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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 346 – março 1991

Quaresma e Páscoa:

A Festa Cristã

 

Em síntese: A festa é algo de profundamente humano;corresponde à necessidade que todos têm, de se expandir e viver momentos de gratuidade e de sonho,... sonho que pode não ser mera utopia.

 

A Revelação judeo-cristã conhece suas festas: as do Antigo Testamento convergiram para a festa cristã de Páscoa, celebração da vitória da vida sobre a morte, e réplica a todos os fatores de desgraça humana. Páscoa é a festa da re-criação do homem, ferido pelo pecado e pela morte. Todo domingo vem a ser comemoração do evento pascal ou um momento de eternidade no tempo; por isto os antigos se compraziam em chamar o domingo "o oitavo dia da semana", o dia que ultrapassa os sete dias da primeira criação e da labuta do homem mortal sobre a terra. A celebração da vitória de Cristo no domingo se faz mediante a Eucaristia, que é o compêndio sacramental de todos os dons de Deus aos homens. O cristão que tem consciência das verdades que professa, não pode deixar de estimar a observância do domingo como dia de Missa e de elevação da alma a Deus para antegozar mais intensamente os valores definitivos.

 

Em nossos dias, o vocábulo "festivo" é empregado, por vezes, em tom pejorativo; significa "leviano, superficial". Ora este fato implica uma deterioração do conceito de festa, que é um conceito profundamente humano e nobre. A festa bem entendida é algo de profundamente arraigado em todas as religiões e culturas do mundo. Por isto o Cristianismo também tem suas festas ou sua FESTA, à qual atribui valor especial, dado o seu caráter transcendental.

 

Nas páginas subsequentes, examinaremos 1) o significado de festa no plano antropológico-cuItural; 2) o sentido particular de festa no Cristianismo e 3) o do domingo como celebração da Páscoa do Senhor.

 

1. A festa como expressão humana

 

A festa é algo de tão antigo quanto a cultura humana. Nenhuma época deixou de ter suas festas. Não a extinguiram nem os puritanismos exagerados do passado nem a permissividade consumista e desenfreada do presente, que esvazia o conteúdo nobre da festa. Nem mesmo a tensão da vida de nossos dias, a pobreza e a fome eliminam a propensão do homem à festa; ao contrário, esta aparece como o canal que dá vazão à esperança. A festa vem a ser uma exigência oriunda das profundidades mesmas do ser humano. — Reconhecendo isto, os antropólogos procuram enunciar os títulos que dão valor à festa:

 

Todos sabem por experiência o que é uma festa, de modo que não há necessidade de defini-la. ([1]) Importa, porém, arrolar algumas características da festa no sentido autêntico e sadio da palavra:

 

1) Os dias de festa são dias de expansão mais livre do ser humano. Rompem a monotonia da vida cotidiana, que pode ser massificante, marcada como é pelo ritmo de tarefas que, embora necessárias e justas, desgastam o homem.

 

Os dias de festa permitem ao homem encontrar-se consigo mesmo e entrever, através dos parênteses da festa, o sentido mais profundo e transcendente da sua existência.

 

2) A festa ajuda o homem a cultivar a gratuidade, emancipando-o do afã utilitário, pragmático e calculista, ([2]) que é muitas vezes a tônica de cada dia.

 

Tudo o que é útil, é importante, mas é sempre meio subordinado a um fim. Ao contrário, o que não é útil, pode ser um valor por si mesmo, não dependente de outro. A bem-aventurança celeste, por exemplo, ou a festa definitiva não será um valor útil, porque será o objetivo consumado e perfeito da vida humana.

 

3)  A festa tem sempre uma dimensão comunitária. Ela congrega e une pessoas de procedências diferentes, rompendo barreiras sociais e estabelecendo um tipo de solidariedade nobre e espontânea. A festa provoca a partilha e a comunhão de interesses.

 

4)  A festa, que geralmente celebra um acontecimento do passado, torna esse passado presente e projeta-o para o futuro. Assim, por exemplo, todo aniversário é ocasião de recordar um evento pretérito e de atualizá-lo; o evento é considerado à distância, com objetividade, de modo que os homens tomem consciência da responsabilidade que lhes incumbe de desenvolver cada vez mais vigorosamente a herança recebida dos antepassados. A recordação do pretérito fundamenta a esperança do futuro.

 

Eis algumas linhas típicas da festa genuína, não estragada peia espiral consumista, que a empobrece e reduz à categoria de meio de lucro material.([3])

 

2. A Festa Cristã

 

Todas as correntes religiosas e culturais têm suas festas, mas nenhuma possui motivos tão válidos quanto a cristã para viver desde já a festa que não acabará. Com efeito; a mensagem cristã assume todos os valores positivos da festa humana e os eleva a nível superior, pois ela celebra a recriação do homem por Jesus Cristo, que, com a sua Páscoa (morte e ressurreição), fez novas todas as coisas; cf. Ap 21,5.

 

A festa cristã está profundamente arraigada na história, pondo-se em continuidade com a festa judaica, que nela encontra a sua consumação.

 

Na verdade, Jesus, desde menino, viveu profundamente as festas israelitas do seu tempo. Estas eram o sinal da Aliança de Deus com Israel e a expressão da alegria de saber-se povo de Deus. Ele mesmo, o Senhor, prescrevera a celebração das festas:

 

"Celebrarás a festa em honra do Senhor teu Deus no lugar que Ele tiver escolhido para que o Senhor teu Deus te abençoe" (Dt 16,15).

"Durante seis dias trabalharás e farás as tuas obras; mas o sétimo é dia de descanso, consagrado ao Senhor teu Deus" (Ex 20,9s).

 

Todas as festas de Israel expressavam a expectativa de uma realidade vindoura na plenitude dos tempos (cf. Gl 4,4). A entrada de Cristo neste mundo pôs termo à profecia para dar lugar à salvação definitiva.

 

Jesus selou uma nova Aliança de Deus com a humanidade mediante o seu sangue. Tomou o lugar do cordeiro imolado em cada ceia pascal do Antigo Testamento; entregou aos discípulos o seu corpo e o seu sangue imolados para serem a vítima de nova e plena Páscoa. Mandando que repetissem o seu gesto em memória dele, Jesus instituiu a Eucaristia, que torna presente através dos tempos, de modo incruento, o sacrifício de Jesus oferecido cruentamente na sexta-feira santa. Cf. Mt 26,26-28.

 

É de notar que São João no seu Evangelho faz coincidir na mesma tarde de 14 de Nisã a imolação do cordeiro da Páscoa judaica e a morte de Cristo na Cruz como verdadeira vítima pascal. Assim a realidade dissipou as sombras. Cf. Hb 10,1.

 

Mediante a sua morte expiatória, Jesus também levou à consumação a solenidade judaica da Expiação (Yom Kippur), pois o seu sangue abriu a entrada no santuário celeste ou na Jerusalém celeste; cf. Hb 9,11-14.

 

Em Jesus torna-se presente sobre a terra o Reino de Deus; é uma semente que se vai expandindo até o fim dos tempos. Os bens desse Reino (filiação divina, comunhão com o Pai pelo Filho no Espírito Santo, penhor de herança eterna) são definitivos; tendem a desabrochar cada vez mais amplamente no coração do cristão. Ora esse Reino assim entendido é por Jesus comparado a uma grande festa de núpcias (cf. Mt 22,1s), à qual são convidados todos os homens. Aliás, Jesus inaugura sua pregação messiânica no contexto de uma festa de núpcias em Caná da Galileia (cf. Jo 2,1-12).

 

O Evangelho — a Boa-Nova do Reino — está todo perpassado pela alegria (tenha-se em vista especialmente Lc 1-2), sinal de que o "noivo" se encontra entre os seus amigos (cf. Jo 3,29s; Mc 2,18-22). A própria dramaticidade da Paixão desemboca na alegria efusiva da Ressurreição.

 

3. Páscoa, o cerne da festa cristã

 

Os cristãos têm, no centro do seu calendário de celebrações, a Páscoa de Jesus. Foi nessa ocasião que o Senhor adquiriu para sempre, em favor de todos os homens, a reconciliação com Deus após o pecado dos primeiros pais e fez uma nova criação. Toda festa é um Sim à vida; ora a Páscoa é a festa da Vida por excelência, com vitória sobre a própria morte. Por isto o significado de Páscoa se irradia sobre o ano cristão inteiro. Toda festa cristã é, a seu modo, um eco de Páscoa ou uma celebração de Páscoa.

 

A Páscoa de Cristo se perpetua, por excelência, na Eucaristia. Isto explica o lugar central que ocupa a Missa em cada festa cristã; sem Eucaristia, a festa é privada da sua referência mais intensa à Páscoa de Cristo, eixo de toda a vida cristã. A Palavra de Deus, lida em cada assembleia eucarística, recorda as maravilhas realizadas por Deus na história da salvação e anuncia a continuação das mesmas, aqui e agora, por meio dos sacramentos.

 

É precisamente a Eucaristia que faz que as festas cristãs não sejam mera recordação do passado, mas sejam um sinal que manifesta e torna presente a bondade de Deus, Salvador do mundo por meio de Jesus Cristo.([4])

 

A festa cristã, porém, não se reduz apenas à celebração da Eucaristia. Esta se prolonga na chamada "Liturgia das Horas" (especialmente no Ofício das Laudes matutinas e das Vésperas), como também nos exercícios de piedade que a devoção do povo de Deus estima. A temática da festa cristã inspirou muitas vezes autos, dramas sagrados, mistérios, além de divertimentos sadios que exprimem a dilatação dos corações.

 

A fonte de toda a alegria cristã será sempre a presença do Senhor na sua Igreja, cumprindo a promessa até o fim dos séculos: "Estarei convosco" (Mt 28,20). E presença misteriosa, mas real e multiforme, graças ao dom do Espírito, que acompanha os discípulos e os converte em morada do Pai e

do Filho.

 

Esta presença sacramental de Jesus, mais eficaz e importante do que a presença visível captada outrora pelos sentidos, é a antecipação do encontro definitivo na festa que não terá fim. Enquanto não chega a consumação da história, a Igreja tem o papel de congregar todos os homens em seu bojo para serem participantes da alegria final.

As festas cristãs, tendo por centro a participação na S. Eucaristia, constituem o ponto alto da vida do discípulo de Cristo. Todos os demais valores religiosos, culturais, humanos e sociais que integram o conceito de festa, estão incorporados nesse valor fundamental, que lhes dá sentido pleno.

 

4. Unidade e multiplicidade

 

Estes dados implicam outrossim que os cristãos, em última análise, celebram sempre a mesma única festa de Páscoa na Liturgia e na vida. A aparente multiplicidade de festas do calendário cristão é exigência inevitável da condição de peregrinos terrestres, sujeitos a progredir aos poucos na compreensão e na assimilação dos dons de Deus.

 

Atendendo a este ritmo de viandantes, a S. Igreja, Mãe e Mestra, vai desdobrando no tempo todo o mistério de Cristo, desde a expectativa do mesmo no Antigo Testamento (Advento) e o Natal até Páscoa e Pentecostes, que acenam para a segunda vinda (parusia) do Senhor Jesus.

 

É de notar, porém, que esse desdobramento do mistério de Cristo com todos os seus matizes e ressonâncias, a constituir o ano litúrgico, tem sempre seu núcleo fundamental e seu ápice no acontecimento decisivo da morte e ressurreição de Jesus (Páscoa), que se irradia em todas as festas do ano cristão.


5. O Domingo

 

O domingo ficou sendo o dia em que, por excelência, os cristãos celebram a Páscoa ou a vitória de Cristo sobre a morte. O Concílio do Vaticano II o valorizou como festa primordial:

 

"Em virtude da tradição apostólica, que tem sua origem no dia mesmo da Ressurreição de Cristo, a Igreja celebra em cada oitavo dia o Mistério Pascal. Esse dia chama-se justamente dia do Senhor ou domingo. Neste dia, pois, os cristãos devem reunir-se para, ouvindo a palavra de Deus e participando da Eucaristia, lembrar-se da Paixão, Ressurreição e Glória do Senhor Jesus e dar graças a Deus, que os regenerou para a viva esperança pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos. Por isso o domingo é um dia de festa primordial que deve ser lembrado e inculcado à piedade dos fiéis, de modo que seja também um dia de alegria e de descanso. As outras celebrações não se lhe anteponham, a não ser que realmente sejam de máxima importância, pois o domingo é o fundamento e o núcleo do ano litúrgico" (Constituição Sacrosanctum Concilium no 106).

 

O domingo nasceu no dia em que Cristo ressuscitou. Este acontecimento é tão importante para os cristãos (cf. 1Cor 15,13.17) que a Igreja o celebra de oito em oito dias sem interrupção (mesmo quando os dias da semana são consagrados ao jejum e à penitência, como na Quaresma e no Advento). Examinemos, pois, de mais perto algumas de suas facetas.

 

5.1. O primeiro dia da semana judaica...

 

O domingo é o dia posterior ao sábado (79 dia) da semana judaica, pois Jesus ressuscitou "no primeiro dia da semana", como atestam os evangelistas (cf. Mt 28,1; Mc 16,1.9). Era, pois, o primeiro da semana judaica que, para os cristãos, veio a ser o shabbath (repouso), o dia do Senhor (cf. Ap 1,10) e o oitavo dia, comoveremos a seguir.

 

5.1.1. Shabbath

 

A palavra hebraica Shabbath significa repouso. O sétimo dia dos judeus era dedicado ao repouso. Os cristãos compreenderam, desde o tempo dos Apóstolos, que o sétimo dia, doravante, deveria ser o da Ressurreição do Senhor. Por isto deslocaram de um dia a contagem da semana, de modo a celebrar seu sétimo dia (sábado) no primeiro dia da semana judaica ou no domingo. São Paulo já dá testemunho desta praxe em 56, quando recomendava que, por ocasião da assembleia eucarística no domingo, se fizesse a coleta em favor dos pobres:

 

"No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de lado o que conseguir poupar" (1Cor 16,2).

 

O livro dos Atos dos Apóstolos (20,6-11) também atesta a celebração da Eucaristia no primeiro dia da semana judaica ou no domingo cristão:

 

"No primeiro dia da semana, estando nós reunidos para a fração do pão. . ." (At 20,7).

 

Observe-se que até hoje os cristãos de língua síria chamam o domingo "primeiro dia da semana". Isto, aliás, combina bem com o costume português de numerar os dias da semana a partir de segunda-feira (a "primeira feira" é o domingo!).

 

5.1.2. O Dia do Senhor

 

Por volta de 95, ao escrever o Apocalipse, São João refere o nome cristão dado ao primeiro dia da semana judaica:

 

"Fui arrebatado em espírito no dia do Senhor e ouvi atrás de mim uma grande voz como que de trombeta" (Ap 1,10).

 

A expressão grega kyriaké heméra (= dia senhorial) vem de Kyrios; deu em latim dominica dies; donde se fez dominga no português arcaico, e domingo na linguagem atual.

 

Assim o primeiro dia da semana é tido como o dia em que Jesus recebeu "um nome que está acima de todo nome" {Fl 2,9) e foi, pelo Pai, constituído o Salvador de todos os homens.(1)

 

A locução dia do Senhor ocorre logo no fim do século I, na Didaqué, catecismo da Igreja nascente: "Reuni-vos no dia do Senhor para a fração do pão e agradecei (celebrai a Eucaristia)" (XIV, 1).

 

Chama a atenção a associação de dia do Senhor e Eucaristia. Esta, perpetuando a Páscoa do Senhor, é, na verdade, o melhor meio de a celebrar. A praxe tem suas raízes no próprio Evangelho: os discípulos de Emaús reconheceram o Senhor ressuscitado ao celebrarem a fração do pão na tardinha do dia de Páscoa: ouviram a Palavra do Senhor, que lhes desvendava as Escrituras caminho andando, e descobriram a sua presença vitoriosa quando partiu o pão e lhos distribuiu; cf. Lc 24,13-22.

 

O dia do Senhor foi posteriormente chamado também "dia do Sol" — costume até hoje existente em inglês (Sunday), em alemão (Sonntag). Este designativo tem sua origem no linguajar dos pagãos, que dedicavam cada dia da semana a um astro: Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vénus, Saturno; deixou vestígios em línguas neolatinas (como o espanhol, o italiano, o francês).

 

São Justino (+165) dirigiu ao Imperador Antonino Pio uma Apologia em favor dos cristãos, na qual descreve minuciosamente a assembleia eucarística. Já que tinha em vista os pagãos, utilizou a terminologia deles, chamando o domingo "dia do sol"; esta expressão não implica interferência do paganismo no Cristianismo, mas exprime o desejo, de Justino, de se fazer compreender numa exposição que em absoluto não se ressente de sincretismo religioso:

 

"No dia que se chama do Sol, celebra-se uma reunião dos que moram nas cidades ou nos campos e ali se leem, quanto o tempo permite, as Memórias dos Apóstolos ou os escritos dos profetas.

 

Assim que o leitor termina, o presidente faz uma exortação e convite para imitarmos tais belos exemplos. Erguemo-nos todos, então, e elevamos em conjunto nossas preces, após as quais se oferecem pão, vinho e água, como Já dissemos. O presidente também, na medida de sua capacidade, eleva a Deus suas preces e ações de graças, respondendo todo o povo 'Amém'.

 

"Se confessares com tua boca que Jesus é Kyrios (Senhor) e creres em teu coração que Deus O ressuscitou dentre os mortos, serás salvo" (Rm 10,9).

 

Segue-se a distribuição e participação, que se faz a cada um, dos alimentos consagrados pela ação de graças, e seu envio aos ausentes, por meio dos diáconos. Os que têm, e querem, dão o que lhes parece, conforme sua livre determinação, sendo a coleta entregue ao presidente, que com ela auxilia os órfãos e viúvas, os enfermos e outros necessitados, os encarcerados, os forasteiros de passagem, constituindo-se, numa palavra, o provedor de quantos se acham em necessidade. Celebramos essa reunião geral no dia do sol, por ser o primeiro, aquele em que Deus, transformando as trevas e a matéria, fez o mundo; o dia também em que Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dos mortos: pois convém saber que o crucificaram no dia anterior ao de Saturno, e que no dia seguinte, isto é, no dia do sol, apareceu a seus apóstolos e discípulos, ensinando as mesmas doutrinas que propomos a vosso exame."

 

Aludindo à expressão pagã e tentando cristianizá-la, S. Inácio de Antioquia (+107) dizia que o domingo "é o dia em que amanheceu nossa vida" (Aos Magnésios 9,1). Podia basear-se em expressões bíblicas como Lc 1,78, onde o Messias é chamado "o astro (Anatole) das alturas", e Ml 3,20, que apresenta o Messias como "Sol de Justiça". A tradição cristã desenvolveu a temática, como se depreende dos dizeres de S. Máximo, bispo de Turim (+465):

 

"O domingo é, para nós, um dia venerável e solene, porque é aquele em que o Salvador, como o Sol nascente, dissipou as trevas do inferno, e brilhou com a luz da ressurreição. Por esta razão, tal dia é chamado pelos homens do mundo dia do sol, já que o Sol de Justiça o iluminou ao nascer" (homilia em Pentecostes 1).

 

5.1.3. O oitavo dia

 

A designação do domingo como sendo o oitavo dia da semana significa que no domingo o cristão ultrapassa o modo de viver e os bens que este mundo oferece, para usufruir um pouco mais dos bens eternos.

 

O número 7, na Mística antiga, simboliza sempre a perfeição ou plenitude dos bens deste mundo. Para os israelitas, o sétimo dia era o dia de participar do descanso de Deus, que teria criado o mundo em seis dias. O oitavo dia, sobrepondo-se aos sete dias da semana, é o dia que não tem ocaso ou o dia da luz definitiva; é como que um dia arrebatado à eternidade.

 

Nesse dia o cristão é chamado a "procurar mais intensamente as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus" (Cl 3,1). Assim revigorado, retoma ele na segunda-feira o curso de seus afazeres a fim de construir mais convictamente o Reino de Deus sobre a terra.

 

Entre o sábado judeu e o domingo cristão existem ruptura e continuidade. Ruptura, por causa da radical novidade do domingo, que não é simplesmente a cristianização do sábado, mas o sacramento da Páscoa de Cristo e de uma nova criação. Continuidade, porque o rico sentido teológico do sábado, dia de paz e repouso em Deus, antegozo da felicidade póstuma, permanece válido. Por isto entende-se que muitos cristãos antigos provenientes do judaísmo, tenham observado o sábado; todavia, ao pôr do sol do sábado (quando se começavam a contar as horas do domingo, conforme o costume judaico), dispunham-se a celebrar a Ceia do Senhor e a presença do Ressuscitado com os cristãos de origem não judaica. Em nossos dias algumas denominações protestantes, tendentes a retornar ao Antigo Testamento, apregoam a observância do sábado, esquecendo o deslocamento da criação para a re-criação realizada por Jesus Cristo, que fez do dia da Ressurreição o dia do Senhor por excelência.

 

5.2 O Dia da Assembléia Eucarística

 

Como dito, o momento alto do domingo é o da celebração eucarística, que reúne os fiéis em torno da mesa de Cristo. Por isto o dia do Senhor é também o dia da Igreja. Na verdade, Cristo, Eucaristia e Igreja são inseparáveis entre si; a Eucaristia (Corpo de Cristo sacramental) faz a Igreja (Corpo de Cristo místico), e a Igreja faz a Eucaristia. Em consequência, o cristão é convocado para participar da Eucaristia juntamente com seus irmãos, formando um só corpo eclesial, mesmo que prefira ir à igreja isoladamente; as tendências particulares hão de ceder ao senso eclesial e sacramental que a mensagem cristã suscita em todos os fiéis. A assembleia eucarística dominical deve tornar-se uma necessidade vital, a respiração e a pulsação do coração dos filhos da Igreja.

 

A consciência desta verdade é-nos atestada por episódios antigos, dos quais destacamos o dos mártires de Abitene (perto de Tunis, ao Norte da Africa); poderiam ser chamados "os mártires do domingo".

 

Era o ano de 304. Um grupo de cristãos, presos por estarem reunidos contra as ordens do Imperador Diocleciano, compareceram aos 12 de fevereiro em Cartago perante o procônsul Anulino. Havia aí um sacerdote. Saturnino, além de jovens, crianças e pessoas importantes da sociedade, entre as quais o senador Dativo. As Atas do processo por que passou esse grupo, nos dão a conhecer o diálogo travado entre os cristãos e os juízes, desejosos de que se declarassem culpados. Todos acabaram morrendo pela fé, como narra minuciosamente o cronista. Eis trechos dos mais significativos das Atas:

 

"A primeira dos confessores da fé torturados, Télica, gritou: 'Somos cristãos;por isto é que nos reunimos'.

 

O procônsul interrogou-a: 'Quem é que, junto contigo, chefia as vossas reuniões?'

 

A mártir respondeu com voz clara: 'O presbítero Saturnino, e todos

nós'.

 

Vitória, uma das cristãs, respondeu: 'Tudo o que tenho feito, tem sido espontâneo e por minha própria vontade. Sim; assisti à reunião e celebrei os mistérios do Senhor com meus irmãos, porque sou cristã'.

 

O presbítero Saturnino, tendo sofrido torturas em seu corpo, foi levado à presença do procônsul, que lhe disse:

 

'Tu agiste contra o mandamento dos Imperadores reunindo-te com todos esses cidadãos'.

 

Saturnino, cheio do Espírito Santo, respondeu-lhe: 'Celebramos tranquilamente o dia do Senhor, porque a celebração do dia do Senhor não pode ser omitida'.

 

Enquanto atormentavam o sacerdote, sobreveio o leitor Emérito, que disse: 'Sou eu o responsável, pois as reuniões se realizaram em minha casa. E assim fizemos porque o dia do Senhor não pode ser preterido; é o que manda a lei'.

 

O procônsul perguntou:

 

'Em tua casa foram celebradas essas reuniões? Por que permitiste aos teus colegas entrar?'

 

    'Porque são meus irmãos e eu não os podia impedir'.

 

    'Ora era teu dever impedi-los'.

 

    'Isso não me era possível, pois nós não podemos viver sem celebrar o mistério do Senhor'.

 

Igualmente, varies dos companheiros puseram-se a declarar:

 

— 'Nós somos cristãos e não podemos guardar outra lei que não a lei santa do Senhor'.

 

O procônsul lhe disse:

 

- 'Não vos pergunto se sois cristãos, mas se celebrastes reuniões'".

 

A esta altura o autor das Atas comenta:

"Tola e ridícula pergunta do juiz! Como se o cristão pudesse viver sem celebrar o dia do Senhor] Ignoras, Satanás, que o cristão está fundamentado na celebração do dia do Senhor?"

 

Ainda nessas Atas se lê que um jovem, Félix, deu corajoso testemunho: "Eu celebrei devotamente os mistérios do Senhor e me reuni a meus irmãos, porque sou cristão".

 

Um menino, Hilariano, sem medo dos tormentos, também disse: "Sou cristão, e espontaneamente, por minha própria vontade, celebrei devotamente os mistérios do Senhor e me reuni aos meus irmãos, porque sou cristão" (Actas de los Mártires, BAC, pp. 975-994).

 

Como se vê, para os primeiros cristãos a observância do domingo era de importância capital. Verdade é que, outrora como hoje, houve os negligentes, que os pastores tiveram de exortar à prática fiel. É o que se depreende da epístola aos Hebreus, escrita talvez entre 64 e 70:

 

"Velemos uns pelos outros para nos estimularmos à caridade e às boas obras. Não deixemos as nossas assembleias, como alguns costumam fazer. Procuremos antes animar-nos sempre mais, à medida que vedes o Dia se aproximar" (Hb 10, 24s).

 

No século III, a Didascalia dos Apóstolos exortava:

 

"Quando ensinares, ordenarás e persuadirás o povo a ser fiel às assembleias de culto; não falte, mas seja fiel ao costume de reunir-se, a fim de que ninguém seja causa de detrimento para a Igreja por suas faltas, nem o Corpo de Cristo se veja diminuído em algum de seus membros... Não vos enganeis, pois, e não priveis de seus membros Nosso Senhor, nem dilacereis ou estraçalheis o seu Corpo. Não deis primazia aos vossos interesses antes que à Palavra de Deus; mas no dia do Senhor deixai tudo e acorrei com diligência às vossas assembleias, pois aqui está o que vos honra. Que desculpa terão diante de Deus os que não se reúnem no dia do Senhor para escutar a Palavra da vida e nutrir-se do alimento divino que permanece para sempre?" (cap. 13).

 

Em 305 aproximadamente, o Concílio regional de Elvira (Espanha), supondo a obrigação de Missa dominical, impunha sanção aos faltosos:

 

"Se alguém, encontrando-se na cidade, deixar de acudir à igreja durante três domingos, será privado, por algum tempo, da Comunhão para que veja que precisa de se emendar" (cânon 21).

 

S. Agostinho (+430) se queixava de que em seu tempo havia cristãos que iam mais ao teatro ou ao circo do que à igreja!

 

Atualmente registra-se a grande crise de católicos que se dizem "não praticantes". Muitas são as causas deste fenômeno:

 

         falta de conhecimento da doutrina cristã;

         o secularismo, que esvazia os dias festivos, privando-os dos seus conteúdos religiosos para substituí-los pelos novos ritos de massas: esporte, teatro, discoteca, turismo. . .;

 

         fins de semana fora do local de residência;

         transição da civilização rural para a urbana, fazendo com que numerosas populações se desloquem, e, junto com seu torrão natal, percam seus hábitos religiosos;

 

         defasagem entre festas religiosas e feriados civis. ..

 

Apesar da baixa prática religiosa em nossos dias, a Igreja julga que deve continuar a urgir a observância do domingo como sendo um mínimo insubstituível para que alguém possa ser considerado cristão; com efeito, o domingo com a sua Eucaristia é que faz a identidade do cristão. Quem não participa da Missa dominical, corre o risco de ver apagar-se a sua fé. É muito difícil perseverar como crente se não há prática religiosa correlativa.

 

Possa a consciência destas verdades impregnar-se profundamente em nossos fiéis católicos!

 

Ver a propósito:

 

PR 312/1988, pp. 236-238 (A Restauração do Domingo Cristão);

 

PR 324/1989, pp. 207-218 (O Domingo).



[1] O Dicionário de Aurélio diz que festa é "reunião alegre para fim de divertimento". — Descrição pálida e pobre.

[2] Verdade é que a festa também tem sua utilidade eseus objetivos:ela permite que o homem se restaure e se recomponha física e psiquicamente.

[3] É o que se dá com festas autenticamente cristais como Natal e Páscoa. O comércio e o intuito de ganho material apoderaram-se dessas ocasiões do ano para fins lucrativos, deteriorando por completo seu profundo significado cristão e humano.

[4] O leitor observará a insistência com que se afirma que a Eucaristia (e os sacramentos em geral) atualizam ou tornam presente a Páscoa de Cristo realizada há quase dois mil anos. Esta afirmação só pode ser sustentada pela fé, mas é básica dentro da mensagem cristã. É dela que se derivam outras proposições da doutrina católica.


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Diversos  Testemunhos  3922 Como o estudo da fé católica levou-me ao catolicismo7.77
PeR  O Que É?  0565 Lei Natural, o que é? Existe mesmo?7.53
PeR  Prática Cristã  1122 As 14 estações da Via Sacra7.40
PeR  Escrituras  2389 O Pai Nosso dos Católicos e dos Protestantes7.13
Diversos  Anjos  3911 Confissões do demônio a um exorcista7.08
PeR  Testemunhos  0450 Eu Fui Testemunha de Jeová7.02
Vídeos  Testemunhos  4146 A Eucaristia na Igreja6.97
Vídeos  Liturgia  4145 Missas de Cura e Libertação6.94
Diversos  Testemunhos  3465 Ex-pastor conta como fazia para converter católicos6.88
PeR  Filosofia  0085 De Onde Viemos? Onde Estamos? Para Onde Vamos?6.64
PeR  O Que É?  1372 Eubiose, que é?6.63
Queridos jovens, que cada um de vós se deixe plasmar diariamente pela palavra de Deus: ela vos transformará em amigos do Senhor Jesus, capazes de fazer outros jovens entrar nessa mesma amizade com Ele.
Papa Bento XVI

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