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Os nomes divinos na Suma Teológica de Tomás de Aquino

 

SANTOS, Ivanaldo. Os nomes divinos na Suma Teológica de Tomás de Aquino. In: Scintilla, Revista de Filosofia e de Mística Medieval, v. 8, n. 2, jul./dez. 2001, p. 103-116.

 

Ivanaldo Santos ([1])

 

Resumo:

O objetivo desse artigo é apresentar e analisar os nomes divinos na Suma teológica de Tomás de Aquino, especialmente na Questão N. 13 da Suma. Para tanto, ele foi dividido em duas partes, sendo elas: a) A influência do Pseudo Dionísio em Tomás de Aquino, b) Tomás de Aquino e os nomes divinos. Por fim, afirma-se que a discussão de Tomás de Aquino sobre os nomes de Deus contribuiu decisivamente para aprofundar o tema durante a Idade Média e também na modernidade.

Palavras-chave: Tomás de Aquino, Suma teológica, nomes e Deus.

 

 

1.                  Introdução

 

O tema dos nomes de Deus ou os nomes atribuídos à divindade, ou seja, os nomes divinos, não é muito explorado pela filosofia contemporânea. Em grande medida, a filosofia contemporânea está preocupada em investigar questões, como, por exemplo, a linguagem, a vida prática, a ciência e a política. Os nomes divinos é um tema colocado à margem da discussão filosófica atual. Entretanto, esse tema foi de suma importância na Antiguidade e na Idade Média.

 

Um exemplo dessa questão é o Crátilo de Platão. Nesse diálogo Platão afirma que “cada coisa possui um nome” (Crátilo, 416c) e que por este motivo é preciso haver um “fazedor de nomes” (Crátilo, 389a), ou seja, é preciso haver a figura do legislador, do nomoteta, o indivíduo que fabrica os nomes. Por causa disso é preciso haver algum tipo de discussão sobre o nome atribuído a divindade.

 

Platão não realiza essa discussão. Ele apenas indica a existência da possibilidade, mas não realiza a discussão dos nomes atribuídos a divindade. Quem realiza essa discussão, nos Nomes divinos ([2]), com notória profundidade filosófica, é o pensador neoplatônico conhecido como: Pseudo Dionísio, o Areopagita. Inclusive é possível traçar aproximações filosóficas entre o Crátilo de Platão e os Nomes divinos do Pseudo Dionísio ([3]).

 

No entanto, quem também vai se dedicar a essa temática é o maior pensador da Idade Média e de toda a história da filosofia, ou seja, Tomás de Aquino. De acordo com Martins (2005), o Aquinate realiza uma discussão de cunho filosófico e teológico sobre os nomes divinos.  Ele realiza essa discussão em vários momentos de sua volumosa obra, como, por exemplo, na Suma teológica, na Suma contra os gentios e no Comentário ao tratado da trindade de Boécio. Analisar todo esse vasto material extrapola os simples limites de um artigo acadêmico.

 

É por isso que o objetivo desse artigo é apresentar e analisar os nomes divinos na Suma teológica ([4]) de Tomás de Aquino, especialmente na Questão N. 13. Para tanto, ele foi dividido em duas partes, sendo elas: a) A influência do Pseudo Dionísio em Tomás de Aquino, b) Tomás de Aquino e os nomes divinos.

 

2.                  A influência do Pseudo Dionísio em Tomás de Aquino

 

Costa e Oliveira (2007, p. 3) ressaltam que o Pseudo Dionísio, o Areopagita, foi um pensador que “influenciou muito a Idade Média e todo o pensamento posterior a esse período histórico”. Sua influência tanto se dá no campo místico-teológico como em outras áreas como, por exemplo, a “filosofia e os estudos da linguagem. Inclusive um dos grandes pensadores da humanidade, ou seja, Tomás de Aquino, cita o Pseudo-Dionísio aproximadamente 1.700 vezes ao longo de sua volumosa obra”.

 

O Aquinate foi profundamente influenciado pelo Pseudo Dionísio ([5]). Um exemplo dessa influência é a discussão sobre os nomes divinos na Questão N. 13 da Suma teológica. Nessa questão ele cita seis vezes o Pseudo Dionísio e faz afirmações profundamente semelhantes as teses desenvolvidas pelo Pseudo Dionísio nos Nomes divinos. Para Tomás de Aquino, numa perceptiva geral, os nomes, as palavras, são “deficientes para representar a Deus” (ST, q. 13, a. 2, r. 3). É por esse motivo que “nenhum nome convém a Deus segundo a razão com a qual é atribuído à criatura” (ST, q. 13, a. 5, objeção 3).

 

Por essas afirmações do Aquinate, nada pode ser tido sobre os nomes divinos. Elas são produzidas sob influência do pensamento do Pseudo Dionísio.

 

Para o Pseudo Dionísio, Deus está “muito longe de qualquer maneira de ser, de todo movimento, vida, imaginação, opinião, nome, palavra, pensamento, inteligência, substância, estado, princípio, união, fim, imensidade. De tudo quanto existe” (ND, I, 5). Por esse motivo “não é possível designar seu nome nem seu modo de ser, pois se eleva muito acima de todo entendimento. É um mistério muito distante da realidade das coisas” (ND, XIII, 3).

 

O Pseudo Dionísio afirma que nenhuma palavra pode apresentar ou expressar a realidade divina. Isso acontece porque Deus é um Ser que está fora da realidade humana, que transcende todos os seres, toda linguagem e todo conhecimento. Por esse motivo “não podemos alcançar com o pensamento nem com palavras o um, o incognoscível, o supraessencial” (ND, I, 5). Por esse motivo Deus é inominável e, por conseguinte, só resta ao ser humano o silêncio místico, ou seja, a apreensão, totalmente desnudada da linguagem humana, direta da divindade por meio da contemplação. Nesse caso a contemplação é feita diretamente por meio da Eucaristia.

 

Com isso, o Pseudo Dionísio termina caindo em uma espécie de argumento de Parmênides, ou seja, Deus é uno, perfeito, tudo pode e, ainda por cima, está totalmente fora do alcance humano. Por isso, nada sobre Deus pode ser afirmado. Nem mesmo a palavra “Deus” deve ser pronunciada, pois toda forma de expressão linguística sobre Deus é imperfeita, incorreta e não apresenta a realidade divina. O homem só tem acesso a Deus mediante a contemplação eucarística, pois nela existe a adoração em “Espírito e verdade” (João 4, 24).

 

De um lado, Tomás de Aquino concorda com o Pseudo Dionísio no tocante ao fato de Deus estar fora da realidade humana e que o homem não possui uma linguagem capaz de falar sobre Deus de forma plena e absoluta, ou seja, “nenhum nome pode designar Deus” (ST, q. 13, a. 1, 1), porque a “essência de Deus está acima do que conhecemos dele e significamos com palavras” (ST, q. 13, a. 1, r. 1). Se isso acontecesse, ou seja, o homem falasse sobre Deus de forma absoluta, então o próprio homem também seria Deus e, por conseguinte, toda a tradição cristã seria falsa. O problema é que o homem não é Deus e ainda por cima é uma criatura bastante frágil.

 

Do outro lado, para Tomás de Aquino se a discussão do Pseudo Dionísio estivesse totalmente correta, então estaríamos diante do mais radical motor imóvel, ou seja, um Deus totalmente distante da realidade e que não tem qualquer interesse pelo homem. Um Deus que não salva o homem e nem transforma a realidade. Ao contrário, a Bíblia e a tradição filosófica cristã apresentam um Deus próximo ao homem que chaga até mesmo a se auto apresentar como amor – “Deus é amor” (I João 4, 16).

 

Apesar de um dos seus argumentos está correto, ou seja, não é possível se afirmar, com convicção, nada sobre Deus, é preciso ir além do Pseudo Dionísio. É preciso encontrar um argumento filosófico que fundamente a relação entre a palavra e Deus, entre o nome atribuído a Deus e o próprio Deus. Por esse motivo Tomás de Aquino vai discutir a nomeação de Deus por meio de uma perspectiva filosófico-teológica. Sobre esse assunto, Salles (2010), afirma:

 

O tema da nomeação de Deus em Tomás de Aquino emerge na confluência tanto de uma perspectiva filosófica quanto teológica, ou seja, tanto na perspectiva da nomeação de Deus pela via natural/racional quanto na perspectiva da nomeação de Deus pela via da doutrina sagrada, que se baseia na revelação bíblica. (SALLES, 2010, p. 68).

 

Do ponto de vista teológico, o Aquinate afirma que o homem é “imagem e semelhança” (Gênesis, 2, 20) de Deus e recebeu dele o poder de “dar nome a todos os animais, às aves do céu e a todas as feras” (Gênesis, 2, 20). Além disso, por meio de Jesus Cristo Salvador o ser humano ser torna “participante da natureza divina” (II Pedro, 1, 4).

 

O que o Aquinate está demonstrando, por meio de citações bíblicas, é que apesar da linguagem humana não poder falar de forma direta e absoluta de Deus é possível se falar, mesmo de forma indireta e limitada, sobre ele. O homem, ou seja, a imagem e semelhança de Deus, tem algo a falar sobre esse mesmo Deus. Portanto, apesar dos nomes que o homem atribui a Deus não serem exatamente a nomeação correta de Deus é possível nomeá-lo. É possível se atribuir nomes a divindade. E essa possibilidade Tomás de Aquino vai apresentar por meio de uma discussão filosófica.

 

3.                  Tomás de Aquino e os nomes divinos

 

Para Tomás de Aquino deve-se sempre ser afirmado que “não podemos nesta vida conhecer a essência divina como existe em si mesma, mas conhecemos representada nas perfeições das criaturas” (ST, q. 13, a. 2, r. 3), ou seja, não se vê e se conhece Deus de forma direta, mas por meio de um espelho, o qual são as diversas criaturas presentes na natureza, incluindo o próprio homem. Ao se olhar para as criaturas, especialmente para o homem, imagem e semelhança de Deus, se observa o ser divino.

 

É justamente por meio dessa observação que são “tomados os nomes divinos” (ST, q. 13, a. 2, r. 2). Para Tomás de Aquino os “nomes significam Deus de acordo com o que nosso intelecto conhece dele. Ora, nosso intelecto conhece Deus a partir das criaturas, assim, ele o conhece como estas o representam” (ST, q. 13, a. 2, r. 3). Por esse motivo quando se diz, por exemplo, “Deus é bom” isso implica que o que o homem entende por bondade preexiste e é advindo de Deus. Nesse caso, não significa que Deus seja de fato bom. Na verdade ele está acima da bondade. Ele é a causa da bondade existente na sua imagem e semelhança, ou seja, no homem. E por existir bondade no homem, então é possível atribuir o nome de “bom” a Deus e, por conseguinte, dizer: “Deus é bom”. Por analogia deve-se aplicar o mesmo raciocínio a outros nomes que são atribuídos a Deus, como, por exemplo, pai, perfeito, amoroso, amigo e outros.

 

Em Tomás de Aquino (ST, q. 13, a. 1, r. 1) o homem só pode nomear algo se for conhecido pelo intelecto. Dessa forma, a nomeação direta e absoluta de Deus é impossível, pelo fato do homem não conhecer diretamente a Deus. O homem conhece a Deus por meio das criaturas existentes na natureza, segundo a relação de princípios, e pelo modo da excelência e da negação que cada criatura possui. Por exemplo, as criaturas possuem altura, no entanto não conhecemos a altura de Deus. Além disso, a princípio, Deus não tem altura. Por esse motivo podemos nomeá-lo de “altíssimo”.

 

Para o Aquinate (ST, q. 13, a. 1, r. 2) atribuímos nomes abstratos para significar a singularidade de Deus, como, por exemplo, “pai” e “bom”, e nomes concretos para significar sua substância e perfeição, como, por exemplo, “perfeito”, “criador” e “único”. No entanto, todos esses nomes são falhos e incompletos quanto ao modo de Deus ser em si mesmo, pois são produto do intelecto humano e, por sua vez, esse intelecto não conhece a Deus, tal como ele é.

 

O que o intelecto faz é perceber que há certo grau de perfeição nas coisas e no próprio homem. Por meio do princípio de participação, ou seja, o homem é coparticipante da perfeição de Cristo (Romanos 8, 17; Efésios 3, 6), é possível ao intelecto humano inferir que existe em Deus um grau de perfeição muito superior ao existente no ser humano. Por exemplo, se há coisas boas e doces na realidade, então em Deus há um grau muito superior de bondade e de doçura. Com isso, é possível dizer, por exemplo, que Deus é “bom”, “doce” ou ainda “boníssimo” e “docíssimo”.

 

Sobre essa questão Salles (2010) ressalta:

 

Graças à realidade do ser como ato causado e participado e ao valor epistemológico da analogia, os nomes predicados de Deus significam realmente a essência divina, mas não de modo perfeito tal como é em si mesma, mas segundo o nosso modo de entendê-lo, isto é, imperfeitamente e analogicamente. Com efeito, os nomes divinos significam essencialmente o que Deus é, mas não segundo a perfeição que possuem no esse divino, já que são concebidos por nós a partir das perfeições existentes nas coisas. (SALLES, 2010, p. 70).

 

De acordo com Tomás de Aquino pelo fato de “Deus ser incorpóreo” (ST, q. 13, a. 3, a. 3), ou seja, o homem só ter acesso a ele “mediante a fé” (I Pedro 1, 5), a qual é o firme fundamento das “coisas invisíveis” (Romanos 1, 20), só é possível se nomear Deus por meio de metáforas. Quando se diz, por exemplo, que “Deus é bom”, a palavra “bom” que consta da proposição é apenas uma metáfora que fala sobre Deus. Em hipótese alguma está representando Deus em si mesmo, mas apenas representa metaforicamente o que Deus é e, ao mesmo tempo, o desconhecimento do homem sobre ele. É por isso que “todos os nomes atribuídos a Deus o são por metáforas” (ST, q. 13, a. 3, r. 1) ou de outra maneira: “nomes só podem ser atribuídos a Deus por metáforas” (ST, q. 13, a. 3, r. 1).

 

Nisso o próprio Aquinate pergunta: “Os nomes atribuídos a Deus são sinônimos?” (ST, q. 13, a. 4). Dentro da discussão que é travada, ou seja, dos nomes divinos, essa é uma pergunta de suma importância. Apresentam-se dois motivos para essa importância.  Primeiro, se Deus é perfeito, eterno e está além da realidade humana, então apenas uma única palavra humana poderá representar a Deus. Ao invés de se dizer ou se criar uma dezenas de palavras, bastará ao homem estabelecer que apenas uma única palavra será o suficiente para designar e significar Deus. Segundo, tanto filosoficamente como historicamente são atribuídos diversos nomes a Deus, tais como: uno, único, bom, perfeito, eterno e outros. Se os nomes atribuídos à divindade foram sinônimos então bastará apenas uma palavra para unir as diversas formas linguísticas existentes.

 

O Aquinate (ST, q. 13, a. 4, r. 3) demonstra que apesar de Deus ser uno e único – sem entrar na discussão filosófica da trindade –, o intelecto humano apreende-o de forma múltipla. Se o homem apreendesse Deus de forma una e única o próprio homem seria Deus. Não haveria distinção entre o homem e Deus. No entanto, isso não acontece. O intelecto tem acesso a Deus de forma indireta, parcial, limitada e imperfeita. Ele não conhece Deus em si mesmo, mas apenas as múltiplas manifestações de Deus, ou seja, o intelecto conhece a manifestação, por exemplo, da bondade, do amor e da mansidão de Deus. Ele conhece as manifestações, mas não Deus em si.

 

É por isso que Tomás de Aquino conclui afirmando que os “nomes atribuídos a Deus, ainda que signifiquem uma única coisa, não são sinônimos, porque a significam segundo razões múltiplas e diversas” (ST, q. 13, a. 4, r. 1). Cada nome atribuído a Deus é distinto do outro nome, ou seja, apresenta uma manifestação diferente de Deus, um atributo, uma razão diferente. Para o Aquinate dizer, por exemplo, que “Deus é bom” não é o mesmo que afirmar que “Deus é perfeito” ou então “Deus é eterno”. Essas proposições apresentam e significam atributos e manifestações diferentes de Deus. Por isso não é possível afirmar que os nomes divinos são sinônimos.

 

Outra pergunta de suma importância que o Aquinate (ST, q. 13, a. 5) faz é a seguinte: “os nomes são atribuídos a Deus e às criaturas da mesma maneira?”, ou seja, a mesma significação que um nome atribuído a Deus é dada ao homem? Essa pergunta torna-se importante porque muitos nomes que são atribuídos a Deus também são atribuídos ao ser humano. Por exemplo, é comum se dizer que “Deus é bom”, “Deus é amor”, etc. No entanto, também se afirma tal coisa do ser humano. É possível dizer, por exemplo, “Pedro é bom” ou “João é amor”. A questão é que Pedro e João são meros mortais e não Deus.

 

Para Tomás de Aquino (ST, q. 13, a. 5, a. 3) não é possível nomear Deus de forma plena e perfeita. Por mais que o ser humano desenvolva palavras e expressões linguísticas nunca será possível expressar a essência de Deus. Ele sempre será o inominável, pois “Deus está mais distante das criaturas do que estas podem estar umas das outras” (ST, q. 13, a. 5, a. 3).

 

Apesar disso o homem só pode “nomear Deus a partir das criaturas” (ST, q. 13, a. 5, r. 1), ou seja, devido a sua condição de ser limitado e imperfeito, o homem só pode dar qualquer nome a Deus a partir da realidade presente nas criaturas. E somente isso. É por esse motivo que é possível dar o mesmo nome a Deus e a uma criatura. Por exemplo, é possível afirmar que “Deus é bom” e também que “Pedro ou João é bom”. Nesse caso, tanto Deus como Pedro ou João são possuidores do adjetivo “bom”.

 

O problema é que o adjetivo “bom” aplicado a Deus demonstra e significa uma característica que está inserida em Deus, ou seja, por essência Deus é bom e, além disso, possui qualquer outro atributo que o homem possa lhe dá (perfeito, eterno, etc). Já quando se diz que um indivíduo (Pedro, João, etc.) é “bom” está se apontando um acidente de sua substância e não algo que compõe sua essência. Em sua essência o homem não é bom, mas possuidor da bondade, e também não é possuidor de qualquer outro atributo que possa lhe ser atribuído.

Sobre essa questão Tomás de Aquino afirma:

 

Quando o nome de alguma perfeição é dito de uma criatura, significa essa perfeição como distinta, por definição, das outras. Por exemplo, quando se atribui a um homem o nome de sábio, expressamos uma perfeição distinta da essência do homem, de sua potência, de seu ser, etc. Ao contrário, quando atribuímos esse mesmo nome a Deus, não pretendemos significar algo que seja distinto de sua essência, de sua potência ou de seu ser. (ST, q. 13, a. 5, r. 1).

 

Após essa exposição Tomás de Aquino (ST, q. 13, a. 8, r. 1) parte para saber se o nome, a palavra “Deus” de fato expressa, comunica, o que significa Deus. É preciso ver que, de um lado, Deus é perfeito e insoldável. Uma palavra, como, por exemplo, “Deus”, não poderá esgotar a infinitude de Deus. Do outro lado, Deus é um Ser cheio de múltiplas e infinitas qualidades, das quais o homem só tem acesso a uma pequena porcentagem. A palavra “Deus” em hipótese alguma esgota ou expõe sua infinitude. Isso cria um grande impasse, pois a palavra “Deus” é largamente utilizada dentro do convívio social e está presente na Bíblia, no magistério e na liturgia da Igreja. Em todos os instantes e em todos os lugares as pessoas usam essa palavra para significar o ser criador e responsável por todos e por todas as coisas.

 

Para Tomás de Aquino (ST, q. 13, a. 9, r. 1) qualquer nome que seja dado a um ser individual não pode significar a plenitude desse ser. Por exemplo, um nome como “Pedro” ou “João” não pode significar toda a rica personalidade e a essência de um indivíduo. Em síntese, trata-se de um nome de reconhecimento, de figuração, de semelhança e de comparação, mas nunca reproduz a essência do indivíduo. Quando se nomeia, por exemplo, “Pedro” ou “João”, ao mesmo tempo, está sendo realizado um reconhecimento de um individual, se apontado para sua figura e apresentando semelhanças e comparações com outros individuais, mas nunca está significando, de forma plena e absoluta, sua essência.

 

A essência de um individual não se resume ao nome, a palavra. Se o nome tivesse o poder de resumir e significar totalmente a essência de um individual, não haveria separação entre nome e objeto. Pelo contrário, haveria uma radical união entre ambos. Quando um nome fosse pronunciado automaticamente o objeto se faria presente. Por exemplo, em uma aula de história, quando o professor pronunciasse a nome do conquistador romano “César”, apesar dele estar morto a séculos, automaticamente ele se materializaria na sala de aula. A questão é que tal coisa não acontece. As palavras representam, mas não são os objetos.

 

O Aquinate não constrói um realismo radical entre palavra e objeto, onde a palavra expressa, de forma absoluta, o objeto. Seu realismo é de cunho moderado, ou seja, a palavra materializa a significação do objeto, mas não o objeto em si.

 

Por isso, Tomás de Aquino afirma que apesar do nome “Deus” não significar a multiplicidade existente na natureza divina, é um nome que deve ser utilizado “segundo a opinião” (ST, q. 13, a. 9, r. 1), ou seja, a palavra “Deus” foi e deve continuar sendo utilizada para representar o ser divino. É uma palavra que goza de amplo prestígio social, que está presente nas diversas culturas, na Bíblia, no magistério e na liturgia da Igreja. É uma palavra que não diz o que o ser divino é em si, mas, de um lado, comunica aos demais indivíduos toda à carga semântica que se deseja apresentar sobre o ser divino, e, do outro lado, possibilita que o homem rompa o isolamento, a insegurança e o vazio diante desse ser. Diante do ser divino o homem é o nada. No entanto, a palavra “Deus”, ao ser pronunciada em um momento de intimidade com o ser criador, como, por exemplo, em uma oração, permite que o homem temporariamente deixe de ser o nada e passe a ser elevado a nobre categoria de “filho de Deus” (I João 3, 2). É uma palavra que rompe o isolamento do homem diante do criador. Ela é uma possibilidade de comunicação entre o homem e o ser divino.

 

Por fim, afirma-se que a discussão de Tomás de Aquino sobre os nomes de Deus contribuiu decisivamente para aprofundar o tema durante a Idade Média e também na modernidade. Apesar de atualmente ser um tema periférico dentro da filosofia, ele é de suma importância para se compreender os problemas linguísticos que estão em torno da problemática de Deus e todos os demais temas suscitados dentro da filosofia e da teologia.

 

Referências bibliográficas:

 

AQUINO, Tomás de. Suma teológica. Vol. 1. Tradução Aimon-Marie Roguet [et al]. São Paulo: Loyola, 2001.

BÍBLIA. Versão Jerusalém. 2 ed. São Paulo: Paulinas, 1985.

CASTRO, Roberto C. G. Negatividade e participação: a influência do Pseudo Dionísio Areopagita em Tomás de Aquino. Tese de Doutorado. Faculdade de Educação: Universidade de São Paulo, 2009.

COSTA, Marcos Roberto Nunes; OLIVEIRA, Janduí Evangelista. O conhecimento de Deus e a problemática da linguagem em Dionísio, Pseudo Areopagita. In: Ágora Filosófica, UNICAP, Ano 1, n 1, jun/dez 2007, p. 1-13.

MARTINS, M. M. Brito. A ciência teológica e os nomes divinos na “Suma Teológica” de Tomás de Aquino (q. 1 e q. 13). In: Humanística e Teológica, n. 26, v. 2, 2005, p. 161-187.

O’ROURKE, Fran. Pseudo-Dionysius and the metaphysics of Aquinas. Leiden: E. J. Brill, 1992.

PLATÃO. Crátylo. Tradução, notas e introdução V. Bécares Botas. Salamanca: Ediciones Universidad de Salamanca, 1982.

PSEUDO-AREOPAGITA, Dionísio. Dos nomes divinos. In: Obra completa. Tradução Roque Aparecido Frangiotte. São Paulo: Paulus, 2004.

SALLES, Sérgio. Nomear Deus: Tomás de Aquino e Paul Ricoeur. In: Aquinate, Niterói, n. 12, 2010, p. 64-77.

SANTOS, Ivanaldo. O legislador dos nomes: uma aproximação entre o Crátilo de Platão e os Nomes divinos do Pseudo Dionísio, o Areopagita. In: Parlare, Revista da Pós-Graduação da UVA, v. 1, n. 1, jan/dez 2008, p. 51-60.

TWETTEN, D.  Aquina’s Aristotelian and Dionysian definition of God. In: The Thomist, n. 69, 2005.

 



[1] Doutor em estudos da linguagem, professor do Departamento de Filosofia e do Programa de Pós-Graduação em Letras da UERN. E-mail: [email protected]

[2] Para se realizar as citações dos Nomes divinos do Pseudo Dionísio, o Areopagita, será utilizada a sigla ND e o respectivo número do parágrafo, tal qual consta no Corpus Dionisyacum.

[3] Sobre as aproximações entre o Crátilo de Platão e os Nomes divinos do Pseudo Dionísio, recomenda-se consultar: Santos (2008).

[4] Para se realizar as citações da Suma teológica de Tomás de Aquino será utilizada a sigla ST e o respectivo número do parágrafo.

[5] Sobre a influência do Pseudo Dionísio, o Areopagita, na obra de Tomás de Aquino, recomenda-se consultar: Castro (2009), O’Rourke (1992) e Twetten (2005).


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#0•A1865•C759   2015-11-29 15:53:38 - Convidado/[email protected]
SHOW! Ótimo trabalho, parabéns pelo empenho. Dou graças a Deus por ter te inspirado esta belíssima e sem dúvida frutuosa ação. Abraço

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