectivos carvões apagados são expostos nas casas de família a fim de protegerem os moradores contra os temporais.


Há quem diga que as águas e certas ervas (a camomila, a tília, a hortelã, o sabugueiro...) adquirem na noite de São João poder medicinal próprio... Donde, em algumas regiões, o costume dos «banhos de São João», assim como a praxe de conservar «águas» e «ervas de São João».


Nessa mesma data as donzelas por vezes tiram a sorte para se informarem sobre o seu possível matrimônio: lançam em água pedaços de chumbo derretido e, da configuração que este toma, pretendem deduzir a profissão e algumas características do futuro esposo. Contraem-se frequentemente noivados por essa ocasião.


Enfim uma série de afirmações maravilhosas se relaciona igualmente com a festa do Precursor em um ou outro recanto da Europa: na noite de São João, asseguram alguns que os animais se saciam com ração de alimento insignificante, os cavalos falam, a água se transforma em vinho, tesouros ocultos se tornam manifestos, do seio das montanhas partem vozes de queixume e pranto; cidades e castelos submersos vêm à tona; tochas acesas põem-se a girar em torno dos campanários, desaparecendo em breve. Na Noruega, dizem que os troll, espíritos malignos, saem das cavernas das montanhas, que magicamente se abrem na noite de São João. Nas zonas à beira-mar, há quem espere ansiosamente o nascer do sol, pois, conforme se crê, o astro-rei dança sobre as águas até atingir certa altura ou, segundo outros, ele se mergulha três vezes no mar, sendo que de cada vez uma nuvenzinha branca lhe enxuga a face. Na esfera do sol, há quem «veja» o vulto de São João a se lavar no mar dentro de uma concha de ouro; outros há que contemplam a sua cabeça a derramar sangue...


Eis várias das práticas e crenças que o folclore associa à festa de São João Batista.


Pergunta-se agora qual o motivo por que tais observâncias se relacionam com a figura do Precursor.

 

2. As origens

 

Os festejos do fogo de junho são em sua origem independentes da estima devotada ao Batista; derivam-se de costumes outrora vigentes entre os pagãos, costumes que, depurados de qualquer profissão de fé politeísta, encontraram acolhimento no povo cristão. Com efeito,

 

1) o primeiro motivo inspirador das mencionadas comemorações é o culto do fogo e, em particular, do sol, que os pagãos observavam com carinho.


Na Gália, a veneração do fogo parece ter sido introduzida pelos celtas, mormente pelos seus sacerdotes, chamados «druidas»; nos países em que o Cristianismo só mais tarde penetrou, ainda se notam, nos festejos de junho, vestígios de ritos pré-cristãos, com alusões (que já não são profissões de fé) a divindades pagãs, como seja o deus Balder na Noruega, o deus Ligo na Letônia, o deus Kupalo na Rússia.


Está claro que o culto do fogo e do sol tomava suas expressões mais características por ocasião do solstício do verão, quando o dia atinge o auge de sua duração no hemisfério setentrional ; a 24 de junho o sol se encontra no trópico do Câncer, chegado ao ponto de distância máxima do equador; ai parece demorar-se alguns dias, dando ocasião ao solstício do verão, que passou a ser celebrado pelos pagãos como festa do astro-rei.


Ora aconteceu que entre os cristãos foi fixada a celebração da natividade de São João Batista no dia 24 de junho. A razão disto, como se compreende, era bem diversa da que inspirara a festa do fogo: efetivamente, sendo a Anunciação do anjo a Maria comemorada pela Liturgia a 25 de março (nove meses antes da data convencionalmente marcada para o natalício de Cristo;
cf. «P.R.» 3/1958, qu. 8), devia o nascimento de São João Batista ser festejado três meses após a Anunciação, pois o anjo Gabriel comunicava a Maria que Elisabete, a mãe do Precursor, então se achava no sexto mês de sua gestação (cf. Lc 1,36).


Foi por esta convergência de motivos, não premeditada, que vieram a coincidir na mesma data as celebrações do fogo e a solenidade de São João Batista.


Compreende-se que a incidência de festas tenha provocado confusão na mente do povo cristão. É o que se depreende das repetidas exortações de bispos e concílios de inícios da Idade Média que chamavam a atenção dos fiéis para a necessidade de não cederem a práticas pagãs ou supersticiosas por ocasião da comemoração de São João Batista. Lê-se, por exemplo, num sermão de S. Elígio, bispo do séc.
VII:

 

«Na festa de São João ou em qualquer solenidade que seja, ninguém celebre os solstícios nem se entregue a danças girantes ou saltantes... ou a cânticos diabólicos».


Uma lei do reino dos francos datada de 21 de abril de 742 prescrevia:

«Esforce-se o bispo, de acordo com o conde (oficial civil), para que o povo não se entregue a observâncias pagas.

Mandamos que, segundo os cânones dos concílios, cada bispo em sua diocese tome as providências, com o auxilio do conde (gravio), que é o defensor da Igreja, para que o povo de Deus não se dê às práticas pagãs, mas abandone e repudie essas ignomínias dos gentios; proíbam cuidadosamente os sacrifícios dos mortos, ritos supersticiosos praticados sobre os túmulos, os sortilégios dos magos, as consultas dos adivinhos, os amuletos, os agouros ou encantamentos ou imolações de vitimas, que homens insensatos realizam junto às igrejas segundo o rito pagão, invocando os nomes de santos mártires ou confessores, provocando assim a cólera de Deus ou dos seus santos; proíbam também aqueles fogos sacrílegos que chamam nied fyr, e todas as práticas dos pagãos, quaisquer que sejam» (Boretius, Capitularia regum francorum t. I pág. 25).


Este texto é particularmente interessante por mencionar fogos sacrílegos, que comumente eram chamados nied fyr (lê-se em outros documentos nod fyr, nied feor, nied
fies...). Que significa esta expressão? — Fyr, no dialeto <lós francos, designava o fogo. ao passo que nied era o prazer, o divertimento. Esses fogos de prazer ou divertimento, na passagem acima, são tidos como sacrílegos porque considerados próprios dos rituais pagãos. Sabe-se, com efeito, que uma das notas características do fogo usado em cerimônias dos gentios era a de ser produzido pelo atrito da madeira (uso este inspirado por crenças supersticiosas), ao passo que a via regular e, por assim dizer, ortodoxa para a produção do fogo entre os cristãos da Gália era o choque do ferro contra a pedra. Ora encontra-se num «Catálogo de superstições e usos pagãos» (Indiculus superstitlo: num et pagttniaram) recriminados pela Igreja na França antiga o seguinte titulo: De igne fricato de ligno, quod vocant nodfyr (A respeito do fogo obtido por atrito da madeira, fogo que chanam nodfyr). Ao nodfyr assim produzido se prendia uma série de crenças estranhas: quem saltasse sobre o nodfyr era tido como imunizado de males futuros; à fumaça desse fogo expunham-se vestes, que depois eram usadas contra a febre; em algumas regiões, atirava-se no nodfyr uma cabeça de cavalo, no intuito de forçar as bruxas da vizinhança a se mostrarem...


Dada a ampla difusão das comemorações pagãs do fogo que coincidiam com a celebração de São João Batista, os bispos, em vez de combater diretamente as observâncias, houveram por bem utilizá-las para fomentar a verdadeira piedade; resolveram, portanto, dar aos usos dos antigos francos (na medida em que não eram necessàriamente uma profissão de paganismo) um sentido cristão (foi, aliás, o que aconteceu com mais de um costume dos antigos gentios, nas proporções em que tal uso era suscetível de ser cristianizado). — As cerimônias do fogo de São João Batista assim começaram a gozar de tolerância por parte dos prelados, que as explicavam aos fiéis à luz dos princípios do Evangelho. Eis, por exemplo, como a respeito se exprimia o teólogo e liturgista João Beleth (em 1162 aproximadamente):

 

«Na festa de São João Batista são carregadas publicamente tochas ardentes e acendem-se fogos, que são o símbolo de São João, o qual foi luz e chama ardente a preceder a verdadeira luz. — Feruntur quoque (in festo Johannis Baptistae) brandeae seu faces ardentes et fiunt ignes, qui significant sanctum Joannem, qui fuit lumen et lucerna ardens, praecedens et praecursor verae lucis» (Summa de divinis officiis. Dillingen 1572, c. CXXXVII).


Este mesmo texto foi, no século XIII, reproduzido pelo liturgista Durando de Mende (+1296).


Assim enquadrados dentro da ideologia cristã, os festejos do fogo de junho já não constituíam uma expressão de paganismo. Tornaram-se lícitos aos cristãos a titulo de manifestação de alegria popular — coisa que o S. Evangelho não repudia, mas que naturalmente deve ser sujeita a controle a
fim de não degenerar em orgia.


2) Historiadores recentes têm apontado ainda outro fator que haverá influenciado as celebrações de junho: tal fator seriam antigos ritos campestres de purificação, profilaxia e propiciação. Este elemento é que terá sugerido a estima do «banho de São João» (loção nos rios praticada a horas noturnas) e da «erva de São João» (plantas colhidas a 23 e 24 de junho e pretensamente dotadas de especial poder contra doenças da boca, contra epidemias e raios, em favor dos homens e do gado).


Esta outra classe de manifestações se aproxima da superstição e, como tal, não pode merecer aceitação nem reconhecimento por parte da Sta. Igreja.

 

Em conclusão, verifica-se que as festas do fogo de junho procedem de antigos costumes não-cristãos que a Igreja procurou cristianizar e que Ela reconhece como legítimos na medida em que não se opõem à Moral do Evangelho.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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