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Ciência e Fé

Obscurantismo ou Responsabilidade?

 

AINDA AS CÉLULAS-TRONCO

 

O presente artigo se deve ao médico Dr. Ernesto Lopes Passeri, a quem PR agradece cordialmente a valiosa colaboração. Contesta a necessidade de se produzirem artificialmente embriões para utilizar as células-tronco, visto que as mesmas células podem ser extraídas da medula óssea de adultos e de cordões umbilicais.

O Dr. Ernesto Lopes Passeri tem a inscrição no Conselho Regional de Medicina n° 62.06642-4.

 

OBSCURANTISMO OU RESPONSBILIDADE?

Um editorial de O GLOBO de 27 de maio pp., pág. 6, com o título Obscurantismo aborda, entre vários temas, a questão da pesquisa sobre células-tronco.

O artigo constrói uma linha de argumentação superficial, frágil, tendenciosa, cujo objetivo não é contribuir para a melhor solução do problema, mas sim difundir e enraizar uma afirmativa que julga convincente e definitiva: os que são a favor da utilização dos embriões são racionais, iluminados, solidários, e os que são contra são irracionais, retrógrados, desumanos.

Trata-se evidentemente de colocação e polarização radicais, que visam a manipular sentimentos nobres de simpatia e compaixão por pessoas doentes, apenas mostrando o lado daquele que espera receber, mas eliminando, excluindo de qualquer consideração o valor e os direitos de quem doa, de quem cede o órgão ou elemento considerado essencial.

Nenhum cristão, ninguém é contra a busca da cura das doenças; ninguém é contra os esforços para restituir à integridade pessoas aflitas nas suas deficiências; todos desejamos a recuperação de todos os doentes.

Apenas não queremos a recuperação a qualquer preço, quando esse qualquer preço é a vida de um outro ser humano diretamente exterminado para servir de instrumento.

Com a máxima veemência, analogicamente, impugnaríamos, condenaríamos quem tirasse as córneas de alguém pretensamente moribundo ou lhe arrancasse o coração sem avaliar suas condições de recuperação e de sobrevida, apenas com a alegação de restituir a vista a um cego ou a energia vital a um cardiópata desenganado. O objetivo bom estaria definitivamente maculado pelo meio imoral.

Fique claro que, ao sermos contra a utilização, com seu extermínio, de embriões como doadores de células-tronco, nós o fazemos também, e principalmente, estimulados por argumentos de fundo religioso, de fé, mas tais princípios e argumentos têm bases plenamente racionais, não são meros caprichos ou fantasias.

Cremos sim, mas a razão natural também permite atingir, que o homem é corpo e alma desde o seio materno até a morte; é inaceitável intervir causando-lhe diretamente a morte, ainda que com a alegação de motivos humanitários.

Em nossa história natural identificamo-nos sempre como NÓS MESMOS desde um certo momento da infância até nossa morte ou declínio mental. Mas, assim como a falta de registro de memória que vem pela decadência neurológica, não nos retirará a condição humana e nossa identidade ontológica, também a falta de registro de memória que existe do período que vai da concepção a certa infância não será razão para negar e despir dessa condição humana os embriões ou fetos portadores de um princípio vital que preside a suas transformações corporais e que é a sua alma.

Em um pólo da vida a falta de desenvolvimento corporal pleno e, em outro pólo, o declínio neurológico ou mental não eliminam a identidade da pessoa humana; apenas nesses determinados momentos ainda não se tem, ou perdeu-se, a possibilidade de expressão de todas as potencialidades de criatura humana, pois tais capacidades necessitam de um substrato corpóreo que, segundo o momento, pode estar ou pouco desenvolvido ou já prejudicado.

Este princípio que preside, coordena, sustenta nossa existência e nos permite identificarmo-nos sempre como NÓS MESMOS, ainda que com expressões ou exteriorizações diversas, só pode ser IMATERIAL, vale dizer: espiritual.

Esse princípio, se nós olharmos para dentro de nós, aí o "encontraremos" a nossa ALMA. Para nós, cristãos de todas as profissões, essa alma é imortal, os embriões têm essa alma imortal e merecem consideração e respeito igual ao de outras criaturas, enfermas ou não.

Para concluir, não se pode deixar de registrar o açodamento em adotar-se a postura de que a única solução para algumas enfermidades são as células-tronco de embriões, pois estas seriam as melhores, mais versáteis. Não se alude, no artigo comentado, ao fato de que tais células-tronco são também recuperadas da medula óssea de adultos ou do cordão umbilical de qualquer nascituro; já se contam na casuística mundial numerosos casos em que sua utilização foi coroada de êxito.

Há um enorme esforço articulado para convencer a sociedade em geral e, mais particularmente, aqueles com capacidade de decidir (legisladores) a considerarem como certas e definitivas coisas ainda muito discutíveis e, algumas mesmo inadmissíveis. Isto cai sob medida para certos interesses mercadológicos ou demagógicos, mas não é ciência. A verdadeira ciência ainda tem um longo caminho pela frente.

Não é difícil admitir que os esforços para controlar a evolução destas células-tronco, provindas de embriões e extremamente versáteis, para orientá-las ou "domar" o seu desenvolvimento no hospedeiro evitando "tumores" indesejáveis, repetimos, não é difícil admitir sejam tais esforços comparáveis, em termos de pesquisa, investimentos e tempo, aos que se podem dedicar para ampliar a versatilidade daquelas outras células-tronco provenientes da medula óssea de adultos ou de cordões umbilicais de modo a satisfazer aos anseios de tantos irmãos carentes de ajuda sem a necessidade de se criarem novas vítimas desse processo.

Eis uma notícia que confirma quanto acaba de ser dito: Células-tronco salvam menino

Roma-As células-tronco do sangue placentário de dois bebês gêmeos curaram a talassemia do irmão deles de 5 anos. A operação foi realizada na Policlínica San Matteo, em Pavia, no Norte da Itália. Pela primeira vez, foram utilizadas duas unidades de sangue placentário diferentes.

A talassemia é um tipo de anemia hereditária, caracterizada por uma anomalia da hemoglobina, que não permite que haja nos glóbulos vermelhos quantidade suficiente desta substância, que faz o transporte do oxigênio no sangue.

O sangue da placenta de um dos gêmeos já era rico em células-tronco, mas o do outro foi submetido a um processo de "expansão", realizado ín vitro, porque tinha menos quantidade, destacou o diretor do departamento de oncologia pediátrica do centro médico, Franco Locatelli.

O tratamento para multiplicar as células durou 15 dias e só depois elas foram implantadas no paciente.

A operação trouxe informação "de extraordinária utilidade" sobre a contribuição das células submetidas a processos de expansão para a restituição de componentes do sangue.

(Jornal do Brasil 7/9/A11)

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