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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 526 – abril 2006

Conceito complexo:

 

OS GIGANTES NA BÍBLIA

 

Em síntese: Há na Bíblia notícia de que outrora existiam homens gigantescos sobre a face da terra; atribuem-se-lhes predicados agressivos (ver Sb 14, 6); terão desaparecido aos poucos, de tal modo, porém, que no tempo de Davi (século XI a.C.) ainda existia o gigante Golias. A linguagem hebraica tem vários nomes para designar esses misteriosos seres, entre os quais o vocábulo refaim, que passou a significar outrossim o núcleo da personalidade que sobrevive após a morte do composto humano. - A temática fica sendo complexa e um tanto obscura no Livro Sagrado.

 

Como ponto de partida da problemática dos gigantes sobre a terra, seja tomado o texto de Gn 6, 1-4:

 

"Quando os homens começaram a ser numerosos sobre a face da terra e lhes nasceram filhas, os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram belas e tomaram por mulheres todas as que lhes agradaram... Ora naquele tempo - e também depois - quando os filhos de Deus se uniam às filhas dos homens e estas lhes davam filhos, os Nefilim habitavam sobre a terra; esses homens famosos foram os heróis dos tempos antigos".

 

Este texto apresenta algumas dificuldades, que abaixo serão consideradas.

 

1. Filhos de Deus e filhas dos homens

 

O casamento entre filhos de Deus e filhas dos homens suscitou a perplexidade dos leitores. Daí diversas interpretações:

 

1) Tratar-se-ia de uma citação implícita, isto é, de um texto de origem não bíblica transcrito pelo autor sagrado sem mencionar a fonte. Fazendo esta citação, o hagiógrafo teria em vista apenas salientar que o mundo ia mal e merecia uma intervenção de Deus. Segundo a mitologia, os filhos de Deus seriam deuses que se uniram a mulheres (filhas dos homens). Esta interpretação é carente de fundamentação.

 

2) A tradição rabínica e as primeiras gerações cristãs interpretaram os filhos de Deus como sendo os anjos, que se teriam unido a mulheres, de modo a gerar descendentes. Tal modo de ver foi consignado (citado), mas não abonado, pelos escritos no Novo Testamento; ver Jd 6; 2Pd 2, 4. Com o tempo caiu em descrédito, de sorte que no século IV já era contestado por autores cristãos. É de notar que os anjos não podem ter cópula carnal com mulheres visto que não têm corpo.

 

3) A interpretação correta vê nos filhos de Deus uma população fiel à Lei do Senhor e nas filhas dos homens a população infiel ou - como dizem alguns, querendo mais precisão - tratar-se-ia de setitas e cainitas. (verGn4, 17-24 e 5, 1-32).

 

2. E os nefilim?

 

A palavra hebraica nefilim vem do verbo nafal, agredir com força; foi traduzida para o grego por gigas, gigante.

A referência a gigantes em Gn 6, 1-4 é despropositada e confirma a impressão de que Gn 6, 1-4 é um bloco errático, ou seja, uma peça avulsa, colocada como pano de fundo para a narrativa do dilúvio, porque de maneira complexa fala de desordem do mundo.

 

Sem dúvida, o conceito de gigante famoso e poderoso tem sabor mitológico. Embora não haja mitos propriamente ditos na Bíblia, apresentamos, a seguir, alguns traços da mitologia grega referentes a este assunto.

 

2.1. Na mitologia grega

 

A mitologia grega conhece duas versões da estória dos gigantes:

a)  eram filhos de Goea (Terra) e do Tártaro; revoltaram-se contra Júpiter, querendo escalar o céu, mas foram fulminados e sepultados debaixo do vulcão Etna... eram personagens de elevada estatura.

b)  Os gigantes eram titãs ou filhos de Titat, filho de Uranos, e da mãe Terra. Revoltaram-se contra Saturno, o irmão mais velho de seu pai; foram fulminados por Júpiter e precipitados no Tártaro. Em 2Pd 2,4 está dito que "Deus não poupou os anjos que pecaram, mas lançou-os nos abismos tenebrosos do cárcere, onde estão guardados à espera do julgamento...". - Isto não quer dizer que o autor sagrado faz da narrativa mitológica um artigo de fé, mas apenas implica que o hagiógrafo alude a quanto se diz popularmente, para confirmar a afirmação de que Deus não tolera o pecado.

 

Por sua vez, o livro de Judite, referindo-se à morte de Holofernes, observa pelos lábios de Judite mesma:

 

"O herói deles (Holofernes) não caiu por mãos de jovens nem filhos de Titãs o feriram, nem gigantes enormes o atacaram, mas Judite, filha de Merari, foi quem o desarmou com a beleza do seu rosto" (16, 6).

 

Também o livro da Sabedoria, escrito no século I a.C. e no Egito, faz menção de gigantes orgulhosos:

 

"Quando nas origens pereciam os gigantes orgulhosos, a esperança do mundo se refugiou numa jangada" (Sb 14, 6).

 

Destas três citações bíblicas se depreende que no pensamento judaico havia a crença de que os gigantes (de origem misteriosa) constituíam um povo forte, soberbo e revoltado contra Deus; como dito; esta crença judaica é consignada na Bíblia sem se tornar artigo de fé.

 

2.2. E na Bíblia mais alguns ecos

 

Encontra-se esparsa pelos livros do Antigo Testamento, sem conexão lógica, a referência a gigantes que outrora habitavam a Terra. Esta continuada alusão aos nefilim se elucida, em parte, pelo fato de que as margens do rio Jordão foram habitadas por gente robusta, que deixou monumentos admiráveis a partir do quarto milênio a.C. Trata-se de ruínas de dolmens, templos, sepulturas de cultura megalítica, que devem ter impressionado o povo de Israel quando ocupou a terra prometida.

 

Eis as passagens que atestam as concepções judaicas:

 

Nm 13, 3: Os exploradores enviados por Josué a Jericó a fim de inspecionara terra prometida, voltaram anunciando ao povo: "A terra que fomos explorar, é terra que devora os seus habitantes. Todos aqueles que lá vimos, são homens de grande estatura. Lá também vimos gigantes (filhos de Enaque, descendência de gigantes). Tínhamos a impressão de que éramos gafanhotos diante deles e assim também lhes parecíamos"...

 

Dt 3,11: "Somente Og, rei de Basã, sobrevivera dos remanescentes dos refaim; seu leito é o leito de ferro que está em Raba dos filhos de Amon; tem nove côvados de comprimento e quatro côvados de largura, em côvado comum".

Observemos: nove côvados equivalem a quatro metros.

 

O vocábulo refaim de rafa, curar, designa um povo forte vencido por Josué (cf. Js 11, 21 ss). Na literatura profética refaim significa de núcleo de personalidade que sobrevive após a morte do composto humano; ver Jó 26, 5s.

1Sm 17, 4: o gigante Golias, que media seis côvados e um palmo de estatura.

1Cr 11, 23: Banaias, oficial do rei Davi, matou um egípcio, gigante de cinco côvados de altura.

Eclo 16, 7: "Deus não perdoou aos gigantes de outrora que se rebelaram, prevalecendo-se de suas forças".

1Sm 10, 23: "Saul, dos ombros para cima, sobressaia a todos".

2Sm 21,16: "Havia um grande guerreiro, um dos descendentes de Rafa; o peso de sua lança era de trezentos sidos de bronze e cingia uma espada nova".

Am 2, 9: "Eu destruiria diante deles o amorreu, cuja altura era como a altura dos cedros e que era forte como os carvalhos".

 

Tem-se aí uma hipérbole, gênero de locução não raro na Bíblia.

A Escritura menciona também povos de elevada estatura, como seriam

 

- os zomzomim, que eram uma facção dos refaim ou o próprio povo dos refaim; cf. Dt 2, 20s:

"Era considerada como terra dos refaim; ou refaim a habitavam, sendo que os amonitas os chamavam zomzomim; era um povo grande e numeroso, de estatura alta como a dos enacim; o Senhor, porém, os exterminou da frente dos amonitas, que os desalojaram para habitar em seu lugar".

 

- os enacim ou anaqim; ver Dt 1, 21:

"(Os enacim) são um povo mais numeroso e de estatura mais alta do que nós; as cidades são grandes e fortificadas até o céu. Também vimos os descendentes dos enacim".

 

- enim; ver Gn 14, 5:

"No décimo quarto ano vieram Codoriaomor e os reis que estavam com ele. Derrotaram os refaim em Astarot-Carnaim, os zozim em Ham, os enim na planície de Cariataim, os horitas nas montanhas de Seir".

 

Em suma, conforme a Bíblia de Jerusalém, nota de rodapé a Dt 1, 21ss, tais nomes são lendários, como se lê aí: "Os enacim, assim como os enim, os refaim, os zomzomim, ou zozim são os nomes lendários dos primeiros habitantes da Palestina e da Transjordânia, eram relacionados com os fabulosos nefilim e a eles eram atribuídos os monumentos megalíticos. Os enacim constituíam ainda no tempo de Josué uma aristocracia na montanha de Hebron e na região marítima. Os refaim tinham-se mantido na terra de Basa, mas até mesmo na Judéia sua lembrança é guardada pelo Vale dos Refaim a Sudoeste de Jerusalém (Js 15, 8; 18, 16; 2Sm 5, 18) e os homens de Davi procedem dos últimos remanescentes de Rafa, o ancestral epônimo (2Sm21, 16-22; cf. 1Cr20, 4-8. O termo refaim designava também as sombras (= os falecidos do xeol); cf. 25, 5s; SI 88, 11; Is 14, 9; 28, 14.19)".

 

Ainda merece atenção o seguinte: segundo o tratado rabínico Bereshitrabba (26, 7), refaim seria o nome primitivo dado aos nefilim, heróis famosos de tempos passados, nascidos de mulheres mortais fecundadas por filhos dos deuses (Gn 6, 4). Ora tal concepção tinha um traço pagão; com efeito, no Próximo Oriente, em Ras Samra, entre os povos ditos "ugariticos" encontram-se textos que apresentam os refaim como heróis míticos ou reis fundadores de dinastia. Por causa dessa nota pagã, os israelitas terão preferido utilizar o vocábulo nefilim para designar os refaim da mitologia pagã.

 

Aliás, esta troca de nome pagão por outro mais aceitável não é caso inédito na literatura de Israel. Veja-se a história de Saul: este rei teve um filho chamado Isbaal, homem de Baal (1Cr 8, 33) ou Isboset, o homem de vergonha, sendo Vergonha o equivalente de Baal (2Sm 2, 8); ora estes nomes, que tinham conotação pagã, foram substituídos por Jesui, o homem de Javé (1Sm 14, 49).

 

Em conclusão, as ponderações da Bíblia de Jerusalém atrás transcritas parecem constituir a melhor elucidação para a problemática dos gigantes ocorrente no texto bíblico.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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