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Pergunte e Responderemos 016 – abril 1959

 

Quem Foi Melquisedeque?

SAGRADA ESCRITURA - MIÚDO (Camará): “Quem foi Melquisedeque e porque tanto se encarece a sua figura misteriosa?

Podemos distinguir, através da Sagrada Escritura, três etapas no desenvolvimento da figura do misterioso personagem Melquisedeque: são os textos de Gên 14, 17-20; SI 109,4 e Hebr 7, 1-17.

Percorramos sucessivamente esses marcos.

 

1. O «meteoro» em Gênesis 14,17-20

 

O nome «Melquisedeque», proveniente do hebraico Malki- -sedheq, significa, segundo a interpretação mais comum, «Rei de Justiça». Alguns exegetas, porém, o entendem no sentido de «Meu Rei é Sedheq», sendo Sedheq uma divindade cananéia, mencionada igualmente no nome de 'Adhoni-Sedheq, rei de Jerusalém nos tempos de Josué; cf. Jos 10,1.

 

Diz-nos o texto sagrado (Gên 14,18) que Melquisedeque era Rei de Salém (provavelmente Jerusalém; cf. SI 75,5), assim como sacerdote do Deus Altíssimo (= El Elyon, expressão que, no caso, designa o Deus único cultuado por Abraão).

 

Em vista do nome e da residência de Melquisedeque, julga-se que este varão era cananeu ou descendente de Cam, filho de Noé. Embora pertencesse a estirpe idólatra, terá sido um dos poucos homens que no séc. XVIII a.C. conservavam a religião monoteísta dos primeiros pais (fenômeno, sem dúvida, digno de nota!). Acumulava as funções de Rei e Sacerdote, Chefe civil e Chefe religioso, de acordo com o costume vigente nas sociedades mais antigas.

 

Melquisedeque aparece e desaparece no Gênesis qual meteoro... De fato, sem que o autor indique a genealogia de tão importante varão (o que era contrário aos usos dos escritores semitas), sem que tampouco descreva o início e o fim de sua vida, ele entra em cena na história do Patriarca Abraão: quando este certa vez voltava vitorioso de famosa batalha, foi-lhe ao encontro o Rei e Sacerdote Melquisedeque, portador de pão e vinho (ou seja, de viveres), para restaurar o chefe vencedor e os seus guerreiros; então o Rei de Salém, em nome do Deus Altíssimo, abençoou Abraão, o qual por sua vez lhe deu a décima parte dos despojos que trazia.

 

O verbo jasa, ocorrente no texto hebraico (Gên 14,18), significa «fazer sair, apresentar», não incluindo em si a ideia de «oferecer a Deus» ou «oferecer em sacrifício». Por isto ensinam os exegetas modernos que, considerando-se apenas a filologia do texto bíblico, não seria licito concluir que Melquisedeque tenha oferecido a Deus, por essa ocasião, um sacrifício de pão e vinho. A tradição, porém, judaica e cristã, o afirmou (a própria Vulgata latina o supõe, chegando a inserir no texto original a conjunção enim, pois: «Melquisedeque levou pão e vinho, pois era sacerdote do Deus Altíssimo»). Tal suposição torna-se bem aceitável, se se leva em conta o costume dos antigos povos, de consagrar por um sacrifício à Divindade a vitória obtida em combate. Antes de oferecer viveres aos vencedores, portanto, é bem possível que Melquisedeque tenha exercido suas funções sacerdotais, dedicando a Deus uma parte dos alimentos que levava. — Essa tradição entrou até no Cânon da Missa, onde a segunda prece após a Consagração alude ao sacrifício que Melquisedeque ofereceu ao único Deus, ao Deus de Abraão e dos cristãos.

 

A narrativa de Gên 14 se encerra bruscamente; após o episódio relatado, a figura de Melquisedeque se esvanece do
cenário dos livros históricos da Bíblia para só aparecer bem mais tarde, num texto sapiencial.

 

2. O novo sacerdócio em SI 109,4

 

O SI 109 (redigido por Davi aproximadamente no ano 1000?) apresenta o Messias em dois de seus aspectos mais característicos: o de Rei e o de Sacerdote. Devendo ser o homem perfeito ou o novo Adão, o Messias aparece revestido de toda autoridade: é Chefe ou Cabeça tanto na vida civil como no culto sagrado ou na religião. Não admira, pois, no v. 4 do salmo a alusão ao rei e sacerdote Melquisedeque de que fala Gên 14:


«O Senhor (Javé, Deus Pai) jurou, e disto não se arrependerá:

Tu és sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque».

 

«Segundo a ordem» (al-dibrati, em hebraico) significa à maneira de..., conforme o exemplar de...». O versículo se entende bem à luz das disposições de Deus vigentes no Antigo Testamento: o exercício do sacerdócio estava, no povo de Israel, entregue à tribo de Levi, sendo Aarão, o irmão de Moisés, o primeiro Grande Pontífice israelita. Pois bem; a esse sacerdócio «segundo a ordem de Levi» (ou de Aarão) o Sl 109 opõe novo tipo de sacerdócio: o do Messias, que se configurará segundo o tipo de Melquisedeque. O que quer dizer:

1) o sacerdócio deixará de ser patrimônio da tribo de Levi, patrimônio transmitido por descendência carnal;

2) novo culto e novos meios de santificação entrarão em vigor na era messiânica, ficando abrogadas as disposições positivas concernentes ao sacerdócio e à salvação no Antigo Testamento;

3) o novo Pontífice, o Messias, será não somente ministro do culto, como Aarão, mas possuirá ainda outro título de dignidade: a realeza, tornando-se destarte o Homem Modelo, coroado de honra e glória (cf. SI 8).

 

Como se vê, o autor do Sl 109 aludiu a Gên 14, não para completar os dados biográficos de Melquisedeque, mas para desenvolver o sentido típico ou messiânico deste personagem. Melquisedeque parecia só interessar os autores sagrados enquanto é portador de mensagem religiosa.

 

Após o Sl 109, a figura do Rei de Salém mais uma vez desaparece dos horizontes da Escritura até a redação da epístola aos Hebreus (cerca do ano 67 d. C.).

 

3. O protótipo do Cristo Jesus em Hebr 7,1-17

 

Explicitando as idéias do Sl 109, o autor de Hebr (que, diga-se de passagem, não é o próprio S. Paulo, mas um discípulo deste) aprofunda o paralelismo Melquisedeque — Cristo. Põe em plena luz os traços de Melquisedeque que prefiguram o Messias. Acompanhemos a linha do seu pensamento.

a) O Senhor Jesus, descendente da tribo régia de Judá, é, sim, Rei e Sacerdote por excelência, como outrora Melquisedeque o era em pálido grau (cf. Hebr 7,2s. 14).

b) Justiça (Sedheq) e Paz (Salom; donde o nome da cidade de Salém), atributos que acompanham a figura de Melquisedeque em Gên 14, constituem precisamente as duas grandes dádivas do Cristo ao mundo (cf. Hebr 7,2).

c) A nota, porém, à qual o autor sagrado mais importância parece atribuir, é o fato de que Melquisedeque na Escritura aparece «sem pai, sem mãe, sem genealogia; os seus dias não têm começo e sua vida carece de fim» (v. 3); dir-se-ia que vem da eternidade e volta à eternidade, passando ràpidamente sobre a terra (como se entende, o simples silêncio da Escritura sobre as origens e o fim de Melquisedeque não nos permitiria dizer que na realidade este personagem foi diferente dos demais homens). O autor vê neste caráter meteórico do Melquisedeque bíblico um indício de que o sacerdócio no Novo Testamento não está baseado em descendência de estirpe nem deverá ceder a ulteriores disposições de Deus concernentes à nossa santificação. Em outros termos: o sacerdócio de Cristo é perfeito, preenchendo plenamente a função de fazer ponte entre Deus e os homens. Desta verdade o autor de Hebr deduz mais as seguintes proposições:

 

a) Há um só Sacerdote no Novo Testamento, ao passo que no Antigo Testamento eram numerosos os Pontífices, visto que cada qual terminava as suas funções ao morrer e era preciso dar-lhe um sucessor.


Note-se, porém, que o fato de só haver um Sacerdote (que é perene) no Novo Testamento, não exclui a existência de instrumentos humanos desse único Sacerdote ou do Cristo ; o sacerdócio visível, hierárquico, comunicado pelo sacramento da Ordem na S. Igreja não se coloca ao lado do de Cristo, mas debaixo deste e a serviço do Senhor Jesus, como o instrumento se coloca nas mãos da causa principal. Os sacerdotes instituídos no Corpo Místico participam do sacerdócio de Cristo, não o multiplicam nem dividem ; e isto, por vontade do próprio Cristo (cf. Lc 22,19; Jo 20,21-23; Mt 16,17-19). O Senhor Jesus, embora não precisasse de instrumentos, quis servir-se deles, uma vez que toda a dispensação da graça cristã se faz através do mistério da Encarnação. Quanto ao texto de Hebr 7, 24 («Cristo possui um sacerdócio inalienável»), significa (como se vê pelo contexto) que Cristo não perde o seu sacerdócio, como o perdiam os Pontífices do Antigo Testamento pela morte.


Os seus ministros, porém, Cristo os escolhe independentemente de estirpe, ou seja, a titulo totalmente gratuito, pois que o sacerdócio de Melquisedeque «não tem genealogia», como a tinha o sacerdócio levítico no Antigo Testamento.

 

b) Como há um só Pontífice, há também um só sacrifício no Novo Testamento, pois o sacrifício de Cristo é perfeito; o que quer dizer: mais do que suficiente para expiar todos os pecados do mundo, não precisando, por isto, de ser renovado. Sob o sacerdócio levítico, ao contrário, múltiplos eram os sacrifícios, pois constavam de vitimas irracionais, que evidentemente não estavam à altura nem de Deus nem dos homens, e por isto não podiam obter a reconciliação perfeita.


De novo, porém, note-se: a unicidade do sacrifício de Cristo não exclui seja este, de maneira sacramentai, tornado presente todos os dias sobre os altares ; tornado presente, sim, não repetido, nem tampouco apenas simbolizado. E isto, também por vontade de Cristo, a fim de que os fiéis de todos os tempos se pudessem associar à oblação do Calvário ; cf. «P. R.» 6/1958, qu. 2 e 3 (onde são explanadas as relações entre a Missa e o sacrifício da Cruz).

 

c) A superioridade do sacerdócio de Cristo sobre o dos levitas do Antigo Testamento, o autor de Hebr a vê prefigurada no fato de que Abraão (em cuja linhagem estava contida a tribo de Levi) recebeu a bênção de Melquisedeque (cf. Gên 14,19) e a este pagou o dízimo; ora quem dá a bênção é certamente superior a quem a recebe. Donde, conclui o hagiógrafo, se evidencia a preeminência do sacerdócio segundo o tipo de Melquisedeque (ou do sacerdócio messiânico) sobre o sacerdócio segundo o tipo de Levi.

 

A Tradição cristã desde cedo completou estes traços do simbolismo Melquisedeque — Cristo, atribuindo à oferta de pão e vinho realizada pelo Rei de Justiça o sentido de sacrifício, sacrifício figurativo da última ceia de Jesus e, por conseguinte, da S. Eucaristia.

 

Conclusão

 

A figura de Melquisedeque, a qual se delineia através dos textos de Gên 14, SI 109 e Hebr 7, só tem sentido satisfatório quando considerada à luz do Messias; fora desta perspectiva, ela constituiria blocos erráticos e insípidos na S. Escritura. Melquisedeque vem a ser um dos marcos mais antigos que a Providência Divina houve por bem colocar na história sagrada para ajudar os homens a compreender aos poucos o significado de Cristo, Rei e Sacerdote perfeito. Está claro que, no plano do Pai, o Senhor Jesus foi diretamente concebido; consequentemente, em função do Cristo, é que a figura de Melquisedeque surge nos desígnios de Deus; e não vice-versa.


Entre os judeus, a exegese rabínica propalava mais de uma sentença a respeito de Melquisedeque. Antigos mestres o apresentavam como o Sumo Sacerdote dos tempos messiânicos.


Rabinos mais recentes, porém, tendiam a depreciá-lo: diziam uns que perdera o seu sacerdócio, pois em sua prece (Gên 14,19) antepôs o nome de Abraão ao de Deus; em consequência, Javé teria transferido o sacerdócio do Rei de Salém para Abraão. Outros afirmavam que Melquisedeque era o próprio Sem, filho de Noé (o qual ainda sobrevivia nos tempos de Abraão); destarte Abraão não teria sido abençoado por um estrangeiro, mas pelo próprio Patriarca dos semitas (Lutero e Melancton, no séc. XVI, compartilharam esta opinião). Uma terceira corrente duvidava de que Abraão tivesse realmente pago o dízimo a Melquisedeque; preferia dizer que o próprio Deus tributara a Abraão o mencionado dízimo!


Como se vê, estas tendências mais recentes da exegese judaica visam, de um modo ou de outro, apagar a subordinação de Abraão a Melquisedeque, personagem estranho ao povo de Israel. A razão de tais tendências é, como se julga, a reação dos rabinos contra o sentido de tipo messiânico (ou tipo de Jesus Cristo) que os cristãos, baseados em Hebr 7, atribuíam à figura de Melquisedeque. Os mestres hebreus queriam assim cancelar este testemunho do Antigo Testamento em favor do Messias Jesus.


Em vão certa escola cristã, dita «melquisedequiana», por volta de 200 d.C., afirmava que Melquisedeque era uma «forca ou um poder de Deus», superior a Jesus Cristo mesmo; os melquisedequianos ofereciam, por conseguinte, seus sacrifícios em nome de Melquisedeque. Alguns cristãos caíram no erro de dizer que o Rei de Salém era uma manifestação do Pai ou do Filho ou, mais ainda, do Espírito Santo; outros o tinham na conta de anjo que tomara feições humanas... Todos esses intérpretes passaram de olhos fechados ao lado da autêntica face do Rei de Justiça e Paz...

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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