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Na Casa de Saúde

 

 

Gustavo Corção

Decididamente não me incluo entre os apreciadores de paisagens hospitalares.  Não gosto.  Por mais que disfarcem com jardins o lívido prédio funcional, e que nas ante-salas coloquem poltronas antigas e tranquilizantes, não me pegam.  Não gosto.  Ou melhor, até ontem não gostava. E é preciso ser justo: uma vez me pegaram e até me trataram tão bem que me surpreendi a não querer outra vida.  Sim, pela primeira vez numa vida já longa, eu me sentia, na mesa, na sala de operações como uma criancinha agasalhada.  Cercado de amigos alvíssimos e debruçados sobre meu corpo reduzido à docilidade macia e ao agradecimento confiante.  Situação única e incomparável: nada me competia senão confiar e agradecer.  Foi tão nova e virginal a experiência de tamanha alienação que, no dia em que o médico alegremente me deu alta, senti-me escorraçado. E parecia-me ouvir o médico dizer-me: "Acabou-se a boa vida de ser tratado por equipes de médicos e de enfermeiras, agora é sua vez de continuar a tratar, de trabalhar, cuidar, zelar, ensinar, prevenir, apostrofar, demonstrar que dois e dois são quatro e tornar a trabalhar, a cuidar, zelar..."  Na rua pareceu-me que todos exigiam de mim alguma coisa, perguntavam, reclamavam, e eu senti uma saudade absurda do hospital.

Com o correr dos dias, logo me voltou o desgosto pela medicina e sobretudo pela cirurgia. Se vou andando por uma calçada e de longe vejo uma vitrina com instrumentos de cirurgia, viro o rosto ou atravesso a rua. Torno a dizer: não gosto; ou melhor, não gostava até a descoberta que fiz ontem.  Ia ver nascer mais um neto ou uma neta. As perspectivas não eram inteiramente normais, mas eu sabia que a filha estava em boas mãos. Entrei no jardim e dirigi-me ao elevador. Vi então uma cena que normalmente deveria agravar minha aversão, mas ontem produziu efeito diverso.

Diante da porta do elevador estava um carro parado com a porta escancarada, e diante dela uma cadeira de balanço enorme com uma senhora enorme nela acomodada. Em torno, pessoas embaraçadas em transferir aquela imensa senhora da cadeira de balanço para o banco do automóvel, mas a boa senhora, em lugar da habilidade natural que proporciona ao ser humano tão rica variedade de posições, parecia reduzida ao singelo papel de massa. E, portanto, de peso.  Pesada e respeitável a senhora nada podia fazer para alçar-se a alguma nova situação, e os quatro cavalheiros atenciosíssimos não sabiam por onde pegar sem faltar ao respeito à imensa senhora. Ia eu achar a humanidade inteira cômica a mais não poder, com base em Rilke ou até em São Paulo: "Fomos dados em espetáculo ao mundo...", quando observei as fisionomias dos oficiantes da obra de misericórdia, e então vi o contrário de circo, o contrário de carnaval, o contrário de mundo: o rosto da boa senhora era calmo e severo, e as fisionomias de seus carregadores nada espelhavam da incongruidade da cena. Senti que eu também olhava o espetáculo com o mesmo interesse profundo; e, então, compreendi que em torno daquela senhora combalida reinava a paz dos homens de boa vontade. O cômico, o incôngruo, a chocante cadeira de balanço (e por que de balanço?) tudo se resolvia e ganhava uma harmonia que não é deste mundo.

Quando subi e me sentei na sala de espera, já via com outros olhos a casa de saúde. De vez em quando passavam macas com moças adormecidas, levemente empurradas por moças de vestes cândidas. Passado o resplendor de suave brancura, a sala voltava à sua pretensiosa vulgaridade. Mas o que mais destoava das moças angélicas, uma adormecida e outra vigilante, eram as senhoras acompanhantes, petulantes, verticais, portadoras de perfeita saúde, salvo engano, e muito donas de si mesmas. Vestidos multicores, cigarros, piteiras, berloques, porte elegante, pernas ostensivas, telefonemas categóricos, decisões inabaláveis.

Felizmente predominava o branco, e os corpos adormecidos tornavam a passar como cisnes silenciosos e a exalar alvura.  E, então, descobri, de repente, que a boa saúde, o porte ereto, a jucundidade não assentam bem no homem. É evidente, salta aos olhos, que realmente o que assenta bem é a dor. Ou a atmosfera de dor.

Vejam, vejam aquela jovem mãe futura, que passou coberta por um lençol, toda branca, suave, entregue, em paz.  Amanhã ou depois recobrará as pernas, a língua, o vigor da idade e andará de biquíni nas praias ou de minissaia nos lugares convencionais de divertimento e de alegria pré-fabricada. Amanhã ou depois estará multicor, falante, vertical, mas agora eu me farto de contemplá-la horizontal, silenciosa, branca, falua que a brisa empurra.

Decididamente não nos assenta bem a boa saúde, o estado provisório qui n'annonce rien de bon, a caricatura da paz e de bem-estar que durante tantos milênios de planeta ainda não aprendemos a usar.

Anos e anos atrás, parece-me que mil, no primeiro livro que escrevi, dediquei todo um capítulo ao mistério dos pulmões normais.  Já programara toda uma vida nova para o caso doloroso da anormalidade de meus pulmões, que naquele tempo se chamava tísica, e não tinha cura fora do milagre. Quando o médico me disse que nada havia em meus pulmões, descobri, de repente, a esmagadora indeterminação da normalidade.

Tudo indica, nesta e naquela experiência, que o bem-estar não é deste mundo. E foi certamente por isso que Deus, para salvar os homens de modo mais eficaz, teve a ideia de mergulhar seu Filho na Dor, e depois, em torno de seu corpo cinco vezes chagado, teve a ideia complementar de fundar uma Casa de Saúde.

E vai ver que foi tudo isto que a esperada netinha entreviu num relance, e, então, vestindo-se nos raios da brancura ambiente, pediu a seu anjo da guarda que a levasse para o Céu, onde com tantos outros santos inocentes espera por nós.

In Corção, Gustavo. Conversa em Sol Menor. Rio de Janeiro, Livraria Agir Editora, 1980, pág. 280-282.

Fonte: Grupo Tempo


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