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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 508 – outubro 2004

No mundo dos arquétipos:

 

QUE É O SANTO GRAAL? ([1])

 

Em síntese: A palavra Graal parece significar prato ou cuia, na qual se depositam alimentos. O Graal é dito santo, porque, conforme a lenda, foi o prato utilizado por Jesus em sua Última Ceia; José de Arimatéia teria recolhido nele gotas do sangue de Cristo deposto da Cruz.

 

A Idade Média, a partir do século XII, elaborou romances que exploraram a lenda do Santo Graal, fazendo convergir para esse núcleo o ideal do Cavaleiro medieval e grande número de crenças, crendices e concepções folclóricas...Abstração feita das narrativas em prosa, contam-se 63.000 versos aproximadamente dedicados ao Santo Graal na Idade Média.

 

Nos últimos tempos o mito do Santo Graal tem despertado novo interesse, pois parece corresponder à aspiração, inata em todo homem, de descobrir o paraíso... o paraíso que somente os puros e fortes podem atingir.

 

Ouve-se, por vezes, falar do Santo Graal, mas nem sempre com clareza. Tal expressão parece encobrir e revelar "mistérios e portentos" que ninguém conhece bem, como no romance de Dan Brown. Daí a oportunidade de abordarmos o assunto ([2]).

 

1. Etimologia da Expressão

 

A origem da palavra Graal é incerta.

Há quem julgue que vem do termo latino cratalis. por sua vez derivado do grego kráter = taça para beber. Esta explicação é hipotética.

A palavra aparece em sua forma latina gradalis num documento catalão datado de 1010. Em 1150 ocorre em dialeto provençal o vocábulo grazal. Em 1170 aparece sob a sua forma atual graal em documentos da língua francesa. Designa um recipiente no qual se podem colocar alimentos sólidos e líquidos. Não é, pois, um cálice propriamente dito; significa, antes, uma cuia ou um prato fundo.

 

A literatura medieval encarregou-se de configurar melhor o graal, atribuindo-lhe diversas serventias no enredo de estórias e romances diversos, como passamos a ver.

 

2. Na literatura medieval: o Conte Del Graal

 

O romance que introduziu na literatura da França o Santo Graal, deve-se a Chrétien de Troyes, que escreveu em 1182-3 aproximadamente o Perceval ou Conte dei Graal. Eis o respectivo enredo:

 

Um gentil-homem gaulês, chamado Perceval, bastante simplório, penetra, no fim de um dia, num castelo, cujo senhor é o rico Rei Pescador, paralítico das pernas. Após cear com o castelão, Perceval assiste a um desfile, do qual constam uma lança cuja ponta sangra permanentemente, emitindo três gotas de sangue, e um aparato de louça, cuja peça principal é um graal ou um prato ornado de pedras preciosas, portador de uma hóstia; uma jovem leva essa hóstia a um santo ancião, que há quinze anos vive unicamente desse tipo de alimento. - Se Perceval tivesse perguntado por que a lança sangrava e quem era o personagem a quem se servia o graal, o Rei Pescador teria recuperado a saúde, e seu reino devastado se teria tornado próspero. Perceval, porém, preso pela timidez, deixou de fazer estas duas perguntas; por isto foi, conforme a trama do romance, condenado a cinco anos de andanças sem rumo definido; viveria esquecido de Deus até uma sexta-feira santa, em que se reconciliaria com o Senhor mediante uma confissão geral.

 

Assim passou o romance de Chrétien de Troyes para a posteridade. Percebe-se aí algo de misterioso. A obra está inacabada, pois o autor foi arrebatado prematuramente pela morte.

 

Por conseguinte, ficou aberta para as gerações seguintes a pergunta: que significam a lança que sangra, e o graal? - Uma numerosa série de escritos tentou interpretar o "mistério" e o enredo do romance "Conte dei Graal".

 

Dentre essas interpretações, destacam-se duas de maior relevo:

1)  Alguns autores, impressionados por traços cristãos (canônicos ou apócrifos) do romance, entendem que o Graal é uma relíquia da Paixão de Jesus (seria o prato da Última Ceia do senhor) ou é um vaso eucarístico (cibório). O cortejo ou desfile que Perceval contemplou, seria o símbolo do mistério da Redenção; a mulher portadora do Graal representaria a Igreja.

2)  Outros intérpretes se detêm mais nos traços ambíguos do romance. Este seria o remanejamento de uma lenda celta, à qual Chrétien de Troyes teria dado um colorido cristão, pensando nas características do cavaleiro medieval; assim a índole misteriosa ou mirabolante da estória primitiva teria sido mesclada com elementos cristãos

 

Vejamos agora como na literatura posterior vários escritos tentaram terminar o romance de Perceval ou o Conte dei Graal.

 

3. Literatura medieval: as "Continuações"

 

Nos séculos subsequentes apareceram as chamadas "Continuações" do romance.

 

A mais antiga é a Continuation Gauvain, anterior a 1200. Segundo esta obra, a lança que sangra, é a que transpassou o lado de Jesus pendente da Cruz (ver Jo 19, 34); o Graal, porém, nada teria de cristão; seria uma taça que se deslocaria por si mesma para atender aos comensais de uma refeição.

 

A Continuação Perceval (antes de 1200) apresenta o Graal como sendo um vaso que recolheu o sangue de Cristo derramado no Calvário.

 

Na mesma época Roberto de Boron escreveu um Roman de Testoire dou Graal. Não trata da lança; mas interessa-se pelo Graal (transformado em nome próprio); este seria o prato no qual Jesus comeu a sua última Páscoa; José de Arimatéia teria pedido a Pilatos que lhe doasse esse prato e nele teria recolhido o sangue que saiu das chagas de Cristo, quando O desceram da Cruz e O envolveram na santa mortalha. Conforme a lenda apócrifa (tirada do "Evangelho de Nicodemos", que Roberto Boron utiliza), José de Arimatéia foi encarcerado; ora, diz Roberto de Boron, na prisão Jesus apareceu a José de Arimatéia, apre-sentando-lhe o Graal e pedindo-lhe que, uma vez libertado, zelasse pela conservação desse prato e fizesse dele o objeto de um culto secreto. -Tal romance repercutiu na piedade de muitos leitores: o Graal tornou-se, para eles, símbolo da presença de Deus; o Graal teria falado a José de Arimatéia ajoelhado; ao vê-lo, os puros de coração, sentados em torno do Graal, recebem diariamente o alimento para a alma e para o corpo; ao contrário, os impuros que ousem sentar-se à mesma mesa, são logo desmascarados e prostrados. Ainda conforme o romance, José de Arimatéia ficou na Palestina, ao passo que o Graal foi transportado para Avaron (Avalon-Glastonbury na Inglaterra); nesta nova sede, o Graal teria sido entregue aos cuidados de Alano, sobrinho de José de Arimatéia, e do filho de Alano (chamado Perceval?). - Assim a estória do Graal foi, de um lado, associada à história da Paixão de Cristo e, de outro lado, conjugada com as origens do Cristianismo na Inglaterra.

 

Ainda no começo do século XIII apareceu o romance Quête Del Saint Graal (Procura do Santo Graal), que faz eco a Roberto de Boron. Os heróis desse novo romance são cavaleiros da corte do rei Artur, ([3]) cuja estória é a seguinte: aos cavaleiros da corte do rei apareceu o Graal numa manhã de Pentecostes. Uma vez desaparecido, os cavaleiros resolveram partir à procura do mesmo. Os melhores deles compreenderam que o Graal é o símbolo da "Graça do Espírito Santo", concedida àqueles que fazem penitência e sabem escapar das tentações do mundo; a estes homens, caracterizados pela humildade e a castidade, é dado conhecer os mistérios mais recônditos do Graal... Graal que não é outra coisa senão Deus visto face à face. Assim, a estória do Graal tomou a índole de um itinerário de vida espiritual; nesse itinerário, apregoado por Quête aparecem eremitas e monges vestidos de branco que, utilizando as Escrituras Sagradas, nos incitam a passar da "Cavalaria terrena" à "Cavalaria celestes

 

Em 1225 aproximadamente, o romance Quête foi incorporado a um vasto ciclo de romances chamado Lancelot-Graal. Na abertura deste ciclo, o autor insinua que a estória da Quête ocorreu no século V.

 

4.0 Santo Graal: versão alemã medieval

 

A estória do santo Graal, que teve origem em território francês, foi adotada e adaptada em outras literaturas (alemã, inglesa, neerlandesa, espanhola, portuguesa...)

 

A obra mais conhecida dentre essas adaptações é o Parzival de Wolfram von Eschenbach, datado da primeira década do século XIII. Reassume os dados do Conte Del Graal de Chrétien de Troyes e da Continuation Gauvain; modifica-os, acentuando a índole misteriosa e patética do romance. O Graal toma então a configuração de uma pedra preciosa, que oferece alimento e bebida para o corpo e simboliza as alegrias do paraíso perdido. Foi trazido à terra pelos anjos, e possui eficácia milagrosa por causa de uma hóstia trazida do céu por uma pomba toda sexta-feira santa e depositada sobre o Santo Graal.

 

Este era, a princípio, guardado por anjos neutros, que foram projetados do céu sobre a terra por não terem tomado partido contra Lúcifer. Tais anjos, porém, acabaram precipitados no inferno, segundo o enredo do romance, e foram substituídos por cavaleiros escolhidos e puros: os Templários. Todavia o chefe desses guardas - Amfortas (do francês amférté, enfermidade) - é atormentado pela lança sangrenta, que o castiga por causa de sua vida pregressa, pouco digna. A contemplação do Graal o conserva vivo. A pedra sagrada o pode curar, mas para tanto requer-se que Parzival, um dos heróis do romance, compadecido, pergunte a Amfortas qual a causa do seu sofrimento.

 

5. O Parsifal de R. Wagner (1882)

 

A estória do santo Graal atravessou os séculos, levando consigo as suas notas misteriosas, obscuras e lacônicas. Uma das versões modernas mais significativas é a de Richard Wagner (1882).

 

Wagner inspirou-se na obra de Wolfram von Eschenbach, traduzida para o alemão moderno em 1842 por Simrok. Wagner concebe o Santo Graal como sendo o cálice da última ceia de Jesus doado por Pilatos a José de Arimatéia. Tira, porém, do Graal todo significado religioso propriamente dito, e vê no mesmo o símbolo humano da piedade ou da compaixão, que ajuda os homens atribulados. A humanidade é Parsifal; tal nome, porém, embora tenha semelhança com Perceval e Parzival, é derivado do árabe segundo a etimologia proposta por Gorres; seria composto de parsi (= puro, em árabe) e fal (= louco, também em árabe); assim entendido, Parsifal seria um jovem dotado de profunda intuição do que é o sofrimento da humanidade; na base dessa intuição, ele estaria habilitado a proporcionar aos homens a cura dos males de que sofrem.

 

6. Conclusão

 

As estórias do Santo Graal podem ser tidas como expressões de um mito medieval, talvez de origem celta; nesse mito fundiram-se elementos cristãos apócrifos, o ideal do cavaleiro medieval, os anseios de santidade ou perfeição espiritual do Cristianismo como também traços de alquimia e busca da pedra filosofal. A bibliografia atinente ao Santo Graal é enorme. Não levando em consideração os muitos relatos em prosa, contam-se aproximadamente 63.000 versos relativos ao Santo Graal da Idade Média. A substância de tal mito carece de valor histórico, embora uma ou outra versão do mesmo possa referir-se a algum episódio de história.

 

Nos séculos XIX/XX reaparece o mito do Santo Graal, restaurado nas obras de W.Morris, T. S. Eliot, H. Hesse, Tolkien, Dan Brown. O Santo Graal vem a ser então o arquétipo dos objetos procurados ansiosamente, conforme a escola de CG. Jung. A persistência desse mito e o poder de sedução que ele exerce até nossa época, se explicam pelo fato de que correspondem a profunda aspiração da psique humana: esta quer descobrir a via que leva ao paraíso, paraíso ao qual só pode chegar quem seja puro e corajoso.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)



[1] Apresentação objetiva, assaz diferente da do romance de Dan Brown.

 

([3]) O rei Artur da Inglaterra é figura semilendária, que animou a resistência vitoriosa dos celtas da Grã-Bretanha contra os anglo-saxões (séc. VA/l). Tal figura prestou-se à elaboração de numerosas estórias fantasistas, das quais a primeira redação data do séc. IX; essas estórias utilizaram lendas fornecidas pela História Regum Britanniae de Godofredo de Mommouth. Relatos posteriores franceses e ingleses atribuem ao rei Artur poderes mágicos e apresentam sua corte como sede da Cavalaria medieval. Os Cavaleiros da Mesa Redonda são figuras lendárias associadas à imagem do rei Artur.


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Dom Estêvão Bettencourt

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