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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 531 – setembro 2006

 

Medicina e tecnologia:

 

GELADO, MAS RICO

(VEJA)

 

Em síntese: Vai tomando vulto crescente o número de pacientes que desejam ser congelados, caso cheguem ao estado de coma, na expectativa de ser descongelados logo que a ciência médica descubra o tratamento adequado para lhes restituir a saúde. Alguns estão mesmo fazendo depósitos de elevadas quantias de dinheiro que pretendem utilizar quando tiverem recuperado a saúde após a hibernação.

Do ponto de vista moral, nada há a censurar no caso, desde que ninguém seja coagido ao congelamento. Seja ele solicitado pelo paciente, que deve ser informado a respeito dos riscos que tal processo acarreta: o organismo pode não resistir à baixa temperatura; caso resista, e venha a ser descongelado, será cercado de um ambiente novo, desconhecido ao enfermo - o que lhe tornará a vida mais difícil e estranha.

Como quer que seja, a crioterapia não ressuscita mortos, mas estanca um processo de deterioração; o princípio vital ou a alma humana espiritual permanece no corpo congelado, que tem vida latente na expectativa de reanimação eventual e recuperação da saúde. - Tal avanço da medicina nada tem de imoral; é necessário, porém, que os homens não percam a consciência de que são mortais e, cedo ou tarde, morrerão e darão contas ao Criador do desempenho de sua conduta durante os anos passados neste mundo.

 

A revista VEJA, edição de 1o de fevereiro 2005, p. 64 apresenta uma notícia que despertou o interesse de muitos leitores: eis por que será comentada nestas páginas.

 

Gelado, mas rico

 

Além de congelarem o corpo, muitos investem para ser milionários numa segunda vida.

Riqueza não se leva para o túmulo? Bem, há um grupo de americanos e europeus com planos de voltar da morte e usufruir o dinheiro que vão deixar de herança para si próprios. Explica-se: eles têm contrato com empresas especializadas para que seus corpos sejam congelados em nitrogênio líquido o mais rápido possível depois da morte. O objetivo é conservá-los até que a ciência encontre a cura da doença que causou a morte e, obviamente, descubra como reviver os mortos. Há pelo menos 1000 pessoas à espera do momento de ser congeladas. Uma dúzia delas, todas milionárias, tomou o cuidado adicional de criar fundos de investimentos cujos beneficiários serão elas próprias, numa segunda vida. "A questão é que, além de voltar a viver, elas querem ter dinheiro para gastar", diz Robert Ettinger, diretor do Cryonics Institute, empresa que vende pacotes de congelamentos post mortem.

 

QUE DIZER?

 

Nas páginas subsequentes examinaremos mais de perto e as questões que o caso suscita.

 

1. Hibernação ou congelamento: que é?

 

Por "hibernação" entende-se "a maneira de passar o inverno". Trata-se da faculdade que certos seres vivos têm de se adaptar às condições de clima de inverno rigoroso, com sua baixa temperatura e diminuição da duração dos dias.

 

A adaptação, no caso, consiste em reduzir as manifestações vitais, ou seja, reduzir o gasto de energia. Os vegetais, os animais invertebrados e os vertebrados obtêm este resultado mediante táticas diversas quando coagidos pelo clima.

 

O homem tem procurado fazer o mesmo em favor da própria humanidade, a partir da primeira metade deste século: os cientistas tentam submeter certos indivíduos a baixas temperaturas a fim de mais facilmente atender à saúde dos mesmos: desacelerar a circulação do sangue, reduzir o consumo de oxigênio em ambiente de baixa temperatura permitem intervenções cirúrgicas sem sangramento, como se dirá adiante.

 

A tática de hibernação ou congelamento, para o homem, foi concebida por Robert C. W. Ettinger, cientista norte-americano, professor de Física, Astronomia e Matemática na Universidade de Wayne. Ettinger, numa tese muito categórica intitulada "A imortalidade está à vista!", asseverava que desde já o homem pode ressuscitar ou reviver fisicamente após a morte. Chegava a apregoar a fundação da "Sociedade dos futuros Imortais", reconhecendo todavia que seria necessário um verdadeiro exército de vigias especializados para guardar os túmulos, ou melhor, os "dormitórios-geladeiras" (com dizia o próprio Ettinger) desses aparentes cadáveres. Ao mesmo tempo, perguntava se o nosso planeta poderia dar abrigo e alimentação a tantos milhões de homens "ressuscitados", pois já hoje em dia o problema da alimentação é grave, e tende a se agravar cada vez mais, dado o extraordinário aumento da população mundial.

 

Ettinger, porém, ainda se consolava, lembrando que os processos de hibernação, dispendiosos como seriam, não estariam ao alcance de todos os homens; a congelação de um corpo humano sairia, sim, por 4 milhões de antigos francos franceses.

Verdade é que uma grande companhia que explorava a indústria do frio foi interpelada sobre as possibilidades de sua colaboração nesse terreno; respondeu estar, sim, interessada pelo problema e disposta a examinar com atenção qualquer proposta concreta que lhe fosse feita.

 

O método imaginado por Ettinger para obter a imortalização do indivíduo (como composto de corpo e alma, não apenas como alma) era em si muito simples: ensinava que, no momento da morte de uma pessoa, se deveria congelar o seu cadáver em temperatura próxima do zero absoluto (273° abaixo do zero comum). Nessa temperatura, julga-se que a matéria já não é capaz de atividade; fica por completo paralisada, de modo a não poder sofrer deterioração ou destruição alguma. Tal efeito se poderia alcançar mergulhando o organismo em hélio líquido, cuja temperatura é de -269°. Feito isto, esse mesmo organismo seria posto em um "dormitório-geladeira". E os médicos aguardariam...

- Que aguardariam?

- Duas coisas... que a medicina estivesse em condições de progresso tal que já pudesse curar a doença do corpo congelado, e que pudesse descongelar o organismo convenientemente, de modo a lhe aplicar o remédio descoberto.

 

A congelação, porém, (observam os cientistas) exigiria que os trabalhos a ser executados no momento do desenlace do doente se efetuassem com toda a rapidez possível. Com efeito, a imobilização do coração (que caracteriza a morte) acarreta a asfixia progressiva dos tecidos do organismo; ao cabo de 5 ou 6 minutos, as células do córtice cerebral (que são as primeiras atingidas) sucumbem de modo tal que doravante já não é possível conseguir a reanimação do corpo: faz-se mister, por conseguinte, aproveitar os 5 ou 6 minutos que decorrem entre a paralisação do coração e a consequente asfixia das células cerebrais.

Eis as ideias e os planos de Ettinger e de seus colaboradores.

 

2. O Histórico do procedimento

 

As técnicas de hibernação ou de congelação dos organismos se devem principalmente aos estudos do sábio francês Henri Laborit. Este pesquisador verificou que, baixando de 37° para 30° a temperatura de um corpo vivo, o processo de asfixia das células do cérebro se torna mais lento; em vez de durar 5 ou 6 minutos apenas, já dura 15 minutos; este intervalo já fornece ao médico maior margem para intervir no organismo, efetuando aí alguma operação cirúrgica que lhe possa ser benéfica. Acontece, porém, que, quando a temperatura do organismo baixa a 25°, os tecidos geralmente se destroem de maneira fatal. Por conseguinte, a arte dos médicos em tal setor de trabalho deverá consistir em congelar o organismo segundo ritmo tão lento e suave que a progressiva diminuição de temperatura se torne como que algo de natural.

 

Conscientes disto, os sábios têm realizado experiências com animais irracionais, a fim de averiguar as suas reações e as possíveis aplicações à hibernação do homem.

 

Já em 1780 o jesuíta italiano Pe. Spallanzani conseguiu conservar em vida animais que vivem em musgo, os Rotíferos e os Tardígrados, congelando-os à temperatura de -19°. Em consequência, tais pequenos animais foram chamados "ressuscitantes". No ano de 1950, o cientista francês Becquerel colocou esses mesmos seres em ambiente de temperatura próxima ao zero absoluto; depois aqueceu-os de novo e reidratou-os, verificando que voltavam a viver como outrora. A experiência foi certamente digna de nota, mas não permite conjeturar o que se daria com o homem, pois Rotíferos e Tardígrados são seres elementares, capazes de se desidratar sem perder a vida. Em animais de sangue quente, a reação seria diferente. Não se pode desidratar um corpo humano sem lhe tirar a vida; e, caso alguém queira congelar um organismo humano sem o ressecar previamente, verifica que a água dos tecidos se transforma em gelo e assim destrói os próprios tecidos.

 

Outras experiências têm sido efetuadas.

Assim em 1946 Jean Rostand comunicava à Academia das Ciências da França que pudera conservar vivo o esperma de rã durante 20 dias, em vez das poucas horas habituais, recorrendo, para isto, a uma solução de glicerina.

 

Em 1949 um grupo de cientistas ingleses dirigido pelo Prof. Parkes demonstrou que a glicerina permite conservar espermas de aves e mamíferos a - 70° durante várias semanas.

 

Em 1953 os americanos Bunget e Sherman, usando do mesmo método, conservaram esperma humano durante mais de um mês à temperatura de -79°; depois, reaqueceram-no e com ele praticaram a inseminação artificial em três mulheres, que tiveram filhos normais.

 

Em 1956, o iugoslavo Giaja e seu discípulo Andjus congelaram alguns ratos à temperatura de -6o, conseguindo reanimá-los posteriormente. Verificaram então que esses ratos eram mais robustos e resistentes do que os seus semelhantes não congelados. Em particular, o seu coração era mais forte. O metabolismo vital do organismo não se interrompera, mas apenas diminuíra notoriamente a velocidade do seu ritmo. A maior parte da água contida nesses corpos não se reduzira ao estado de cristais nocivos aos tecidos.

 

Em 1958, o sábio francês Louis Rey foi mais longe ainda. Congelou um coração de embrião de galinha, mergulhando-o em azoto líquido à temperatura de -196°. Nesse caso houve vitrificação, isto é, o coração se tornou duro como uma pedra; mas, depois de haver sido aquecido em banho líquido conservado ao calor de 37°, tal coração recomeçou a bater.

 

Enfim no mês de março de 1963 o biólogo russo Lesinalozinski mergulhou vinte larvas da borboleta de milho em hélio liquefeito e reduzido à temperatura de -269°. A seguir, averiguou que treze dessas larvas voltaram a manifestar a vida de outrora.

 

3. A tática hoje

 

Em suma, tal é o procedimento a ser observado para congelar alguém:

 

"É fundamental que o processo de crionização seja feito o mais rápido possível em relação ao último suspiro...

O corpo é transferido envolto em pedras de gelo comuns. Uma vez na mesa de operação, todo o sangue do paciente é retirado para evitar a coagulação e a expansão das células (se o sangue congelasse, se expandiria e destruiria todas as células). Em seu lugar é injetado glicerol (um álcool) misturado com heparina (anticoagulante), vitaminas e fortificantes para os tecidos. Outras duas substâncias são aplicadas: uma para o corpo não tremer durante a operação e outra para o morto não abrir os olhos. Isso é apenas uma garantia para não assustar a equipe médica. Uma máquina de respiração artificial é acionada para que as substâncias circulem. Todo esse processo sucede sob uma temperatura não inferior a 4o C. Terminada a fase da operação, o paciente é colocado em uma caixa de madeira e alumínio e fica coberto por gelo seco por três dias. Ao final dos três dias, o corpo atinge 74°C negativos.

 

O próximo passo consiste em envolver o paciente em um saco de dormir tradicional e deitá-lo sobre um caixão de alumínio. Um guindaste levanta o caixão e coloca-o de cabeça para baixo em uma cápsula de alumínio, onde outros três pacientes já dividem o mesmo cilindro. Tampa-se tudo e o nitrogênio líquido encarrega-se de abaixar a temperatura até os 196°C abaixo de zero necessários. Detalhe: a pessoa é colocada de cabeça para baixo, pois, se algum acidente acontecer, o nitrogênio irá evaporar de cima para baixo, mantendo assim o cérebro, parte mais importante do ser humano, mais tempo protegido. Uma vez dentro do cilindro de aço, o paciente poderá resistir por mais de mil anos. Quando for retirado para a futura reanimação, o corpo estará exatamente como no dia em que entrou. Os cabelos, as unhas e as fisionomias das pessoas estarão perfeitos. A única diferença será a coloração da pessoa, que será mais branca por causa da ausência de sangue. Quatro fundações americanas dedicam-se à criogenia - a técnica de resfriamento usada para manter congelados os corpos. A mais famosa delas é a Alcor Life Extension Foundation, com sede na cidade de Phoenix, no Arizona...

 

O processo todo funciona assim: uma pessoa assina um contrato com a Alcor permitindo que, após a constatação de sua morte clínica e cerebral, seu corpo possa ficar congelado sob a responsabilidade da fundação. Depois disso, o futuro congelado recebe uma pulseira com seus dados, número de sócio e instruções básicas para caso de morte. Paga US$ 324 pela manutenção anual deste direito. Estudantes têm 50% de desconto. Os US$ 120 mil necessários para cobrir as despesas de congelamento e manutenção do corpo normalmente são pagos por apólices de seguro de vida, cujo beneficiário indicado é a própria fundação...

 

'Quem está aqui é porque quer ver o futuro com os próprios olhos. Nossos pacientes não viveram o suficiente e querem dar uma esticadinha', diz Brian Shock, administrador da Alcor. Dos 31 pacientes ... que estão armazenados na Alcor, o mais velho hibernou aos 99 anos e o mais jovem, aos 23. O mais antigo é o psiquiatra James H. Bedford, criador da fundação e o primeiro homem a ser congelado. Obcecado pela criogenia, o dr. Bedford seguiu passo a passo os mandamentos de Robert Ettinger, inventor da técnica... Antes de morrer de câncer aos 73 anos, em 1967, o psiquiatra teve longas conversas com Ettinger para preparar sua passagem para o futuro. Com todas as informações, dicas e dinheiro levantado (US$ 200 mil), o processo de congelamento foi executado pelo próprio Ettinger e sua equipe. A família, ainda chorosa com o passamento do patriarca, manteve-o congelado por quinze anos em sua casa".

 

4. E a consciência ética?

 

Responderemos em duas etapas:

 

4.1. Ressurreição de morto?

 

1. Mediante o congelamento, não se pretende ressuscitar um defunto. Mais precisamente, eis o que tal processamento supõe e intenciona:

A medicina distingue morte clínica e morte real.

 

A morte clínica é a que o médico declara, quando verifica que o coração do paciente já não pulsa e a respiração cessou. Todavia não se sepulta alguém que esteja clinicamente morto senão 12 ou mesmo 24 horas depois de ocorrido o óbito: na verdade, é extremamente improvável que, com a última pulsação do coração, o organismo se modifique de tal modo que já não possa ser vivificado pelo seu princípio vital, ou seja, pela alma humana; este deve aí permanecer latente por mais algumas horas após o óbito clínico, até dar-se a morte real. Aliás, a experiência mesma ensina que pessoas clinicamente mortas recuperaram suas funções vitais.

 

Com efeito, em 1970, por exemplo, na Inglaterra, registrou-se o caso de uma jovem iraniana que em Brighton ingeriu pesada dose de barbitúricos. Foi transportada para o hospital, onde o médico de serviço nela averiguou todos os sinais de morte clinica. Todavia na câmara mortuária a jovem começou a se agitar; estava apenas em coma profundo. Foram-lhe então aplicados os processos de reanimação, mediante os quais a paciente se recuperou e, sadia, deixou o hospital cinco semanas mais tarde.

Donde se vê que a cessação das pulsações cardíacas e da respiração não indica a morte real do indivíduo.

 

2. Mais precisamente, no tocante ao coma, convém notar o seguinte: o coma é um estado caracterizado pela perda (total ou parcial) da consciência e a cessação mais ou menos total das funções de sensibilidade e motricidade. Distinguem-se seis graus de coma, segundo a respectiva profundidade e gravidade. Desses seis, sejam mencionados ao menos quatro graus: o coma leve ou de vigia, o coma de gravidade média, o profundo e o ultrapassado.

 

No coma profundo ainda há sintomas de que o cérebro esteja vivo, pois o sistema vegetativo ainda se manifesta espontaneamente. Somente no coma ultrapassado (que já não é propriamente coma) é que o cérebro já não funciona e a vida vegetativa central está extinta. O eletroencefalograma se conserva constantemente liso. O colapso do organismo é total. Nessas circunstâncias, os peritos já tentaram de todos os modos restabelecer as funções cerebrais, mas em vão. Já não há recuperação.

 

Conclui-se, pois, que, entre o estado de morte clínica (declarada por haverem cessado respiração e pulsações cardíacas) e o de coma ultrapassado irrecuperável, há uma gama assaz variada de estados do organismo suscetíveis de reativação e recuperação para a plena vida.

 

3. Conscientes disto, os médicos, desde que verifiquem a morte clínica de alguém, podem supor que o princípio vital (ou a alma) desse paciente perdure no respectivo organismo até que se dê tal destruição dos órgãos e tecidos que já não possa mais subsistir aí um princípio de vida (ou a alma humana).

 

Interessa, pois, aos médicos deter o processo de deterioração do organismo em virtude do qual se dará a morte real. Ora, para deter tal processo, não há (segundo dizem muitos) recurso mais indicado do que o congelamento. Este paralisa as atividades todas do organismo (inclusive a deterioração); consequentemente, conserva-se presente na pessoa em coma a respectiva alma. Pode-se então esperar que, em época futura, o organismo esteja em condições de ser descongelado e receber medicamentos ou tratamentos novos, que a medicina esteja para descobrir. Caso tal medicação seja aplicada com êxito e o paciente recupere a vida plena, não se dará a ressurreição de um morto, mas apenas a reativação de um organismo inerte. ([1])

 

Fica naturalmente a dúvida: será que a baixa temperatura, paralisando as funções do organismo, não constitui um clima violento ou artificial demais para a vida humana? Será que o organismo do homem pode subsistir a 79° Celsius abaixo de zero ou a temperaturas ainda mais baixas? Será que os corpos até hoje congelados ainda estão vivos? - Quem julgar poder responder afirmativamente, não terá dúvida em admitir que o congelamento ou a crioterapia é aceitável do ponto de vista medicinal.

 

Todavia põe-se agora uma dúvida de consciência:

 

4.2. Será lícito congelar?

 

A resposta abrange dois aspectos:

 

4.2.1. Congelamento do organismo e plano de Deus

 

A prática do congelamento se enquadra tranquilamente dentro do programa geral da medicina, que é "preservar a vida humana e defendê-la contra as ameaças da morte". Não há dúvida, trata-se de recurso novo da medicina e, por isto, raro e dispendioso; além do mais, os seus resultados são incertos e fortemente hipotéticos, podendo mesmo ser nulos. Em consequência, nenhum paciente tem a obrigação de pedir tal tratamento, nem médico algum tem o dever de aplicar tal processo.

 

É certo que o congelamento em vista de uma reativação posterior não derroga aos desígnios do Criador. O homem deve morrer tanto segundo as leis naturais da biologia (os órgãos se desgastam pelo uso e perdem sua vitalidade) como segundo as proposições da fé (a morte é o salário do pecado, diz São Paulo em Rm 6, 23). Seria utópica e vã a pretensão de livrar da morte o composto "corpo e alma" que peregrina sobre a terra; cedo ou tarde, este deve ceder à decomposição para ser restaurado sob forma gloriosa, em configuração a Cristo ressuscitado (apenas a alma humana, e não o composto "corpo e alma", é, por sua natureza, imortal).

 

Ademais o sábio cristão tem consciência de que as conquistas positivas da medicina em nada derrogam ao poder e à soberania de Deus. É por graça e dom do Criador que o homem consegue progredir nos setores da ciência e da técnica; tais avanços têm levado muitos cientistas a reconhecer ainda mais evidentemente a sabedoria e a grandeza de Deus no mundo criado. É, pois, para desejar que a ciência continue a desenvolver-se, contanto que respeite sempre as leis de Deus e a dignidade do ser humano (imagem e semelhança do Criador).

 

Tenham-se em vista as palavras do Concílio do Vaticano II:

"Bem longe de julgar que as obras produzidas pelo talento e a energia dos homens se opõem ao poder de Deus, e de considerar a criatura racional em competição com o Criador, os cristãos estão antes convictos de que as vitórias do gênero humano são um sinal da magnitude de Deus e fruto de seu inefável desígnio" (Const. Gaudium et Spes n° 34c).

 

4.2.2. E a deontologia médica?

 

Dois tópicos vêm ao caso:

 

1) Visto que o congelamento ainda é recurso extraordinário e incerto, não deve ser aplicado a um paciente adulto sem o consentimento deste - consentimento dado previamente em estado de lucidez mental. Muitas pessoas, embora não tentem o suicídio, aspiram a terminar seus dias na terra e repousar-se da fadiga cotidiana. A fé cristã reconhece a legitimidade de tal atitude. É lícito a alguém desejar a morte para si mesmo, contanto que não o faça por covardia, mas, sim, para unir-se a Deus mais plenamente; tenham-se em vista as palavras de São Paulo:

 

"Para mim, a vida é Cristo, e morrer é lucro... Sinto-me coagido por esta alternativa: de um lado, o desejo de partir e estar com Cristo, o que é muito melhor. Mas, de outro lado, por vossa causa, é mais necessário permanecer na carne" (Fl 1, 21.23).

 

Note-se também que o paciente congelado está sujeito a voltar à vida pública dentro de decênios, quando as circunstâncias ambientais e a civilização serão muito diversas das atuais. Poderá readaptar-se ao ambiente? Sentir-se-á à vontade, sem poder contar com o apoio dos familiares e amigos que o acompanharam anteriormente? - Tal sorte não deve ser imposta a pessoa alguma. Sabe-se que são rejeitadas pela consciência moral as experiências in anima nobili (no ser humano) cujo resultado seja incerto.

 

Ao se tratar de crianças pequenas, a responsabilidade do processo pode ser compartilhada pelos genitores e pelos médicos; julgarão em consciência se o congelamento poderá ser benéfico ao pequenino.

 

2) A congelação de paciente supõe a morte clínica devidamente averiguada; somente depois desta pode ser empreendida. Como se entende, não seria lícito a um médico antecipar-se à morte clínica para provocar o congelamento do indivíduo, pois tal processo extingue a consciência psicológica e moral do enfermo, sem garantia de recuperação da mesma.

 

Em suma, o novo processo de defesa da vida humana ainda está envolto em numerosas interrogações, apresentando traços de fantástico. Não deve ser desprezado nem condenado, porque se baseia em premissas aceitáveis, tem sua lógica e não recorre a meios ilícitos; pode-se talvez tornar fator de progresso da ciência. Contudo requer-se sobriedade e uso de raciocínio quando se pensa em aplicar concretamente tal tipo de tratamento e prever os seus efeitos; que o bom senso e o realismo prevaleçam sempre sobre a fantasia e a imaginação mirabolantes!

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)



[1] Note-se bem: a palavra precisa, no caso, é realmente reativação, isto é, volta às atividades; não reanimação (o que poderia significar volta da anima, alma, ao corpo).


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