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PERGUNTE E RESPONDEREMOPS 505 – julho 2004

Campanha

 

CONTRA SANTOS ANTIGOS

 

Em síntese: Tem-se levantado uma campanha contra Santos antigos, não canonizados oficialmente pela Igreja. Esta reconhece que muitas "estórias" de Santos antigos não merecem crédito; ela o declara sem que seu magistério seja afetado, pois nunca houve definição dogmática a respeito de tais Santos.

 

Tem-se movido calorosa campanha contra a historicidade de Santos antigos, não canonizados oficialmente. A Igreja reconhece o caráter lendário de muitas "estórias" de Santos sem que isto afete o seu magistério, pois nunca houve definição dogmática a respeito de tais Santos.

 

Atendendo a essa problemática, nas páginas subsequentes proporemos, em primeiro lugar, o que é a "canonização" de um Santo; a seguir, veremos qual a atitude que a Igreja vai hoje em dia tomando diante do culto de alguns Santos.

 

1. "Santificação" ou canonização?

 

1. A santidade é a perfeição do amor a Deus e aos homens a que chegam muitos cristãos justos. Consiste, pois, em uma realidade interior.

 

Muitas vezes essa realidade interior se manifesta por atos heróicos de virtude ou pela realização de portentos. Os cristãos e as autoridades da Igreja então têm motivo para declarar tal ou tal pessoa "santa"; ela é "canonizada", ou seja, inserida no "cânon" ou "catálogo" dos Santos.

 

"Santificação" é termo que não convém aplicar no caso; designa o lento processo de "tornar-se santo" por que passam as almas dos justos na terra.

 

Não é necessário, porém, que os Santos sejam publicamente "canonizados" ou declarados tais pela Igreja. A santidade pode ficar oculta aos homens e reconhecida por Deus só. Em outros termos: os Santos canonizados não são os únicos Santos existentes na glória do céu.

 

Desde os primeiros séculos, o povo cristão reconheceu o eminente amor a Deus ou a santidade existente nos mártires, isto é, nos justos que haviam dado a vida para testemunhar a sua fé. Em consequência, os cristãos os foram cultuando como Santos. Mediante tal culto, os fiéis não adoravam (nem adoram) o Santo, mas louvavam (e louvam) a Deus por ter concedido suas graças a determinado justo, e pediam (pedem) ao Senhor, por intercessão do mesmo, concedesse (conceda) ao seu povo na terra os benefícios de que necessita.

 

A partir do século IV, foram sendo cultuados, além dos mártires, também outros justos, cuja caridade se tornara notória: confessores da fé, virgens, viúvas, pessoas casadas, etc.

 

Geralmente nos primeiros séculos não se empreendia processo prévio para se prestar culto a determinado Santo. Quando um justo morria com fama de santidade, os fiéis espontaneamente lhe dirigiam as suas preces e o declaravam "Santo". As autoridades da Igreja vigiavam para que o povo cristão só atribuísse veneração a autênticos homens e mulheres de Deus; não raro os fiéis se enganavam, estimando como santas certas pessoas cujas virtudes não eram extraordinárias ou chegavam a ser ilusórias.

 

Exercendo o seu papel de vigilância, diversos Concílios regionais da antiguidade e do início da Idade Média tiveram que proibir o culto atribuído a servos de Deus antes que a autoridade eclesiástica se tivesse oficialmente pronunciado a seu respeito. Também promulgaram cânones que mandavam cancelar das listas dos Santos nomes aí prematuramente inseridos pelo fervor popular.

 

Já, porém, que se multiplicavam os enganos e abusos a respeito das virtudes dos justos falecidos "em odor de santidade", a Santa Sé nos séc. X/XI foi reservando a si a faculdade de "canonizar", ou seja, de declarar que tal ou tal alma justa se acha na glória do céu e pode ser publicamente invocada como intercessora junto a Deus. Essas declarações foram precedidas de "processos de canonização", pelos quais se investigavam os feitos, ditos e escritos dos heróis da fé falecidos.

 

Os processos de canonização se tornaram cada vez mais minuciosos e rigorosos, como acontece em nossos tempos, a fim de que se removam todas as possíveis ilusões concernentes a cada caso.

 

Verifica-se, pois, hoje em dia que há

 

Santos formalmente canonizados, ou seja, oficialmente declarados santos pela Igreja após meticuloso processo. Tais são os Santos posteriores ao séc. X;

 

Santos equipolentemente canonizados, ou seja, santos que o povo canonizou espontaneamente até o séc. X, com a aprovação das autoridades eclesiásticas. A Igreja, nestes casos, se limita a reconhecer a legitimidade do culto multissecular devotado a tal justo na base de autêntica fama de santidade e de milagres a ele atribuídos.

 

Ora, para os Santos equipolentemente canonizados, ou seja, canonizados pela piedade do povo nos dez primeiros séculos sem processo prévio, a Igreja está hoje em dia voltando de maneira especial a sua atenção.

 

2. A Igreja e os Santos antigos

 

Verifica-se que na antiguidade e na Idade Média a fé do povo cristão se deixava não raro levar pela imaginação em torno dos Santos. Atribuiam-se-lhes facilmente ditos e feitos maravilhosos, destituídos de fundamento histórico, mas aptos a suscitar edificação e provocar à imitação. Tais crendices populares se propagavam rapidamente, pois os antigos careciam de apurado senso crítico. As autoridades eclesiásticas permitiam que as "estórias" se difundissem, pois não tinham indícios de que fossem falsas; não havia estudos historiográficos, paleográficos e arqueológicos que lhes permitissem distinguir o real e o imaginário nas narrativas populares. Os Bispos e Concílios regionais rejeitavam sem hesitação as afirmações e práticas de piedade que fossem contrárias à fé e aos bons costumes; toleravam, porém, os outros dizeres do povo, desde que pudessem ter foros de verossimilhança. Com isto não pretendiam definir "estórias"; a Igreja nunca empenhou seu magistério infalível em favor de qualquer das legendas dos Santos.

 

Hoje, os estudos de história tendo progredido, patenteia-se a inveracidade de certos relatos da hagiografia antiga. A Igreja não hesita em aceitar os resultados da crítica historiográfica; não afetam em absoluto os dogmas da fé. As narrativas a respeito dos Santos são tão dignas de crédito quanto os argumentos que as fundamentam; desde que estes vacilem ou sejam validamente contraditados, é não somente lícito, mas até necessário, recusar tais narrativas.

 

Estes princípios explicam que a Igreja, nos últimos tempos, tenha declarado infundada a crença em certos episódios maravilhosos que, conforme narrações errôneas, se teriam dado na vida de Santos dos primeiros séculos. Opondo-se a tais "legendas", a Igreja não está "cassando" ou "dessantificando" os Santos. Ela de modo nenhum declara que tal Santo (São Sebastião, São Lourenço, Santa Catarina...) não seja santo. Ela apenas faz questão de dizer que tal ou tal "estória", tradicionalmente associada ao nome de tal ou tal Santo, carece de base histórica. A denúncia da "estória" nada tem que ver com "cassação"; é totalmente secundária para a verdadeira piedade cristã.

 

Observe-se também o seguinte: não se pode dizer que os antigos, admitindo e narrando "estórias" a respeito dos Santos, tenham mentido ou pecado contra a veracidade. A mentira formalmente dita supõe conhecimento da verdade e desejo de se lhe opor. Ora não foi o que se deu com os antigos e medievais; em matéria de hagiografia, não se preocupavam propriamente com a verdade histórica, mas sim, com a edificação (e edificação... tal como eles a podiam captar). Esta os levava a imaginar e crer com exuberância, sem indagar os fundamentos históricos de suas crenças. A hagiografia tinha seus padrões de estilo, seus lugares comuns, seus tipos clássicos, dentro dos quais era natural que fossem enquadradas as figuras dos grandes Santos. Quem assim escrevesse a vida de um justo, não mentia, porque não tinha a intenção de fazer obra historiográfica propriamente dita.

 

Note-se, de resto, que em tudo que não é dogmático, a Igreja está sujeita aos meios humanos de conhecimento; suas conclusões, desde que não pertençam ao depósito da fé, podem sempre progredir, enriquecer-se e depurar-se, de acordo com o lento modo de proceder da inteligência humana. Por isto, na apresentação do Cristianismo, foi e será (principalmente no século XXI) necessário propor claramente a distinção entre o que é de fé e o que não é de fé dentro da mensagem cristã.

 

3. Alguns exemplos

 

Seguem-se alguns casos de Santos antigos em torno dos quais a historiografia moderna lançou valiosas luzes.

 

1) São Sebastião. O que se sabe a respeito de São Sebastião, mártir do séc. Ill (f 288), deve-se a Atas do seu martírio que datam dos séculos V ou VI, referindo o seguinte:

 

Era oriundo de Milão (Itália) ou Narbona (França), filho de pais cristãos, que o tornaram fiel servidor de Cristo. Fez-se soldado do exército romano em 283, a fim de poder prestar conforto a seus irmãos na fé perseguidos na milícia imperial.

 

Depois de ter beneficiado a numerosos companheiros e obtido belas conversões para Cristo, foi finalmente denunciado ao Imperador Diocleciano como cristão. Já que permanecia intrépido em sua confissão de fé, Sebastião foi entregue aos milicianos, que o prostraram ao solo com as suas flechas, julgando-o morto. A nobre dama Cástula recolheu o seu corpo, desejosa de o sepultar; vendo-o, porém, ainda vivo, levou-o para casa, e medicou-o, de sorte que em breve Sebastião se achava totalmente curado. O corajoso soldado voltou então a interpelar o Imperador, protestando contra a perseguição aos cristãos. Diocleciano, ao vê-lo, surpreendeu-se profundamente e mandou espancar Sebastião até que morresse, devendo posteriormente o seu corpo ser atirado à cloaca. Assim terá terminado os seus dias o herói da fé. - Até aqui as Atas do séc. V ou VI.

 

Sebastião tornou-se um dos mártires mais célebres de Roma; a sua estima espalhou-se pela Itália, a Gália e a Alemanha. Foi sendo invocado contra a peste; assim no ano de 680 cessou uma epidemia em Roma quando as relíquias do Santo foram levadas em procissão pela cidade. Fenômenos semelhantes se deram posteriormente, particularmente em Milão no ano de 1575 e em Lisboa (1599).

 

As Atas do Martírio de São Sebastião foram, durante muito tempo, atribuídas a S. Ambrósio (t 397), o que lhes deu foros de autoridade. Verifica-se, porém, que reproduzem o estilo dos escritos análogos dos séc. V/VI, época em que a piedade popular tendia a se edificar mais e mais com os maravilhosos feitos dos santos. Por cerca de dois ou três séculos, a partir de 288, não se encontra na literatura cristã um só relato do martírio do Santo. É o que leva a suspeitar da clássica narrativa atrás proposta. -Tillemont ("Mémoires pour servir..." t. IV, pág. 515) julga que as Atas do Martírio de São Sebastião podem ser consideradas antigas e merecem algum crédito, ao menos em seus pontos principais.

 

De modo especial, a associação de flechas e combate à peste na figura de Sebastião tem chamado a atenção dos críticos. - Sabe-se que os antigos designavam a peste pelo símbolo de flechas; dizia, por exemplo a mitologia que as flechas de Apolo lançadas contra os gregos haviam desencadeado grave epidemia; as flechas também eram, na escrita dos hieróglifos egípcios, o sinal que exprimia a peste. Conscientes disto, alguns historiadores modernos levantaram a hipótese de que certos grupos cristãos tenham começado a invocar São Sebastião contra a peste, por guardarem a reminiscência do antigo simbolismo das flechas (o que não quer dizer que adotassem as crenças da mitologia). Outros estudiosos, porém, replicam com razão que há vários Santos popularmente invocados contra o mesmo flagelo sem que tenham sofrido o tormento das flechas; assim S. Antão, S. Adriano, S. Roque...; julgam, por isto, que a devoção a S. Sebastião, "protetor contra a peste", se deva simplesmente ao fato de que outrora (quiçá em 680) os fiéis obtiveram por intercessão do santo mártir a cessação do flagelo da peste; o fato maravilhoso terá ocasionado a fama do taumaturgo.

 

À Igreja não compete definir tais questões de índole meramente histórica. A sua solução depende dos dados que as pesquisas historiográficas e arqueológicas possam trazer à tona. O que interessa à Igreja, é remover todo erro de historiografia, desde que ele seja formalmente comprovado.

 

2) Santa Bárbara (séc. III). Dizem as narrativas o seguinte:

 

Um rico pagão, Dióscoro, tinha uma formosa filha, Bárbara. A fim de preservar a jovem, encerrou-a em uma torre. Bárbara foi várias vezes solicitada em casamento, recusando, porém, todas as instâncias. Um belo dia, seu pai partiu em viagem; a donzela então, que já era cristã de coração, pediu e recebeu o Batismo. Sua torre tinha duas janelas; Bárbara exigiu que lhe fizessem uma terceira janela, para honrar a Trindade.

 

O pai, regressando de viagem, enfureceu-se por ver que sua filha desprezava os deuses; pelo que a quis matar. Bárbara, então, tomou a fuga, e uma rocha se abriu para a deixar passar e salvar-se. Um pastor, porém, denunciou o lugar de seu retiro; em consequência, Deus transformou-lhe os carneiros em escaravelhos. Dióscoro, tendo ido ao encalço de sua filha, encontrou-a; levou-a à presença do juiz, que a submeteu a suplícios; todavia Cristo a reconfortou. Insaciável em sua fúria, o tirano mandou que a jovem, despojada de seus trajes, fosse exibida em toda a região; Bárbara, porém, implorou Aquele que cobre o céu com nuvens, e o Senhor Deus lhe enviou uma veste. Por fim, Dióscoro decapitou sua filha; em consequência, foi fulminado por um raio.

 

Há diversas versões dessa narrativa, nem sempre concordes entre si. A data dos episódios descritos é incerta:... sob o Imperador Maximino (235-238) ou sob Maximiano Hercúleo (286-305)? Dióscoro habitava Antioquia ou uma cidade de Heliópolis, que não se pode identificar precisamente. O local do martírio terá sido Nicomédia ou a Toscana ou Roma. As ovelhas do pastor que denunciou Bárbara, haverão sido transformadas ou em escaravelhos ou em gafanhotos ou em estátuas.

 

A devoção a Santa Bárbara se difundiu extraordinariamente na antiguidade e na Idade Média. Os fiéis passaram a venerá-la como padroeira cuja intercessão seria eficaz para preservar da morte subitânea ou má. Esta crença se deriva provavelmente do episódio conforme o qual seu pai incrédulo foi fulminado por um raio; acreditava-se, pois, que os raios estavam a serviço de Santa Bárbara. Os livros de oração pública na Idade Média incluíram a seguinte prece: "Fazei, Senhor, que, pela intercessão de Santa Bárbara, obtenhamos a graça de receber, antes da morte, o sacramento do Corpo e do Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo". Por este motivo Santa Bárbara costuma ser apresentada na iconografia com um cibório na mão.

 

As imagens da Santa a reproduzem também a segurar a torre em que ela terá habitado.

Que dizer de todo esse conjunto de narrativas e devoções?

 

Os traços da vida e do martírio de S. Bárbara são mui pouco fidedignos; devem-se à imaginação férvida dos antigos; estão claramente no estilo dos escritos apócrifos. Enquanto não pairavam dúvidas a respeito da sua historicidade, as autoridades eclesiásticas não se opunham a que o povo fiel invocasse santa Bárbara segundo as tendências de sua piedade exuberante. Em nossos dias, porém, tendo a crítica sadia evidenciado o caráter fantasista da "estória" de S. Bárbara, a Igreja quer que os fiéis estejam devidamente avisados a respeito, a fim de que não alimentem sua devoção com elementos imaginários.

 

3) Santa Catarina de Alexandria (séc. IV). Sumariamente, dizem as Atas do Martírio de S. Catarina o seguinte:

 

O Imperador Maxêncio (306-312) foi ter a Alexandria, onde ordenou que todos os seus súditos oferecessem sacrifícios aos deuses. Havia então naquela cidade a filha de um rei chamada Catarina, da idade de dezoito anos, a qual era cristã e se esmerara no estudo das ciências e das artes, dos poetas e dos filósofos. Ciente da ordem do Imperador, foi ao templo onde se encontrava Maxêncio e recriminou-o por sua campanha idolátrica, propondo-lhe uma disputa religiosa. O Imperador então mandou chamar os filósofos do Império para impor silêncio a Catarina. Tendo comparecido cinquenta deles, a jovem sábia confundiu a todos; à vista disto, Maxêncio condenou-os à morte, sendo que Catarina os preparou a morrer cristãmente.

 

A seguir, o Imperador, atraído pela extraordinária formosura da virgem, propôs a esta a dignidade de Imperatriz. Catarina lhe resistiu; pelo que foi açoitada durante duas horas, encerrada em cárcere por doze dias, período em que uma pomba a alimentou maravilhosamente; também o Senhor Jesus com seus anjos lhe apareceu, assegurando-lhe a sua proteção. Levada de novo à presença do Imperador, a virgem foi por este intimada a sacrificar aos ídolos.

 

Tendo Catarina recusado, o prefeito de Alexandria a submeteu a suplício inédito: mandou construir um aparelho com quatro rodas dotadas de pontas cujo ruído assustador bastaria para vencer Catarina; caso esta fosse mais forte, seria atirada às rodas. Ora a virgem foi realmente lançada dentro de tal máquina, ficando, porém, ilesa, pois um anjo a salvou; as rodas estouraram, matando numerosos soldados pagãos.

 

Catarina foi então levada para fora da cidade, onde um carrasco a decapitou; de seu pescoço jorrou leite, em lugar de sangue. Os anjos arrebataram o seu corpo, transportando-o de Alexandria para o monte Sinai, onde o deixaram em um sepulcro novo.

 

A narrativa do martírio de S. Catarina, assim sumariamente reproduzida, é altamente suspeita. Ela se encontra pela primeira vez em um documento do séc. IX; entre o século IV e o século IX não se acha uma referência sequer a S. Catarina de Alexandria nos documentos e na literatura do Cristianismo. O estilo e o teor das Atas do Martírio têm o sabor dos relatos apócrifos ou dos romances populares destituídos de valor histórico.

 

Com razão, portanto, os críticos asseveram que não merece crédito a "estória" de S. Catarina de Alexandria. A existência mesma dessa virgem é posta em dúvida, dado o silêncio dos cinco primeiros séculos posteriores à sua morte.

 

Em conclusão, as narrativas concernentes a S. Catarina nada contêm de impossível a Deus ou de contrário à fé cristã. As razões, porém, indicadas pelos estudiosos são plenamente suficientes para justificar uma atitude reservada da Igreja frente às tradicionais práticas de devoção a essa Santa.

 

4) São Lourenço (+258). Eis o que narra a hagiografia:

 

O Papa S. Sixto, a caminho do cárcere como herói da fé, se encontrou com seu diácono Lourenço, que manifestou então o desejo de seguir o Pontífice para o martírio como o costumava acompanhar ao altar. Sixto predisse a Lourenço que dentro de três dias seria, por sua vez, torturado por causa da sua fé. Em verdade, Lourenço pouco depois foi preso e intimado a entregar ao Imperador os bens da Igreja, que ele, como diácono, administrava. Lourenço após três dias levou ao palácio imperial uma multidão de pobres da cidade de Roma, apresentando-os a Décio como sendo os tesouros da Igreja. Irado, o soberano mandou submeter Lourenço a tormentos vários, aos quais se sucedeu o do fogo: Lourenço foi assado vivo sobre uma grelha, interpelando os seus algozes com alegria e confiança: "Eis, ó tirano, já cozeste um lado. vira e come. Dou-Te graças, Senhor Jesus Cristo, porque mereci ter entrada no teu reino".

 

Também esta narrativa é tida pela crítica como pouco fidedigna. A primeira fonte escrita que a transmite, dista mais de um século dos acontecimentos referidos; obedece ao estilo amigo do portentoso que caracteriza a hagiografía dos séc. IVA/I. Em particular, notam os críticos o seguinte:

 

a)  O encontro de Lourenço com S. Xisto aprisionado é duvidoso, pois refere outra fonte que S. Xisto foi executado pelos algozes instantaneamente, tendo sido descoberto em flagrante a celebrar o culto sagrado.

b)  Não se duvida de que S. Lourenço tenha sofrido o martírio aos 10 de agosto de 258. Discute-se apenas o modo. As leis do Império em 258 previam a morte sumária para os clérigos, desde que fossem presos; não visavam obter apostasia dos mesmos, nem submetê-los a suplícios requintados.

 

Verdade é que os mártires eram, por vezes, entregues ao fogo. Assim em 177 Atálio foi colocado sobre uma cadeira de ferro e queimado vivo. Sob o Imperador Juliano (361-363), os santos Emiliano, Macedônio, Teodulo e Taciano foram colocados sobre grelhas; exclamaram então para o algoz: "Se desejas provar carne assada, vira-nos; encontrar-nos-ás cozidos pela metade". Ora acontece que estes mártires padeceram mais de cem anos após S. Lourenço, pouco antes que aparecesse a narrativa concernente a este. Pergunta-se então: os biógrafos de S. Lourenço não se terão inspirado do martírio de S. Emiliano? - À hipótese pode-se replicar que não é improvável que dois acontecimentos semelhantes se tenham dado consecutivamente. É preciso, porém, levar em conta que mais de um século medeia entre a morte de S. Lourenço e as primeiras Atas do seu martírio;em consequência, os historiadores antigos poderão ter descrito o fim de S. Lourenço à semelhança do fim de mártires mais recentes.

 

5) Quanto a São Jorge, a sua festa não foi eliminada do calendário oficial da Igreja, porque não há motivos para pôr em dúvida a sua existência. Contudo a celebração do Santo foi destituída do seu relevo antigo, passando a constituir mera comemoração. O motivo disto é que, segundo os mais recentes estudos, já não se pode asseverar a historicidade de quanto se narrava a propósito de São Jorge; consciente disto, a Igreja julgou oportuno não chamar tanto a atenção dos fiéis para um Santo cujos dados biográficos nos ficam quase totalmente encobertos.

 

A respeito de São Jorge, portanto, apenas se pode dizer com segurança que nasceu em Lida (Lydia) na Síria por volta de 270 e foi martirizado em Nicomédia no ano de 303. São considerados como incertos ou mesmo lendários os pormenores habitualmente narrados: Jorge, como soldado do Império Romano, teria participado de uma campanha na Pérsia, após a qual haveria residido em Beirute (Síria); nesta cidade, teria lutado contra um dragão; depois disto, dizem que Diocleciano o enviou em expedição à Grã-Bretanha; Jorge atravessou então o mar da Irlanda, hoje também dito "Canal de São Jorge", e desembarcou em Porta Sistuntiorum; daí dirigiu-se para Glastonbury em peregrinação ao túmulo de seu compatriota José de Arimatéia...

 

Parecem dispensáveis ulteriores comentários ao caso.

 

4. Reflexão final

 

As ponderações críticas atrás propostas não se opõem, por princípio, ao sobrenatural nem aos feitos heróicos dos confessores da fé; Deus pode efetuar milagres, e por certo os efetuou e efetua.

 

É preciso, porém, que a aceitação do maravilhoso tenha base em fatos reais; os portentos hão de ser comprovados como acontecimentos históricos. O espírito de fé não dispensa desta exigência.

 

Os antigos tinham um conceito de hagiografia diferente do nosso: faziam dela estritamente um motivo de edificação. Já que o seu senso crítico era pouco pronunciado, adaptavam a historiografia à piedade, distanciando-se da realidade histórica. Isto não os escandalizava; ao contrário, unia-os mais a Deus e estimulava-os a se santificar. - A mentalidade do homem moderno já não se deixa levar a Deus por relatos imaginários, impregnada como está de senso crítico e das categorias das ciências exatas.

 

Por isto é que se requer uma revisão das narrativas concernentes aos Santos; a S. Igreja a tem empreendido, sem derrogar às verdades da fé.

 

Tal atitude da Igreja não significa que os Santos não tenham mais o seu valor na piedade cristã, Eles o conservam, mas... os Santos tais como eles foram na realidade histórica, depurados de todo traço romântico. Os Santos serão sempre facetas em que o povo cristão contemplará a obra da Redenção e o próprio Redentor Jesus Cristo: cada Santo é um sinal de Cristo triunfante do pecado e do velho homem; os Santos são também os grandes amigos de Deus, que podem interceder em favor dos homens. Os seus exemplos e ensinamentos estimulam a prática das virtudes. É por todos estes títulos que eles não podem ser cancelados do horizonte da dogmática, da pregação e da piedade da Igreja. A renovação litúrgica pós-conciliar não lhes quer denegar o seu lugar impreterível dentro da mensagem cristã, mas, ao contrário, deseja que esse lugar lhes seja assinalado à luz da verdade histórica e do Cristo Redentor (cf. Vaticano II, Const. "Lúmen Gentium" no 49s; Const "Sacrosanctum Concilium" no 111).

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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