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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 003 – março 1958

 

A Legião da Boa Vontade

 

MORAL OBSERVADOR (Rio de Janeiro):

“Não será injusta a campanha movida contra a chamada Legião da Boa Vontade ?”


Independentemente de quanto se diga sobre a pessoa do Sr. Alziro Zarur, interessa-nos aqui analisar à luz do Cristianismo (ao qual o Sr. Zarur quer satisfazer) o significado do movimento que ele chefia.


Uma das teses mais apregoadas pela LBV é a prática da caridade. O convite, em si atraente, não podia deixar de provocar a adesão de muitas pessoas bem intencionadas.


Eis, porém, que, ao se praticar a caridade, cedo ou tarde se verifica ser impossível prescindir da questão religiosa. Caridade implica sacrifício e abnegação da parte de quem a exerce; implica o reconhecimento de um valor (natural ou sobrenatural) na pessoa do próximo; implica um juízo sobre os bens e a felicidade desta vida. Ora estes são pontos que inevitavelmente se relacionam com a ideia de Deus, do sentido que tem a existência humana sobre a terra, ou seja, com a religião. Por seu lado, nem o Sr. Zarur quer abstrair da religião na sua campanha; muito ao contrário — e aí começa o mal da história — a fim de mais estimular os ouvintes a seguir as suas instruções, apela para o sentimento religioso da nossa sociedade, e, sendo a grande maioria dos brasileiros cristã, é com o Evangelho nas mãos que ele os quer aliciar.


Nesta altura, porém, é preciso observar que, embora seja ótima obra divulgar o Evangelho, a ninguém é lícito fazê-lo a seu bel-prazer. Só há uma face do Cristo autêntica, como só há um rebanho e um aprisco do Cristo, e é somente em meio a este que Ele se encontra (como Ele mesmo o declarava, segundo
Jo 10,16). A ninguém, portanto, será lícito dizer que está em contato com o Cristo pelo fato de abrir o Evangelho e de se unir em espírito, numa. linha vertical, ao Cristo que está no céu. Cristo está muito mais próximo de nós: está na terra; foi-se ao Pai, mas voltou ao mundo e permanece conosco, como prometeu (cf. Jo 14,18s); é preciso, por isto, procurá-Lo primeiramente em linha horizontal, ou seja, através das gerações que ininterruptamente retrocedem a partir dos nossos tempos até atingir o Cristo histórico no limiar da era cristã. É nessa linha horizontal (que se chama a Tradição cristã), e somente nela, que o Cristo se encontra vivo; foi nessa linha horizontal que os Evangelhos foram concebidos, escritos e transmitidos continuamente através de dezenove séculos. Se alguém quer separar dessa linha ou dessa Tradição cristã o Evangelho, separa do Cristo o Evangelho, o que simplesmente quer dizer: já não prega o Cristo.


Pergunta-se, pois, ao Sr. Zarur: como está unido ao Cristo a fim de pregar autenticamente o Evangelho?


O Presidente da LBV repetir-nos-ia que do alto Jesus se lhe comunica diretamente. — Isto, porém, já o afirmaram muitos, posteriormente comprovados como falsos arautos do Senhor. A via das revelações é muito suspeita, porque demais explorada; nem é o caminho usual pelo qual o Senhor se comunica aos homens. Jesus mandou que nos acautelássemos contra profetas e Messias (cf. Mt 24,23s).


Estaria então o Sr. Zarur unido ao Cristo na linha horizontal? Ou em linguagem mais simples: estaria unido à família sobrenatural do Cristo, à linha de 55 gerações (aproximadamente) que medeiam entre Cristo e nós?


Não; precisamente não. A sua campanha dá a entender, em última análise, que não há uma família tradicional do Cristo a prolongá-Lo desde o século 1º da nossa era, mas que, a família espiritual do Cristo, é o Sr. Zarur mesmo quem a faz, lendo e revelando, «redescobrindo» o Evangelho para o mundo. A fim de suprir o vazio e a incoerência de suas idéias, o Presidente da LBV serve-se muitas vezes de um tom de voz mística, que impressiona o público pouco dado ao raciocínio; assim ele «mistifica» realmente, inebriando a alma religiosa do povo brasileiro, que inconscientemente se vai afastando do Cristo, Filho de Deus feito homem, para seguir o Sr. Zarur, novo Messias, e um ideal de filantropia meramente humana. Tal ostentação, tal aparato, com que o Presidente da LBV tenta angariar legionários, são de todo condenáveis, não somente aos olhos do Cristianismo, mas também aos da honestidade humana.


Se, não obstante as suas falhas radicais, a LBV encontrou adeptos e ainda conta com defensores, duas parecem-nos ser as causas do fenômeno:


1) o sentimentalismo pouco esclarecido da nossa boa gente. Basta falar em miséria para que muitas pessoas se emocionem e façam alarde (o que não quer dizer que respondam como deveriam responder). Um dos casos mais típicos de exploração do sentimentalismo, exploração superficial que não leva em conta o raciocínio, é o amor a Satanás, «meu irmão», apregoado pelo Sr. Zarur. . .


Com efeito. Reflitamos um pouco sobre o que isto significa.

Satanás é um anjo que Deus criou dotado de inteligência penetrante, mas que abusou da liberdade de arbítrio para se tornar avesso ao Criador; optou conscientemente pela autossatisfação em vez de seguir o plano de Deus; e a sua opção é irrevogável, dada a perfeição da natureza angélica (no homem, enquanto consta de alma unida ao corpo, ou seja. durante esta vida, as opções são revogáveis, porque o corpo obscurece a perspicácia da inteligência, a qual consequentemente pode reconsiderar os seus atos e reformá-los). Satanás, portanto, não quer em absoluto amar nem a Deus nem aos homens (o seu tormento é justamente viver odiando); e ele tudo faz para atrair ao seu ódio e à sua desgraça outros parceiros, ou seja, os homens. Sendo assim, que posição pode o cristão tomar diante de Satanás?


— Enquanto Satanás é um ser, uma criatura inteligente, ele é um bem, que do seu modo (por sua existência mesma) glorifica a Deus. Mas Satanás não ó um mero ser... Em última análise, é um ser livre, sujeito à ordem moral; enquanto tal, ele é o contrário do bem, é um mal, e um mal irreformável. Ora o mal como tal nunca pode ser objeto de amor; é a Psicologia, não somente a Religião, que o ensina (conceber Satanás de outro modo para poder amá-lo seria conceber um Satanás que não existe).


Donde se vê que não tem cabimento, à luz da inteligência, falar de «amor a Satanás»; é contradição apta para embriagar os simplórios. O fato, porém, é que quem apregoa esse absurdo passa talvez por mais caridoso do que os caridosos, mais santo do que os santos; parece mais próximo de Jesus do que qualquer dos anteriores arautos do Evangelho.


2) Tocamos aqui o segundo fator que, a nosso ver, dá voga à LBV; muitos talvez lhe prestem adesão por motivo de orgulho (consciente ou, em não poucos casos, inconsciente). Ocasiões para praticar a caridade não faltam em instituições já vigentes, principalmente na Igreja Católica; mas na LBV a pessoa socorre os indigentes sem professar a Dogmática do Cristianismo e sem se obrigar a observar as leis da religião e do culto de Cristo; na LBV crê-se na existência de um «Deus» e de um «Jesus»; mas não se abraça oficialmente nenhum credo religioso; é cada um quem faz a sua religião (caso a queira), escolhendo os seus dogmas e obedecendo às normas que agradem ao seu bom senso subjetivo. Ora a não poucos atrai (talvez sem que o saibam) a perspectiva de não estar sujeito a alguma obrigação religiosa, sem, porém, passar por ateu ou ímpio aos olhos da sociedade! Quantos não gostam de pôr Deus no bolso e tirá-Lo, ostentá-lo, quando isto lhes convém!


O que acaba de ser dito, visa apenas incitar a uma reflexão e abrir caminho à verdade. Em vista disto, foi preciso falar contra o procedimento do Sr. Zarur; mas note-se bem: — contra o procedimento. Quanto à sua pessoa, ela é muito cara a todo cristão: o discípulo de Cristo, enquanto repudia o erro, quer bem ao homem que erra, pois sabe que por ele Jesus derramou a última gota de seu sangue.


Já que o Sr. Zarur tanto estima o Evangelho, entre finalmente na família sobrenatural do Redentor! A Igreja de Cristo ama sinceramente a pessoa do Presidente da Legião da Boa Vontade.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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