Católicos Online - - - - AVISOS -


...

Pergunte!

e responderemos


Veja como divulgar ou embutir artigos, vídeos e áudios em seu site ou blog.




Sua opinião é importante!









Sites Católicos
Dom Estêvão
Propósitos

RSS Artigos
RSS Links



FeedReader



Download







Cursos do Pe Paulo Ricardo


Newsletter
Pergunte!
Fale conosco
Pedido


PESQUISAR palavras
 

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 547 – janeiro 2008

Ciência e consciência:

 

EMBRIÕES HÍBRIDOS PARA PESQUISA

 

Em síntese: O Governo Britânico permitiu a produção de híbrido (ser humano e animal irracional) com objetivos terapêuticos. A resolução tem causado polêmica, sendo a Igreja Católica uma forte opositora do projeto por contradizer à singular dignidade da pessoa humana.

 

A imprensa noticiou a autorização do Governo britânico para a produção de embriões híbridos para fins terapêuticos. Abaixo segue-se um extrato de jornal acompanhado de comentários a propósito.

 

1. A notícia

Reino Unido autoriza criação de embrião híbrido de humano e animal

 

Londres. A autoridade de Fertilização Humana e Embriologia (HFEA, na sigla em inglês) do Reino Unido deu ontem autorização para a criação de embriões híbridos de humano e animal, voltados exclusivamente para pesquisa. O desenvolvimento de embriões a partir de células humanas e óvulos de animal tem por objetivo a criação de células-tronco embrionárias.

Ainda assim, os cientistas que quiserem fazer tais estudos terão que pedir autorizações individuais para o órgão regulatório. Opositores, no entanto, se dizem "horrorizados" com tal decisão por conta das implicações éticas e morais da criação de híbridos.

A HFEA explicou que os embriões têm de ser destruídos em, no máximo, 14 dias. E que não há nenhuma possibilidade de eles serem usados para gerar quimeras (seres mistos).

(O Globo, 6/09/07, p. 33).

 

A decisão do Reino Unido causou a réplica da Igreja.

 

2. A resposta da Igreja Católica

 

Por via eletrônica PR recebeu as seguintes informações:

É "MONSTRUOSO" PERMITIR A FABRICAÇÃO DE EMBRIÕES HÍBRIDOS

Dom Sgreccia chama à mobilização a comunidade científica

 

ROMA, sexta-feira, 7 de setembro de 2007 (ZENIT.org). – A decisão da Autoridade Britânica para a Fertilização e a Embriologia (HIFEA) de permitir aos cientistas criar embriões híbridos a partir de seres humanos e animais para pesquisa foi qualificada pelo bispo Elio Sgreccia, presidente da Academia Pontifícia para a Vida, como "um ato monstruoso contra a dignidade humana".

 

Dom Sgreccia acrescentou que "é necessário que a comunidade científica se mobilize o quanto antes". O governo britânico, segundo Dom Sgreccia, "cedeu às exigências de um grupo de cientistas, em detrimento certamente da moral".

 

O prelado declarou ao jornal italiano "II Corriere delia Sera": "É necessário que a comunidade científica se mobilize o mais rápido possível".

 

Em uma declaração, a agência britânica anunciou que agora considerará duas propostas de pesquisa para criar tais embriões - que os cientistas denominaram 'quimeras', como as existentes na mitologia grega, que tinham parte humana e parte animal. A agência espera ter uma decisão sobre ambas as propostas em novembro próximo.

 

A agência acrescenta que "não se trata de dar luz verde de maneira indiscriminada à investigação com híbridos, mas o reconhecimento de que esta área de investigação pode-se permitir sempre que seja com cuidado e discernimento".

 

Dom Sgreccia afirma em suas declarações que a decisão britânica marca um ponto de não retorno: "Esta fronteira, a do cruzamento de distintas espécies, foi transpassada hoje com a decisão de ir adiante do governo britânico. Até hoje, estava proibida no campo da biotecnologia e não só por parte das associações religiosas".

 

O bispo, de 79, acrescenta que, com esta decisão, "a dignidade humana está em perigo, que foi agravado".

Assinala que a autoridade britânica estipula em sua decisão que o embrião híbrido seja destruído antes dos 14 dias, "porque existe a consciência de que o resultado será uma monstruosidade".

 

"A política que foi aprovada é repugnante desde um ponto de vista emocional, mas é também irracional - acrescentou Dom Sgreccia. Explicou que a ética de Maquiavel está sendo usada para justificar uma causa nobre - a cura de enfermidades -, com maus meios, aplicados à investigação científica".

 

E acrescenta: "Encontramo-nos ante uma subversão da ética. Ou melhor ainda: Com esta decisão de ir adiante, ficamos completamente fora da finalidade da ética e da humanidade".

 

Por sua parte, o arcebispo Peter Smith, de Cardiff, Gales, presidente do Departamento de Responsabilidade Cristã e Cidadania da Conferência Episcopal da Inglaterra e Gales, disse em uma declaração em 5 de setembro passado que esta decisão tomada pelos legisladores britânicos tem um "profundo significado".

"Os seres humanos - acrescentou -, têm uma única natureza, especificamente distinta de todos os demais animais, e a profunda questão ética é: É correto transgredir as fronteiras das espécies e tentar mesclar as naturezas humana e animal, ainda que seja de uma maneira limitada?

 

Os cientistas querem criar embriões híbridos - o que se realizará injetando DNA humano em óvulos de vacas e coelhos - em um intento de extrair células estaminais. Quem apoia o projeto afirma que isto resolveria o problema de encontrar bons óvulos humanos de qualidade.

O arcebispo Smith lançou a questão de por que se precisa de "uma pesquisa como a de embriões híbridos, tão problemática desde o ponto de vista ético", quando a pesquisa com células estaminais procedentes de adultos e do cordão umbilical foi aprovada com êxito.

 

"A Igreja Católica não está contra a pesquisa com células estaminais - disse -, e apoia com vigor a investigação a partir de células adultas e do cordão umbilical. Isto já levou a importantes benefícios clínicos, enquanto parece que a pesquisa com células estaminais procedentes de embriões ainda não produziu nenhum".

 

A singularidade do ser humano se torna mais evidente se comparada com o porte dos animais irracionais, como passamos a examinar.

 

3. A singularidade da pessoa humana

 

A singularidade da pessoa humana já foi estudada em PR 287/1986, pp. 171ss; 231/1979, pp. 91 ss; 387/1994, pp. 348ss., donde se concluía que o homem não é um macaco aperfeiçoado. A seguir, vamos deter-nos apenas sobre alguns aspectos da diferença entre homem e animal infra-humano.

 

3.1. A linguagem simbólica

 

Observemos separadamente o homem e o macaco.

 

3.1.1. A linguagem humana

 

Em que consiste propriamente o falar?

- A linguagem é a capacidade que temos de formular conceitos universais e exprimi-los mediante sons concretos, que variam de idioma para idioma. Assim os conceitos de pai e mãe, por exemplo, são conceitos universais, que todo ser humano concebe espontaneamente, mas que cada povo ou cada grupo linguístico exprime de modo diferente. O homem é capaz de emancipar-se de determinado som associado a determinado conceito universal para propor exatamente o mesmo conceito mediante outra expressão fonética; é o que se dá com os tradutores, que procuram guardar exatamente as mesmas mensagens intelectuais através de diversas sonorizações.

 

Quem olha para a cavidade bucal de um homem e a de um macaco, é propenso a dizer: se o homem fala, o macaco também fala, pois organicamente este dispõe de tudo o que o homem possui para falar. Não obstante, o macaco não fala. Isto só se pode explicar pelo fato de que no homem há algo mais do que no macaco; esse algo mais é a espiritualidade do seu princípio vital. Com efeito; o homem só pode falar porque é capaz de perceber que diversos sons não significam sempre diversos conceitos ou porque é capaz de distinguir entre o som concreto e o conceito universal, imaterial. Isto denota no homem a presença de uma alma imaterial ou espiritual.

 

Observe-se também: não há transição entre o material e o imaterial (ou espiritual). O espírito não é a matéria rarefeita ou gasosa energética, pois mesmo a matéria rarefeita e a energia elétrica são dimensionáveis mediante números ou estão sujeitas à quantidade, ao passo que o espírito não é quantitativo nem comensurável.

 

3.1.2. A comunicação dos irracionais

 

Na década de 70, vários psicólogos norte-americanos tentaram ensinar a linguagem humana a chimpanzés; visto que estes são incapazes de proferir palavras, foi-lhes transmitida a sinalização utilizada pelos surdos-mudos.

 

Os pioneiros foram o casal de psicólogos Allen e Beatric Gardner, que se dedicaram à chimpanzé fêmea Washoe, ensinando-lhe a linguagem de gestos e imagens dita Ameslan (American Sign Language): o animal aprendeu certo número de sinais associando-os entre si, de modo a se comunicar com os homens e com outros animais que aprenderam depois dele.

 

Dann M. Rumbaugh treinou a fêmea de chimpanzé Lana para que percutisse as teclas de um computador; sobre estas estavam gravados sinais que eram associados a ações e objetos diversos. Lana chegou a completar frases; por exemplo, o operador escrevia na linguagem convencional: "Please machine give..."; o macaco então apertava a tecla que significa apple. Donde: "Por favor, dê a máquina... ao macaco".

 

Mais: Francise Patterson treinou uma fêmea de gorila chamada Koko, de modo que esta não somente respondia, mas também proferia insultos e dizia mentiras.

 

O casal Gardner conseguiu que outros chimpanzés fizessem desenhos. Um deles, chamado Moja, após haver traçado rabiscos muito confusos durante meses, começou a fazer algo de melhor. Interrogado sobre o significado de um desses desenhos, o animal fez o gesto "Pássaro!"

Será que isto significa que entre o homem e os animais inferiores há apenas diferenças quantitativas, não, porém, essenciais?

 

Respondemos: a linguagem propriamente dita implica que alguém utilize determinado som ou gesto como símbolo de um conceito mental; esse símbolo pode variar nos diversos idiomas; o conceito, porém, não muda, porque a pessoa que fala conhece o sentido meramente funcional e instrumental do seu símbolo. Ora entre os animais não existe tal flexibilidade; as comunicações se devem tão somente ao uso da memória, ao instinto imitativo e a certas intuições práticas adestradas por um hábil e paciente treinamento. Este provoca associações de sinais e gestos ou reflexos condicionados; sim, o treinador induz o animal a fazer tal gesto ou bater tal tecla, associando isto a determinado objeto ou atividade; o animal é premiado quando corresponde à expectativa do operador; se não, é punido. O treino é repetido tantas vezes quantas são necessárias para obter a associação de gesto e efeito.

 

Observemos que Washoe levou sete meses para associar o gesto de vir com a ação de vir; após 22 meses de treino, aprendera 34 gestos. Sarah, outro macaco, aprendeu em sete anos de treino 130 sinais, que o animal usa com 75 ou 80% de acerto. - Pergunta-se: por que tanta lentidão na aprendizagem e tão ampla (20 a 25%) margem de erro? A resposta está precisamente no fato de que se trata de exercício de memória associativa, sem compreensão dos porquês.

 

Quanto aos desenhos de Moja, foram examinados pelo Prof. Fernando Olivier, da Universidade de Montpellier. Este os equiparou às primeiras garatujas das crianças, que são muito confusas e nada representam; interrogadas pelos adultos, as crianças dão um nome qualquer (pássaro, flor, casa...) a esses rabiscos.

 

Pode-se, pois, concluir que nem os macacos mais aperfeiçoados possuem linguagem simbólica ou linguagem propriamente dita. O que eles praticam é mímica, associação de idéias e reflexos condicionados. Ademais note-se que tais animais não sabem o que é a morte: foi, sim, observado o comportamento de chimpanzés diante de um acidente mortal ocorrido com um semelhante; a indiferença dos mesmos revelou que não compreendiam o significado do ocorrido, nem quando se tratava de mãe posta diante do filhote morto.

 

A respeito de linguagem dos irracionais ver ulteriores considerações em PR 232/1979, pp. 135-150.

 

3.1.3. Aprofundando...

 

A diferença entre o homem e os irracionais no tocante à comunicação pode ser ilustrada ainda pelas observações seguintes:

 

Os animais, dotados de todos os sentidos externos e internos e de uma configuração bucal apta para falar, não conseguem produzir linguagem, mas apenas associam sinais e objetos entre si, criando reflexos condicionados, à custa de longo treinamento. Ao contrário, o ser humano, mesmo privado de visão, audição e linguagem oral, consegue comunicar-se com uma linguagem autêntica e assaz evoluída. Tal foi o caso de pessoas que se tornaram famosas por sua força de vontade e nobreza de caráter.

 

a) Marie Heurtin nasceu em 1885, surda, muda e cega. Em desespero de causa, seu pai entregou-a com dez anos de idade (1/iii/1895) à escola de Larnay, dirigida por Irmãs educadoras. A mesma menina, à primeira vista, parecia fadada a levar vida mais infeliz do que a dos animais irracionais, pois, "para penetrar pelas inúmeras portas do mundo fechado que a cercava, só tinha o molhe de chaves formado pelos seus dez dedos" (Lucien Descaves).

 

Uma das Religiosas - a Irmã Margarida - encarregou-se de empreender a educação da jovem.

A princípio teve que lutar contra os frequentes acessos de cólera de Marie. Um belo dia, tendo observado que a menina se deleitava em brincar com um canivete, retirou-lhe da mão este objeto; Marie se enfureceu. Então a Religiosa lho devolveu por um momento; a seguir, colocou-lhe uma das mãos sobre a outra em sentido perpendicular como se a fosse cortar (tal é o sinal para designar a faca entre os surdo-mudos). A menina de novo mostrou-se irritada; mas lembrou-se de fazer por si mesma o sinal convencional que acabava de aprender; à vista disto, a Irmã lhe restituiu definitivamente o canivete.

 

Marie mostrou assim que compreendia haver uma relação misteriosa entre o canivete e o sinal de mãos. Tendo concebido a ideia de relação, Marie pôde aos poucos aprender outros sinais convencionais para designar outros objetos. A Irmã lhe ensinou o alfabeto dactilógico (as letras expressas pelos dedos); a Religiosa lhe fazia sentir na ponta dos dedos a equivalência existente entre sinais novos e decompostos e o sinal sumário e simples que a jovem já aprendera. Posteriormente Marie aprendeu a equivalência de todos esses sinais dos dedos e de conjuntos de furos feitos sobre papel segundo o método de Braille.

 

Depois que Marie aprendeu a "ler" e "falar" dentro do âmbito das coisas sensíveis, a Irmã Margarida tentou e conseguiu enriquecer sua mente com noções abstratas e imateriais: fê-la apalpar duas companheiras, uma grande e outra pequena; a seguir, fê-la tocar atentamente um menino carregador, maltrapilho, inclinado sob o peso de um saco, e uma pessoa bem vestida, ornada de jóias e portadora de moedas em sua bolsa; fez também que passasse as mãos sobre o semblante liso, fresco e juvenil de uma irmã e, a seguir, por contraste tocasse a cabeça trêmula, a pele rugosa e o dorso encurvado de uma pessoa octogenária.

 

Por esses meios rudimentares, Marie penetrou no mundo dos conceitos abstratos, como são miséria e riqueza, juventude e velhice, grandeza e pequenez; isolou os predicados percebidos (velho, jovem, rico, pobre, grande e pequeno) das condições concretas de espaço e de tempo em que os havia conhecido, e concebeu as noções perenes de juventude e velhice, pobreza e riqueza, pequenez e grandeza. - Percebeu a pobreza e a velhice como realidades que ameaçam todos os homens em todos os tempos e que a ela mesma ameaçavam, a tal ponto que Marie se mostrou instintivamente revoltada contra tais realidades durante horas.

 

Marie Heurtin pôde assim granjear cultura e tornar-se útil para a sociedade. Faleceu em 1921.

 

Vê-se que a ideia de relação ou proporção foi, para Marie Heurtin, a chave da aprendizagem. Tendo essa ideia, a jovem conseguiu associar sinais sensíveis e conceitos abstratos, universais: tal ou tal configuração dos dedos, das mãos ou dos furos de papel com as noções gerais de instrumento cortante, velhice, juventude, riqueza, pobreza, pai, mãe, irmão... Ora a ideia de relação ou proporção não pode ser o produto de órgãos sensíveis materiais, pois estes só apreendem as coisas concretas. A ideia de relação e a capacidade de refletir e generalizar escapam às possibilidades do conhecimento sensível. Donde se conclui que havia em Marie Heurtin, como há em todos os demais seres humanos, uma faculdade de agir imaterial ou espiritual.

 

b) Antes do caso Marie Heurtin, já se registrara o de Marta Obrecht, também surda, muda e cega. Confiada à mesma Escola de Larnay, foi educada pela Irmã Branca, que lhe aplicou processos semelhantes aos do caso Heurtin. De modo especial fez que Marta voltasse sua atenção para o conceito de mãe; a menina aprendeu a discernir o que é essencial na figura da genitora; concebeu assim a noção geral ou universal de mãe, distinguindo-a de notas contingentes que se podem encontrar nesta ou naquela mãe. No fim do aprendizado, Marta, percebendo o papel materno de sua preceptora, escrevia: "A Irmã Branca é mãe para Marta".

 

A Irmã Branca procurou também sugerir a Marta a ideia de futuro: em dado momento, a menina se levantou bruscamente, e, estendendo os braços para a frente, pôs-se a caminhar rapidamente diante da Irmã; acabara de conceber a clássica comparação da vida com uma estrada.

 

A educadora conseguiu outrossim despertar na jovem a noção de seres imateriais, como alma e Deus; Marta assimilou também proposições de fé e moral. Em 1910, entregava-se aos afazeres de dona de casa, à datilografia, à costura (à máquina) e a outros misteres técnicos.

 

c) Ana Maria Poyet tornou-se cega e surda com a idade de três meses. Não obstante, seu pai foi-lhe educando o tato, e modo que pôde conhecer e exprimir muitas noções. Um sopro sobre a mão significava pai, dois sopros mãe, três sopros avó. Aos sábados, quando o pai, simples trabalhador, voltava à casa, trazendo o salário da semana, a menina apalpava as moedas respectivas e, reconhecendo-lhes o valor, manifestava a sua alegria.

 

d) A senhorita americana Hellen Keller é outro exemplo da mesma realidade. Cega, surda e muda, pôde aprender, mediante a linguagem simbólica do tato, que uma mestra pacientemente lhe ensinou, as verdades mais difíceis e abstratas; chegou a tornar-se autora de escritos que impressionam pela profundidade de seus sentimentos e o alto nível de seu raciocínio.

 

Uma reflexão sobre as quatro jovens que acabam de ser mencionadas, permite concluir que, no ser humano, mesmo destituído dos melhores de seus sentidos externos, existe um princípio de atividade capaz de distinguir nas criaturas o que há de concreto, material e contingente, e o que há de perene, imaterial e universal; esse princípio de atividade, que transcende o concreto e percebe relações ou proporções, há de ser imaterial, pois a toda atividade corresponde um princípio adequado; tal princípio é o que se chama "a alma humana" espiritual e, por conseguinte, imortal.

 

3.2. A liberdade de arbítrio

 

Observamos que os animais infra-humanos são levados a comportar-se de acordo com os seus instintos..., instintos de conservação do indivíduo e da espécie; são estes que os impelem a certos bens e os retraem de certos males.

 

Também o ser humano pode ser movido por instintos, instintos espontâneos, cegos, anteriores à deliberação, em virtude dos quais o indivíduo provê à sua conservação ou à conservação da espécie ou ainda a seu prazer... Todavia o homem é capaz de disciplinar e controlar os seus instintos e agir em consequência de deliberações ou decisões tomadas após conhecer intelectualmente a situação em que se ache, e escalonar os valores que ela propõe.

 

Esta atitude própria do homem se explica do seguinte modo:

 

Todo ser humano, além de conhecer instintivamente o que favorece e o que prejudica a sua subsistência física, momentânea, é apto a conceber também a noção de Bem, sem restrição; em consequência, é capaz de querer, por sua vontade, o bem sem limites ou Bem Infinito; todo ser humano, ao querer algo, só o quer porque tal objeto lhe aparece como um bem (real ou, ao menos, aparente); em última análise, a vontade humana quer o bem sem restrição ou sem mescla de imperfeição.

 

Acontece, porém, que todo bem que a inteligência apresente à vontade humana, é sempre um bem finito; mesmo o próprio Deus (que é o Bem Infinito, único capaz de saciar as aspirações do ser humano) é reconhecido na terra à semelhança dos bens finitos, ou seja, de maneira análoga. Com outras palavras: todo bem que se apresente à vontade humana, pode aparecer como insuficiente (o próprio Deus pode aparecer não só como Pai atraente, mas também como Legislador coibitivo de certos prazeres). Por isto a vontade humana goza de liberdade de arbítrio na vida presente, em relação a qualquer bem criado e em relação ao próprio Criador. Na medida em que a inteligência apresenta à vontade os aspectos de um objeto conveniente às disposições momentâneas do sujeito, a vontade se inclina para esse objeto; dado, porém, que o indivíduo se ponha a considerar os aspectos do mesmo objeto que contrariem as paixões do sujeito, a vontade já tem fundamento para o rejeitar. - É este o argumento filosófico que comprova a existência do livre arbítrio do homem; ele se baseia, em última instância, sobre a capacidade que a alma possui de conhecer o universal, o essencial ou o Ser como tal e o Bem como tal, e não somente o bem particular, concreto, singular. Ora tal capacidade supõe, como dito, a imaterialidade ou a espiritualidade da alma humana.

Em íntima ligação com tal argumento, acha-se o seguinte:

 

3.3. A consciência de si mesmo

 

Verifica-se que os animais têm conhecimento de objetos que os cercam, ameaçando-os ou favorecendo-os. O ser humano, além deste tipo de conhecimento, possui o conhecimento de si mesmo ou a autoconsciência; o homem não somente sente dor, mas sabe que sente dor ou que está lesado fisicamente; este fator aumenta enormemente a sua dor, pois o sujeito humano percebe que a sua moléstia o impede de trabalhar devidamente, o que pode prejudicar a sua família, a sua carreira, o seu ideal... Possuindo o conhecimento dos objetos e de si mesmo, o homem concebe o plano de ordenar o mundo e a si mesmo, dominando fatores estranhos ao seu ideal, superando paixões desregradas, cultivando boas tendências, etc. Isto tudo escapa às possibilidades de um animal irracional, pois este conhece o seu objeto concreto, singular, e é incapaz de se emancipar das notas concretas deste e de se voltar para si mesmo de maneira sistemática a fim de se conhecer. O ser humano, ao contrário, realiza esta introspecção, porque o seu princípio de conhecimento (intelecto) é capaz de ultrapassar o seu objeto concreto, material para atingir o próprio sujeito...

 

3.4. A cultura e o progresso

 

Verifica-se que o homem intervém no ambiente natural que o cerca, modificando-o de acordo com as suas intenções e os seus planos; cria assim a cultura, que se sobrepõe à natureza, adaptando-a ao homem; assim é que surgem casas, estradas, cidades, fábricas, artefatos... Essa atividade científica e técnica, social e ética, artística e religiosa, não é o produto de processos fisiológicos e psicológicos apenas ou de fatores materiais e econômicos tão-somente, mas se deve à ação intelectiva e planejadora da inteligência e à liberdade de arbítrio do ser humano. Com efeito, ao conhecer a natureza que o cerca, o homem apreende as relações entre meios e fins ou as proporções entre diversos termos e concebe projetos para melhorar o seu ambiente (o seu habitat natural, a sua alimentação, o seu vestuário, as expressões de sua arte, de seus sentimentos religiosos...); vai assim construindo civilizações sucessivas... Ora o animal é incapaz de progredir em suas expressões, porque é guiado por instintos; assim o animal, embora certeiro e apurado em seus movimentos instintivos, é incapaz de dar contas a si mesmo do que faz e dos porquês da sua atividade; é, por isto, incapaz de se corrigir ou de se ultrapassar. Em última análise, a raiz da diferença entre o comportamento do homem e o do animal reside no fato de que o homem tem um princípio vital ou um princípio de atividades imaterial ou espiritual, ao passo que o animal tem uma alma material ou confinada pelas potencialidades da matéria.

 

3.5. Valores morais e religiosos

 

Verifica-se outrossim que os animais não têm consciência moral. Esta supõe um princípio interior que clama: "Pratica o bem, evita o mal"; este princípio não é forjado pelos homens, mas é congênito; vem a ser a voz de Deus, que chama a criatura ao seu Fim Supremo. Em consequência, tudo o que é condizente com a voz da consciência bem formada é moralmente bom; e tudo o que é destoante, é moralmente mau.

 

À ordem moral se prende a Religião. Esta afirma a existência de um Ser Superior invisível, que a inteligência humana reconhece e que o homem adora e cultua. Uma das mais antigas manifestações do senso religioso é o sepultamento dos mortos (supõe a vida póstuma outorgada pela Divindade): desde a pré-história um dos mais típicos sinais de existência de verdadeiros homens em algum lugar é a presença de sepulturas; estão muitas vezes voltadas para o Sol nascente, que seria o Olho da Divindade a acolher o defunto. Ora os animais infra-humanos não manifestam senso religioso e, por conseguinte, não sepultam os mortos; estas atitudes implicam a percepção de valores transcendentais e imateriais; ora tal percepção só pode ocorrer se existe no sujeito uma faculdade imaterial ou espiritual de percepção; o animal irracional não a tem, mas o homem a possui; este é vivificado por uma alma espiritual, que não é matéria fluída, nem energia elétrica, mas um ser dotado de inteligência e vontade.

 

4. Conclusão

 

A singularidade do ser humano é tal que não pode o sêmen humano ser equiparado ao do animal inferior. Tudo no homem - funções corpóreas e funções espirituais ou, melhor, as funções psicossomáticas da pessoa humana, têm um caráter transcendental ou são voltadas para o Infinito e o Absoluto.

 

O corpo humano mesmo goza dessa dignidade; com efeito, o cadáver de um cão pode ser jogado no lixo ou na fossa sem desrespeito, ao passo que o cadáver de um ser humano é sepultado respeitosamente.

 

O hibridismo avilta a pessoa humana, reduzindo a sua semente à qualidade de mero produto de laboratório. A ciência há de levar em conta a consciência que o homem deve ter da sua unicidade no conjunto dos viventes corpóreos.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


Como você se sente ao ler este artigo?
Feliz Informado Inspirado Triste Mal-humorado Bizarro Ri muito Resultado
4 0
PUBLICAR - COMENTAR - EMAIL

Ver N artigos +procurados:
TÓPICO  ASSUNTO  ARTIGO (leituras: 8281636)/DIA
Diversos  Espiritualidade  4131 Dez conselhos na luta contra o demônio36.50
Diversos  Teologia  4132 A existência de Deus32.90
PeR  Escrituras  1355 Jesus jamais condenou o homossexualismo?30.02
Orações  Comuns  2773 Oração de Libertação14.43
PeR  O Que É?  0516 O Que é a ADHONEP?12.29
Diversos  Apologética  4130 Paulo desprezou Pedro?11.49
PeR  O Que É?  2142 Quiromancia e Quirologia11.23
Diversos  História  4042 R.R. Soares e Edir Macedo11.18
PeR  História  0515 O Recenseamento sob César Augusto e Quirino10.80
Diversos  Protestantismo  1652 Desafio aos Evangélicos: 32 Perguntas10.24
Diversos  Testemunhos  3922 Como o estudo da fé católica levou-me ao catolicismo9.01
Diversos  Prática Cristã  3780 Os pecados mortais mais comuns8.44
PeR  História  2571 Via Sacra, qual a origem e o significado?8.34
Diversos  Mundo Atual  4129 Direto do Inferno7.99
Aulas  Doutrina  1497 Ser comunista é motivo de excomunhão?7.96
Diversos  Ética e Moral  2832 Consequências médicas da homossexualidade7.92
Diversos  Anjos  3911 Confissões do demônio a um exorcista7.75
Diversos  Prática Cristã  3185 Anticonceptivos são Abortivos?7.72
PeR  Prática Cristã  1122 As 14 estações da Via Sacra7.56
PeR  O Que É?  0565 Lei Natural, o que é? Existe mesmo?7.32
Diversos  Testemunhos  3465 Ex-pastor conta como fazia para converter católicos7.31
PeR  Testemunhos  0450 Eu Fui Testemunha de Jeová7.05
Diversos  Protestantismo  3970 A prostituição da alma7.03
Vídeos  Mundo Atual  4128 A 'Humanae Vitae' e a apostasia dos cristãos6.98
Ser cristão não é aderir ao Cristo que o indivíduo imagina, mas é aderir a Ele tal como vive na Igreja, que é seu corpo (cf. Cl 1, 24).
Dom Estêvão Bettencourt

Católicos Online