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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 526 – abril 2006

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JOÃO XXII: PAPA FEITICEIRO?

 

Em síntese: Carece de fundamento o apelativo "feiticeiro" atribuído ao Papa João XXII (1316-1334). O que os cronistas referem, é que, após eleito, tal Papa foi combatido por um certo Hugues Géraud, que utilizou os recursos da feitiçaria contra o Pontífice e foi condenado. - De resto João XXII foi pastor reconhecido como homem de vida íntegra e de bom tino administrativo.

 

Via internet PR recebeu de um amigo a seguinte mensagem:

 

"O livro de Testas, G. & Testas. J.- A Inquisição (coleção Saber Atual). São Paulo, Difusão Europeia do Livro, 1968, afirma na página 62: João XXII, que se teria, ele próprio dedicado à alquimia e não teria conseguido empilhar enorme fortuna sem a ajuda do diabo (13), ativou, no entanto, a repressão (à feitiçaria), através de uma série de bulas. Desde 1320, encarregou os inquisidores da perseguição de práticas criminosas tais como 'bruxarias, pactos diabólicos e profanações de sacramentos'.

Nota de rodapé (13): Michelet denomina-o "papa feiticeiro". João XXII, segundo consta, teria escrito uma Arte transmutativa dos metais".

Procurei mais informações sobre estes fatos e não encontrei".

 

Ao estimado leitor responderemos abordando a questão do "Papa feiticeiro"; após o que apresentaremos breve perfil desse Pontífice (1316-1334).

 

1. Por que foi dito "papa feiticeiro"?

 

Antes do mais, convém perguntar: que é fetichismo? Em resposta deve-se dizer que fetichismo é a doutrina que atribui a certos objetos um poder oculto e misterioso, capaz de produzir o bem e o mal de criaturas humanas. Feiticeiro, portanto, é aquele que utiliza tais objetos.

 

Ora João XXII não foi feiticeiro. Todavia a história do seu pontificado incluiu um episódio que explica o apelativo. Com efeito; logo após ter sido eleito (em seguida à vacância da sede papal por dois anos e três meses), João XXII foi a mira de uma trama maldosa que desejava sua morte, trama chefiada por Hugues Géraud. A trama foi descoberta em tempo e seu mentor acusado de utilizar feitiços e encantamentos mortíferos. Em consequência Hugues Géraud foi condenado à morte, em setembro de 1317. Daí por diante João XXII tornou-se forte adversário da bruxaria e da feitiçaria; ele o terá feito por julgá-las eficazes e nocivas?... ou porque, embora não lhes desse crédito, percebia as desordens que tais práticas causavam na sociedade? Pode-se supor que estes traços de história tenham sido o fundamento para que indevidamente tivessem o Papa na qualidade de feiticeiro. Ver complemento desta sentença sob o título 3.1 deste artigo.

 

O apelido depreciativo pode ter sido inspirado também pelo fato de que João XXII tinha um temperamento veemente e fogoso, apesar de sua idade avançada (foi eleito Papa aos 72 anos de idade). Quanto ao teor de vida, porém, foi irrepreensível, muito simples e dado a piedade na oração. Além do mais, gozava dos dotes de vivaz inteligência.

 

2. Pano de fundo: o Exílio de Avinhão (1309-1376)

 

No fim do século XIII o rei Filipe IV o Belo, da França, quis reivindicar direitos da Coroa frente à Igreja situada na França; daí resultaram rixas veementes do monarca com o Papa Bonifácio VIII (1294-1303), que muito agitaram o Estado Pontifício na península itálica. A tensão entre o monarca e o Papado foi-se tornando sempre mais séria; foram nomeados Cardeais franceses, que constituíram uma facção significativa dentro do Colégio Cardinalício. O sucessor de Bonifácio VIII, Papa Bento XI (1303-1304), procurou, em oito meses de pontificado, abrandar a tensão, mas em vão. Na verdade Bento XI deixava a seu sucessor uma difícil herança.

 

O Conclave subsequente durou quase onze meses, pois os Cardeais estavam divididos em partido bonifaciano, que desejava um Papa italiano, e partido filipino, favorável a um Papa francês. Finalmente a vitória foi dos franceses, que elegeram o arcebispo de Bordéus, Bertrand de Got, com o nome de Clemente V (1305-14); na luta de Bonifácio com a França, fizera as vezes de intermediário. Foi coroado Papa em Lião (França). Repetidas vezes prometeu aos Cardeais transferir-se para Roma. Não o fez, porém, em parte por pressão de Filipe, em parte porque as facções na Itália agitada faziam-no recear por sua liberdade.

 

Desde 1309 fixou residência em Avinhão, dando assim início ao chamado "Exílio de Avinhão", que durou quase setenta anos (1309-1376). Avinhão era uma cidade pequena, de ruas estreitas e sujas, na qual o séquito pontifício só dificilmente conseguia encontrar morada. Era um feudo do reino alemão, que estava nas mãos da casa de Anjou de Nápoles. Clemente VI (1342-52) comprou Avinhão em 1348, tornando-a domínio papal, mas não conseguiu subtraí-la à influência francesa. Filipe IV o Belo dava-se por contentíssimo com o fato; o Papa, fraco de ânimo e doentio de corpo, caia cada vez mais sob o domínio do monarca. Não era intenção de Clemente V transferir definitivamente a sede do Papado para a França, mas criou-se uma situação de fato, sustentada por sete Papas consecutivos, todos franceses.

 

O Exílio de Avinhão foi grandemente pernicioso para a Igreja:

 

1)  os Papas viram-se mais entravados em sua ação do que em Roma; tornaram-se maleáveis instrumentos da política francesa - o que suscitava a suspeita de partidarismo nos italianos e em outros povos, muito diminuindo o prestígio papal. O Pontífice era considerado responsável pelas discórdias crescentes entre as cidades italianas.

 

2)  No Estado Pontifício a confusão aumentou; o poder temporal dos Papas decrescia, pois muitas cidades se declaravam Repúblicas autônomas.

 

3. João XXII: controvérsias teológicas

 

A Clemente V sucedeu, após um interregno de dois anos e três meses, João XXII (1316-1334), francês, de 72 anos de idade, apoiado pelos reis da França e de Nápoles ([1]). Era um prelado simples, dotado, porém, de personalidade enérgica, disposta a superar todos os obstáculos; dotado de extraordinária capacidade de trabalho, nunca deixou Avinhão; durante os dezoito anos do seu pontificado redigiu 60.000 documentos, que versavam geralmente sobre a administração dos bens da Igreja. Além disto, era muito interessado por questões teológicas.

 

1 Nápoles pertencia à dinastia dos Anjos, que eram franceses.

 

Foi sepultado na catedral de Avinhão. deixando aos pósteros um testemunho de fidelidade à Palavra do Senhor e à vocação para trabalhar fervidamente na vinha do Senhor.

 

3.1. Os Franciscanos e a pobreza

 

Pouco após a morte de São Francisco (1226), os franciscanos se dividiram em duas correntes: 1) os Espirituais ou Observantes ou Fraticelli, desejosos de rígida observância da pobreza franciscana sem privilégios, e impregnados de ideias apocalípticas (em breve começaria a era do Espírito Santo), e 2) os Comunitários, mais moderados. Depois de apelar para os Papas anteriores, os Espirituais dirigiram-se a João XXII, que se lhes mostrou desfavorável e os condenou. Foi então que os Comunitários também entraram em luta com o Papado: o Capítulo Geral da Ordem dos Comunitários em 1322 declarava ser sadia doutrina que "Cristo e os Apóstolos não possuíam propriedade nem individual, nem comum e não tinham direito sobre coisa alguma; por isto os filhos de São Francisco deveriam assim viver, não possuindo (nem comunitariamente) o que quer que fosse. Desta maneira abria-se "a controvérsia teórica sobre a pobreza de Cristo e dos Apóstolos". - João XXII rejeitou tal sentença como herética mediante a Bula Cum inter nonnullos (1323); um dos argumentos em contrário afirmava que os bens de consumo, como os alimentos, não podem ser utilizados sem que haja pleno domínio sobre os mesmos (quem come, está exercendo um direito de propriedade e domínio sobre os seus alimentos). A condenação agitou muito os ânimos: em 1328, o Geral da Ordem, Miguel de Cesena, e os frades Bonagratia de Bérgamo e Guilherme de Occam passaram-se de Avinhão para o partido de Luís IV, com o qual se puseram a combater o Papa.

 

Ora, também por ter condenado a sentença dos Comunitários ou conventuais, João XXII foi acusado de heresia e feitiçaria por seus adversários.

 

3.2. A visão beatífica: quando?

 

Os últimos anos do pontificado de João XXII foram marcados pela controvérsia a respeito da visão beatífica. Com efeito; a 1o de novembro de 1331, na catedral de Avinhão, João XXII proferiu um sermão no qual afirmava que as almas dos justos, antes da ressurreição dos corpos, não gozam da visão de Deus face-a-face. São colocadas debaixo do altar de Deus no céu (ver Ap 6, 9), sentem-se consoladas por Cristo, somente após o juízo final, unidas a seus corpos ressuscitados, entrarão na visão beatífica.

 

O Papa voltou algumas vezes a essa proposição em sermões dos meses subsequentes. Pôde contar com a adesão de poucos teólogos, entre os quais o Ministro Geral dos Frades Menores Franciscanos; mas a maioria dos teólogos, especialmente os da Ordem Dominicana, se mostrou contrária à tese de João XXII. Estes não conseguiram dissuadir o Pontífice, que, para mais firmar sua posição, reuniu depoimentos de Padres da Igreja (principalmente de S. Agostinho e São Bernardo),... textos que pretensamente favoreceriam a sentença do pregador. A controvérsia se desenvolveu nos anos de 1332 a 1334, enquanto o Papa se esforçava por convencer os governantes cristãos da época e as Universidades. Note-se que, assim procedendo, João XXII não tencionava empenhar sua suprema autoridade de mestre da fé; falava sempre como orador particular, quando apregoava sua tese escatológica.

 

Finalmente em sua doença final, João XXII tomou consciência de ter proferido um erro teológico, contrariando a Tradição anterior. Aos 3 de dezembro de 1334 diante de numerosos Cardeais, em seu leito de morte, o Pontífice professou que "as almas separadas dos corpos e plenamente justificadas... veem Deus e a essência divina face a face e com clareza, tanto quanto o comportam o estado e a condição da alma separada do corpo".

 

Este texto recolocava o pregador na corrente da Tradição cristã anterior, que sempre ensinou dar-se a visão face-a-face às almas justas e purificadas, mesmo antes da ressurreição dos corpos; João XXII não ofendeu o carisma do seu magistério infalível, pois este só se exerce quando o Pontífice quer falar ex cathedra, isto é, qual mestre da Igreja universal que define alguma verdade.

 

No dia seguinte ao de sua retratação teológica, João XXII faleceu nonagenário.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)



[1] Ver a propósito:

Enciclopédia dei Papi, publicação do Istituto delia Enciclopédia Italiana, vol. 2, verbete "Giovanni XXII"; Dictionnaire Historique de la Papauté. Sous la direction de Jean Levi Philippe Levilhoin, verbete "Jean XXII".

 


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#0•A1609•C1007   2018-09-24 10:01:39 - Convidado/[email protected]
Estou lendo um livro interessantíssimo sobre o assunto, Satã Herético - O nascimento da demonologia na Europa medieval, de Alain Boureau. Um relato histórico bastante abrangente sobre os assuntos que despertaram a demonologia no meio católico, em um mundo que se transformava com rapidez e atacava de todas as formas a Igreja.

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