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O Perdão na Prática

- por C.S. Lewis

 

Eu havia dito que a castidade era a menos popular das virtudes cristãs. Mas não estou tão certo disto. Acredito que haja uma virtude ainda menos popular, expressa na regra cristã “Amarás a teu próximo como a ti mesmo”. Porque, na moral cristã, “amar ao próximo” inclui “amar ao inimigo”, o que nos impinge o odioso dever de perdoar nossos inimigos.

 

Todos dizem que o perdão é um ideal belíssimo, até terem algo a perdoar, como nós tivemos durante a guerra. Nesse momento, a simples menção do assunto é recebida com bramidos de ódio. Não é que as pessoas julguem essa virtude muito elevada e difícil de praticar: julgam-na, isto sim, odiosa e desprezível. “Essa conversa nos dá nojo”, dizem. E metade de vocês já deve estar querendo me perguntar: “E, se você fosse judeu ou polonês, perdoaria a Gestapo?”.

 

Eu também me faço esta pergunta. Faço-a muitas vezes. Do mesmo modo, quando o cristianismo me diz que não posso negar minha religião mesmo que seja para me salvar da morte pela tortura, pergunto-me muitas vezes qual seria minha atitude numa situação dessas. Neste livro, não quero dizer o que eu faria – aliás, o que posso fazer é bem pouco –, mas sim o que é cristianismo. Não fui eu que o inventei. E ali, bem no meio dele, encontro as palavras: “Perdoa as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores”. Não há a menor insinuação de que exista outra maneira de obtermos o perdão. Está perfeitamente claro que, se não perdoarmos, não seremos perdoados. Não há alternativa. O que podemos fazer?

 

Vai ser difícil de qualquer modo, mas creio que existem duas coisas que podemos fazer para facilitar um pouco as coisas. Quando vamos estudar matemática, não começamos pelo cálculo integral, mas pela simples aritmética. Da mesma maneira, se realmente queremos (e tudo depende dessa vontade real) aprender a perdoar, o melhor, talvez, seja começar com algo mais fácil que a Gestapo. Você pode começar por perdoar seu marido, ou esposa, seus pais, ou filhos, ou o funcionário público mais próximo, por tudo o que fizeram e disseram na semana passada. Isto já vai lhe dar trabalho. Em segundo lugar, você deve tentar entender exatamente o que significa amar ao próximo como a si mesmo. Tenho de amá-lo como amo a mim mesmo. Bem, como é exatamente esse amor a mim mesmo?

 

Agora que começo a pensar no assunto, vejo que não nutro exatamente um grande afeto, nem tenho especial predileção pela minha pessoa, e nem sempre gosto da minha própria companhia. Aparentemente, portanto, “amar ao próximo” não significa “ter grande simpatia por ele”, nem “considerá-lo um grande sujeito”. Isto já deveria ser evidente, pois não conseguimos gostar de alguém por esforço. Será que eu me considero um bom camarada? Infelizmente, às vezes, sim (e esses são, sem dúvida, meus piores momentos), mas não é por esse motivo que amo a mim mesmo. Na verdade, o que acontece é o inverso: não é por considerar-me agradável que amo a mim mesmo; é meu amor próprio que faz com que eu me considere agradável. Analogamente, portanto, amar meus inimigos não é o mesmo que considerá-los boas pessoas. O que não deixa de ser um grande alívio, pois muita gente imagina que perdoar aos inimigos significa concluir que eles, no fim das contas, não são tão maus assim, ao passo que é evidente que são.

 

Vamos dar um passo adiante. Nos meus momentos de maior lucidez, vejo que não somente não sou lá um grande sujeito, como posso ser uma péssima pessoa. Recuo com horror e repugnância diante de certas coisas que fiz. Logo, isso parece me dar o direito de me sentir horrorizado e repugnado diante dos atos de meus inimigos. Aliás, pensando no assunto, lembro que os primeiros mestres cristãos já diziam que se deve odiar as ações de um homem mau, mas não odiar o próprio homem; ou, como eles diriam, odiar o pecado, mas não o pecador.

 

Por muito tempo julguei essa distinção tola e insignificante: como se pode odiar o que um homem faz e não odiá-lo por isto? Somente anos depois me ocorreu que fora exatamente essa a conduta que eu sempre tivera com uma pessoa em particular: eu mesmo. Por mais que eu abominasse minha covardia, vaidade ou cobiça, continuei amando a mim mesmo. Nunca tive a menor dificuldade para isso. Na verdade, a razão pela qual detestava tais coisas é que amava o homem que as cometia. Por amar a mim mesmo, sentia um profundo pesar por agir assim. Consequentemente, o cristianismo não quer ver reduzida a um átomo a aversão que sentimos pela crueldade e pela deslealdade. Devemos odiá-las. Não devemos desdizer nada do que dissemos a esse respeito. Porém, devemos odiá-las da mesma forma que odiamos nossos próprios atos: sentindo pena do homem que as praticou e tendo, na medida do possível, a esperança de que, de alguma forma, em algum tempo e lugar, ele possa ser curado e se tornar novamente um ser humano.

 

A verdadeira prova é a seguinte: suponha que você leia no jornal uma reportagem sobre atrocidades ignominiosas e que, no final, se revele que a reportagem era falsa, ou que as atrocidades não eram tão terríveis quanto na primeira versão. Qual será sua reação? Será: “graças a Deus, nem eles são capazes de tanta maldade!”? Ou você ficará decepcionado, disposto até a continuar acreditando na primeira reportagem, pelo simples prazer de continuar julgando seus inimigos tão maus quanto possível? Se for a segunda reação, infelizmente, você dará o primeiro passo de um processo que, no final, o transformará num demônio. É fácil notar que a pessoa que agiu assim está começando a desejar que a escuridão seja um pouco mais escura. Se dermos vazão a esse tipo de sentimento, logo estaremos desejando que a penumbra também seja escura, e, depois, que a própria claridade seja negra. No final, insistiremos em ver tudo – inclusive Deus, nossos amigos e nós mesmos – como maus, e não seremos capazes de parar. Estaremos presos para sempre num universo de puro ódio.

 

Vamos dar um passo além. Será que amar ao inimigo quer dizer que não devemos puni-lo? Não, de maneira alguma! O amor que sinto por mim não me exime do dever de me submeter à punição – nem mesmo à morte. Se você cometesse um assassinato, a coisa correta a fazer, segundo o cristianismo, seria entregar-se à polícia para ser enforcado. Na minha opinião, portanto, é perfeitamente correto que um juiz cristão sentencie um homem à morte, ou que um soldado cristão mate o inimigo em combate. Sempre pensei assim, desde que me tornei cristão e desde muito antes da guerra, e meu pensamento não mudou em nada, agora que estamos em paz. Não vai adiantar citar “Não matarás”. Existem, no grego, duas palavras: uma geral para matar, e outra específica para assassinar. Quando Cristo pronunciou esse mandamento, ele usou a palavra equivalente a assassinar nos três relatos: Mateus, Marcos e Lucas. Disseram-me que a mesma distinção existe no hebraico. Nem todo ato de matar é assassinato, da mesma forma que nem todo ato sexual é adultério. Quando os soldados se dirigiram a João Batista perguntando-lhe o que fazer, ele nem de longe sugeriu que abandonassem o exército; tampouco o fez Cristo, quando conheceu um sargento-mor romano – que eles chamavam de centurião. O ideal do cavaleiro – o cristão armado na defesa de uma boa causa – é um dos grandes ideais cristãos. A guerra é uma coisa terrível e tenho respeito pelos pacifistas honestos, apesar de achar que eles estão redondamente enganados. O que não consigo entender é esse semipacifismo de hoje em dia, que dá às pessoas a ideia de que, apesar de ser nosso dever lutar, devemos fazê-lo desolados, como se estivéssemos envergonhados desse ato. Não é outro o sentimento que rouba um grande número de nossos magníficos jovens cristãos, jovens que se alistaram e que têm toda justificativa para lutar, de algo que é a consequência natural da coragem – uma espécie de brio, júbilo e entusiasmo.

 

Penso com frequência no que teria acontecido se, durante a Primeira Guerra Mundial, quando servi como soldado, eu e um jovem alemão matássemos um ao outro e nos encontrássemos logo depois da morte. Não consigo imaginar que nenhum de nós sentisse um pingo de ressentimento ou de embaraço. Creio que, juntos, daríamos boas risadas.

 

Imagino que alguém dirá: “Bem, se podemos condenar os atos do inimigo, puni-lo e mesmo matá-lo, qual é então a diferença entre a moral cristã e a moral comum?”. Toda a diferença do mundo! Lembre-se de que nós, cristãos, acreditamos que o homem vive eternamente. Logo, o que realmente importa são as pequenas marcas deixadas e as pequenas mudanças feitas na parte central e interior da alma, as quais vão nos tornar, a longo prazo, numa criatura celestial ou infernal. Talvez sejamos obrigados a matar, mas não devemos alimentar o ódio, nem gostar de odiar. Podemos punir, se isso for necessário, mas não devemos gostar de punir. Em outras palavras, os sentimentos de ressentimento e de vingança devem ser simplesmente exterminados de dentro de nós. Bem sei que ninguém tem o poder de decidir que, deste momento em diante, não terá tais sentimentos. As coisas não acontecem assim. Quero somente dizer que, toda vez que esses sentimentos levantarem a cabeça, devemos espancá-la – dia após dia, ano após ano, até o fim da nossa vida. É um trabalho árduo, mas não é impossível tentar executá-lo. Mesmo no momento em que castigamos ou matamos o inimigo, devemos sentir por ele o mesmo que sentimos por nós – devemos desejar que ele não seja mau; devemos ter a esperança de que algum dia, neste mundo ou em outro, ele venha a curar-se. Falando claramente, devemos desejar o seu bem. É isso que a Bíblia quer dizer com o amor ao próximo: desejar o seu bem, sem ter de sentir afeto, nem dizer que ele é gentil, quando não é.

 

Admito que isso significa amar pessoas que não têm nada de amáveis. Mas pergunto: será que eu mesmo sou uma pessoa digna de ser amada? Amo a mim mesmo, simplesmente porque sou eu mesmo. Deus quer que amemos a todas as criaturas, todos os “eus”, da mesma forma e pela mesma razão: apenas, no caso pessoal de cada um, Ele já deu o resultado certo da conta, para nos ensinar como é que se soma. Devemos, a partir disso, aplicar a regra a todas as outras pessoas. Talvez isso se torne mais fácil, se lembrarmos que é dessa forma que ele nos ama. Não pelas belas qualidades que julgamos possuir, mas, simplesmente, porque cada um de nós é um “eu”. Pois, na realidade, não existe mais nada em nós que seja digno de amor. Nós, que encontramos um prazer tão grande no ódio, que abdicar dele é mais difícil que largar a bebida ou o cigarro...

 

 

Extraído do livro “Cristianismo Puro e Simples”, de C.S. Lewis, Editora Martins Fontes, São Paulo, 2008, Livro III, capítulo 7, págs. 152 a 160.

 


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Sto. Inácio de Antioquia (35-110)

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