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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 548- fevereiro 2008

Questão delicada:

 

DIZER A VERDADE AO PACIENTE?

 

Em síntese: Não se deve enganar um enfermo, principalmente se está no fim da sua peregrinação terrestre. Diga-se-lhe a verdade gradativamente, na medida em que a possa suportar, e seja-lhe ministrada a afeição de familiares e amigos assim como a solicitude do médico, que não se deve limitar a prescrever tratamentos.

 

Debate-se a questão de revelar, sim ou não, ao paciente a gravidade de seu estado de saúde.

 

Muitos julgam que tal revelação poderia prejudicar o enfermo, diminuindo sua capacidade de resistir ao curso da moléstia. Há mesmo quem queira levantar o ânimo do paciente, predizendo-lhe a cura e uma provável "excursão à Europa", enquanto todos os circunstantes sabem que a doença no caso não tem cura. Só o paciente - aquele a quem mais importa conhecer a verdade - ignora-a e se apoia na mentira. A seguir, serão propostas quatro normas que parece oportuno observar no trato com o paciente:

 

1. Não à falsidade

 

A falsidade ou a mentira não é terreno sobre o qual se possam construir autênticas relações humanas, principalmente quando se trata de terreno tão importante quanto a vida humana. Todo ser humano tem o direito-dever à verdade, particularmente quando se trata de preparar o fim da vida. Nos casos em que o paciente chega a descobrir que lhe foi ridiculamente subtraída a verdade, pode experimentar decepção e desconfiança em relação a quem o cerca. Por conseguinte, é para desejar que a pessoa conheça, como possa, a sua situação e não morra como um animal destituído de um ideal e das responsabilidades anexas.

 

2. Seja a verdade comunicada não só com palavras, mas também com afeição

 

Isto quer dizer que a verdade deve ser transmitida não somente pelo enunciado de diagnósticos e prognósticos, mas também com solicitude e solidariedade com o paciente. É necessário deixar, primeiramente, o doente falar, para, em seguida, expor-lhe a gravidade de sua moléstia. Um dos anseios mais vivos que o paciente terminal experimenta, é o de não estar só, não ser abandonado, poder perceber a partilha de seus sofrimentos por parte dos familiares e amigos.

 

3. Comunicação da verdade proporcionada à capacidade do paciente

 

Para evitar desagradáveis surpresas, é oportuno graduar a transmissão da verdade de acordo com as possibilidades de ser recebida construtivamente. É preciso evitar uma possível depressão do indivíduo; é necessário saber parar no momento certo. Jamais se exclua a esperança de melhoras, pois na medicina não há previsões absolutas; muitas surpresas alvissareiras se têm registrado. Quando mais não seja possível, sejam deixadas sobre a mesa de cabeceira do enfermo as bulas dos remédios aplicados, para que eventualmente as leia e vá tomando consciência do que ocorre. Gradativamente será informado de tudo. Essa plena informação é especialmente necessária quando se trata de alguém que, antes de falecer, deve tomar decisões importantes e necessita de se preparar para uma morte digna. Esta, para o cristão não é senão o encontro com o Maior Amigo ou com Aquele que trilhou o mesmo caminho para santificá-lo.

 

4. Destas ponderações resulta a importância de encarar a morte quando ela ainda parece estar longe, ou quando o indivíduo goza de lúcido raciocínio e plena consciência de si mesmo; não é na última hora que se vai improvisar a preparação para esse encontro final; ele deve pairar diariamente ante os olhos do ser humano, particularmente daqueles que têm fé.

 

Pode-se comparar a vida a um livro, do qual cada um de nossos dias é uma página; pode acontecer que numa ou noutra dessas páginas tenha havido um erro de ortografia ou de concordância gramatical, tenha havido falta de uma palavra, uma sílaba, uma vírgula... Daí a necessidade de que o paciente terminal possa rever o livro de sua vida e corrigir, acrescentar ou tirar qualquer particularidade destoante; dê o remate certo a esse livro.

 

A propósito cabe ainda uma palavra sobre os analgésicos.

 

É lícito o uso dos mesmos, ainda que daí resulte certa antecipação da morte, desde que não haja outro meio para aliviar as dores do paciente. É preciso, porém, que tal uso não impeça o paciente de cumprir os seus deveres religiosos e morais, deveres para consigo mesmo, para com a família e a sociedade. Não é lícito privar o paciente terminal da consciência de si mesmo sem grave motivo.

 

É lícito também a todo ser humano fazer o seu testamento de fim de vida; excluirá, se quiser, qualquer tratamento por meios extraordinários ou desproporcionais. É o que os norte-americanos chamam o living will.

 

Estas ponderações foram, em grande parte, colhidas na obra de Elio Sgreccia "Manual de Bioética", vol. 1, pp. 624-626.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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