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PERGUNTE e RESPONDEREMOS 017 – maio 1959

 

O Rito da Extrema Unção

AMY CAMUS (Poços de Caldas): “O rito da Extrema-Unção terá sido instituído por Cristo? E, se foi instituído pelo Senhor, qual o seu autêntico significado?


Do séc. XVI para cá, tem-se dito por vezes que o Sacramento da unção dos doentes, tal como é administrado na Igreja, é praxe tardia ou é derivada de costumes vigentes entre os pagãos. Resumindo todos os pareceres pejorativos a respeito, pode-se citar a expressão de Calvino, que tinha a Extrema-Unção na conta de «hipocrisia de palhaço».


Para resolver as dúvidas, não haverá melhor processo do que um exame sereno e sumário das fontes da Revelação cristã. Dois são os textos bíblicos que neste setor interessam o estudioso:
Tg 5,14-16 e Mc 6,13.


1. A exortação de Tg 5,14-16


Eis a seção que mais explicitamente trata do assunto nos escritos do Novo Testamento:

Tg 5, 14 «Está enfermo (asthenéi) algum de vós? Mande chamar os presbíteros da Igreja, e orem estes sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor. 15 E a oração da fé salvará o enfermo (kámnonta), e o Senhor o soerguerá, e, se tiver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados.

16 Confessai, portanto, uns aos outros os vossos pecados, e orai uns pelos outros, para que vos salveis. Muito pode a oração fervorosa do justo».


1.1 Aprofundemos o significado dos dizeres de São Tiago.


Está enfermo algum de vós?”. O verbo grego asthenéi, aqui ocorrente, costuma designar doença física (cf. Mt 10,8; 25,36; Mc 6,56; Lc 4,40; 7,10; Jo 4,46; 11,2-4; At 9,37; 2 Tim 4,20). Por vezes no Novo Testamento toma sentido figurado, equivalendo a «fraquejar espiritualmente»; o sentido metafórico, porém, é geralmente manifestado ao leitor pelo contexto — coisa que não se dá nesta passagem de S. Tiago, onde o Apóstolo (v. 15) designa o enfermo como kámnonta, isto é, alguém que perdeu todas as forcas físicas e se vai extinguindo (cf. Sab 15,9; Jó 10,1). Note-se mesmo que em Tg 5,14s se deve tratar de doença relativamente grave, pois o autor supõe que o enfermo, impossibilitado de ir ter com os presbíteros, os mande chamar à casa.


«Chame os presbíteros...». A palavra grega presbyteroi designa, segundo a sua etimologia, «os mais velhos» ou «os anciãos». Tal, porém, não é o seu sentido neste texto, pois «presbíteros» nas epístolas do Novo Testamento vêm a ser os chefes das primeiras comunidades cristãs, superiores aos leigos e aos diáconos, inferiores aos Apóstolos e aos principais discípulos destes (cf. At 11,30; 14,22; 20,17; 1 Tim 5,17.19; Tit 1,5; 1 Pdr 5,1). Se a unção que S. Tiago está para recomendar, fosse praticada por leigos, não se entende que ficasse reservada aos mais velhos; estes não são necessariamente os mais inocentes ou os mais santos, nem os mais carismáticos dentre os fiéis. Donde se vê que presbyteroi neste texto não designa idade (velhice), mas um cargo hierárquico ou a dignidade sacerdotal (cf.
At 20,17.28).


«Orem... ungindo...». Todo o rito está descrito nestas palavras. Consta da aplicação de óleo acompanhada de orações ou fórmulas próprias. Tal é, sem dúvida, a estrutura dos sacramentos cristãos: compreendem sempre dois elementos, tecnicamente chamados «matéria» e «forma».


O óleo era utilizado em diversos misteres da antiguidade: tinha por vezes valor .religioso, servindo para consagrar, ou seja, para devotar uma pessoa (sacerdote, rei...) ou um objeto (altar, pedras, objetos de culto...) ao serviço de Deus; podia também ter emprego profano ou medicinal, servindo para suavizar dores e fortalecer o organismo (cf. Is 1,6;
Lc 10,34). O óleo era assim elemento muito apto a simbolizar os efeitos de salvação, corporal e espiritual, que S. Tiago está para atribuir ao rito dos presbíteros; em outros termos: era elemento muito oportuno para servir de matéria sacramentai, principalmente ao se tratar do sacramento dos doentes.


Antes, porém, de analisarmos os efeitos do rito, faz-se mister considerar a fórmula “em nome do Senhor”.Esta significa que a unção não é simplesmente ato de medicação profana, baseado nas virtualidades naturais do óleo, mas, sim, que ela se faz em contato com Cristo, em vista de um efeito religioso; é mesmo provável que se invocasse com fé o nome de Jesus por ocasião do rito (cf. At 3,6; 4,10; 16,18; 19,13): — A fórmula, porém, ainda parece significar algo mais: «os profetas falavam em nome do Senhor»; o que certamente significa: falavam por ordem do Senhor, em virtude de um mandato recebido d'Ele. Donde se poderia concluir que os presbíteros, no caso da unção dos doentes, agiam quais mandatários de Cristo a praticar um ato instituído por Ele mesmo.


Três são os efeitos atribuídos à unção: salvação, soerguimento e perdão dos pecados.


«Salvará...». O verbo ocorrente sózein, segundo certos intérpretes, significaria, no caso, cura do corpo enfermo; tal é, dizem, o seu sentido originário e o mais frequentemente verificado nos escritos do Novo Testamento. Outros, porém, baseando-se também em textos dos livros sagrados, julgam tratar-se de salvação espiritual, isto é, de remissão do pecado e de cura dos vícios da alma, o que muito verossímil se torna, se se leva em conta que S. Tiago em sua epístola usa quatro outras vezes o verbo sózein, sempre no sentido de salvação da alma (cf. 1, 21; 2,14; 4,12; 5,20). — A interpretação mais plausível recomenda que se deixe ao referido verbo o seu significado amplo e ambivalente: a oração da fé acarretará para o doente a salvação, isto é, o que em tal caso individual for de fato salvação; para uns, talvez isso inclua recuperação da saúde física; para todos, porém, incluirá a graça de Deus e disposições sobrenaturais (aumento de fé e amor) para que o enfermo se vá santificando cada vez mais através da doença, e aceite generosamente a morte, caso esta esteja nos próximos desígnios do Senhor (a morte é, sim, um bem para o cristão, o qual, por conseguinte, não pretende mediante os sacramentos isentar-se dela).


«O Senhor o soerguerá». Não se trata propriamente de alívio, como o insinua a Vulgata latina («alleviabit»). O termo egeiréi do texto grego diz, antes, que o Senhor colocará o doente em pé, fazendo-o levantar-se (cf. Mt 8,26; Mc 1,31; Lc 8,24; Jo 2,19s; At 12,7; 13,22; Rom 9,17). — E em que sentido o fará levantar-se? Os exegetas discordam entre si: uns pensam na ressurreição do corpo após a morte; outros dizem tratar-se de volta ao estado de saúde; um terceiro gupo tem em vista graças ou favores espirituais... De novo, o melhor alvitre parece ser o de não restringir a ampla acepção do vocábulo (já que não há fundamento seguro para a limitar). Entenda-se, pois, o soerguimento adequado a cada um: para este, talvez uma cura milagrosa do corpo; para aquele, a graça de ressuscitar num corpo glorioso; para um terceiro, a força para não sucumbir ao desânimo e ao abatimento na doença.


«E, se tiver pecados, ser-lhe-ão perdoados». A frase é assaz vaga: o Apóstolo supõe que o rito possa ser administrado a quem não tem pecado na consciência; mas admite igualmente seja conferido a quem possui culpas e, provàvelmente, mesmo culpas graves. S. Tiago não se preocupou com a discriminação das circunstâncias em que a unção dos doentes pode e deve ser administrada (era-lhe alheia a intenção de fazer casuística). Acrescentou, porém, que a remissão dos pecados é dada mediante a aplicação do rito. Mais uma vez, o autor sagrado se contentou com uma afirmação de índole geral; não determinou se as culpas perdoadas são culpas veniais ou culpas graves involuntàriamente esquecidas em acusações passadas ou ainda culpas graves que o enfermo já não possa acusar por estar próximo à morte.


Uma coisa, porém, mereceu-lhe a atenção explícita. Após mencionar o perdão dos pecados em 5,15, S. Tiago no v. 16 continua com uma frase ilativa, que não poderia ser interpretada independentemente dos dizeres anteriores: «Confessai, portanto, uns aos outros os vossos pecados». A partícula «portanto» supõe que a. remissão de pecados anteriormente mencionada se faça mediante confissão das culpas (ao menos quando esta seja possível); é o que explica que o Apóstolo prossiga sua explanação insistindo na necessidade de se confessarem os pecados. A confissão, inculca S. Tiago, obtém efeitos benéficos, entre os quais a salvação (da alma e quiçá também do corpo). Assim o autor sagrado insinua que o rito da unção dos enfermos era acompanhado outrora de uma acusação feita aos presbíteros, acusação que visava obter remissão dos pecados. Os termos utilizados por S. Tiago são demasiado gerais para que se possa assegurar que tal confissão equivalia a uma confissão sacramental e que, por conseguinte, o hagiógrafo menciona nesta passagem também o sacramento da penitência; é possível que tenha tido em mente apenas uma confissão geral, semelhante à que ainda hoje se pratica no rito do sacramento dos doentes, antes que o sacerdote inicie as unções.


Os antigos costumavam confessar os seus pecados ao menos nas solenes ocasiões da vida: assim faziam, por exemplo, os judeus antes de receber o batismo de João (cf. Mt 3,6; Mc 1,5); assim fizeram também os pagãos que em Éfeso se converteram mediante a pregação e os milagres de São Paulo («muitos dos que creram, se apresentaram confessando e declarando o que haviam feito», At 19,18).


Como quer que seja, o que nos interessa neste estudo é que o Apóstolo inclui entre os efeitos da unção dos doentes o perdão dos pecados.


Em resumo, verifica-se que tal rito produz três resultados de índole sobrenatural. Donde se conclui que a unção referida por S. Tiago é um sinal sensível portador e comunicador da graça, ou seja, um autêntico sacramento.

Pergunta-se agora: quem terá instituído semelhante rito?


Os exegetas, em resposta, chamam a atenção para o seguinte: seria pouco plausível admitir que o Apóstolo, neste trecho de sua carta, tenha proposto aos fiéis algo de novo ou uma instituição devida à iniciativa do próprio S. Tiago; vista a sobriedade das referências ou a ausência de pormenores, conclui-se que o autor sagrado tratava de um rito já conhecido; as suas recomendações são claras para os iniciados, mas vagas demais para poder dar começo a uma nova praxe na Igreja; o ensinamento escrito de S. Tiago supõe o ensinamento oral e a praxe derivada deste. Leve-se em conta outrossim que S. Tiago escrevia provavelmente por volta do ano 50; antes, pois, desta data verifica-se que os presbíteros já praticavam a unção dos doentes em nome do Senhor, atribuindo ao rito efeitos sobrenaturais. Ora uma tal praxe só se explica por instituição do próprio Cristo, pois, nos poucos anos que medearam entre a Ascensão de Jesus e a redação da epístola de S. Tiago, não é verossímil que algum discípulo tenha podido inventar a «teologia da Extrema-Unção» e torná-la aceita entre os fiéis, como supõe o trecho de Tg. Ademais, é de crer que S. Tiago, dito irmão do Senhor, sumamente respeitado na Igreja antiga, não haveria recomendado a praxe e os efeitos da Extrema-Unção em termos tão categóricos, se não fora por explícito mandato de Cristo.


Conclui-se assim que o Apóstolo, em sua epístola, não fez mais do que promulgar um rito instituído pelo próprio Jesus. Consequentemente, porém, surge a questão: e quando terá Jesus instituído tal rito?

 

2. A unção dos doentes em Mc 6,13 e um pouco de Tradição


S. Marcos refere que os Apóstolos, enviados em missão pelo Divino Mestre, pregavam, «expulsavam muitos demônios e, ungindo com óleo muitos enfermos, os curavam» (6,12s).


Alguns exegetas veem neste texto um testemunho direto de que Cristo instituiu o rito sacramentai referido por S. Tiago. A maioria dos comentadores, porém, observa que tal interpretação ultrapassa os dizeres do Evangelista; S. Marcos apenas dá a saber que uma unção era praticada sobre os doentes com vantagens para a saúde do corpo; não menciona, porém, nem o perdão dos pecados nem benefícios espirituais. Em geral, aliás, quando os Evangelistas se referem ao poder que Jesus conferiu aos seus Apóstolos sobre as enfermidades do corpo, silenciam a remissão de culpas e outros favores espirituais; cf. Mt 10,1; Lc 9,ls.6; Mc 6,7. Isto se entende sem dificuldade: os Apóstolos só receberam o sacerdócio por ocasião da última ceia; não seria, pois, lógico que já antes desta administrassem o sacramento da Extrema-Unção.


Em vista disto, conclui-se que, segundo o texto de Mc, os Apóstolos, por ordem de Jesus, praticavam a unção de doentes já usual entre os judeus (cf. Berachoth 6b); o Senhor, porém, por ocasião dessa prática, se dignava realizar curas milagrosas; tais benefícios corporais insinuavam o sacramento da Extrema-Unção, como diz o Concilio de Trento (sess. XTV, cap. 1), isto é, dispunham os ânimos dos discípulos a compreenderem a eficácia do rito, quando Cristo houve por bem elevá-lo à dignidade de sacramento (a época precisa, porém, em que Jesus tomou esta iniciativa, nos fica velada).


Não se poderia, pois, dizer que no Evangelho há menção explicita da instituição do sacramento dos enfermos por parte de Cristo. Nem essa menção é necessária para se afirmar que Jesus realmente instituiu tal rito: de um lado, nunca foi intenção dos Evangelistas referir tudo (nem mesmo todas as coisas de maior vulto) que Jesus disse e fez (cf. «P. R.»
7/1958, qu. 2); de outro lado, a epístola de S. Tiago supre sobejamente o silêncio dos Evangelhos, pois deste documento se depreende que só Cristo pode ter dado início à praxe mencionada pelo Apóstolo.


Ademais o católico sabe que a Tradição oral, desde que unânime e sempre professada na Igreja, tem valor de fonte autêntica de Revelação Divina. É S. Basilio (+379) quem o diz:


«Entre os dogmas professados na Igreja, alguns nos chegaram por ensinamento da Escritura, outros nos foram transmitidos em mistério pela tradição apostólica; uns e outros, porém, têm o mesmo direito a ser por nós venerados» (De Spir. Sto. 27,66).


Ora verifica-se que realmente desde o séc. II textos da Liturgia e de escritores cristãos atestam o uso do óleo dos enfermos na Igreja. Dispensando-nos de reproduzir aqui a documentação — tarefa que se estenderia longe — notamos apenas que as comunidades de cristãos afastados de Roma desde o séc. V (nestorianos e monofisitas) conhecem e administram até hoje o sacramento da Extrema-Unção; os próprios armênios, que posteriormente negligenciaram tal rito, na época em que se separaram da Igreja, o praticavam, como atesta o Patriarca João Mandakuni (+487) em sua homilia 26a. Não resta dúvida de que a praxe dos orientais cismáticos se deve justamente ao fato de que a unção dos doentes já estava em vigor entre eles antes de se separarem da comunhão católica.

 

3. O significado do rito


Após as conclusões acima, talvez ainda fique uma questão na mente do estudioso: a unção dos doentes terá sido realmente entendida pelo Apóstolo e pelo Senhor como instituição estável, destinada a santificar os fiéis de toda e qualquer geração?


1. A solução será sugerida pelo exame de algumas respostas que a tal questão têm sido dadas.

a) Lutero e Calvino no séc. XVI asseveraram que a unção dos doentes tem ação exclusiva sobre os corpos, destinando-se a restituir , a saúde física abalada (desde que a cura corresponda realmente aos desígnios de Deus). Por absurdo teria sido concebida, a partir do séc. IX, como sacramento, isto é, como rito que perdoa os pecados e produz a graça.

b) Alguns exegetas liberais, fazendo eco a Lutero, afirmam que a unção recomendada por S. Tiago correspondia ao carisma ou dom das curas, a que se refere S. Paulo em 1 Cor 12,9.28. Tal dom, dizem, era concedido na antiguidade aos cristãos dotados de profunda fé; cedo, porém, desapareceu, dado o progressivo arrefecimento da fé.

c) Outra corrente de comentadores propõe a seguinte interpretação: os judeus, e quiçá alguns cristãos antigos, acreditavam que toda doença era decorrente do pecado (cf. Jó 22,4-11; Jo 9,2; conforme At 28,4, tal crença era aceita também por pagãos). Compartilhando esse modo de ver, S. Tiago teria atribuído à unção dos doentes o efeito de perdoar os pecados e,mediante este, o de curar os corpos.


2. Que dizer de tais interpretações?


Seria totalmente alheio ao pensamento de S. Tiago (e, por conseguinte, à mentalidade cristã) supor que Cristo tenha instituído um rito exclusivamente (ou, segundo a sentença e, necessariamente) destinado a prover à saúde do corpo. A doença física, para o Apóstolo (e, consequentemente, para o cristão) não constitui algo de desesperado ou um mal que careça de sentido e por isto deva ser necessàriamente removido por Deus. Cristo rejeitou .explicitamente a concepção segundo a qual as enfermidades do corpo são algo de pecaminoso ou consequências dos pecados pessoais do paciente (cf. Jo 9,3). Por sua vez, S. Tiago inculca repetidamente que o sofrimento físico pode ser mera provação infligida ao inocente para que este se acrisole na virtude:


«Considerai motivo de alegria suprema, irmãos meus, serdes acometidos por diversas provações, pois sabeis que a prova da vossa fé produz a constância, e a constância apresenta obra perfeita, para que sejais perfeitos e irrepreensíveis, sem que falteis em coisa alguma.... Bem-aventurado o homem que suporta a provação, porque, provado, receberá a coroa da vida, que Deus prometeu aos que O amam» (Tg l,2s. 12).


«Meus irmãos, tomai por modelo do sofrimento e da paciência os profetas, que falaram em nome do Senhor. Eis como agora aclamamos bem-aventurados os que perseveraram. Ouvistes falar da paciência de Jó e vistes o desígnio do Senhor, pois o Senhor é compassivo e misericordioso» (Tg 5,10s).


Há, portanto, felicidade no sofrimento físico, conforme o Apóstolo. Estendendo ainda seu olhar, S. Tiago lembra que a pobreza e a humildade do cristão têm valor positivo: tornar-se-ão títulos para que Deus o exalte um dia (1,9); do seu lado, o rico que venha a ser humilhado, só tem razão para se regozijar com isto (1,10; 4,10). — Quanto ao pecado, ele gera não a doença do corpo, mas a morte da alma (1,15); o seu castigo é o juízo condenador de Deus, e não a doença (5,1-9).


Diante destas declarações do Apóstolo, reconhecer-se-á que o rito da unção dos enfermos, em todo e qualquer caso, acarreta benefícios espirituais para o paciente que o receba com fé e contrição: o sacramento lhe confere a graça para que atravesse com ânimo sobrenatural a sua fase dolorosa, fazendo desta uma ocasião de se purificar e mais se configurar a Cristo; numa palavra: o sacramento auxilia o cristão a remir a doença e a dar-lhe valor positivo, interiormente, e caso isto corresponda ao bem sobrenatural do enfermo, o mesmo rito há de aliviar o estado, físico, concorrendo para debelar a doença (o cristão não recusa afirmar isto, pois ele não é dualista,... não repudia o corpo, mas sabe ver na saúde física um dom de Deus que pode contribuir para a glorificação do Criador e a santificação do indivíduo).


Quanto à identificação do rito mencionado por S. Tiago com o dom carismático das curas, verifica-se que não tem cabimento. O carisma, como se depreende do contexto de 1Cor 12, era algo de maravilhoso (como o dom das línguas, o das profecias, etc.) concedido extraordinàriamente a este ou aquele dentre os fiéis. Ao contrário, a unção referida em Tg 5 tem índole institucional: é confiada aos presbíteros (sem discriminação de virtude ou ciência), que são membros estáveis e juridicamente constituídos da hierarquia da Igreja; a eficácia do rito é atribuída não à santidade ou à erudição esporádicas de tais ministros, mas simplesmente ao uso do sinal sacramental (óleo) e da prece, isto é, a elementos ordinários e regulares de salvação; trata-se, por conseguinte, de um rito destinado a ser perenemente aplicado, pois sempre houve e haverá na Santa Igreja, de um lado, doentes que necessitem de santificar a sua doença e. de outro lado, presbíteros que sobre eles possam orar, aplicando-lhes o óleo santo.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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