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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 529 – julho 2006

Sensacionalismo:

 

O LIVRO DE HENOQUE E DISCOS VOADORES

 

Em sintese: Há quem queira ver no apócrifo livro de Henoque vestígios de uma visita de extra-terrestres ao nosso planeta. Em consequência vai, a seguir, explanado o que é propriamente o livro de Henoque.

 

Alguns pesquisadores que admitem a existência de discos voadores e seres inteligentes extra-terrestres, julgam poder encontrar no apócrifo livro de Henoque apoio para a sua tese. - Vamos, pois, apresentar o livro de Henoque e alguns de seus textos mais significativos.

 

1. O problema

Eis como, via internet, chegou a PR a mensagem que será, a seguir, comentada:

 

O livro de Enoque

"O texto descoberto no século X pode ser o relato da visita de extraterrestres à Terra.

Em seu livro, Enoch conta: ‘recebi a visita de dois homens de grande cultura, como jamais havia visto na Terra. Seus rostos brilhavam como o Sol, seus olhos pareciam lâmpadas ardentes. O fogo era expelido por seus lábios. Suas roupas pareciam plumas. Seus pés eram purpúreos, seus olhos brilhavam mais que a neve.’ Chamaram-me por meu nome...'

Enoch visitou assim sete mundos diferentes do nosso. Viu neles criaturas aladas com cabeças de crocodilo e pés de caudas de leão. No sétimo mundo, encontrou pessoalmente o criador dos mundos que explicou a formação da Terra e do Sistema Solar.

Cientistas soviéticos especulam que talvez se trate do relato de uma visita extraterrestre. Enoch afirma que, para ele, a viagem durou poucos dias, mas, quando voltou para Terra, séculos haviam passado. É o que a relatividade anuncia para uma viagem feita à velocidade da luz. E o livro de Enoch, mesmo que não date do século X, mesmo que não seja contemporâneo da Bíblia, foi publicado bem antes da descoberta da relatividade.

Fontes:

BERGIER, Jacques. Os Extraterrestres na História. Editora Hemus, 1970.

Para avaliar corretamente a notícia atrás, faz-se oportuno saber o que é propriamente o livro de Henoque.

 

2. Livro de Henoque: que é?

 

Além dos seus livros sagrados canônicos, os judeus tinham a sua literatura apócrifa, literatura aparentemente inspirada por Deus, mas não reconhecida pelos mestres em Israel. Essa bibliografia floresceu especialmente nos últimos séculos antes de Cristo, quando não havia Profeta em Israel; trata frequentemente do juízo final e da sorte definitiva dos homens em estilo fantasioso e com imagens apocalípticas. São livros úteis para se entender a mentalidade do povo israelita nos tempos de Cristo.

 

Entre esses apócrifos está o livro de Henoque, que deve datar do século II a.C. Vem a ser uma grande coletânea de aparentes profecias e de exortações colocadas nos lábios do patriarca Henoque. Em Gn 5, 18-20 aparece Henoque, o sétimo após Adão (como nota Jd 14); era muito considerado pelo povo judeu. Para explicar que ele tenha vivido menos que os demais Patriarcas (apenas 365 anos), diz o autor sagrado que ele desapareceu, pois Deus o arrebatou, frase esta que o texto grego dos LXX assim parafraseia: "Ele agradou a Deus e não foi mais encontrado, porque Deus o levou para outro lugar".

 

Esta expressão lacônica dos LXX deu ocasião a várias interpretações: Henoque terá sido elevado aos céus, terá sido agraciado com importantes revelações que teve de comunicar aos homens. Em Eclo 44, 16 lê-se: "Henoque agradou ao Senhor e foi arrebatado, exemplo de conversão para as gerações".

 

Henoque assim foi tido como modelo de fidelidade ao Senhor e como confidente ao qual Deus quis revelar seus segredos; donde o título: "Livro dos Segredos de Henoque".

 

O livro de Henoque compreende cinco coletâneas, cujo original foi provavelmente escrito em hebraico; este foi traduzido para o etíope; o livro faz parte do catálogo dos livros canônicos dos etíopes. Essa tradução etíope é geralmente tida como fidedigna.

 

O texto apresenta Henoque transportado para diversos lugares, faz viagens de carro que lhe parecem de pouca duração, mas correspondem a séculos. Estas expressões pertencem ao estilo apocalíptico e não podem ser tomadas ao pé da letra. É gratuita a afirmação de que o autor do livro se refere a discos voadores e extraterrestres. Estas ideias recentes estavam longe da mente dos antigos judeus. É aceitável, aos olhos da razão e da fé, a hipótese dos discos voadores pilotados por extraterrestres, mas é anacrônico querer descobrir essa hipótese nos textos bíblicos e apócrifos.

 

Para melhor evidenciar o que é o livro de Henoque, vamos, a seguir, transcrever algumas de suas passagens mais significativas.

 

3. Textos seletos

 

3.1. Visões de Henoque

1) As sete montanhas e a árvore maravilhosa

 

"Miguel me disse: A alta montanha que tu vês e cujo topo é semelhante ao trono de Senhor, é o seu trono. Sobre esse trono se sentará o Santo e o Grande Senhor da glória, o Rei eterno, quando vier em visita à terra, para o bem.

Essa planta odorífera, nenhuma criatura tem o poder de tocá-la até o dia do Grande Julgamento, quando Deus há de realizar a retribuição de tudo e dar a cada um a sua sorte eterna. Então a árvore será dada aos justos e aos humildes.

Por meio dos seus frutos a vida será comunicada aos eleitos. - A árvore então será plantada em um lugar santo, por toda a morada do Senhor, o Rei eterno, os justos e os humildes gozarão de alegria e exultação! ... O perfume dessa árvore penetrará os ossos dos justos e humildes: viverão uma longa vida sobre a Terra, como a viveram os seus antepassados: em seus dias não haverá tristeza, sofrimento, tormento, castigo* (Livro I, cap. XXV).

 

2) A morada das almas dos mortos antes do Juízo Final

 

"Fui levado a um outro lugar e o anjo me mostrou ao Ocidente uma grande e alta montanha assim como ásperos rochedos. Havia ali quatro cavidades muito profundas e largas; três delas eram muito escuras e uma era luminosa. No meio delas havia uma fonte de água, e eu disse. Como são profundas e tétricas essas cavernas! Então Rafael, um dos sete anjos que estavam comigo, respondeu-me dizendo: 'Essas cavernas foram feitas para que aí se reúnam os espíritos das almas dos mortos... Aí ficarão até o Dia do Julgamento no tempo predefinido para elas' ... Nesse momento elevei louvores ao Senhor da glória e disse: 'Bendito seja o meu Senhor, o Senhor da glória, que reina pelos séculos!'

 

3.2. A cópula dos anjos com mulheres

 

Quando os filhos dos homens se foram multiplicando, nasceram-lhes naqueles dias filhas belas e graciosas. Os anjos, filhos do céu, as viram e desejaram e disseram uns aos outros: "Vamos, escolhamos mulheres descendentes dos homens e tenhamos filhos com elas!"

 

(O anjo Semyana, responsável principal pela proposta, receava que nem todos os anjos executassem o projeto; ficaria ele então acusado de haver induzido seus semelhantes a um grave pecado. Tendo comunicado seu receio aos anjos, estes lhe responderam: Façamos todos um juramento e pronunciemos a condenação sobre todos os opositores. O juramento ocorreu como também a condenação).

 

Então os anjos (os vigias) desceram (eram duzentos) à Terra de Israel, no cume do monte Hermon, assim chamado porque ali haviam jurado e se tinham comprometido uns com os outros.

 

Esses e todos os outros anjos que com eles se achavam, tomaram para si cada qual uma mulher de sua escolha e puseram-se a aproximar-se delas e com elas tiveram consórcio carnal: ensinaram-lhes as artes mágicas, os encantamentos, a arte de cortar as raízes e a ciência das árvores.

(As mulheres deram à luz gigantes, que devoram tudo e querem devorar também os homens).

 

Começaram a pecar contra os pássaros, contra os animais, os répteis e os peixes; em suas refeições devoraram-lhes a carne e beberam-Ihes o sangue. Nesse momento a Terra protestou contra os violentos" (Livro I, capítulos VI e VII).

Tal escrito está subjacente aos dizeres de Gn 6, 1-4 na tradição judaica, e de Jd 6; 2Pd 2, 11 na tradição cristã (sem que jamais tenha sido proposto como artigo de fé).

 

3.3. Parábola de Henoque

Eis uma das ditas "Parábolas de Henoque". Tem por título:

 

O sangue dos mártires clama por retribuição

"Naqueles dias a oração e o sangue dos justos subirão da Terra até a presença do Senhor dos espíritos.

 

Naqueles dias os Santos que habitam no alto dos céus se unirão em uma única voz e suplicarão, pedirão, glorificarão e bendirão o nome do Senhor dos espíritos e em nome do sangue dos justos derramado,... a fim de que essa oração não seja inútil diante do Senhor dos espíritos, mas seja feita justiça aos mártires sem demora". (Livro I cap. XLVII).

A mesma ideia ocorre em Ap 6, 9-11: os mártires no céu pedem a Deus que faça justiça sobre a Terra.

 

3.4. O Filho do Homem que fará justiça

 

A expressão "Filho do Homem" (= Homem) é muito frequente na profecia de Ezequiel, significando simplesmente "homem". Assume significado messiânico (= o Homem por excelência) em Dn 7, 9-14, e nos escritos de Henoque designa muito enfaticamente o Messias. Tenha-se em vista o seguinte texto:

 

"Naquele momento o Filho do Homem foi chamado para ir ter junto ao Senhor dos espíritos e o seu nome foi pronunciado na presença da Cabeça dos Dias. Antes que o sol e as constelações fossem criados, antes que as estrelas do céu existissem, o nome do Filho do homem foi pronunciado na presença do Senhor dos espíritos. Ele será como que um bastão para os justos, a fim de que estes possam apoiar-se nele e não cair; ele será a luz dos povos e a esperança dos que sofrem em seus corações. Todos aqueles que moram na Terra se prostrarão e o adorarão; bendirão, glorificarão e cantarão hinos ao Senhor dos espíritos" (Livro de Henoque, Parábolas, capítulo XLVIII).

 

O texto não quer dizer que o Filho do Homem seja Deus (o monoteísmo de Israel não o permitia): mas atribui-lhe predicados singulares, aos quais fazem eco os escritos de Isaías e do Novo Testamento.

 

4. Reflexão final

 

O apócrifo livro de Henoque é interessante não porque aluda a discos voadores, mas porque constitui fecundo pano de fundo para se entender a evolução do pensamento judaico nas proximidades da era cristã. Em estilo cheio de imagens e repetições aponta para certos traços dos escritos do Novo Testamento.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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