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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 007 – julho 1958

 

A Produção da Vida em Laboratório

 

ASS. UNIVERSITÁRIO (Porto Alegre)  pergunta:

 “Tem-se estudado muito as possibilidades do produzir a vida artificialmente. Que diz a doutrina católica a respeito disso ? Será dogma de fé que Deus criou diretamente o primeiro ser vivo?”

 

Em nossa resposta proporemos o problema e sua solução em primeiro lugar; a seguir, examinaremos algumas premissas de história que ajudarão a compreender o significado da questão para um católico contemporâneo.

 

1. O problema e sua solução

 

1. É fato assaz comum em .nossos dias, principalmente entre cristãos, atribuir-se a origem da vida a um ato criador de Deus; já que a vida até hoje apresenta ao cientista mistérios ainda não elucidados, a produção da mesma parece reservada exclusivamente à Onipotência Divina.

 

Eis, porém, que nos últimos anos alguns estudiosos têm procurado realizar em laboratório a síntese dos componentes de um vivente. A mais adiantada destas experiências é a que realizaram em 1955 dois cientistas da Califórnia, Heinz Fraenkel-Conrat e Robert. Williams: após haver desintegrado o vírus produtor do «mosaico» (doença) do tabaco em suas duas partes componentes (94% de proteína e 6% de ácido nucleico), verificaram que estas, separadas como estavam, haviam perdido a ação infecciosa característica do vírus; feito isto, conseguiram reconstituir o vírus decomposto (colocando os dois respectivos componentes em presença um do outro dentro de uma solução um tanto ácida), e notaram que o produto retomava suas propriedades perdidas ou virulentas; então ao microscópio eletrônico averiguaram que de fato estavam em presença de autêntico vírus...

 

A experiência causou grande surpresa, parecendo abrir horizontes novos.

A quem a queira interpretar, impõem-se imediatamente algumas questões básicas; poder-se-ia dar ao fenômeno ocorrido o nome de «produção sintética de um vírus», embora os dois cientistas apenas tenham «descolado» e «recolado» as duas partes de um vírus já existente na natureza?

 

E, em caso de resposta positiva, poder-se-ia dizer que “produção sintética de um vírus” é “produção sintética da vida ?” — Com efeito, não poucos autores negam que o vírus seja um autêntico vivente. Mesmo entre os que o afirmam, há quem julgue que é um ser degenerescente, que pressupõe a existência de outro vivente, no qual possa parasitar. Nesta segunda hipótese, como bem se entende, a produção de um vírus em laboratório ainda não seria fenômeno correspondente ao surto do primeiro vivente na terra, ainda não explicaria a origem da vida no nosso planeta.

 

Deixando, porém, de lado a discussão destes pontos duvidosos, abracemos a mais otimista das hipóteses, dizendo que a ciência já produziu ou está prestes a produzir um autêntico vivente em laboratório. Que se seguirá disto para as concepções cristãs concernentes à origem dos seres ? Haverá rebordosa na crença em um Deus Criador?

 

2. Para se responder devidamente a tal pergunta, e preciso fazer uma distinção, por falta da qual se tem propalado o erro neste terreno. Haja vista, a titulo de ilustração, a afirmação de A. Opárin, um dos biólogos materialistas da Rússia mais em evidência:

 

«Os idealistas (= os não materialistas) sempre consideraram, e continuam a considerar, a vida manifestação de um princípio espiritual superior e imaterial: alma, espírito universal, força vital, razão divina, etc. . Concordaram em afirmar que o Ser supremo, Deus, insuflou uma alma viva à carne inanimada e inerte e que esta parcela eterna da Divindade é o vivo, o que move o ser e o mantém com vida... A vida é uma manifestação da Divindade» (A origem da vida, tradução portuguesa. Rio de Janeiro 1956, 8).

 

Tais afirmações, principalmente nos trechos grifados por nós, se baseiam em lamentável confusão, infelizmente muito comum. Para desfazê-la, note-se que a Filosofia e a fé cristã distinguem três tipos de vida:

a) a vida vegetativa própria do vivente que assimila (Ou que se alimenta), cresce e se multiplica por geração, mas não tem conhecimento algum ; tal é o caso das plantas;

b) a vida sensitiva: é a dos viventes que, além das funções vegetativas, possuem conhecimento. Só conhecem, porém, objetos materiais, determinados por quantidade, extensão, cor, sabor, cheiro, temperatura, enfim, pelas notas que caem sob os sentidos ; tais são os animais irracionais;

c) a vida intelectiva: é a do vivente cujo conhecimento penetra além dos objetos sensíveis ; abstrai das notas concretas, materiais, que caracterizam Pedro, Paulo, João, ou esta casa, esta árvore.. . e apreende os caracteres essenciais, aquilo que se verifica indistintamente cm todos os homens, em todas as casas, em todas as árvores.. . O vivente intelectivo é capaz de conhecer e amar o bem universal, infinito, não apenas este ou aquele bem limitado. — Este grau de vida se verifica nos homens.

 

Feita esta distinção, a Filosofia ensina que a vida vegetativa e a sensitiva dependem de um princípio vital material ; este é eduzido ou procedente da matéria mesma no ato em que o novo vivente (planta ou animal irracional) é gerado; e é absorvido pela matéria quando a planta ou o animal irracional morrem, ou seja, quando a respectiva matéria orgânica deixa de oferecer a estrutura propicia ao exercício da vida vegetativa ou sensitiva.

 

Quanto à vida intelectiva, que suas atividades transcendem os limites da matéria (cí. «Pergunte e Responderemos» 5/1958, qu. 1 e 2), ela depende de um principio não material, mas espiritual, que é chamado a alma intelectiva ou alma humana. Esta, pelo fato de transcender a matéria no seu modo de agir, transcende-a também no modo como se origina: não pode provir da matéria, mas é diretamente criada por Deus e infundida ao corpo.

 

Sendo assim, não há dificuldade, nem por parte da Filosofia nem por parte da fé cristã, em se admitir que a vida vegetativa e a sensitiva sejam produzidas artificialmente em laboratório. Embora não se possa indicar precisamente em que consiste a vida, sabe-se com certeza que as funções vegetativas e sensitivas não ultrapassam o setor da matéria; por isto, pode-se aceitar que sejam mero produto de reações físico-químicas. — A vida intelectiva, porém, nunca poderá ser obtida em laboratório por reações de elementos materiais, pois que ela ultrapassa as faculdades da matéria; por conseguinte, na mais otimista (diríamos quase ; utópica, visto que se trata de experiência extremamente complexa) das hipóteses admitir-se-ia que os cientistas produzam sintèticamente um corpo ou um embrião humano inanimado, em tubo de ensaio; nunca, porém, poderão coagir o Criador a infundir uma alma espiritual a essa matéria.

 

Na base dos dados acima, verifica-se que em absoluto não há oposição entre criação e evolução; esta não derroga à existência de Deus. Com efeito; o criacionismo não ensina que Deus tenha criado os seres tais como hoje os vemos, A rigor, o criacionismo requer apenas dois atos criadores de Deus na produção dos seres : o primeiro consistiu em criar a matéria; esta não é eterna, Deus a fez do nada, cm estado primitivo ou bruto (se quisermos), o a terá dotado das leis _ de evolução, deixando que, por efeito destas, a matéria tenha atingido sucessivamente o estado dos -minerais inanimados e o dos seres animados (vegetais e animais irracionais). O segundo ato criador de Deus terá tido lugar, quando a matéria, hipotèticamente posta em evolução, atingiu o grau de complexidade de um corpo humano, tornando-se sede apta da vida racional; nessa fase da evolução, Deus terá tirado do nada uma alma espiritual, humana, a fim de a infundir ã matéria, dando assim origem ao primeiro homem.

 

Como se entende, o ato de criar uma alma humana se repete todas as vezes que, no decorrer dos tempos, vem novo ser humano ao mundo (o Santo Padre Pio XII inculcava ainda recentemente esta doutrina, >na encíclica «Humani generis»; cf. A. A. S, 42 [1950] 575s).

 

Salvas as duas intervenções criadoras acima indicadas, nem a Teologia nem a Filosofia se opõem a qualquer teoria evolucionista que seja, nem mesmo à que admita a transição natural da matéria inanimada para o grau de matéria dotada de vida vegetativa e sensitiva (fazemos notar que, lembrando estas duas exigências mínimas do criacionismo frente à evolução, de modo nenhum entendemos insinuar alguma das teorias debatidas entre as escolas sobre o assunto).

À luz das idéias precedentes, vê-se quão vãs são as afirmações dos materialistas (das quais algumas foram acima transcritas) conforme as quais os cristãos associam sempre vida a «princípio espiritual» ou «espírito» (como se não distinguissem entre vida vegetativa e vida sensitiva, de um lado, e vida intelectiva, de outro lado); os cristãos, segundo dizem, chegariam a atribuir a vida a uma parcela da Divindade encarnada no corpo humano e manifestada por este {como se a natureza divina se pudesse retalhar)!

 

2. Algumas premissas históricas

 

A posição que tomamos acima diante da questão da produção da vida em laboratório talvez cause espanto aos cristãos, pois parecerá inovadora ou revolucionária; comumente lê-se na literatura religiosa contemporânea a tese de que a vida, já em seu grau vegetativo, se deve a um ato criador de Deus. Na verdade, esta afirmação é que deve ser dita relativamente recente na história do Cristianismo; ela se deve a uma atitude da Apologética cristã dos últimos séculos.

 

Com efeito, os medievais, seguindo uma sentença do filósofo grego Aristóteles (+322 a.C.), admitiam a «geração espontânea», ou seja, que certos animais imperfeitos (vermes, insetos e até camundongos) se originassem da matéria em putrefação. Aos poucos, porém, esta tese foi sendo comprovada falsa pelas experiências de Redi (1668), Spallazani (1765) e Pasteur (1860); após os trabalhos deste último, ficou definitivamente assegurado que mesmo as bactérias microscópicas provêm de bactérias preexistentes, e não da matéria anorgânica. Ora, os apologistas cristãos acolheram com particular prazer os resultados destas experiências, pois lhes pareciam infligir um golpe ao materialismo e ao ateísmo, exigindo a existência e a intervenção do um Deus Criador para explicar a origem da vida, mesmo em seu grau ínfimo (vegetativo). É de notar outrossim que, enquanto o setor da vida ia sendo indiretamente mais e mais relacionado com Deus por meio das experiências dos cientistas, os setores da matéria inanimada {principalmente a Física e a Astronomia) iam sendo pelos estudiosos como que «laicizados» ou aparentemente emancipados de Deus. Sim; desde o séc. XVII Descartes, Newton, Laplace e os físicos posteriores foram descobrindo as leis que regem os movimentos dos corpos; muitos fenômenos da natureza foram consequentemente explicados sem que fosse preciso recorrer, como outrora se fazia, à intervenção continua de Deus e dos anjos no mundo; alguns racionalistas dos séc. XVII-XIX afirmavam mesmo não ser necessário admitir a existência do Todo-Poderoso depois dos recentes progressos das ciências. Em reação contra tal «laicização» da Física, os apologistas cristãos passaram a dar especial ênfase (ênfase ainda hoje vigente) à tese de que ao menos (mas certamente) a Biologia em qualquer dos seus ramos (mesmo na Botânica) atesta e requer a existência do Criador, — Apoiados nessa concepção, tais autores dividiram o universo em dois grandes reinos: o da matéria inanimada e o da vida, dois reinos entre os quais não haveria transição possível por via natural, devendo-se, pois, cada um deles a uma especial intervenção de Deus Criador. Tal tese era nova na história do pensamento cristão, visto que os medievais admitiam hiato intransponível não entre o reino dos seres não vivos e o dos viventes, mas entre MATÉRIA (todas as substâncias extensas, desde o corpo humano até o elemento químico mais sutil) e ESPÍRITO (a alma humana, os anjos, Deus); para os medievais, todas as vezes que se tratasse de explicar a origem da vida espiritual ou intelectiva, dever-se-ia admitir especial intervenção do Criador, intervenção que elos não exigiam para explicar o surto da vida vegetativa e sensitiva.

Eis em esquema sobre como se deslocou o ponto de vista:

 

 

As considerações acima dão suficientemente a ver que a posição recente não é própria mente ditada por princípios filosóficos ou teológicos, mas antes por uma tendência apologética assaz contingente e dispensável: pode-se muito bem conceber que Deus exista sem se afirmar que interveio especialmente na origem do primeiro vivente vegetativo, É por isto que boje em dia por parte dos teólogos católicos não se faz dificuldade 'à tese de que a vida não espiritual («não intelectiva), mas meramente vegetativa e sensitiva, possa ser produto da matéria posta em evolução. De resto, Pasteur jamais teve em vista resolver de maneira definitiva a questão filosófica das relações entre matéria inanimada e vida; apenas considerou o problema da geração espontânea tal como ele se punha em consequência das experiências e das teorias dos biologistas seus predecessores e contemporâneos; a intenção de Pasteur foi apenas demonstrai' que a geração espontânea, tal como era apregoada por estes cientistas, de fato não se dava nem dá.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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