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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 528 – junho 2006

Uma corrente dissidente:

 

OS VALDENSES: QUEM SÃO?

 

Em síntese: Os Valdenses têm por fundador um certo Pedro Valdo, que no fim do século XII começou a pregar o Evangelho na França, juntamente com companheiros chamados "os pobres de Lião". Apregoavam a pobreza, mas careciam do devido preparo para pregar o Evangelho. Tendo resistido à admoestação do Bispo de Lião, foram excomungados. Tornaram-se aos poucos uma corrente herética, que acabou desligando-se da Igreja Católica. No século XVI aderiram à Reforma calvinista. Hoje em dia são um ramo do protestantismo existente na Itália.

 

Os protestantes apontam os valdenses como precursores da Reforma do século XVI, precursores que tiveram origem no século XII. Vamos, pois, procurar definir a identidade dos valdenses.

 

1. Pedro Valdo e sua história

 

O nome Valdo se deriva provavelmente de Vaux-Milieu, aldeia dos arredores de Lião (França), onde Valdo nasceu.

 

Entrou na vida pública entre 1170 e 1176. Em 1173 houve fome na região; isto parece ter Impressionado Valdo, assim como a história de S. Aleixo, que se fez voluntariamente pobre. Em conseqüência Valdo resolveu viver como pobre após ter dado tudo o que tinha aos pobres. Seu exemplo suscitou numerosos seguidores, que assim formaram a comunidade dita "dos pobres de Lião". Além de viver em pobreza, esses irmãos queriam pregar o Evangelho, enfatizando a pobreza. Em vista disto, Valdo mandou traduzir para a linguagem da época os Evangelhos e outros livros do Novo Testamento. Os Irmãos, porém, não haviam sido preparados para pregar; a autoridade eclesiástica então proibiu-lhes o exercício da pregação; em vão, porém. Em 1179 Valdo foi a Roma, onde participou do Concílio do Latrão III, por ocasião do qual o Papa Alexandre III deu sua aprovação ao gênero de vida dos pobres de Lião. mas manteve a proibição de pregarem sem a autorização do Bispo diocesano.

 

De volta a Lião, Valdo continuou a pregar à revelia do Bispo local, criticando os costumes da época nem sempre com a objetividade devida. Dada a insistência dos pobres de Lião, o Bispo local os apresentou ao Papa Lúcio III, que lançou sobre eles a excomunhão no Concílio de Verona em 1184.

 

Os valdenses não se deixaram impressionar pela censura assim infligida; foram-se alastrando pelas províncias da França e pelos países vizinhos a este, apesar da repressão cada vez mais severa da autoridade eclesiástica. O povo os chamava "insabbatati" e "sandaliati", porque usavam sandálias em sinal de pobreza; eram sandálias ou tamancos de madeira ou de couro calçados sem meias e atadas aos pés mediante cordões em forma de cruz; tal uso era tão estimado que se lhe atribuía valor supersticioso. Esses irmãos proferiam votos de castidade e de obediência aos superiores.

 

Separando-se da Igreja Católica, os valdenses foram aos poucos cedendo à heresia. Renovavam de certo modo o Donatismo dos séculos IV e V, segundo o qual a validade dos sacramentos depende da santidade do ministro que os confere; é assim posta de lado a idéia de que é Cristo quem confere os sacramentos por meio de criaturas, que são meros instrumentos ou canais (e não fontes) da graça divina. Os valdenses, porém, foram além das concepções donatistas, pois afirmavam que, para a eficácia dos sacramentos, bastava a santidade do ministro, independentemente de ter sido ordenado ou não. Em conseqüência Valdo e seus sucessores na chefia do movimento atribuíam a si as faculdades próprias dos Bispos.

 

Os valdenses passaram a professar ainda outros artigos de fé e Moral que os foram caracterizando como dissidentes do Catolicismo; assim a recusa de sufrágios pelos falecidos, proibição do serviço militar, rejeição da obediência às autoridades eclesiásticas sob a alegação de que estas não viviam como os Apóstolos, repúdio de qualquer forma de juramento, a mentira considerada sempre como pecado grave, direito, dos leigos (homens e mulheres), de pregar, abolição do sacerdócio ministerial ou ordenado... Os valdenses se tornaram hostis à Igreja Católica, arrogando a si o título de verdadeira Igreja de Cristo; atribuíam valor especial à oração silenciosa realizada fora da Igreja.

 

Dada a repressão que o Catolicismo lhes opôs, foram desaparecendo. Todavia no século XVI os sobreviventes filiaram-se ao Calvinismo, do qual foram considerados um apêndice. Atualmente representam o protestantismo na Itália, tendo uma Faculdade de Teologia em Roma. Não exercem hostilidade contra a Igreja Católica.

 

2. Comentando

 

Sejam propostos os três seguintes pontos:

 

2.1. O auge do prestígio

 

A Igreja atingiu o auge do seu prestígio no plano temporal sob o pontificado de Inocêncio III (1198-1216), que era tido como o Representante do Rei dos Reis. Valdo viveu numa época em que se dava a ascensão desse prestígio perante os soberanos cristãos deste mundo. Essa ascensão assustava muitos fiéis piedosos, que, ao lado dos valores, viam contra-valores nesse poderio da Igreja. Daí a reação de alguns indivíduos e grupos contra o fausto da face visível da Igreja. Pedro Valdo é uma das expressões desse "susto". São Francisco de Assis o foi no início do século XIII, com a diferença porém de que Francisco guardou fidelidade à Igreja, ao passo que os valdenses romperam com ela. O movimento franciscano não travou polêmica contra a autoridade da Igreja, mas ao contrário edificou a Igreja, acompanhado pelos frades ditos "mandicantes" dominicanos, carmelitas e agostinianos.

 

2.2. Subjetivismo e Objetivismo

 

O movimento valdense está no despontar da tendência subjetivista que culminaria no século XVI com Lutero e Calvino. O subjetivismo, no caso, consiste em admitir que a eficácia dos sacramentos depende da santidade do ministro e não da santidade de Cristo, que continua a exercer seu sacerdócio mediante o instrumento humano que é o ministro ordenado. A Igreja é assim reduzida a uma sociedade meramente humana cujo valor depende tão somente do valor dos homens que a compõem. Bem diversa é a doutrina católica; esta ensina que na Igreja existe uma santidade objetiva, que não depende dos homens, pois é o próprio Cristo, que, como Cabeça, vivifica o Corpo da Igreja (cf. Cl 1, 24) ou, como Tronco de Videira; vivifica os seus ramos (cf. Jo 15, 1-5). Os sacramentos são válidos independentemente da santidade do ministro, pois é Cristo quem os aplica desde que o ministro tenha a intenção de fazer o que Cristo faz e se sirva da matéria e da forma do sacramento respectivo.

 

Segundo a doutrina católica, a Igreja é o sacramento que continua a realidade do sacramento Jesus Cristo (Deus feito Homem vivendo na Igreja divina e humana). O sacramento da Igreja atinge cada ser humano mediante os sete ritos comumente ditos "os sete sacramentos". Esta concepção é central no Cristianismo e é o que o diferencia de qualquer outro movimento religioso. É para desejar que o protestantismo recupere essa noção de Igreja, removendo o subjetivismo dos seus "fundadores de igrejas". A propósito ver pp. 251 ss, deste fascículo.

 

2.3. O uso das Escrituras

 

Deve-se reconhecer que a face humana da Igreja necessita de permanente revisão, pois a rotina leva a esquecer valores essenciais. Os "Pobres" dos séculos XII e XIII compreenderam essa necessidade e quiseram alguns (os Valdenses especialmente) dar-lhe remédio mediante a difusão da Bíblia interpretada por irmãos entusiastas, mas despreparados; tal despreparo pode produzir grandes males, pois, o pregador apresenta como doutrina bíblica o que ele subjetivamente imagina. Isto explica as restrições da Igreja medieval ao uso indiscriminado da S. Escritura. Semelhantes males ocorrem em nossos dias em virtude da interpretação subjetiva do texto sagrado. Há quem anuncie o fim do mundo para os próximos tempos ou um reino milenar de Cristo ou ainda discos voadores e ETs descritos pelos Profetas...

 

A repressão aos valdenses foi violenta conforme os costumes da época. Está hoje em dia superada pelo diálogo ecumênico.

 

Em síntese, ao movimento de Pedro Valdo se opõe o de Francisco de Assis, fecundo em bons frutos porque não perdeu o contato com o Tronco de Videira ou com a Cabeça do Corpo da Igreja.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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