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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 001 - janeiro 1958

 

A Arte e o Pudor

 

AMIGO DA ARTE (Rio de Janeiro) pergunta:

“Que pensar do chamado nu artístico ? Que é o pudor ?”

A questão está relacionada com o apreço que, da parte do homem, merece o corpo humano.

 

1) Em primeiro lugar, portanto, pergunta-se : como avaliar a este ?

 

A concepção autenticamente cristã do mundo é otimista no tocante ao corpo. Longe de coincidir com o espiritualismo exagerado (que despreza a matéria) e com o materialismo (que a destitui de todo significado transcendente), o Cristianismo ensina que a matéria é criatura de Deus, vestígio da sabedoria de seu Autor. Mais ainda : o espírito do homem é de tal natureza que só atinge a sua perfeição mediante a matéria; é considerando os dados colhidos pelos sentidos que a inteligência adquire suas noções e se eleva às realidades supremas ou até Deus.

 

Contudo o Cristianismo sabe outrossim que a matéria foi violentada pelo primeiro homem, Adão, que inverteu a hierarquia dos valores : serviu-se do mundo visível e do seu corpo (não se poderia afirmar em nome da Bíblia que Adão tenha pecado por haver comido uma fruta) em oposição ao Supremo Bem, que é Deus; desde então o corpo humano e os elementos materiais que o cercam, acarretam perigo para o espírito ou a alma do homem : em vez de o elevar a Deus, muitas vezes o excitam contra o Criador, induzindo-o ao abuso ou ao pecado. Por isto é que a Moral impõe restrições ao gozo dos sentidos e dos valores materiais em geral. Entre outras coisas, exige o uso de vestes para o corpo; estas têm o papel de diminuir a excitação dos sentidos e preservar o individuo de desmandos.

 

2) É à luz destes princípios que se deve julgar o nu artístico.

 

Justifica-se a representação iconográfica ou plástica do corpo humano como tal ou desnudo, caso se torne educativa para o espírito, elevando-o a Deus; o corpo pode, sim, elevar ao Senhor, pois é artefato do Supremo Artista. Contudo note-se bem que a confecção e a contemplação de uma obra de arte não são valores absolutos : estão subordinados a Deus e à adesão do espírito humano a Este.

 

Disto se segue importante conclusão : a Moral, que visa aperfeiçoar o homem em relação ao seu Último Fim ou de maneira total, paira acima da Arte, que visa a perfeição do homem em relação a um fim subordinado ou inferior (o esteta ou artista perfeito não é ainda homem perfeito enquanto homem; pode ser um indigno no plano da consciência ou no plano humano propriamente dito). O artista que cultivasse as formas estéticas independentemente de Deus ou contra Deus, faria da arte o seu Deus, estaria produzindo ídolos...

 

São estas ideias que levam a Moral cristã a condenar certas liberdades na representação do Belo artístico. Tenham-se em vista os dizeres de São Tomaz na Suma Teológica, assim como o seguinte testemunho de Beaudelaire (que foi, sem dúvida, um grande amigo das belas formas):

 

“O gosto imoderado da forma leva a desordens monstruosas e inauditas. Absorvidas pela paixão única do belo, do engraçado, do interessante, da aparência... as noções de justiça e verdade se esvanecem. A paixão frenética da arte é um cancro que devora tudo. E, já que a carência de justiça na arte equivale à carência de arte, o homem inteiro se esvanece; a especialização excessiva de uma faculdade leva ao aniquilamento” (L'art romantique).

 

Dir-se-á, pois, que o Cristianismo não se opõe em princípio à representação do corpo humano desnudado; sabe, porém, que tal objeto é mais do que qualquer outro, sedutor em mau sentido; a contemplação demorada e deleitosa do corpo e de suas imagens pode facilmente excitar a concupiscência e levar a um ato contrário à lei da natureza, que é a Lei de Deus.

 

Por conseguinte, para que algum pintor ou escultor possa licitamente executar o nu, deve possuir sólida estrutura moral e clara intuição dos valores que estão em jogo, de sorte a poder confeccionar um artefato que realmente eduque o espírito, fazendo indiretamente ver e amar a Deus. Isto não é impossível; a experiência, porém, ensina que, quando os estetas entram na representação do nu artístico, por vezes caem no aviltamento, na exploração, aberta ou dissimulada, das tendências inferiores da carne. Mesmo quando executam uma obra apta a construir e elevar, acontece não raro que esse objeto exposto ao público vai provocar desordem nos espectadores. Será sempre mister, portanto, que o artista bem intencionado zele para que seus artefatos não sejam entregues a um público incapacitado de os interpretar devidamente (adultos mal formados ou adolescentes).

 

Representar o nu artístico vivo e em movimento, como acontece em bailados, é obra muito mais excitante e perigosa do que a representação inanimada. Para que tais exibições sejam isentas de culpa moral, requer-se mais rigorosamente ainda a pureza de intenção ou o desejo sincero de cultivar o Belo educativo no sentido cristão.

 

Servir de modelo para a confecção de um quadro de nu artístico pode ser lícito dentro das normas acima. Use-se então de toda a prudência para que não haja desvirtuamento de intenção nem abuso das circunstâncias. Quanto às representações artísticas de crianças despidas, podem ser julgadas com largueza, visto que tais cenas pouco (ou de modo nenhum) excitam ao mal.

 

Como se vê, mesmo em se tratando de arte, impõe-se o pudor, isto é, o recato necessário no uso do corpo humano, a fim de que a concupiscência desregrada não seja indevidamente excitada e não se viole a hierarquia dos valores, em cujo ápice está Deus.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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