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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 015 – março 1959

 

O Processo de Savonarola

HISTÓRIA DO CRISTIANISMO

O processo de Savonarola é pedra de tropeço para muitos; por pregar a virtude, foi condenado à morte em nome da Religião”.

 

Girolamo Savonarola O. P. (1452-1498) representa uma figura assaz ambígua, dados os traços contrastantes que nele se associam. Antes de se procurar formular algum juízo sobre esse personagem, será preciso reconstituir brevemente o seu currículo de vida.

 

1. Vida e obra de Savonarola

 

Nascido em Ferrara (Itália) aos 22 de setembro de 1452, Girolamo entrou no noviciado da Ordem Dominicana em 1474. Impressionado pela corrupção dos costumes de sua época (período de Humanismo e Renascença efervescentes na península itálica), mostrou-se dos mais fiéis observantes de sua Regra no convento, praticando com fervor a oração e a penitência. Em 1482, já professo e sacerdote foi enviado a pregar em Florença, centro de fasto humanista e também de licenciosidade moral; do alto do púlpito não poupou seus ouvintes; sem sucesso, porém. Após breve ausência, voltou em 1490 para Florença, onde retomou a pregação, certo de haver sido agraciado por uma visão em que Deus o exortava a trabalhar pela reforma dos costumes, à semelhança dos profetas do Antigo Testamento. Dessa vez logrou pleno êxito: não havia igreja que comportasse a multidão de seus ouvintes; milhares de pessoas as enchiam com horas de antecedência, aguardando o aparecimento de um fradezinho de rosto pálido, testa enrugada, nariz aquilino, olhar penetrante e inflamado, que, ao falar, parecia realmente um profeta severo e incisivo do Antigo Testamento (haja vista a figura de Amós, por exemplo).

 

Chegava a arrancar gemidos de penitência do seu auditório: encontraram-se manuscritos de pessoas que assistiram aos sermões de Savonarola, tomando apontamentos, nos quais de vez em quando se lê: «Aqui desfiz-me em lágrimas e foi-me impossível continuar». A cidade de Florença se transformou como que num mosteiro: as mulheres renunciavam às suas joias e se vestiam modestamente, sendo a isto incitadas por cerimônias teatrais como a da «queima das vaidades» (utensílios de moda e outros objetos considerados de luxo); os homens corruptos se tornavam piedosos. Entre os artistas da Renascença registraram-se as impressionantes conversões de Botticelli, Fra Bartolomeo, Perugino, Miguelanjo, Simone del Pollaiolo; os banqueiros usurários foram afastados e instalou-se um banco de empréstimos quase gratuitos.

 

Em 1494 os franceses sob Carlos VIII ocuparam militarmente Florença; Savonarola, que já era praticamente o mentor da vida pública, garantiu a boa ordem local, sendo então encarregado de redigir nova Constituição civil. Esta, de fato, ele a elaborou nos moldes de uma teocracia semelhante à de Israel na época dos Juízes; mandou proclamar Jesus Cristo Rei de Florença, sonhando fazer desta cidade um foco de reforma moral que se irradiasse por toda a S. Igreja. Chegado assim ao auge do seu prestígio, Savonarola já não conhecia medidas de prudência ao recriminar os costumes dos príncipes e do clero; julgava-se agraciado por aparições de anjos, via os céus entreabertos, ouvia vozes que o estimulavam; viajava ao paraíso como embaixador dos florentinos e a estes transmitia mensagens de Cristo, de Maria, etc.

 

Durante alguns anos Florença esteve sob regime ditatorial quase terrorista; para policiar os costumes públicos, eram lançados pelas ruas florentinas grupos de adolescentes aos quais se dava a palavra de ordem: «Fazer loucuras por amor de Cristo». Às esposas reconhecia-se o direito de entrar no convento sem licença do respectivo marido; os filhos que denunciassem os pais por alguma culpa moral, eram felicitados...

 

Enquanto o pregador se ocupava com a reforma dos costumes apenas, o Papa Alexandre VI não o molestava. Quando, porém, entrou em política, provocou a intervenção pontifícia... O «profeta» asseverava que Carlos VIII da França seria o Salvador da Igreja e que a aliança de Florença com o monarca francês era coisa desejada por Deus. Ora Alexandre VI era contrário à política francófila, em parte porque Carlos VIII, seguindo errôneas idéias conciliaristas, propugnava a convocação de um concilio universal para julgar e depor o Papa.

 

Este em julho de 1495 intimou Savonarola a prestar contas da «origem divina» de sua pregação, em Roma. O frade, porém, recusou-se, alegando saúde fraca e as perturbações da ordem pública que sua ausência causaria em Florença. Alexandre VI proibiu-lhe então que continuasse a pregar; tendo obedecido durante algum tempo, o dominicano recomeçou em 1496, censurando os costumes da Cúria Romana e apregoando a necessidade de se reunir um concilio ecumênico (o que redundaria em novo cisma da Cristandade). O Papa ainda contemporizou, até que aos 12 de maio de 1497 proferiu a excomunhão sobre o religioso recalcitrante. Após breve silêncio, Savonarola voltou a pregar e a celebrar a S. Missa, alegando que a excomunhão era inválida diante de Deus e dos homens, pois, dizia, Alexandre VI nem sequer era Papa, vista a sua múltipla indignidade moral.

 

Quando os florentinos perceberam a obstinação do seu grande mentor, começaram a se voltar contra ele, fundando o partido dos «Arrabbiati» ou «Compagnacci» em oposição a Savonarola.

 

Resolveram segundo os costumes da época, desafiá-lo a submeter-se à prova do fogo: aos 7 de abril de 1498 o pregador deveria passar incólume num estreito intervalo entre duas longas fogueiras. Savonarola esquivou-se habilmente a tal, sendo então delegado para sofrer a prova um dos seus companheiros, Fra Domenico. Antes, porém, que este entrasse na senda perigosa, iniciou-se um debate em praça pública para saber se o herói tinha ou não o direito de levar através do fogo um crucifixo ou o SSmo. Sacramento. Entrementes veio chuva e a multidão popular se dispersou decepcionada. Savonarola acabara de perder seu prestigio...

 

No domingo de Ramos 8 de abril de 1498, o povo invadiu o convento do «profeta» e levou prisioneiro Savonarola juntamente com dois irmãos de hábito, Fra Domenico e Fra Silvestro.

 

A Senhoria de Florença, movida de animosidade contra o acusado, quis julgá-lo diretamente, à revelia do Papa Alexandre VI, que desejava fosse Savonarola enviado para Roma; apenas dois legados pontifícios obtiveram licença para assistir ao julgamento. O processo terminou com a condenação do «profeta», que aos 23 de maio de 1498 foi executado pela forca com seus dois companheiros de infortúnio; os cadáveres foram queimados e as cinzas atiradas ao rio Arno, para que os admiradores não tentassem recolher «relíquias».

 

2. Uma reflexão sobre o episódio

Savonarola constitui uma das figuras mais controvertidas da história do Cristianismo.

 

A. É interessante passar em revista alguns dos principais pareceres que a seu respeito se têm proferido:

 

1) o frade dominicano, com seus costumes austeros e sua palavra destemida, logo após a morte pareceu a não poucos cristãos ter sido um autêntico santo; em alguns conventos da Toscana já em 1499 se lhe celebrava a festa solene. Mereceu a estima e a veneração da parte de almas ardentes como S. Francisco de Paula (+1507), S. Filipe Neri (+1595), S. Maria Madalena de Pazzi (+1607), S. Catarina de Ricci (+1589).

 

Verdade é que nem todos os santos compartilharam esses sentimentos, como atestava o futuro Papa Leão XI, escrevendo em 1583:

“Estou certo de que Pio V, de santa memória, teria corrigido todos aqueles que guardam devoção a Savonarola, pois ele o reprovava e chegava a nutrir dúvidas sobre a reta fé desse varão”.

 

2) Outros julgam que Savonarola representa ao menos o tipo do santo «leigo» isto é, do herói propugnador da liberdade civil e dos direitos da consciência contra toda tirania, em particular contra a autoridade religiosa de Roma. Tal é a opinião de Michelet (+1874) - tese que certamente não é católica, mas relativista ou cética, como aliás a mentalidade deste autor.

 

3) Uma terceira categoria de amigos de Savonarola tem-no na conta de precursor do protestantismo. Lutero mesmo, ao publicar em 1523 o comentário de Savonarola sobre o salmo «Miserere», atribuiu-lhe o titulo de mártir e afirmou: «Cristo o canoniza por nosso intermédio». Ainda em 1860 os protestantes colocaram a efígie do pregador dominicano sobre o túmulo de Lutero em Worms.

 

4) Há também os adversários de Savonarola, que o consideram impostor, fanático e louco; o famoso jurista C. Lombroso o recenseava entre os gênios mentecaptos (cf. L'uomo di gênio. Turim 5 1888. 276S).

 

5) Alguns autores, enfim, seguindo uma via média, não acusam Savonarola de crime ou de heresia, mas mostram-se reservados a seu respeito; enquanto uns se detêm mais na consideração das sombras de sua personalidade (haja vista, por exemplo, L. v. Pastor), outros preferem exaltar seu entusiasmo pela santidade e a pureza, a integridade de seu ideal e de sua vida (cf. A. Leman, Savonarole et Alexandre VI, em «Revue pratique d'Apologétique» 15 sept. 1920, 5-24). Poder-se-ia, aliás, dizer que esta última é a tendência atualmente predominante entre os estudiosos católicos, os quais têm concorrido para a reabilitação e a exaltação da figura de Savonarola (muito significativo por sua sentença favorável é o longo artigo de R Ridolfi, na «Enciclopédia Cattolica». Cittá del Vaticano X 1953, 1986-1996).

 

B. Parece que um juízo sereno sobre o assunto deverá distinguir entre a atitude objetiva, a conduta de foro externo, e a atitude subjetiva, o íntimo da consciência, do frade dominicano.

 

a) Objetivamente falando, o procedimento do pregador florentino merece reprovação. Movido pela obsessão de pretensa vocação profética, excedeu os limites da reverência e da obediência na tarefa que ele se propôs, de repreender não somente as multidões populares, mas também as autoridades civis e religiosas. Não se poderia legitimar a sua insubmissão ao Papa Alexandre VI, que, apesar de graves deficiências, era o legítimo Pontífice (a propósito de Alexandre VI veja-se «P. R.» 4/1958, qu. 11). Acreditando arbitrariamente em sinais extraordinários, o pregador deixou-se alucinar e distanciou-se da realidade.

 

b) Considerando-se o ponto de vista subjetivo, isto é, a consciência pessoal de Savonarola, parece que se deve atenuar muito o juízo acima proferido. É possível que o frade tenha sido vítima das idéias conciliaristas, frequentemente professadas na sua época, e tenha julgado, com boa fé, que Alexandre VI não era Papa legítimo. Nesta hipótese, mais do que os seus erros, merecerão atenção o seu zelo e o seu desejo de vida irrepreensível. Muito importante é salientar que Savonarola nunca entendeu separar-se da Igreja (contrariamente ao que asseveraram alguns historiadores, que o colocaram ao lado de Hus, Lutero e Calvino); ele mesmo escreveu no seu tratado «O triunfo da Cruz»: «Renegar a Igreja é renegar o Cristo». Infelizmente porém, não percebeu (ao menos, em sua conduta prática) que a fidelidade a Cristo e à Igreja implica necessariamente fidelidade ao Papa, mesmo a um Alexandre VI.

 

C. Feita a distinção entre aspecto objetivo e aspecto subjetivo da conduta de Savonarola, duas observações ainda se impõem.

 

Há na Igreja duas espécies de grandeza e dignidade, ambas provenientes de Cristo: a grandeza da autoridade ou da hierarquia e a grandeza da santidade (sendo esta o objetivo supremo de todas as atividades do Cristianismo). Estas duas grandezas sempre subsistirão no Corpo Místico; acontece, porém, que elas nem sempre se acompanham mutuamente: a autoridade pode carecer de santidade, como também o santo pode não estar investido de autoridade hierárquica. A falta de santidade nos que são detentores da autoridade é certamente algo de triste; mas. mesmo quando isto se dá, os hierarcas merecem reverência e submissão; nem em tais casos é lícito aos santos insubordinar-se, arrogando a si a autoridade que Deus não lhes conferiu. O Senhor distribui livremente os seus dons, sem que tenhamos o direito de exigir faça de todo membro da hierarquia um santo. Justamente a grande tentação que ameaça os ascetas de todos os tempos é a de não perceberem a veracidade destes princípios; o santo que, por. se julgar santo, queira dirigir, passando por cima da autoridade, perde imediatamente toda a sua santidade; destrói-se. Eis o grande paradoxo: a santidade, para se conservar, tem que tender a se ocultar; mais do que qualquer outro homem, o santo deve viver da fé.

 

A respeito da reforma de costumes, note-se que a Igreja não é sujeito de pecado; ela não tem culpas (pois é o Cristo mesmo prolongado na terra, aquela que São Paulo chama «a Esposa sem mancha nem ruga»; cf. Ef 5,27); mas inegàvelmente ela tem pecadores e culpados em seu grêmio. O que há de santidade nos seus membros pertence à Igreja e a Cristo; o que há de pecaminoso pertence ao Maligno ou ao Diabo. A linha de demarcação entre as duas Cidades - a de Deus e a do Diabo - passa através do coração de cada membro da Igreja. Por isto é.preciso haja periodicamente renovação dos costumes ou reforma, não. porém, da Igreja (como se esta pudesse ser sujeito de pecado), mas na Igreja.

 

Na época de Savonarola a necessidade de reforma na Igreja, isto é nos membros do Corpo Místico, era mais imperiosa talvez do que nunca dantes. Contudo há duas maneiras de proceder à reforma: uma delas é a que S. Bernardo (+1053). S. Pedro Damião (+1072), Sta. Catarina de Sena (+1380) exprimiram em sua atividade; santamente intransigentes, estes justos falaram e sacrificaram-se incansavelmente a fim de promover a beleza da Esposa de Cristo, sem tocar na hierarquia de autoridades instituída por Deus. — A outra maneira é a de Savonarola, Lutero (+1546), Lamennais (t1854): inquietos, destituídos da devida justiça e caridade, estes varões enveredaram pela via da desobediência; por bem intencionados que fossem serviram antes à sua causa pessoal do que à causa de Deus; após si nada deixaram de construtivo (basta lembrar como o cisma protestante é essencialmente minado pelo gérmen do esfacelamento. ...800 seitas).

 

D. Embora culposa tenha sido a atitude de Savonarola, parece que nem por isto se justifica a violência de tratamento que lhe foi infligida. Esta violência há de ser entendida à luz não sòmente da mentalidade medieval, mas também da situação da Inquisição nos séc. XIV/XV; este tribunal era muitas vezes usurpado e dirigido pelo poder político leigo mais do que pela autoridade religiosa (cf. «F. R» 8/1957 qu. 9). Note-se que a Senhoria de Florença recusou entregar Savonarola à justiça eclesiástica de Roma, apenas permitindo que o Papa Alexandre VI mandasse dois representantes seus para assistirem ao julgamento. Donde se vê que não foram pròpriamente os interesses de Cristo e da Igreja que inspiraram os juízes de Savonarola

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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