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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 015 – março 1959

 

Os bons são os que mais sofrem. Onde está a justiça de Deus?

MORAL

Porque é que as pessoas mais santas são justamente as que mais sofrem, enquanto os maus muitas vêzes não conhecem adversidade? Onde está nisso a justiça de Deus?

 

A questão acima sempre preocupou as gerações humanas, tomando sua formulação clássica no problema dito «do Justo aflito ou padecente».

 

Dada a complexidade do assunto, compreende-se que numerosas tenham sido as tentativas de solução propostas para o enigma. Um dos fatores que dificultam o estudo da questão, é que nesse setor frequentemente o sentimentalismo mais ou menos cego toma a dianteira sobre o raciocínio sereno, impedindo a visão clara dos valores postos em causa. Afastando-nos, pois, de toda explicação superficial, procuraremos propor abaixo a perspectiva cristã do tema, que constitui a única resposta cabal para o mistério.

 

1. O sofrimento dos bons

 

1. Começaremos nosso percurso considerando uma passagem das Escrituras Sagradas do Antigo Testamento, pois estas constituem a preparação imediata para a Revelação cristã.

 

Até mesmo nos livros santos de Israel ouvem-se ecos do problema do Justo aflito e da perplexidade que ele causa nas almas. No texto abaixo, observe-se o esboço de solução que o Senhor dá ao enigma.

 

Nos séc. VII/VI a. C. o profeta Jeremias, que procurava ser fiel a Deus, atraiu a si, por este motivo, o ódio e a perseguição dos mentores de Israel; orou então :

«És justo demais. Senhor, para que eu Te possa incriminar;

Quisera apenas debater contigo um ponto de justiça:

Porque é próspera a sorte dos maus?

Porque gozam de paz todos os infiéis?

Tu os plantas, e eles lançam raízes.

Crescem e dão fruto...

Tu, porém, Senhor, Tu me conheces, Tu me vês, Sondas meu coração, que está contigo. Arranca-os como ovelhas para o matadouro Assinala-os para o dia do extermínio».

(Jer 12,1-3)

 

A esta prece como respondeu o Senhor? — Sem dúvida, de maneira desconcertante:

Se te esgotas ao correr com pedestres, Como hás de contender com cavalos? E, se numa terra tranquila não estás seguro, Que será de ti nos espinheiros do Jordão?

(Jer 12,5)

 

Como se vê, o Senhor, em sua linguagem metafórica, longe de prometer a Jeremias o castigo e o extermínio para os maus que o afligiam, faz-lhe prever maiores aflições e perseguições, infligidas não já por pedestres, isto é, pelas circunstâncias normais da vida cotidiana, mas por cavalos e espinheiros, ou seja, por elementos de envergadura fora do comum. Destarte o Senhor fazia observar que a sua justiça tem desígnios misteriosos para o homem. Eis tudo que Javé no séc. VI a. C. se dignou responder ao profeta que lhe propunha a cruciante questão.

 

No séc. V a.C. o livro de Jó não trazia maior clareza para a solução do problema: terminava com a imposição de silêncio aos homens que queriam pedir a Deus contas dos seus desígnios (cf. Jó 38,1; 42,1-6).

 

2. O mistério dos planos do Altíssimo se nos tornou bem mais lúcido através da Revelação do Novo Testamento.

Por Cristo os homens adquiriram a genuína noção do mal e do seu papel na história (cf. «P. R.» 5/1957, qu. 1): o mal é, sim, desordem que Deus não fez, mas que o primeiro homem introduziu no mundo por efeito de uma rebelião contra o seu Autor; tendo a criatura racional rompido a harmonia com o Criador no paraíso, os seres inferiores romperam naturalmente a sua subordinação ao homem; a rebelião se desencadeou de modo geral! Desde então o espírito humano é vítima da matéria. Acontece, porém, que a mísera sorte do homem foi benignamente compartilhada pelo Filho de Deus feito carne, Jesus Cristo; em consequência, os nossos sofrimentos físicos tomaram novo sentido, pois foram divinizados (como poderia não ser consagrado aquilo que a Divindade toca?); deixaram de ser mera sanção ou punição do pecado, para ser instrumento de volta a Deus. Padecendo agora em união com Cristo, a criatura humana pode testemunhar ao Pai a obediência e a entrega que Cristo Lhe prestou e que o primeiro homem Lhe negou; padecendo com Cristo, o homem mais e mais se afasta do primeiro Adão, que, para gozar, se tornou rebelde, e se vai configurando ao segundo Adão, feito obediente até a morte.

 

Após a vinda do Salvador, deve-se mesmo dizer que é necessário à criatura sofrer, e sofrer em união com Cristo; não há, para o homem, grandeza possível sem o quinhão da dor. E por que? Porque é mister mortificar o «velho homem» existente em cada indivíduo, para que a vida do Cristo derramada nas almas pelo batismo se vá desenvolvendo; ora isto requer naturalmente renúncia e penitência. Por isto Deus não prometeu, de modo algum, isentar do sofrimento aqueles que O amam; não prometeu recompensas terrestres em troca do serviço fiel que os seus devotos Lhe prestem. Ao contrário, a Revelação nos assegura que todo programa de santificação inclui inevitàvelmente dilaceração intima, dilaceração designada pelo nome muito expressivo de «purificação».

Há dois tipos de purificação:

 

a) a purificação dita «ativa» é aquela que o cristão empreende por iniciativa própria (prevenida e sustentada, sem dúvida, pela graça de Deus), visando remover os obstáculos à plena união com Deus (os pecados, os vícios, as paixões desregradas, os movimentos imperfeitos da natureza, etc.). Essa tarefa é obrigatória para todos os cristãos, de acordo com a índole e o temperamento de cada um.

 

Na verdade, porém, a natureza humana é fraca; dir-se-ia mesmo: covarde. Ninguém é capaz de discernir exatamente nos recônditos de sua alma as numerosas tendências desordenadas que ai têm raízes e que chegam a contaminar até mesmo a prática de atos virtuosos. E, mesmo que visse tudo que nele há de impuro, o homem por si não teria a coragem devida para mortificar-se na medida necessária à perfeita união com Deus: «As cruzes que nós fazemos ou que nós inventamos, são sempre em certo grau suaves, porque nelas entra algo de nosso...», diz São Francisco de Sales (ed. d'Amecy, t. XXI 150). Por isto o Senhor mesmo intervém diretamente (e tem que intervir) na obra de santificação do homem, enviando-lhe o que se chama

 

b) a purificação passiva. Esta consiste em cruzes e provações que o amor paterno de Deus coloca no caminho da alma, a fim de que nos dias desta vida ela se possa mais e mais emancipar de toda tendência desregrada, desapegar-se de si e de todos os bens criados para se familiarizar com Deus e, desta forma, tornar-se apta a ver o Criador face a face logo após a morte. O normal, para o cristão, é fazer o seu purgatório na terra antes do desenlace final, de modo a poder passar diretamente do regime da fé vigente neste mundo para o da contemplação, que constitui a bem-aventurança celeste. O diferimento do prêmio eterno após a morte, a fim de que a alma ainda se purifique fora do corpo, não é etapa ordinária (embora talvez a maioria das almas a percorra) no desenvolvimento de uma vida cristã. Sendo assim, em vista de proporcionar à criatura o seu purgatório na terra, a Providência costuma distribuir quatro tipos de instrumentos de purificação:

 

- os sofrimentos do corpo (calor e frio, fome e sede, doenças e achaques diversos);

- o trabalho duro e penoso, seja trabalho braçal, seja intelectual;

- as provações morais, humilhações, privações de bens desejados;

- a morte, que é a renúncia por excelência, à qual ninguém se pode furtar.

 

Esses diversos instrumentos de purificação são diversamente combinados pela Providência, de sorte que a ninguém é possível indicar o motivo imediato pelo qual tal criatura é em tal grau afetada por situações dolorosas (doenças, luto, ruína material, etc.). Apenas se pode (e se deve) afirmar que todo sofrimento é providencial; parte de benévolo desígnio do Pai do céu e visa quebrar a crosta do amor próprio e do egoísmo da alma a fim de possibilitar a plena expansão da sua vitalidade em Deus (quantas vezes não se verifica que foi em consequência do sofrimento que determinada pessoa mudou de vida, tornando-se mais desprendida de si, mais caridosa e dinâmica).

 

Encontra-se mesmo no Apocalipse uma luminosa advertência do Senhor a este respeito: «Aqueles que amo, Eu os repreendo e castigo» (3,19; cf. Prov 3,12). Sim, quanto mais Deus deseja santificar uma alma, tanto mais também coloca a cruz no seu caminho, pois é somente mediante a cruz que se pode esperar atingir liberdade interior e plenitude de vida. Para um cristão, por conseguinte, (seja lícito repeti-lo) não tem cabimento perguntar porque deve sofrer esta ou aquela provação, ... porque Deus permite seja afligido de tal maneira...; a razão geral será sempre clara: o Senhor deseja purificar a sua criatura, e tanto mais purificá-la quanto mais permite seja ela dilacerada em seu íntimo. Mais facilmente se entende que um cristão pergunte porque o Pai do céu não lhe manda a cruz em amplas proporções; ele sabe que, se não é assiduamente visitado pela provação, corre o perigo de se embotar nas coisas deste mundo, frustrando a sua santificação; ele sabe enfim, como lembra o autor da epístola aos Hebreus, que o pai só não corrige o filho quando este é bastardo (cf. 12,7-10).

 

A única atitude condigna que o filho de Deus possa tomar em resposta à cruz, é a aceitação generosa desta arma de redenção; o sofrimento deve ser não apenas «tolerado» com resignação cabisbaixa», mas há de ser abraçado com ânimo pronto, consciente do dom de Deus, para que Ele possa produzir a plenitude de seus benefícios:

 

«Os sofrimentos que nós não escolhemos, as dificuldades cotidianas que nós encontramos sem as ter procurado, são certamente o instrumento mais eficaz da reforma de nós mesmos, o único que possa realizar certo trabalho profundo e essencial» (G. Lefebvre, Amour et renoncement, em «La Vie Spirituelle» CXIX [1958] 142).

 

Aprofundando o tema, acrescentaremos que o cristão deve contar com situações em que ele não mais entenderá o sentido da sua vida, pois a própria cruz, instrumento de santificação, «nunca diz o seu nome... Os mártires não sabiam que eram mártires, nem os perseguidos sabiam que sofriam em prol da justiça. A cruz também é mistério de fé» (Chemin de croix des ârnes tentées, ib 129).

 

Em conclusão, dir-se-á que a cruz e a dor não constituem objeto de espanto para quem vive em união com Deus. O espantalho é, sim, sofrer fora do Cristo, sem a perspectiva redentora, recebendo a cruz qual mera sanção devida ao pecado. Por isto o cristão deve tender a pedir a Deus não a isenção de sofrimento, mas, antes, a graça de carregar a cruz de maneira consciente e generosa.

 

A este propósito convém notar que a função redentora do sofrimento não consiste pròpriamente em oferecer «satisfação» a Deus pelo pecado ou em proporcionar uma «compensação» pela ofensa cometida contra o Senhor, mas, antes, em abrir mais largamente para o amor divino a alma que se vai libertando do seu egoísmo. É o amor que constitui a perfeição; é, pois, para Ele que todo instrumento de santificação leva o homem; o cancelamento do pecado é decorrência da posse do amor de Deus na alma.

 

3. Por muito paradoxal que pareça a noção cristã de sofrimento, verifica-se que já os pagãos em seu bom senso a pressentiram. Embora não conhecessem a Redenção, percebiam claramente que o sofrimento é valor positivo. Na literatura grega, por exemplo, não era raro o trocadilho pátlios — máthos (padecimento = escola); é Esquilo quem escreve; «Júpiter abriu aos homens as vias da prudência, dando-lhes esta lei: sofrer para aprender (páthos máthos)» (Agam. 177), Heródoto, por sua vez, declarava: «Meus infortúnios são lições (.pathémata mathémata)» (1207). Nestes dizeres se traduz com clareza a ideia de que o sofrimento purifica e educa o homem.

 

Merece atenção também a figura do «Herói doente e sofredor», cujo tipo por excelência é Hércules: este, através da dor, tornou-se o Super-Homem muito estimado pelos pósteros. Vitima do ódio de Era, que retardou o dia do seu nascimento e o obrigou a servir a Euristeu, Hércules viu-se sucessivamente acometido por doze ingentes provações: teve que lutar contra o leão de Eméia, que ele matou; ... contra a hidra, monstro de múltiplas cabeças;... contra o touro de Creta... Era afetado por coceira que o deprimia e tornava melancólico,... por pesadelos noturnos..., por uma espécie de lepra acompanhada de cãibras... Venceu, porém, todos estes males com ânimo sempre forte. Por fim, morreu atirado a uma fogueira, donde foi transportado para o Olimpo, recebendo em recompensa de tudo o dom da imortalidade!

 

Está claro que não interessa à espiritualidade cristã o que essa história contém de fantasista. O que importa é apenas a concepção, ai ricamente expressa, de que o homem se torna grande e heroico justamente pelo sofrimento.

 

2. A felicidade do pecador

 

A prosperidade dos maus é geralmente apontada como fonte de escândalo correlativa à desgraça dos justos.

Após as considerações acima, não será preciso nos demoremos em demonstrar que tal felicidade é ilusória; baseia-se na posse de vantagens temporais, que cedo ou tarde se esvanecem, deixando o homem a braços com a crise que realmente o possa atormentar: a crise de estar afastado do único Bem capaz de saciar a alma.

 

De acordo com seus sábios desígnios, Deus permite que os pecadores por vezes desfrutem de abundância material nesta vida. Contudo mesmo em meio ao bem-estar o Senhor proporciona aos maus, visível ou invisivelmente, ocasiões propícias para tomarem consciência da vaidade das coisas criadas e se converterem ao verdadeiro Bem. A ninguém Deus subtrai os meios necessários para se salvar; cada um os recebe do seu modo, na medida exata em que lhe são oportunos.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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