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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 528 – junho 2006

Sondando o além:

 

REFLEXÕES SOBRE “VIDA DEPOIS DA VIDA”

por Raymond Moody Jr

 

Em síntese: O autor já é conhecido por seu livro "Luz do Além" comentado em PR 522/2005, pp. 534ss. É autor também de livros que recolhem e comentam o depoimento de pessoas que estiveram na "quase-morte" e voltaram à normalidade. O primeiro desses volumes foi publicado em português em 1979 com o título "Vida depois da Vida". Em 1982 (no Brasil) editou novo livro intitulado "Reflexões sobre Vida depois da Vida", livro este que será analisado nas páginas subseqüentes. Os depoimentos apresentados revelam o modo de pensar fantasioso das pessoas entrevistadas e não deve ser tomado como Introdução ao Além.

 

Em PR 522/2005, pp. 534ss foi apresentado o livro do Dr. Raymond Moody Jr. intitulado "Luz do Além". Este autor tem-se dedicado a colher e comentar os depoimentos de pessoas que estiveram num estado de quase-morte. Publicou vários desses testemunhos num volume que saiu em português com o título "Vida depois da Vida" (1979). Posteriormente foi publicado em português um volume complementar com o título "Reflexões sobre Vida depois da Vida" (1983). É este volume que nos interessará nas páginas subseqüentes.

 

É de notar, aliás, que essa mesma matéria já foi considerada em PR 237/1979, pp. 392 e 216/1977, pp. 501ss.

 

1. O esquema básico

 

O Dr. Moody Jr. ouviu centenas de depoimentos de pessoas que fizeram a experiência da quase-morte, e julga que há uma estrutura comum a esses testemunhos, estrutura que o relato seguinte reproduz fielmente:

 

"Permitam-me apresentar o modelo de experiência teoricamente completa que Imagino... e que incorpora todos os elementos constitutivos comuns às experiências típicas de proximidade da morte:

 

"Um homem está morrendo e, quando chega o ponto de maior aflição física, ouve seu médico declará-lo morto. Começa a ouvir um ruído desagradável, um zumbido alto ou toque de campainhas, ao mesmo tempo em que se sente movendo muito depressa através de um longo túnel.

 

Depois disso, vê-se repentinamente fora de seu corpo físico, mas ainda na vizinhança imediata de seu ambiente físico, observando o próprio corpo de uma certa distância, como se fosse um espectador. Desse inusitado e vantajoso ponto de vista, assiste às tentativas de ressurreição num estado de perturbação emocional.

 

Após algum tempo, controla-se e acostuma-se melhor à estranha situação. Percebe que ainda possui um 'corpo', mas de natureza e poderes muito diferentes do corpo físico que deixou para trás. Logo outras coisas começam a acontecer. Outros lhe vêm ao encontro para ajudá-lo. Ele vê de relance os espíritos de parentes e amigos que já morreram, e surge diante dele um espírito caloroso de amor, de um tipo que ele jamais encontrou antes: um ente de luz. Este começa, sem falar, a lhe fazer uma pergunta, a pedir-lhe que reavalie sua vida, ajudando-o por meio da projeção de uma retrospectiva panorâmica e instantânea dos principais acontecimentos. A certa altura, o homem vê-se chegando a uma espécie de barreira ou fronteira que, aparentemente, representa o limite entre a vida terrena e a vida seguinte. Não obstante, descobre que precisa voltar à Terra, que o momento de sua morte ainda não chegou. Nesse ponto, ele reluta, pois acha-se agora encantado com as experiências no após-vida e não quer voltar. Sente-se inundado de intensas sensações de alegria, amor e paz. Malgrado tal atitude, pois de algum modo reúne-se a seu corpo físico e continua a viver" (pp. 16s).

 

Conforme o Dr. Moody Jr., são quinze os elementos que compõem a estrutura de uma experiência de quase-morte:

 

1.  Inefabilidade ou experiência indizível;

2.  Ouvir a notícia ou a declaração do médico afirmando a sua morte;

3.  Sentimentos de Paz e Quietude;

4.  O Ruído ou o zumbido altos ou a campainha;

5.  O Túnel escuro;

6.  Fora do Corpo;

7.  Encontrando outros;

8.  O Ser de Luz que vai ao encontro do recém-chegado;

9.  Recapitulação ou avaliação da vida terrestre do desencarnado;

 

10. A Barreira ou o limite que impede a continuação da trajetória;

11. Voltando para o corpo;

12. Contar aos outros,

13. Efeito positivo sobre a nova vida: mais seriedade;

14. Nova conceituação da Morte;

15. Fortalecimento dos bons propósitos.

 

Após esta apresentação de ordem geral, o autor no decorrer do livro cita relatos que correspondem às diversas características da quase-morte. Acompanhemo-lo sumariamente.

 

2. Folheando o livro

 

Cada um dos relatos seguintes corresponde a alguma ou algumas das notas típicas anteriormente enunciadas.

 

1. Ouvir a notícia... Ouvir o chamado

 

"Todos os médicos tinham-me desenganado. Afirmavam que eu estava morrendo... Cheguei ao ponto em que comecei a sentir a vida abandonar-me o corpo... Ainda conseguia ouvir o que todos diziam, embora nada pudesse ver. Desejei viver para criar meus filhos e compartilhar de suas vidas...

 

Foi então que escutei a voz de Deus falando comigo. Era a voz mais terna e amorosa... Sei que não estava fora de mim, como algumas pessoas poderiam pensar... Podia escutar as vozes dos outros, ao fundo... mas podia também sentir a voz Dele, tão dominadora. Disse-me que se eu desejasse viver teria que respirar... e foi o que fiz. Mas quando tomei aquela primeira inalação de ar, comecei a voltar à vida. Então, Ele me disse para respirar outra vez e consegui inalar novamente - e a vida voltou-me ao corpo" (pp. 41 s).

 

2. Recapitulação

 

"Primeiro estive fora de meu corpo, acima do prédio, e pude ver meu corpo estendido. Então, percebi a luz - só luz - que me envolvia. Depois, tive a impressão de que havia ao meu redor um mostruário pelo qual passavam todos os detalhes de minha vida. Para serem passados em revista, por assim dizer. Senti-me realmente muito envergonhado de muitas das coisas que tinha feito, porque parecia possuir agora um conhecimento diferente e a luz me mostrava o que estava errado, o que eu fizera de errado. E foi tudo muito real.

 

Pareceu-me que aquela revisão, ou lembrança, ou lá o que fosse, tinha por finalidade primordial verificar com exatidão a amplitude de minha vida. Era como se um julgamento estivesse em curso. Então, de repente, a luz tornou-se mais fraca e houve uma conversa - não em palavras, mas em pensamentos. Quando eu via alguma coisa, quando experimentava um evento passado, era como se o visse através dos olhos (acho que o senhor descreveria assim) possuidores de um conhecimento onipotente, que me orientavam, ajudando-me a ver" (p. 49).

 

3. Os infelizes

 

"Aquelas pessoas confusas? Não sei exatamente onde as vi... Mas, quando eu estava passando, deparei com uma área que parecia embaçada em contraste com toda aquela luz brilhante. As entidades eram mais humanizadas que as outras, se nos detivermos na observação deste detalhe, mas não chegavam a possuir a mesma forma humana que nós.

 

Tinha-se a impressão de que andavam de cabeça baixa; tinham aparência triste, deprimida; pareciam andar arrastando os pés, como prisioneiros condenados a trabalhos forçados. Não sei por que digo isto, pois não me recordo de ter notado pés. Não sei o que eram, mas pareciam esgotadas, embotadas, cinzentas. E davam a impressão de estarem sempre arrastando os pés de um lado para outro, sem saber a quem seguir ou o que procurar.

 

Quando passei por perto, nem mesmo levantaram a cabeça para ver o que acontecia. Davam a impressão de pensar: 'Bem, tudo acabou. O que estou fazendo? O que há, afinal?' Apenas aquela atitude absoluta, esmagada, desesperançada: não saber o que fazer, aonde ir, ou qualquer outra coisa.

 

Pareciam estar sempre em movimento, em vez de sentar-se, mas não tinham rumo definido. Partiam em linha reta e logo se desviavam para a esquerda, davam alguns passos e tornavam a desviar-se para a direita. Em busca de alguma coisa, mas não consegui perceber o que buscavam" (pp. 32s).

 

4. Um relato complexo

 

"Um belo homem vestido com um manto brilhante foi o meu guia e caminhamos em silêncio numa direção que me pareceu nordeste. Enquanto viajávamos chegamos a um vale muito largo e profundo, de comprimento infinito... Ele logo me tirou da escuridão para uma atmosfera de luz clara e, à medida que ele me conduzia adiante sob a luz brilhante, vi diante de nós uma tremenda muralha que parecia ter comprimento e altura infinitos em todas as direções. De vez que não consegui avistar portão, janela ou qualquer abertura na muralha, comecei a imaginar por que motivo teríamos ido até ela. Mas quando nos aproximamos, de repente -não sei dizer por que meios -, vimo-nos no topo dela. Lá dentro, uma campina muito larga e agradável... Tamanha era a luz que inundava todo aquele lugar, que parecia mais forte que a claridade da luz do dia ou que os raios do sol ao meio-dia...

 

(O guia disse) 'Deves agora retornar a teu corpo e voltar a viver entre os homens; mas, se pesares tuas ações com maior cuidado e estudares para manter virtuosas e simples as tuas palavras e maneiras, então, quando morreres, terás ganho um lugar aqui entre esses espíritos felizes que estás vendo. Pois quando te abandonei por alguns momentos foi para descobrir qual será o teu futuro'. Quando ele me falou assim, fiquei muito relutante em retornar ao meu corpo, pois sentia-me encantado pela beleza e amenidade do lugar e da companhia que eu ali via.

 

Entretanto, não ousei contrariar meu guia e, nesse ínterim, sem saber como, vi-me repentinamente vivo entre os homens outra vez" (pp. 81 s).

 

3. Que dizer?

 

Já em PR 522/2005, pp. 534ss foram analisados os depoimentos que dão base às conclusões do Dr. Raymond A. Moody Jr. Eis, em resumo, quanto se pode dizer a respeito do ponto de vista cristão:

 

1. Os depoimentos supõem no Além um outro mundo material, bem separado deste nosso por um túnel... outro mundo com parque, amigos e felicidade. Ora nenhum astronauta jamais encontrou algo de semelhante no espaço; a astronomia não vê como "encaixar" esse outro mundo nas imagens que ela tem do espaço. Há, porém, um arquétipo inato em todo homem, que é o do paraíso, arquétipo que as pessoas, em situações específicas, tendem a configurar mentalmente. Tal terá sido o caso dos pacientes entrevistados pelo Dr. Moody Jr.

 

2. Os depoimentos citados seguem, ao menos palidamente, o esquema cristão:

- morte ou separação de corpo e alma;

- juízo particular ou avaliação da vida terrestre do indivíduo;

- dois tipos de vida póstuma daí decorrentes: paraíso, concebido em termos materiais e o inferno, também concebido em termos materiais.

- Jesus Cristo, que, sob a forma de Ente Luminoso, vai ao encontro de quem chega ao Além.

 

3. Na verdade, a sorte póstuma dos homens não inclui compartimentos espaciais, mas é o encontro com o mundo de Deus... Deus que é espírito puro. São Paulo caracteriza esse encontro como "aquilo que o olho jamais viu, o ouvido jamais ouviu e o coração do homem jamais percebeu" (1Cor 2, 9).

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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Claudio Maria

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