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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 526 – abril 2006

A veracidade dos Evangelhos:

 

"OS MISTÉRIOS QUE VÊM DO SÉCULO I"

(revista VEJA)

 

Em síntese: As revistas ilustradas de dezembro pp. consideraram Jesus de modo cético e tendencioso. O artigo abaixo analisa as principais afirmações dessa literatura, mostrando que os Evangelhos são fidedignos dentro dos diversos gêneros literários a que recorrem.

 

Em dezembro 2005 as revistas VEJA e ÉPOCA publicaram reportagens tendenciosas sobre Jesus, lançando o descrédito sobre a figura do Mestre. Nas páginas subsequentes deter-nos-emos sobre as principais afirmações de tais periódicos, que, aos olhos da crítica sadia, não invalidam a fidelidade histórica dos Evangelhos.

 

O Problema

 

Eis o que se lê em VEJA, 21/12/05, p. 108:

 

"A HISTÓRIA DO NOVO TESTAMENTO MOSTRA QUE SUA INTERPRETAÇÃO DEPENDE DA FÉ DE CADA UM

Para muitos cristãos, passagens do Novo Testamento como a da Anunciação, do Evangelho de São Lucas, relatam os fatos exatamente como eles aconteceram. Sem prejuízo da fé, muitos outros cristãos dizem que é preciso interpretar os textos dos apóstolos, e não tomá-los ao pé da letra. Santo Agostinho, talvez o mais significativo pensador cristão depois de São Paulo, já defendia no século V que o livro do Apocalipse, que trata do juízo final e do fim dos tempos, deveria ser interpretado de forma alegórica, como uma representação do bem e do mal. "É praticamente impossível saber quem de fato foi Jesus tomando como base apenas os Evangelhos porque eles foram escritos de acordo com a visão de seus autores sobre os acontecimentos", diz o historiador americano Luke Timothy Johnson, autor do livro Os Textos do Novo Testamento... Quanto à interpretação dos fatos narrados na Bíblia, esta continua a ser uma questão que cada um resolve de acordo com sua fé".

 

Que dizer?

Responderemos em quatro etapas:

 

1. Gêneros literários

 

a) É certo que os Evangelhos foram escritos por homens de fé para suscitar ou alimentar a fé dos leitores. Para o fiel católico, o Evangelho é a Palavra de Deus revestida da palavra dos homens para comunicar verdades de valor transcendental.

 

b) Todavia essa fé não é algo de meramente subjetivo, sentimental ou cego, mas tem base objetiva; está fundamentada sobre realidades. A crítica sadia aceita a historicidade dos Evangelhos, respeitado o gênero literário de cada passagem: história, história edificante (midraxe), parábola, alegoria, apocalipse... Existem critérios científicos para definir o gênero literário de determinada secção, entre os quais é primordial a comparação de tal secção com paralelos e com o "gênio" da língua respectiva.

 

Eis um exemplo do gênero literário dito "história edificante" ou midraxe nos Evangelhos: em Mt 1, 1-17 lê-se que entre Abraão e Jesus houve 42 gerações distribuídas por três segmentos de 14 nomes em cada segmento. Ora quem investiga os livros do Antigo Testamento verifica que entre Abraão e Jesus houve mais de 42 gerações. Donde a pergunta: terá Mateus errado? - Não errou, já que o propósito dele, no caso, não era fazer história sem mais, mas história edificante ou teológica. Com efeito; 14 é o resultado da soma das consoantes que compõem o nome DAVID ou DVD; D (daleth) equivale a 4 e V (vau) a 6: donde DaViD é igual a 14. ([1]) Ora, se Jesus veio ao mundo como o ponto final de três vezes Davi, Ele é o Davi por excelência, o Filho de Davi prometido como Messias. Para a fé, reconhecer Jesus assim é mais importante do que saber que entre Abraão e Jesus houve cinquenta ou mais nomes. Assim o midraxe passa pela história a fim de mostrar o sentido teológico da mesma.

 

De resto, os críticos reconhecem que os capítulos 1 e 2 de Mateus e Lucas (ditos "Evangelhos da Infância") são redigidos em estilo de midraxe; este gênero literário não anula a história, não a reduz a mito, mas põe em relevo o plano de Deus, que se revela através da História.

 

Pode acontecer que a definição do gênero literário de determinada passagem seja difícil ou contestável; então faz-se necessário proceder honestamente, não apresentando ao leitor o incerto como certo. Evite-se também o "achismo": "eu acho que... eu tenho para mim que...".

 

A fé católica está baseada sobre fatos históricos e não sobre mitos. Merece recusa a afirmação do repórter Okky de Souza: "Os relatos sobre Jesus deveriam enfatizar apenas a sua santidade durante a vida, a morte e a ressurreição".

 

2. Como os evangelistas escreveram

 

Lê-se no citado artigo à p. 109:

"Os Evangelhos foram escritos de acordo com a visão de seus autores sobre os acontecimentos. Há ainda quem lembre que Marcos e Lucas não acompanharam Jesus em sua vida pública e, não obstante, a relataram; como o puderam fazer?"

 

Respondemos que entre Jesus (27-30) e os evangelistas (60-100) não há um hiato, mas há a pregação oral dos Apóstolos e discípulos. Esta foi dispondo a mensagem em determinada sequencia... Os evangelistas, quando se dispuseram a escrever, não tiveram que puxar pela memória, mas puseram por escrito esse conjunto de informações, imprimindo-lhe (como bem se compreende) o estilo próprio de respectivo evangelista. Tenha-se em vista a tradição sinótica (Mt, Mc e Lc), que compreende dois evangelistas que não acompanharam Jesus viandante (Marcos e Lucas), mas escreveram evangelhos muito semelhantes ao de Mateus, que seguiu Jesus.

 

3.Evangelhos e mitos

 

Na revista ÉPOCA de 19/12/05, p. 124 escreve o repórter Ivan Padilla:

"Os historiadores calculam que os Evangelhos foram escritos pelo menos três décadas após a crucificação. Um dos evangelistas, Lucas, nem sequer conheceu Jesus. São relatos que misturam fatos históricos com façanhas heroicas, um gênero literário bastante usado na Antiguidade. O historiador Alan Dundes, da Universidade de Berkeley, elaborou uma lista com 22 pontos em comum dessas narrativas mitológicas, como o nascimento a partir de uma virgem, no livro In Quest of the Hero. Nas narrativas sobre Jesus, ele encontrou 17 dessas características. Acredita-se que muitos dados biográficos foram adaptados pelos evangelistas como forma de criar uma atmosfera épica. O local de seu nascimento deve ter sido Nazaré. Quem nasceu em Belém, de acordo com o Antigo Testamento, foi o rei Davi. A presença de 12 apóstolos também pode ser uma referência ao número de tribos da antiga Israel. Algumas informações vêm de outras culturas. A data de 25 de dezembro foi adotada a partir do século IV - nesse dia, era comemorada em Roma uma festa pagã em homenagem ao Sol".

 

A propósito observe-se:

É difícil crer que os evangelistas tenham adotado "façanhas heroicas e narrativas mitológicas da literatura pagã". É notória a resistência dos antigos cristãos à pressão pagã para que deixassem de ser "ateus" e adorassem os deuses de Roma; morriam para não ceder às concepções e práticas mitológicas. Na literatura cristã dos primeiros séculos encontramos severas advertências aos jovens para que não se envolvessem com a literatura pagã.

 

O nascimento virginal de Jesus parece ter seu paralelo em Virgilio e outros autores pagãos... - A respeito notemos: sem negar a realidade histórica do nascimento virginal de Jesus, pode-se crer que tal episódio corresponde a um arquétipo inato no íntimo do ser humano; é a maneira de exprimir o nascimento de um Ser Superior, não mitado pelas vias comuns da genitalidade humana. Nas obras de Virgilio esse arquétipo fica sendo mero artifício literário, ao passo que nos Evangelhos o "esquema paradoxal" tem como correspondente uma realidade histórica.

 

A celebração do Natal em 25 de dezembro, dia festivo pagão, que comemorava o Sol Invicto, não implica paganização ou adoção de traços da mitologia; apenas a Igreja quis "batizar" uma data que já era festiva no Império Romano.

 

De modo geral podemos dizer: há certas expressões da sabedoria e da Religião que são inatas e, por isto, comuns a todos os homens. Ao observar tais manifestações, deve o estudioso levarem conta o significado que elas têm para quem as pratica e verificará que debaixo de sinais idênticos ou quase idênticos há cosmovisões ou concepções radicalmente diversas,... concepções que não se coadunam entre si e, por isto, excluem a dependência de uma prática frente à outra.

 

4. "Jamais saberemos o que Jesus disse"

 

Às pp. 124s do citado número de ÉPOCA lê-se:

"Dessa maneira, diferentes qualidades de Jesus foram ressaltadas em cada Evangelho: piedoso, combativo ou místico. As diversas versões conseguiam responder assim a anseios distintos. 'Querer saber o que realmente aconteceu é equivocado', teoriza Paulo Garcia. 'Jamais saberemos o que Jesus disse. Os dados que temos foram filtrados, alterados ou inventados. A pergunta certa é: porque essas histórias são contadas? A resposta está na religiosidade das comunidades, que acrescentam a esse personagem toda sua crença'."

 

Estas palavras correspondem à distinção feita entre o "Jesus da história" e o "Jesus da fé". Aquele seria Jesus como realmente Ele viveu outrora na Palestina, ao passo que o Jesus da fé seria o Jesus embelezado e enaltecido pela crendice das primeiras gerações cristãs; seria um outro Jesus, concebido pelo senso religioso de Colossenses, Efésios, Filipenses... Só conheceríamos o que eles pensavam a respeito de Jesus, e não a realidade histórica de Jesus.

 

A propósito dizemos: há sérias razões para negar a ruptura entre o Jesus da história e o Jesus da fé. Os Apóstolos eram vigilantes para que não se mesclassem à pregação (logos) mitos (mythoi); ver 1Tm 1, 4: 4, 7; 2Tm 4, 4; Tt 1, 14. Os Apóstolos eram conscientes do perigo de infiltração gnóstica, mitológica e alertavam os fiéis para o perigo; ver Gl 1,8: "Se nós ou um anjo do céu vos anunciar um evangelho diferente daquele que vos anunciamos, seja anátema!". Graças a essa vigilância pode-se dizer que o Jesus da fé é o mesmo Jesus da história aprofundado e perscrutado sob o influxo do Espírito Santo prometido por Jesus como mestre interior; ver Jo 14, 15-17; 16, 12-14.

 

Há mesmo autores que se comprazem em descobrir nos Evangelhos ipsissima verba Christi, as própria palavras de Cristo. Assim o apelativo "Filho do Homem", semita como é, aparece nos lábios de Jesus, mas cai em desuso nas epístolas paulinas e na literatura cristã em geral, com exceção de At 7, 56 Ap 1, 13; 14, 4. É linguagem própria de Jesus, tão semita que não foi compreendida pelo mundo greco-romano. Diga-se algo de semelhante em relação à locução "Em verdade, em verdade vos digo...". Ainda: as altercações de Jesus com os fariseus têm o estilo de uma autêntica discussão entre doutores da Lei. Em consequência não se pode afirmar que não sabemos o que Jesus disse. Verdade é que no quarto Evangelho o linguajar de Jesus difere do que ocorre nos sinóticos... isto não implica que São João tenha alterado o sentido das palavras de Jesus, mas significa que o evangelista traduziu para o plano teológico mais profundo quanto Jesus proferiu. Um exemplo pode ilustrar de algum modo o fato:

 

Dizer "O Sr. João da Silva faleceu" não é aparentemente a mesma coisa que dizer "Teu pai morreu"; todavia a mesma notícia é veiculada em ambos os casos; na primeira formulação tem-se o estilo impessoal, dirigido ao grande público, ao passo que no segundo caso o estilo é coloquial e pessoal, visto que João da Silva é "teu pai". Assim nos Evangelhos Jesus usa uma linguagem de primeira abordagem (sinótica) e uma linguagem autenticamente aprofundada pelo evangelista (Jo).

 

CONCLUSÃO

 

Dizia o sábio francês Pasteur: "A pouca ciência afasta de Deus, a muita ciência leva a Deus". Poder-se-ia parafrasear nos seguintes termos: "A pouca ciência pode levar ao erro (da unilateralidade), ao passo que a muita ciência leva à verdade". E dentro do âmbito destes dizeres que se encaixa o caso de pessoas que só têm conhecimento superficial da Bíblia e da história do Cristianismo nascente, mas se aventuram a escrever artigos sobre o Novo Testamento e Jesus Cristo, interrogando peritos escolhidos segundo uma tese predefinida; só podem escrever coisas imperfeitas e criticáveis, gravemente criticáveis não só pelos erros que professam, mas por induzirem ao erro o grande público que lê desprevenidamente as revistas VEJA, ÉPOCA, GALILEU, SUPERINTE-RESSANTE, ISTO É... O público começa a perceber que em tais casos o desejo de sensacionalismo supera o amor à Verdade.


 

APÊNDICE

 

A Historicidade dos Evangelhos

 

Ponderem-se as seguintes razões:

 

1) Os Evangelhos nos apresentam particularidades históricas, geográficas, políticas e religiosas da Palestina. Cf. Lc 2, 1; 3, 1s (César Augusto e Tibério imperadores, além dos governantes da Palestina: Pôncio Pilatos, Herodes, Filipe, Lisânias, Anás e Caifás); Mc 3, 6; Mt 22, 23 (os partidos dos fariseus, herodianos, saduceus); Jo 5, 2 (a piscina de Betesda); Jo 19, 13 (o Lithóstrotos ou Gábata)... Ora tais peculiaridades supõem testemunhas que viveram antes do ano de 70 d.C, pois em 70 a terra de Israel foi invadida e transformada pelos romanos.

 

2) Os Apóstolos e evangelistas dificilmente poderiam mentir, pois viviam em ambiente hostil, pronto a denunciar qualquer desonestidade da parte dos mensageiros da Boa-Nova.

Sem dúvida, a fantasia dos discípulos imaginou muitas lendas a respeito de Jesus. Todavia esses episódios fantasistas não foram reconhecidos pela Igreja, e por isso passaram a constituirá literatura apócrifa. Nesta nota-se a tendência a apresentar um Jesus maravilhoso, que desde a infância surpreende seus pais e amiguinhos pelos prodígios que realiza. O estilo dos Evangelhos canônicos é, ao contrário, muito simples e despretensioso, deixando mesmo o leitor diante de passagens que se tornaram "cruz dos intérpretes" (cf. Mc 3, 21; 6, 5; 10, 10...); tem-se a impressão de que os Evangelistas possuíam a certeza de estar transmitindo a verdade... verdade que não precisaria de ser artificialmente embelezada.

 

3) Os Apóstolos e Evangelistas nunca teriam inventado um Messias do tipo de Jesus. Com efeito, não cabia na mente dos judeus o conceito de Deus feito homem,... e homem crucificado. São Paulo mesmo notava que tal concepção era escândalo para os judeus e loucura para os gregos (cf. 1Cor 1, 23). Os judeus, através dos séculos, tendiam a exaltar cada vez mais a transcendência de Deus, distanciando-o dos homens.

 

4) Afigura de Jesus é de tal dimensão intelectual, moral e psicológica que seria difícil a rudes homens da Galiléia inventá-la.

 

5) Quanto aos milagres em especial, se Jesus não os tivesse realizado, não se explicaria o entusiasmo do povo e dos discípulos, que sobreviveu à morte do Senhor na Cruz. Com efeito; a pregação de Jesus não era apta a suscitar fácil entusiasmo: ao povo dominado pelos estrangeiros, Jesus ensinava o amor aos inimigos; proibia o divórcio, que era habitual em Israel; incutia a abnegação e a renúncia... Dificilmente um tal pregador teria sido endeusado se não houvesse realizado sinais que se impusessem aos discípulos. Ao contrário, se admitimos a historicidade dos milagres de Jesus, compreendemos o fascínio exercido pelo Mestre... Em particular, a ressurreição corporal de Jesus sempre foi considerada o milagre decisivo que autentica a pregação cristã (cf. 1 Cor 15,14.17); ora, se não houve ressurreição de Jesus, o Cristianismo estaria baseado sobre mentira, fraude ou doença mental e alucinação de alguns poucos pescadores da Galiléia; tal consequência seria um autêntico portento, talvez ainda mais milagroso do que a própria ressurreição corporal de Jesus.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)



[1] Os judeus não levavam em conta as vogais.


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